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Romances de Alexandre Dumas




 MEMRIAS DE UM MDICO




              2.  VOLUME




   TRADUO DE OCTAVIO MENDES CAJADO




                Edio
                 1957
  ROMANCES DE ALEXANDRE DUMAS

       Volumes P u b l i c a d o s :
             D'ABTAGNAN
 1 --- O s Trs Mosqueteiros -- 1. volume
 2 -- Os Trs Mosqueteiros -- 2. volume
   3 -- Vinte Anos Depois -- 1. volume
   4 -- Vinte Anos Depois -- 2. volume
    5 -- Vinte Anos Depois -- 3. volume
6 -- O Visconde de Bragelonne -- 1. volume
7 -- O Visconde de Bragelonne -- 2. volume
8 -- O Visconde de Bragelonne -- 3. volume
9 -- O Visconde de Bragelonne -- 4. volume

10 -- O Visconde de Bragelonne -- 5. volume
11 -- 0 Visconde de Bragelonne -- 6. volume
        SRIE ROBIN HOOD
      12 -- Aventuras de Robin Hood
      13 -- Itobin Hood, o Proscrito
 SKIB MEMRIAS DE TJM MDICO
   14 -- Jos Blsamo -- l . volume
     15 -- Jos Blsamo -- 2. volume
   16 -- Jos Blsamo -- 3. volume
     17 -- Jos Blsamo -- 4. volume
18 -- O Colar da Bainha -- 1. volum e
19 -- O Colar da Rainha -- 2. volume
             A Publicar:
               ngelo Pitou
   ALEXANDRE DUMAS

  MEMRIAS DE UM MDICO


O COLAR DA RAINHA
           2 VOLUME




           TRADUO DE




     OCTVIO MENDES CAJADO




            Edio
             1957
 Titulo do original francs:
MMOIEES D'UN MDECIN


LE COLLIER DE LA REINE
                                    XLI
               Duas ambies que querem passar por dois amores

    SEM SER RAINHA, Joana tambm era mulher.
Disso resultou que, mal entrada no carro, comparou o belo palcio de
Versalhes, os mveis esplndidos e ricos, com o seu quarto andar da Rua de
Saint-Gilles, os magnficos lacaios  sua velha criada.
    Mas quase imediatamente a humilde mansarda e a velha criada se esvaram
na sombra do passado, como uma dessas vises que, j no existindo, nunca
existiram, e viu a casinha do bairro de Santo Antnio, to distinta, to
graciosa, to confortvel, como hoje se diria, com lacaios menos bordados que
os de Versalhes, mas igualmente respeitosos e obedientes.
    A casa e os lacaios representavam o seu Versalhes dela, em que no era
menos rainha do que Maria Antonieta, e em que os seus desejos, enquanto
soubesse conform-los, no com o necessrio, mas com o razovel, eram to
bem e to rapidamente executados como se ela empunhasse o cetro.
    Foi, portanto, com o rosto desanuviado e o sorriso nos lbios, que Joana
entrou em casa. Ainda era cedo; tomou de papel, pena e tinta, escreveu
algumas linhas, introduziu-as num envelope fino e perfumado, redigiu o
endereo e tocou a campainha.
    Mal soara a ltima vibrao da campainha, a porta se abria e um lacaio
assomava ao limiar da sala.
    -- Eu tinha razo, -- murmurou Joana, -- a rainha no  mais bem
servida.
    Em seguida, estendendo a mo:
    --Esta carta para Monsenhor, o Cardeal de Rohan, -- explicou.
    Adiantou-se o lacaio, pegou o bilhete e saiu sem dizer uma palavra, com
    a muda obedincia dos criados das casas fidalgas. A condessa deixou-se
    cair em profundo devaneio, devaneio que no era novo, mas que
    continuava o da estrada.
    Cinco minutos no se haviam passado quando algum bateu  porta.
    --Entrai, -- disse a Sra. de La Motte.
    Reapareceu o lacaio.
352                          ALEXANDRE DUMAS

    -- E ento? -- perguntou ela com um leve movimento de impacincia ao
    ver que a sua ordem no fora executada.
    -- No momento em que eu estava saindo para executar as ordens da
    Sra. Condessa, -- respondeu o lacaio, -- Monsenhor bateu  porta. Eu
    disse-lhe que ia ao seu palcio. le pegou na carta da Sra. Condessa, leu-a,
    apeou do carro e entrou, dizendo:
    -- "Est bem; anunciai-me."
    -- E depois?
    -- Monsenhor est a; esperando que vos digneis mand-lo entrar.
    Breve sorriso perpassou pelos lbios da condessa. Dois segundos depois:
    -- Fazei-o entrar, -- disse ela, afinal, em tom de acentuada satisfao.
    Esses dois segundos teriam tido a finalidade de fazer esperar em sua
antecmara um prncipe da Igreja, ou seriam necessrios a Sra. de La Motte
para completar o seu plano?
    O prncipe surgiu  porta.
    Ao voltar para casa, ao mandar buscar o cardeal, ao sentir uma alegria to
grande com a presena dele, teria Joana algum plano?
    Sim, pois a fantasia da rainha, como um desses fogos-ftuos que iluminam
um vale inteiro cheio de sombrios acidentes, essa fantasia de rainha e
sobretudo de mulher, acabava de descobrir aos olhos da intrigante condessa
todos os secretos refolhos de uma alma to soberba que se no dava ao trabalho
de tomar grandes precaues para escond-los.
     longa a estrada de Versalhes a Paris e quando a percorremos em
companhia do demnio da cupidez, este tem tempo suficiente para soprar-nos
aos ouvidos os projetos mais temerrios.
    Joana sentia embriag-la a cifra de um milho e meio de libras, materializada
em brilhantes sobre o cetim branco do escrnio dos Srs. Boehmer e Bossange.
    Um milho e quinhentas mil libras! No era, com efeito, uma fortuna
principesca, mormente para a pobre mendiga que, um ms antes, estendia a
mo para a esmola dos grandes?
    Sem dvida, havia uma distncia maior entre a Joana de Valois da Rua de
Saint-Gilles  Joana de Valois do bairro de Santo Antnio do que entre a
Joana de Valois do bairro de Santo Antnio e a Joana de Valois dona do
colar.
    J percorrera, portanto, mais da metade do caminho que conduz  fortuna.
    E essa fortuna cobiada no era uma iluso como os termos de um
contrato, como uma propriedade imvel, coisas sem dvida fundamentais, mas s
quais impende acrescentar a inteligncia do esprito ou dos olhos.
                          O COLAR DA RAINHA                                353

    -- No, o colar era coisa bem diversa de um contrato ou de um imvel: era
a fortuna visvel; por isso mesmo, l estava sempre, ardente e fascinante; e
visto que a rainha o desejava, Joana de Valois podia sonhar com le; visto
que a rainha sabia privar-se dele, a Sra. de La Motte bem podia cifrar nele
a sua ambio.
    Mil idias vagas, estranhos fantasmas de contornos imprecisos, que o
poeta Aristfanes comparava aos homens em seus momentos de paixo, mil
invejas, mil desejos de possuir assumiram para Joana, durante o percurso de
Versalhes a Paris, a forma de lobos, raposas e serpentes aladas.
    O cardeal, que devia realizar-lhe os sonhos, interrompeu-os, respondendo
pela sua presena inesperada ao desejo que tinha de v-lo a Sra. de La
Motte.
    le tambm acalentava sonhos, tambm acariciava uma ambio, que
escondia sob uma mscara de zelo, sob aparncias de amor.
    -- Ah! minha querida Joana, -- exclamou, -- sois vs!         Tornastes-vos
    para mim to necessria que passei um dia amargurado com a idia de que
    estveis longe de mim. Voltastes, pelo menos, de Versalhes bem de sade?
    -- Como estais vendo, Monsenhor.
    -- Contente?
    -- Encantada.
    -- A rainha vos recebeu?
    -- Assim que cheguei, fui levada  sua presena.
    -- Tendes muita sorte. Garanto, pelo vosso ar triunfante, que ela vos
    dirigiu a palavra!
    -- Passei quase trs horas no gabinete de Sua Majestade.
    O cardeal estremeceu e pouco faltou que repetisse, em tom declamatrio:
    --Trs horas! Conteve-se, porm.
    -- Sois, realmente, -- disse le, -- uma feiticeira, e ningum saberia
    resistir-vos.
    -- Oh! Oh! estais exagerando, meu prncipe.
    -- No estou. Ficastes trs horas com a rainha?
    Joana fez um sinal afirmativo com a cabea.
   -- Trs horas! -- repetiu o cardeal, sorrindo; -- quantas coisas uma mulher
   inteligente como vs pode dizer em trs horas!
   -- Asseguro-vos, Monsenhor, que no perdi o meu tempo.
   -- Aposto que, durante essas trs horas, -- arriscou o prelado,-- no
   pensastes em mim um minuto sequer!
   -- Ingrato!
   -- Deveras? -- bradou o cardeal.
   -- Fiz mais do que pensar em vs.
   -- Que fizestes?
354                           ALEXANDRE DUMAS

    -- Falai em vs.
    -- Falastes em mim? A quem? -- indagou o Sr. de Rohan,cujo corao
    principiava a bater, com voz cuja emoo nem o seu grande domnio
    sobre si mesmo logrou dissimular.
    -- A quem, seno  rainha?
    E pronunciando essas palavras to preciosas para o cardeal, Joana teve a
arte de no encarar com le, como se pouco lhe importasse o efeito que
haviam de produzir.
    O Sr. de Rohan palpitava.
    -- Ah! querida condessa, contai-me isso! Interesso-me a tal ponto por
quanto vos acontece, que no quero que me oculteis o mais mnimo
detalhe.
    Sorriu-se Joana; sabia o que interessava ao cardeal to bem quanto le
mesmo.
    Mas como o minucioso relato j estava preparado em seu esprito; como ela
o teria feito ainda que o cardeal no lho tivesse pedido, comeou
pausadamente, valorizando as slabas; referindo toda a entrevista, toda a
conversao; exibindo, a cada palavra, a prova de que, por um desses felizes
acasos que fazem a fortuna dos cortesos, vira-se em Versalhes em
circunstncias singulares, capazes de transformar, num dia, uma estranha em
amiga quase indispensvel. Num dia, com efeito, Joana de La Motte se
iniciara em todos os infortnios da rainha, em todas as impotncias da
realeza.
     O Sr. de Rohan no parecia guardar da narrativa seno o que a rainha
dissera em relao  Joana.
    Esta, em seu reconto, acentuava apenas o que a rainha dissera em relao
ao Sr. de Rohan.
    Mal terminara a exposio, quando entrou o mesmo lacaio, anunciando que
a ceia estava na mesa.
    Joana convidou o cardeal com um olhar. O cardeal aceitou com um
sinal.
    Ofereceu o brao  dona da casa, que to depressa se habituara a fazer-
lhe as honras, e passou  sala de jantar.
    Concluda a ceia, depois que o prelado sorveu, em largos haustos, a
esperana e o amor nas histrias vinte vezes repetidas, vinte vezes
interrompidas da feiticeira, foroso lhe foi, afinal, depor as armas diante
daquela criatura, que tinha nas mos o corao dos poderosos.
    Pois observava, com surpresa vizinha do assombro, que, em vez de se
fazer de rogada, como toda mulher que se procura e de que se tem preciso,
ela ia ao encontro dos desejos do interlocutor com uma graa bem diferente da
leonina altivez da ltima ceia, saboreada no mesmo lugar e na mesma casa.
                           O COLAR DA RAINHA                                355

    Joana, desta feita, fazia as honras da casa no s como senhora de si mesma,
seno tambm como senhora dos outros. Nenhum embarao no olhar,
nenhuma reserva na voz. No havia ela, para tomar essas altas lies de
aristocracia, freqentado o dia inteiro a flor da nobreza francesa? Uma
rainha sem rival no lhe chamara minha querida condessa?
    Da que o cardeal, compreendendo-lhe a superioridade, como homem
superior tambm, no tentasse resistir-lhe.
    -- Condessa, -- disse le, pegando-lhe na mo, -- h duas mulheres em
    vs.
    -- Como assim?
    -- A de ontem e a de hoje.
    -- E qual das duas prefere Vossa Eminncia?
    -- No sei. S sei que a desta noite  uma Armida, uma Circe, qualquer
    coisa de irresistvel.
    -- E  qual espero que Vossa Eminncia no tente resistir, por prncipe
    que seja.
    Deixou-se o prelado escorregar da cadeira e foi cair aos ps da Sra. de La
Motte.
    -- Estais pedindo esmola? -- indagou ela.
    -- E espero que no ma recuseis.
    -- O dia  de generosidade, -- respondeu Joana; -- a Condessa de Valois
    alcanou posio, figura entre as damas da corte; dentro em pouco
    figurar entre as mulheres mais altivas de Versalhes.Pode, portanto,
    abrir a mo e estend-la a quem lhe aprouver.
    -- At a um prncipe? -- acudiu o Sr. de Rohan.
    -- At a um cardeal, -- redargiu Joana.
    Deps o prelado um longo beijo ardente na linda mozinha rebelde;
depois, tendo consultado com os olhos o olhar e o sorriso da condessa,
levantou-se. E, passando  antecmara, disse duas palavras ao criado.
    Dois minutos depois, ouvia-se o rudo do carro, que se afastava.
    A condessa ergueu a cabea.
    --  minha f! condessa, -- disse o cardeal, -- queimei os meus
    navios.
    -- E no tendes nisso grande mrito, -- respondeu a condessa, --
    visto que estais no porto.
                                    XLII
            Em que se comea a ver os rostos debaixo das mscaras

AS LONGAS palestras so o feliz privilgio das pessoas que j no tm o que
dizer. Depois da felicidade de calar ou de exprimir um grande desejo por
meio de interjeies, a maior, sem dvida,  falar muito sem dizer nada.
    Duas horas aps haver mandado embora o carro, o cardeal e a condessa
estavam na situao que descrevemos. Cedera a condessa, o cardeal vencera,
e, entretanto, o cardeal era o escravo e era a condessa o triunfador.
    Dois homens se enganam apertando as mos. Um homem e uma mulher
enganam-se num beijo.
    Mas aqui um s enganava o outro porque o outro queria ser enganado.
    Cada qual tinha um objetivo. Para esse objetivo, a intimidade era
necessria. Cada qual, portanto, atingira o seu objetivo.
    Da que o cardeal no se desse ao trabalho de dissimular a impacincia.
Contentou-se de fazer um pequeno rodeio e, dirigindo novamente a
conversao para Versalhes e para as honras que l esperavam a nova
favorita da rainha:
    -- Ela  generosa, -- disse le, -- e nada lhe custa quando se trata de
    pessoas que quer bem. Possui o raro talento de dar um pouco a muita
    gente, e de dar muito a poucos amigos.
    -- Julgai-la rica? -- inquiriu a Sra. de La Motte.
    -- Ela sabe conseguir recursos com uma palavra, um gesto,um sorriso.
    Nenhum ministro, salvo Turgot talvez, teve at hoje coragem de recusar
    um pedido da rainha.
    -- Pois eu, -- sobreveio a Sra. de La Motte, -- eu vejo-a menos
    rica do que a supondes, pobre rainha, ou melhor, pobre mulher!
    -- Como assim?
    -- Ser rico quem se v na contingncia de impor-se privaes?
    -- Privaes? Contai-me isso, minha querida Joana.
    -- Oh! meu Deus! Dir-vos-ei o que vi, nem mais, nem menos.
    -- Dizei, que estou escutando.
    -- Figurai dois suplcios medonhos, que a infeliz rainha
    suportou.
                   O COLAR DA RAINHA                                  357

-- Dois suplcios? Quais?
-- Sabeis o que  um desejo de mulher, meu caro prncipe?
-- No, mas gostaria que mo ensinsseis, condessa.
-- Pois a rainha tem um desejo que no pode satisfazer.
-- Desejo de quem?
-- De quem, no; de qu.
-- Seja. De qu?
-- De um colar de brilhantes.
-- Esperai, que j sei. No so os brilhantes de Boehmer e Bossange?
-- Precisamente.
-- A histria  velha, condessa.
-- Velha ou nova, no  um verdadeiro desespero para uma rainha no
poder possuir o que quase possuiu uma simples favorita? Bastaria que o
Rei Lus XV tivesse vivido mais quinze dias,para que Joana Vaubernier
tivesse o que Maria Antonieta no pode ter.
-- Pois  nisso, minha querida condessa, que reside o vosso engano: a
rainha j pde ter cinco ou seis vezes os brilhantes, e sempre os recusou.
-- Oh!
-- Estou-vos dizendo que o rei lhos ofereceu, e que ela no quis aceit-
los!
E referiu a histria do navio.
Joana escutou com avidez. E quando o cardeal terminou:
-- Muito bem, -- disse ela, -- e da?
-- E da, como?
-- Sim, que  que prova isso?
-- Que ela no os quis.
Joana deu de ombros.
-- Conheceis as mulheres, conheceis a corte, conheceis os reis,e ainda vos
deixais iludir por semelhante resposta?
-- Apenas constato uma recusa.
-- Meu caro prncipe, isso apenas significa que a rainha precisou dar uma
resposta brilhante, popular, e deu-a.
-- Assim acreditais nas virtudes reais? Ah! ctica! So Tom era um
crente ao p de vs!
-- Ctica ou crente, asseguro-vos uma coisa.
-- Qual?
-- Que a rainha, tanto que recusou o colar, foi tomada de uma vontade
louca de possu-lo.
-- Fantasias vossas, minha cara!      Em primeiro lugar acreditai no
seguinte: a despeito de todos os seus defeitos, a uma qualidade
imensa.
--
   Qual?
358                            ALEXANDRE DUMAS

    --  desinteressada! No gosta do ouro, nem da prata, nem de pedras.
    Pesa os minerais pelo seu valor; para ela, uma flor no peito vale um
    brilhante na orelha.
    -- No digo que no. Mas, h esta hora, garanto que ela tem vontade de
    pr vrios brilhantes no pescoo.
    -- Provai-o, condessa.
    -- Nada mais fcil; ainda h pouco vi o colar.
    -- Vs?
    -- Eu; no s o vi, como tambm o toquei.
    -- Onde?
    --Em Versalhes.
    -- Em Versalhes?
    -- Sim, aonde o levaram os joalheiros, procurando tentar a rainha pela
    ltima vez.
    -- E  bonito?
    -- Maravilhoso!
    -- Nesse caso, vs, que sois realmente mulher, compreendeis que se
    pense no colar.
    -- Compreendo que, por causa dele, se percam o apetite e o sono.
    -- Ai de mim! por que no terei um navio para dar ao rei?
    -- Um navio?
    -- Sim, pois le me daria o colar; e depois que eu o tivesse,podereis
    comer e dormir sossegada.
    -- Estais caoando?
    -- Juro que no.
    -- Pois vou dizer-vos uma coisa que vos assombrar.
    -- Dizei-a.
    -- Eu no quisera ter o colar!
    -- Tanto melhor, condessa, pois eu no poderia dar-vo-lo.
    -- Nem vs nem ningum; sabe-o a rainha e por isso o deseja.
    -- Mas repito que o rei lho ofereceria.
    Joana fez um movimento rpido, quase importuno.
    -- E eu, -- disse ela, -- eu vos asseguro que as mulheres gostam
principalmente desses presentes quando no so feitos por pessoas que as
obriguem a aceit-los.
    O cardeal considerou-a com mais ateno.
    -- No compreendo muito bem, -- confessou.
    -- Tanto melhor; fiquemos nisso.          Em primeiro lugar, que vos faz o
    colar, se no podemos t-lo?
    -- Oh! se eu fosse o rei e vs, a rainha, eu saberia obrigar-vos a aceit-lo.
    -- Pois bem! sem ser o rei, obrigai a rainha a ficar com le, e vereis se
    a vossa violncia a deixar to zangada quanto o imaginais.
    O cardeal olhou mais uma vez para Joana.
                        O COLAR DA RAINHA                                   359

   -- Tendes certeza de no estar enganada?         A rainha tem mesmo esse
   desejo? -- perguntou.
   -- Ardentssimo. Escutai, meu caro prncipe: no me dissestes uma vez,
   ou j no vos ouvi que gostareis de ser ministro?
   --  muito possvel que eu tenha dito isso, condessa.
   -- Pois bem! faamos uma aposta...
   -- Qual?
   -- Que a rainha far ministro o homem que se houver de modo que lhe
   aparea o colar no toucador dentro de oito dias.
   -- Oh! condessa.
   -- Digo o que penso... Preferis que eu pense em voz baixa?
   -- Nunca!
   -- De resto, o que estou dizendo no  convosco.         Est visto que no
   gastareis um milho e meio para satisfazer um capricho real; seria, a meu
   ver, pagar muito caro por uma pasta que tereis de graa e que vos 
   devida. Tomai, portanto, as minhas palavras por tagarelice. Sou como os
   papagaios:    fiquei deslumbrada pelo sol e agora vivo repetindo que est
   fazendo calor. Ah! Monsenhor,rude prova  um dia de valimento real
   para uma pobre provincianazinha!  preciso ser guia como vs para
   poder encarar nesses
   raios.
   O cardeal ficou pensativo.
   -- Pronto! -- acudiu Joana, -- agora me julgais to mal, achais-me to vulgar
   e mesquinha, que nem sequer vos dignais de falar-me.
   -- Homessa!
   -- A rainha julgada por mim, sou eu.
   -- Condessa!
   -- Que quereis? Acreditei que ela desejasse os brilhantes por que suspirou
   ao v-los;      acreditei-o porque, em seu lugar, eu os teria desejado;
   perdoai-me a fraqueza.
   -- Sois uma mulher adorvel, condessa; tendes, por uma aliana incrvel, a
   fraqueza do corao, como dizeis, e a fora do esprito: sois to pouco
   mulher em certos momentos, que chego a assustar-me.               Soi-lo to
   adoravelmente em outros, que por isso bendigo o cu e vos bendigo.
   E o galante cardeal acentuou a galanteria com um beijo, dizendo:
   -- No falemos mais nessas coisas.
   -- Seja, -- murmurou Joana baixinho, -- mas creio que o anzol j mordeu a
   carne.
   E ao mesmo passo que dizia:         "No falemos mais nisso", o cardeal
perguntava:
   -- E parece-vos que foi Boehmer quem voltou  carga?
   -- Sim, com Bossange, -- retorquiu, inocentemente, a Sra. de
   La Motte.
360                            ALEXANDRE DUMAS

   -- Bossange... Um momento, -- volveu o prelado como que procurando
   lembrar-se; -- Bossange no  o scio dele?
   -- .
   -- Um alto e magro?
   -- Exatamente.
   -- Que mora?...
   -- Deve morar l pelos lados do Cais da Ferraria, ou da Escola, no sei; em
   todo o caso, perto do Pont-Neuf.
   -- Do Pont-Neuf, tendes razo; li esses nomes acima de uma porta, ao
   passar de carro.
   -- Bem, bem, -- murmurou Joana, -- o peixe est mordendo cada vez
   mais.
    Joana tinha razo: o anzol penetrara fundamente na presa.
    Por isso mesmo, no dia seguinte, ao sair da casinha do bairro de Santo
Antnio, fz-se o cardeal conduzir  casa de Boehmer.
    Esperava manter-se incgnito, mas Boehmer e Bossange eram os joalheiros
da corte e, s primeiras palavras que le pronunciou, chamaram-lhe Monsenhor.
   -- Monsenhor, pois sim, -- assentiu o cardeal; -- mas visto que me
   reconheceis, procurai fazer, ao menos, que outros no me reconheam.
   -- Monsenhor pode ficar tranqilo. Aguardamos as suas ordens.
   -- Venho comprar o colar de brilhantes que mostrastes  rainha.
   -- Lamentamos profundamente, mas Vossa Eminncia chegou muito tarde.
   -- Como assim?
   -- O colar j foi vendido.
   -- Impossvel! Ainda ontem tornastes a oferec-lo  rainha!
   -- Que tornou a recus-lo, Monsenhor; subsiste, portanto, o contrato
   anterior.
   -- E com quem foi celebrado o contrato? -- perguntou o cardeal.
   -- Isso  segredo, Monsenhor.
    -- J so segredos demais, Sr. Boehmer.
    E o prelado levantou-se.
    -- Mas, Monsenhor...
    -- Eu cria, senhor, -- prosseguiu o cardeal, -- que um joalheiro da coroa de
    Frana devia comprazer-se de vender em Frana essas belas pedras;
    preferis Portugal. Como quiserdes, Sr. Boehmer.
    -- Vossa Eminncia sabe tudo! -- bradou o joalheiro.
    -- E que vedes nisso de espantoso?
    --  que, se Vossa Eminncia sabe tudo, s pode sab-lo por intermdio
    da rainha.
                            O COLAR DA RAINHA                            361

   -- E ainda que assim fosse? -- tornou o Sr. de Rohan, sem repelir a
   suposio, que lhe lisonjeava o amor-prprio.
   -- Nesse caso, mudaria tudo de figura, Monsenhor.
   -- Explicai-vos, que no estou compreendendo.
   -- Vossa Eminncia me permite falar-lhe com toda a liberdade?
   -- Falai.
   -- Pois bem! a rainha deseja o nosso colar.
   -- Acreditai-lo?
   -- Temos certeza.
   -- Ento por que no o compra?
   -- Porque, depois de recus-lo a el-rei, voltar atrs da deciso que lhe
   valeu tantos elogios de Sua Majestade, seria mostrar-se caprichosa.
   -- A rainha est acima do que se diz.
   -- Sim, quando  o povo, ou quando so os cortesos que dizem; mas
   quando  o rei que fala...
   -- Sabeis que o rei quis dar o colar  rainha?
   -- Sem dvida; mas le no demorou em agradecer-lhe quando ela o
   recusou.
   -- Vamos a ver, qual  a vossa concluso, Sr. Boehmer?
   -- Que a rainha gostaria muito de ter o colar, mas sem parecer compr-lo.
   -- Pois estais enganado, -- afirmou o cardeal; -- no se trata disso.
   --  pena, Monsenhor, pois seria essa a nica razo que nos levaria a
   faltar  palavra j empenhada com o Sr. Embaixador de Portugal.
    Refletiu Sua Eminncia.
    Por mais forte que seja a diplomacia dos diplomatas, a dos comerciantes
lhes  sempre superior... Em primeiro lugar, o diplomata negocia quase
sempre valores que no possui; o comerciante segura e aperta entre as garra 
o objeto que excita a curiosidade: compra-lo, ainda que pagando bem,  quase
despoj-lo dele.
    Vendo que estava nas mos daquele homem, disse o Sr. de Rohan:
   -- Imaginai, se quiserdes, que a rainha deseja o colar.
    -- Isso modifica tudo, Monsenhor. Posso romper todos os
    contratos quando se trata de dar preferncia a Sua Majestade.
    -- Por quanto o vendeis?
    -- Por um milho e quinhentas mil libras.
    -- E como quereis receber o dinheiro?
    -- Portugal dava-me uma entrada e eu levaria pessoalmente o colar a
    Lisboa, onde receberia o restante  vista.
    -- Esse sistema de pagamento no  praticvel entre ns, Sr. Boehmer;
    recebereis a entrada, se for razovel.
362                            ALEXANDRE DUMAS

   -- Cem mil libras.
   -- Podem arranjar-se. E o resto?
   -- Vossa Eminncia quer prazo? -- volveu Boehmer. -- Com a sua
   garantia, tudo  possvel. Entretanto, a demora implica numa perda; pois
   bem  que note, Monsenhor: em negcio de tamanha importncia, os
   algarismos crescem sozinhos e destemperadamente. Os juros de um milho
   e meio de libras, a cinco por cento, so se tenta e cinco mil libras, e esses
   juros arruinariam qualquer comerciante. Dez por cento representam a
   menor taxa aceitvel.
   -- Seriam, portanto, segundo os vossos clculos, cento e cinqenta mil
   libras?
   -- Exatamente, Monsenhor.
   -- Admitamos que vendeis o colar por um milho e seiscentas mil libras,
   Sr. Boehmer, e dividis o pagamento do milho e quinhentas mil restantes
   em trs vezes, ao prazo de um ano. Feito?
   -- Monsenhor, perdemos cinqenta mil libras no negcio.
   -- No creio. Se recebsseis amanh um milho e quinhentas mil libras,
   ficareis atrapalhado: um joalheiro no compra terras desse preo.
   -- Somos dois, Monsenhor, meu scio e eu.
   -- Pois mesmo assim ser melhor receberdes quinhentas mil libras de quatro
   em quatro meses, isto , duzentas e cinqenta mil cada um.
   -- Vossa Eminncia esquece que os brilhantes no nos pertencem. Se nos
   pertencessem, teramos dinheiro suficiente para no nos preocuparmos
   com a forma de pagamento nem em colocar o que recebssemos.
   -- A quem pertencem, ento?
   -- A uns dez credores, talvez: compramos as pedras separadamente.
   Devemo-las, uma a Hamburgo, outra a Npoles; uma a Buenos Aires, duas
   a Moscou.       Os credores esto esperando a venda do colar para se
   reembolsarem. A nossa nica parte ser o lucro que der o negcio; mas,
   infelizmente, Monsenhor, desde que esse desgraado colar est  venda,
   isto , h dois anos, j perdemos duzentas mil libras de juros. Calculai,
   assim, o nosso lucro.
    O Sr. de Rohan interrompeu-o:
    --       Mas com tudo isso ainda no vi o colar.
    --        verdade, Monsenhor: ei-lo aqui.
    E Boehmer, com todas as cautelas de praxe, exibiu a preciosa jia.
    --       Soberbo! -- exclamou o cardeal, tocando com amor nos
fechos, que deviam ter-se impresso no colo da rainha.
    Quando terminou e depois que os dedos lhe buscaram nas pedras, a seu
talante, os eflvios simpticos que pudessem ter aderido a elas:
                             O COLAR DA RAINHA                                 363

    -- Negcio fechado? -- perguntou.
    -- Fechado, Monsenhor; e vou agora mesmo  Embaixada ds dizer-me.
    -- Eu no sabia que houvesse um embaixador de Portugal em Paris
    neste momento.
    -- Pois  realmente o Sr. de Sousa quem aqui est; veio incgnito.
    -- Para tratar do caso? -- emendou o cardeal, a rir.
    -- Sim, Monsenhor.
    -- Pobre Souza! Conheo-o bem. Pobre Souza!
    E redobrou de hilaridade.
    O Sr. Boehmer julgou dever associar-se  alegria do cliente.
    Riram muito tempo sobre o escrnio, s expensas de Portugal.
    O Sr. de Rohan fez meno de partir. Boehmer deteve-o:
    -- Vossa Eminncia no quer dizer-me como se h de concluir o
    negcio?
    -- Muito naturalmente.
    -- O intendente de Vossa Eminncia?
    -- No; eu s e mais ningum; tratareis apenas comigo.
    -- Quando?
    -- Amanh.
    -- As cem mil libras?
    -- Tr-las-ei aqui.
    -- Bem, Monsenhor. E os ttulos?
    -- Amanh mesmo os assinarei.
    -- Perfeitamente, Monsenhor.
    -- E visto que sois um homem discreto, Sr. Boehmer, no vos esquea
    que tendes em mos um segredo importantssimo.
    -- No me esquecerei, Monsenhor, e hei de merecer a sua confiana bem
    como a de Sua Majestade a Rainha, -- ajuntou o ourives,com finura.
    O Sr. de Rohan corou e saiu perturbado, mas feliz como todo homem
que se arruna num paroxismo de paixo.
    No dia seguinte, dirigiu-se Boehmer, com ar composto,  Embaixada de
Portugal.
    No momento em que ia bater  porta, o Sr. Beausire, primeiro secretrio,
tomava contas ao Sr. Ducorneau, primeiro chanceler, e D. Manuel de
Sousa, o embaixador, explicava um novo plano de campanha ao seu
associado, o criado de quarto.
    Depois da ltima visita do Sr. Boehmer  Rua de Ia Jussienne, o
palcio sofrera diversas transformaes.
    Todo o pessoal desembarcado, como vimos, dos dois carros de posta,
alojara-se consoante as necessidades da ocasio e assumira as vrias
atribuies que lhe cabiam em casa do novo embaixador.
364                           ALEXANDRE DUMAS


    Cumpre dizer que os scios, repartindo assim os papis que to bem
desempenhavam, e nos quais se revezavam, tinham ensejo de vigiar-se
reciprocamente, o que d sempre um pouco de coragem para as mais rudes
tarefas.
    Encantado com a inteligncia dos lacaios, o Sr. Ducorneau se admirava, ao
mesmo tempo, de que o embaixador, dando de barato o preconceito
nacionalista, tivesse uma casa inteiramente francesa, desde o primeiro
secretrio at ao terceiro criado de quarto.
    Foi, portanto, a esse propsito que, fazendo contas com o Sr. de Beausire,
encetava com este ltimo um dilogo encomistico sobre o chefe da embaixada.
    -- Os Souzas, -- dizia Beausire, -- no so desses portugueses atrasados
    que ainda vivem a vida do sculo XIV, como muitos existem nas nossas
    provncias. So fidalgos viajados, riqussimos, que seriam reis onde quer
    que lhes aprouvesse.
    -- Mas no lhes apraz, -- observou, espirituosamente, o Sr. Ducorneau.
    -- Para que, Sr. Chanceler? Porventura com certo nmero de milhes e
    um nome principesco uma pessoa no vale um rei?
    -- Mas isso so doutrinas filosficas, Sr. Secretrio! -- atalhou, surpreso, o
    Sr. Ducorneau; -- eu no esperava ouvir tais mximas igualitrias da boca
    de um diplomata.
    -- Somos uma exceo, -- respondeu Beausire, um tanto contrariado pelo
    prprio anacronismo; -- sem ser voltariano nem armnio  moda de
    Rousseau, conhecemos o nosso mundo filosfico,conhecemos as teorias
    naturais da desigualdade das condies e das foras.
    -- Sabeis, -- bradou, impetuoso, o chanceler, -- que  uma felicidade ser
    Portugal um Estado pequeno?
    -- Por qu?
    -- Porque, tendo homens assim no seu governo, cresceria muito depressa.
    -- Oh! estais-nos lisonjeando, meu caro chanceler. Fazemos realmente uma
    poltica filosfica, especiosa, mas pouco aplicvel. Entretanto, mudemos de
    assunto. Dizeis que h cento e oito mil libras em caixa?
    -- Sim, Sr. Secretrio, cento e oito mil libras.
    -- E nenhuma dvida?
    -- Nem um centil.
    -- Exemplar. Dai-me, por favor, o livro de contas.
    -- Ei-lo. E quando ser o dia da apresentao, Sr. Secretrio? No bairro 
    um assunto de curiosidade, de comentrios inesgotveis, direi at de
    inquietaes.
     --        Ah! ah!
                       O COLAR DA RAINHA                                   365

    -- Sim, o tempo todo no cessa de rodar em torno do palcio gente que
    quisera que as portas fossem de vidro.
    -- Gente!. . . -- exclamou Beausire, -- gente do bairro?
    -- Do bairro e de fora. Oh! sendo secreta a misso do Sr. Embaixador, est
    visto que a polcia no tardar em ocupar-se de penetrar-lhe os motivos.
    -- Foi tambm o que pensei, -- conveio Beausire, preocupado.
    -- Vede, Sr. Secretrio, -- disse Ducorneau, conduzindo Beausire a uma
    janela, que se abria numa das paredes laterais do palcio.
    -- Olhai, no distinguis na rua aquele homem de sobretudo pardo sujo?
    -- Distingo.
    -- Como olha, hein?
    -- De fato. Quem imaginais que seja?
    -- Sei l  . . . Um espia do Sr. de Crosne, talvez.
    --  provvel.
    -- Aqui entre ns, Sr. Secretrio, o Sr. de Crosne no  um magistrado
    da fora do Sr. de Sartines. Conhecestes o Sr. de Sartines?
    -- No, senhor.
    -- Esse j vos teria adivinhado dez vezes.  verdade que tomais precaues.
    .
    Soou a campainha.
    -- O Sr. Embaixador est chamando, -- anunciou precipitada mente
Beausire, j incomodado pela conversao.
    E, abrindo a porta com fora, empurrou com ela dois scios que, um com
a pena na orelha e outro de vassoura na mo, o primeiro fantasiado de
amanuense e o segundo de criado, estavam achando a palestra muito comprida e
dela queriam participar, nem que fosse pelo sentido da audio.
    Beausire compreendeu que suspeitavam dele, e prometeu a si mesmo
redobrar de vigilncia.
    Subiu, portanto, ao quarto do embaixador, no sem haver, no escuro,
apertado a mo dos dois amigos e co-interessados.
                                   XLIII
   Em que o Sr. Ducorneau no compreende absolutamente nada do que se
                             est passando

     D. MANUEL DE SOUZA estava menos amarelo que de costume, isto ,
estava mais vermelho. Acabava de ter com o Sr. Comendador Criado de
Quarto uma penosa explicao.
    A explicao ainda no terminara.
    Quando Beausire chegou, os dois galos arrancavam, um do outro, as
ltimas penas.
    -- Vamos a ver, Sr. Beausire, -- pediu o comendador, -- ponde-nos de
    acordo.
    -- Em qu? -- acudiu o secretrio, assumindo ares de rbitro,depois de
    haver trocado um olhar com o embaixador, seu aliado natural.
    -- Sabeis, -- disse o criado de quarto, -- qu o Sr. Boehmer deve vir
    hoje para fechar o negcio do colar.
    -- Sei.
    -- E que se devem entregar a le as cem mil libras.
    -- Tambm sei.
    -- Essas cem mil libras so propriedade da associao, no so?
    --  claro que sim.
    -- Ah! o Sr. Beausire me d razo! -- bradou o comendador,voltando-se
    para D. Manuel.
    -- Um momento! um momento! -- atalhou o portugus, fazendo um sinal de
    pacincia com a mo.
    -- S vos dou razo nesse ponto, -- esclareceu Beausire, -- a saber, que
    as cem mil libras pertencem aos associados.
    -- Pois  tudo o que estou pedindo.         E, nesse caso, a caixa que as
    contm no deve ficar na nica burra da embaixada contgua ao quarto do
    Sr. Embaixador.
    -- Por qu? -- perguntou Beausire.
    -- E o Sr. Embaixador, -- prosseguiu o comendador, -- deve,pelo menos,
    dar a cada um de ns uma chave da caixa.
    -- No, -- obtemperou o portugus.
    -- Por que no?
    --  verdade: por que no? -- repetiu Beausire.
                               O COLAR DA RAINHA                              367

   -- Se desconfiam de mim, -- protestou o portugus, passando a mo pela
   barba, -- por que no desconfiarei dos outros? Parece-me que, se posso
   ser acusado de estar roubando a associao, tambm posso suspeitar a
   associao de querer roubar-me.Ningum aqui  melhor do que os outros.
   -- De acordo, -- anuiu o criado de quarto; -- mas, justamente por isso,
   temos direitos iguais.
   -- Nesse caso, meu caro senhor, se pretendeis estabelecer aqui a igualdade,
   deveis ter decidido que nos revezaramos no papel de embaixador. Teria
   sido talvez menos verossmil aos olhos do pblico, mas os associados
   ficariam mais tranqilos.  s, no ?
   -- De mais a mais, -- interrompeu Beausire, -- no estais procedendo
   como bom confrade, Sr. Comendador; acaso o Sr. D. Manuel no tem um
   privilgio incontestvel, que  o da inveno?
   -- E o Sr. Beausire partilha-o comigo, -- ajuntou o embaixador.
   -- Oh! -- retrucou o comendador, -- depois que comea o negcio,
   esquecem-se os privilgios.
   -- De acordo, mas no se esquecem os modos que se empregam, --
   observou Beausire.
   -- No sou s eu quem faz esta reclamao, -- murmurou o comendador,
   meio envergonhado, -- todos os nossos camaradas pensam assim.
   -- E pensam mal, -- retorquiu o portugus.
   -- Pensam mal, -- repetiu Beausire.
   O comendador ergueu a cabea.
   -- Eu mesmo pensei mal, -- disse le, despeitado, -- ao pedir a opinio do
   Sr. de Beausire.     O secretrio no podia menos de entender-se com o
   embaixador.
   -- Sr. Comendador, -- replicou Beausire com espantosa fleuma,-- sois um
   salafrrio cujas orelhas eu cortaria, se ainda as tivsseis; mas j foram muito
   puxadas.
   -- Como? -- acudiu o comendador, empertigando-se.
   -- Estamos aqui sossegados no gabinete do Sr. Embaixador e podemos
   tratar do caso familiarmente. Ora, acabais de insultar-me dizendo que eu
   me entendo com D. Manuel.
   -- E me insultastes tambm, -- sobreveio friamente o portugus,
   acorrendo em auxlio de Beausire.
   -- Tereis de dar-nos satisfaes, Sr. Comendador.
   -- No sou nenhum espadachim! -- exclamou o criado de quarto.
   -- Bem se v, -- retrucou Beausire; -- por conseguinte, levareis uma surra.
   -- Socorro! -- bramiu o comendador, j agarrado pelo amante da Srta.
   Oliva, e quase estrangulado pelo portugus.
   Mas no momento em que os dois chefes iam fazer justia  sua moda, a
campainha de baixo anunciou o chegada de uma visita.
368                         ALEXANDRE DUMAS

    -- Larguemo-lo, -- props D. Manuel.
    -- E le continua a fazer o seu ofcio, -- disse Beausire.
    -- Os camaradas sabero disto, -- ameaou o comendador, recompondo-se.
    -- Dizei-lhes o que vos aprouver; sabemos o que responder.
    -- O Sr. Boehmer! -- gritou, de baixo, o suo.
    -- Isto liquida o assunto, meu caro comendador, -- observou Beausire,
    pespegando um bofeto na nuca do adversrio.
    -- J no brigaremos por causa das cem mil libras, visto que as cem mil
    libras vo desaparecer com o Sr. Boehmer.               No vos faais de
    engraadinho, Sr. Criado de Quarto.
    O comendador saiu resmungando, e reassumiu os modos humildes para
introduzir convenientemente o joalheiro da coroa.
    Durante o intervalo entre a sua partida e a entrada de Boehmer, Beausire e o
portugus trocaram um segundo olhar to significativo quanto o primeiro.
    Boehmer entrou, seguido de Bossange. Traziam ambos uma expresso
humilde e encalistrada, que no enganou os finos observadores da embaixada.
    Ao passo que se assentavam nas cadeiras oferecidas por Beausire, este
prosseguiu na investigao e espiava D. Manuel com o rabo dos olhos para
manter a correspondncia.
    Manuel conservava um ar digno e oficial.
    Boehmer, que era o homem das iniciativas, tomou a palavra naquela difcil
circunstncia.
    Explicou que razes polticas de alta importncia o impediam de dar
prosseguimento s negociaes encetadas.
    Manuel protestou.
    Beausire fez hum!
    O Sr. Boehmer atrapalhava-se cada vez mais.
    D. Manuel observou-lhe que o negcio estava fechado, que o dinheiro do
sinal estava pronto.
    Boehmer persistiu.
    Sempre por intermdio de Beausire, respondeu o embaixador que o seu
governo j tinha ou devia ter conhecimento da concluso do negcio; que o
malogro dele equivalia a expor Sua Majestade Portuguesa a uma quase afronta.
    Objetou o Sr. Boehmer que pesara todas as conseqncias dessas reflexes,
mas que se lhe tornara impossvel cumprir a palavra empenhada.
    Beausire no se conformava em aceitar os novos fatos; declarou francamente
a Boehmer que o desdizer-se era de mau negociante, de homem sem palavra.
    Bossange assumiu, ento, a defesa do comrcio incriminado na sua pessoa e
na do scio.
                              O COLAR DA RAINHA                               369

    Mas no foi eloqente.
    Beausire fechou-lhe a boca com esta pergunta: -- Achastes um lance maior
pelo colar?
    Os joalheiros, que no eram muito fortes em poltica, e tinham da
diplomacia em geral e dos diplomatas portugueses em particular uma idia
excessivamente alta, coraram, julgando-se adivinhados.
    Beausire conheceu que acertara no ponto exato; e como lhe importasse
muito concluir o negcio, no qual pressentia a existncia de uma fortuna, fingiu
consultar em portugus o embaixador.
    -- Senhores, -- disse, ento, aos lapidrios, -- ofereceram-vos um lucro; nada
mais natural; isso demonstra apenas que os brilhantes tm grande valor. Pois
bem!     Sua Majestade fidelssima no haveria de querer fazer um negcio
prejudicial a negociantes honestos.Talvez devssemos oferecer-vos cinqenta
mil libras?
    Boehmer fez um sinal negativo.
    -- Cem mil, cento e cinqenta mil, -- continuou Beausire, decidido, sem se
comprometer, a oferecer um milho a mais para abiscoitar a sua parte do
milho e meio de libras.
    Deslumbrados, os joalheiros ficaram momentaneamente confusos; logo,
tendo-se consultado:
    -- No, Sr. Secretrio, -- responderam, -- no vos deis ao trabalho de
tentar-nos; o negcio est liquidado, uma vontade mais poderosa do que a
nossa impede-nos de vender o colar fora do pas.               Compreendeis, sem
dvida; no somos ns que recusamos; portanto, no vos zangueis conosco; 
de algum maior do que ns,maior do que vs, que nasce a oposio.
    Beausire e Manuel no acharam o que responder. Pelo contrrio, fizeram
uma espcie de cumprimento aos ourives e buscaram aparentar indiferena.
    Mas nisso se aplicaram to ativamente, que no viram na antecmara o Sr.
Comendador, criado de quarto, entretido em escutar a porta, para saber como
caminhava o negcio de que pretendiam exclu-lo.
    O digno associado, entretanto, foi desastrado, pois, ao inclinar--se sobre a
porta escorregou e caiu com grande estrondo.
    Precipitou-se Beausire para a antecmara e foi encontr-lo assustadssimo.
    -- Que fazes aqui, miservel? -- exclamou.
    -- Senhor, -- respondeu o comendador, -- eu vinha trazendo o correio
    desta manh.
    -- Bem! -- disse Beausire; -- vai.
    E, pegando a correspondncia, despediu-o.
    Era a correspondncia da ,chancelaria: cartas de Portugal ou da Espanha,
na maioria insignificantes, que constituam o trabalho
370                            ALEXANDRE DUMAS

cotidiano do Sr. Ducorneau, mas que, passando sempre pelas mos de Beausire
ou de D. Manuel antes de chegarem  chancelaria, j tinham fornecido aos dois
chefes teis informaes sobre os negcios da embaixada.
     palavra correio, que os joalheiros ouviram, sentiram-se aliviados, como se
acabassem de ser dispensados aps uma audincia embaraosa.
    Deixaram-nos sair, e o criado de quarto recebeu ordem para acompanh-los
at ao ptio.
    Tanto que le desceu a escada, D. Manuel e Beausire, trocando um desses
olhares que logo redundam em ao, se reaproximaram.
    -- O negcio gorou, -- disse D. Manuel.
    -- Inteiramente, -- conveio Beausire.
    -- De cem mil libras, furto medocre, temos, cada um, 8.400.
    -- No vale a pena, -- observou Beausire.
    -- No  mesmo? Ao passo que l, no cofre...
    E mostrava o cofre to ardentemente cobiado pelo comendador.
    -- L, no cofre, h cento e oito mil libras.
    -- Cinqenta e quatro mil para cada um.
    -- Est feito! -- decidiu D. Manuel. -- Repartamos.
    -- Seja; mas agora, sabendo que o negcio falhou, o comendaro no nos
    largar.
    -- Acharei um meio, -- prometeu D. Manuel com ar singular.
    -- Pois eu j achei um, -- acudiu Beausire.
    -- Qual?
    -- O seguinte: le vai voltar?
    -- Vai.
    -- Para pedir a sua parte e a dos associados?
    -- Certo.
    -- Pois ento chamemo-lo como se fssemos contar-lhe um segredo, e
    deixemos o resto por minha conta.
    -- Parece-me que estou adivinhando, -- disse D. Manuel; -- ide procur-lo.
    -- Pois eu ia sugerir que fsseis vs.
    Nenhum deles queria deixar o amigo sozinho com a caixa. A confiana 
uma jia realmente muito rara.
    Respondeu D. Manuel que a sua qualidade de embaixador no lhe permitia
dar esse passo.
    -- Para le no sois embaixador, -- observou Beausire; -- mas no faz
    mal.
    -- Ireis vs?
    -- No; cham-lo-ei da janela.
                            O COLAR DA RAINHA                            371

Com efeito, Beausire chamou da janela o Sr. Comendador, que j se preparava
para confabular com o suo. O comendador subiu.
   Encontrou os dois chefes no quarto pegado ao da caixa. Dirigindo-se a
   le com ar risonho:
   -- Aposto, -- disse Beausire, -- que sei o que estveis dizendo ao suo.
   -- Eu?
   -- Sim: contando que o negcio co.m Boehmer foi por gua abaixo.
   -- Palavra que no.
   -- Estais mentindo.
   -- Juro que no!
   -- Ainda bem; pois se houvsseis falado, tereis cometido uma grossssima
   asneira e perdido uma boa bolada.
   -- Como assim? -- bradou, surpreso, o comendador; -- que bolada?
   -- S ns trs sabemos o segredo.
   --  verdade.
   -- E s ns trs, por conseguinte, temos as cento e oito mil libras, visto
   que os outros esto na crena de que Boehmer e Bossange levaram o
   dinheiro.
   -- Com a breca! -- exclamou o comendador, alegrssimo, --  verdade!
   -- Trinta e trs mil, trezentos e trinta e trs francos e seis soldos para
   cada um, -- calculou Manuel.
   -- Mais! mais! -- bradou o comendador, -- h ainda uma frao de oito
   mil libras.
   --  verdade, -- confirmou Beausire; -- aceitais?
   -- Se aceito! -- rebradou o criado de quarto, esfregando as mos, --
   que dvida! Ainda bem, isso  o que se chama falar!
   -- Isso  o que se chama falar como um patife! -- volveu Beausire,
   com voz tonitruante; -- eu sempre disse que reis um velhaco refinado.
   Vamos, D. Manuel, sois robusto, agarrai-me este biltre e entreguemo-lo aos
   nossos scios para mostrar-lhes quem .
    --       Perdo! perdo! -- gritou o desgraado, -- eu estava brincando.
    --       Vamos! vamos! -- continuou Beausire, -- ficar no quarto
    escuro at que se faa a mais ampla justia.
    --       Perdo! -- gemeu o comendador.
    --       Cuidado, -- disse Beausire a D. Manuel, que comprimia o
    prfido comendador; -- cuidado para que o Sr. Ducorneau no oua!
    --       Se no me largardes, -- urrou o comendador, -- denunciar-vos-ei
    a todos!
372                          ALEXANDRE DUMAS

   --Eu te esganarei! -- ameaou D. Manuel com voz colrica, empurrando-
o para um toucador vizinho.
    -- Afastai o Sr. Ducorneau, -- murmurou ao ouvido de Beausire.
    Este no esperou segunda ordem. Passou rapidamente ao quarto contguo,
ao mesmo passo que o portugus encerrava o comendador na surda espessura
daquele crcere.
    Passou-se um minuto. Beausire no voltou.
    D. Manuel teve uma idia; sentia-se s, a caixa estava a dez passos; para
abri-la, para tirar dela as cento e oito mil libras em notas, para saltar por uma
janela e escafeder-se pelo jardim sobraando a presa, qualquer ladro bem
organizado levaria, quando muito, dois minutos.
    D. Manuel calculou que Beausire, para despachar Ducorneau e voltar ao
quarto gastaria, no mnimo, cinco minutos.
    Precipitou-se para a porta do quarto em que estava a caixa. A porta
estava aferrolhada. Robusto e habilidoso, D. Manuel teria aberto a porta de
uma cidade com uma chave de relgio.
    -- Beausire desconfiou de mim, -- pensou, -- porque s eu tenho a chave;
por isso, aferrolhou a porta;  justo.
    Com a espada, fez saltar o ferrolho.
    Aproximando-se da caixa, despediu um grito terrvel: a caixa abria uma
boca enorme e vazia. No havia nada em suas hiantes profundezas!
    Beausire, que tinha outra chave, entrara pela outra porta e esvaziara-a.
    D. Manuel correu como um insensato at ao quarto do suo, que
encontrou cantando.
    Beausire levava cinco minutos de vantagem.
    Quando o portugus, com os seus gritos e lamentos, ps todo o palcio a
par da aventura; quando, para estribar-se num testemunho, devolveu a
liberdade ao comendador, s encontrou gente incrdula e furiosa.
    Acusaram-no de haver urdido a trama com Beausire, que fugira primeiro,
com a metade do furto.
    Arrancadas s mscaras, desfeitos os mistrios, o honrado Sr. Ducorneau j
no compreendia com que casta de gente se ligara.
    Quase desmaiou ao ver a chusma de diplomatas preparando-se para
enforcar, debaixo de um alpendre, o prprio D. Manuel!...
    -- Enforcar o Sr. de Souza! -- berrava o chanceler. -- Mas isso  um crime
de lesa-majestade! Cuidado!
    Como le gritasse demais, os outros decidiram encafu-lo numa adega.
    Nesse momento, trs pancadas solenes  porta fizeram estremecer os
associados.
                            O COLAR DA RAINHA                               373

    Restabeleceu-se o silncio.
    Repetiram-se as trs pancadas.
    Em seguida, uma voz aguda gritou em portugus:
   -- Abri! Em nome do Sr. Embaixador de Portugal!
   -- O embaixador! -- exclamaram todos os bigorrilhas, disparando
   pelas dependncias do palcio; e durante alguns minutos foi pelos
   jardins, pelos muros da vizinhana, pelos telhados, uma correria
   desabalada, um desordenado salve-se-quem-puder!
   O verdadeiro embaixador, que efetivamente acabava de chegar, s pde
entrar em sua casa com o auxlio dos arqueiros da polcia, que arrombaram
a porta em presena de imensa multido, atrada pelo curioso espetculo.
    Depois de uma busca rigorosa, prenderam o Sr. Ducorneau, que foi
conduzido  priso do Chtelet, onde dormiu.
   Assim terminou a aventura da falsa embaixada de Portugal.
                                     XLIV
                              Iluses e realidades

    SE O SUO da embaixada tivesse podido correr atrs de Beausire, como
lhe ordenava D. Manuel, convenhamos em que teria tido muito que correr.
    Mal sado do antro, Beausire alcanara, a galope, a rua Coquillire e, mais
depressa ainda, a Rua de Santo Honorato.
    Desconfiando sempre de que estava sendo perseguido, buscara confundir os
traos de sua passagem, bordejando pelas ruas sem alinhamento e sem ordem
que circundam os nossos mercado de cereais; volvidos alguns minutos, tinha
quase certeza de que ningum pudera t-lo seguido; mas tinha certeza tambm
de outra coisa, a saber, que as foras se lhe haviam esgotado, e que um bom
cavalo de corrida no poderia ter feito mais do que le fizera.
    Sentou-se num saco de trigo na Rua de Viarmes, que contorna o mercado,
e l fingiu examinar com a maior ateno a coluna de Mdicis, comprada por
Bachaumont para arranc-la  picareta dos demolidores e d-la de presente ao
Pao Municipal.
    Mas o caso  que o Sr. de Beausire no estava olhando nem para a coluna
do Sr. Filiberto Delorme, nem para o relgio de sol com que a decorara Pingr.
Arrancava penosamente do fundo dos pulmes uma respirao estridente e
rouca como a de um velho fole de ferreiro.
    Durante vrios instantes no conseguiu completar a massa de ar que lhe
cumpria despejar da laringe para restabelecer o equilbrio entre a sufocao e a
pletora.
    Afinal o conseguiu, num suspiro que teriam ouvido os moradores da Rua
de Viarmes se no estivessem entretidos em vender ou pesar as suas sementes.
    -- Ah! -- pensou Beausire, -- eis realizado o meu sonho: tenho uma
fortuna.
    E tornou a respirar.
    --Vou poder, enfim, converter-me num perfeito homem de bem;
parece-me at que j estou engordando.
    E, de feito, se no estava engordando, estava inchando.
    --Vou, -- continuou em seu mudo monlogo, -- fazer de Oliva uma
mulher to honesta quanto eu serei honesto como homem.              Ela  bela,
 ingnua nos seus gostos
                                 O COI.AR DA RAINHA                        375

    Coitado!
    -- No desgostar de uma existncia retirada na provncia, numa bela
propriedade a que chamaremos nossas terras, perto de alguma cidadezinha em
que seremos facilmente tomados por fidalgos.
    "Nicole  boa; s tem dois defeitos: a preguia e o orgulho." S! Pobre
    Beausire! Dois pecados mortais!
    -- E com esses defeitos que satisfarei, eu, o equvoco Beausire,farei dela
para mim uma mulher perfeita.
    No continuou; voltara-lhe a respirao.
    Enxugou a testa, certificou-se de que as cem mil libras ainda estavam em
seu bolso e, mais livre de corpo e de esprito, quis refletir.
    No seria procurado na Rua de Viarmes, mas seria procurado. Os senhores
da embaixada no perderiam de boa mente o seu quinho dos despojos.
    Dividir-se-iam, portanto, em diversos bandos, e comeariam por explorar o
domiclio do ladro.
    Nisso residia toda a dificuldade. Nesse domiclio morava Oliva, que seria
acusada, talvez maltratada. Talvez levassem a crueldade a ponto de convert-
la em refm.
    Por que no saberiam os patifes que a Srta. Oliva era a paixo de Beausire,
e por que, sabendo-o, no especulariam com essa paixo?
    Beausire quase enlouqueceu ao pensar naqueles dois perigos mortais.
    O amor venceu.
    No quis que ningum tocasse no objeto do seu amor. Correu como um
dardo  casa da Rua Dauphine.
    Tinha, de resto, ilimitada confiana na rapidez de sua marcha; por geis
que fossem, os inimigos no poderiam t-lo precedido.
    Alis, precipitou-se num fiacre, a cujo cocheiro mostrou um escudo de seis
libras, dizendo-lhe: Ao Pont-Neuf.
    Os cavalos no correram: voaram.
    Entardecia. Fz-se conduzir ao terrapleno da ponte, atrs da esttua de
Henrique IV. Naquele tempo, ali se chegava de carro; era um local de
encontro muito trivial, mas freqentado.
    Arriscando a cabea por uma portinhola, enfiou os olhos pela Rua
Dauphine.
    Conhecia os hbitos da gente da polcia: levara dez anos tentando
reconhec-la a fim de poder evit-la quando fosse preciso.
    Lobrigou, na descida da ponte, do lado da Rua Dauphine, dois homens
separados que estendiam o pescoo na direo dessa rua, procurando o que quer
que fosse.
    Eram espias. Encontrar espias no Pont-Neuf, no seria coisa rara, porque,
dizia um provrbio da poca, para ver a qualquer
376                          ALEXANDRE DUMAS

momento um prelado, uma rameira e um cavalo branco, bastava passar pelo
Pont-Neuf.
    Ora, os cavalos brancos, os hbitos dos padres e as prostitutas sempre foram
pontos de mira para os homens da polcia.
    Beausire no se sentiu contrariado, seno embaraado; fz-se pequenino
cocheando para disfarar o passo e, atravessando a multido, chegou  Rua
Dauphine.
    Nenhum sinal do que receava. J avistava a casa, a cujas janelas se
mostrara tantas vezes a formosa Oliva, sua estrela.
    As janelas estavam fechadas; ela, sem dvida, estaria descansando no sof
ou lendo um livro qualquer ou mastigando alguma gulodice.
    Sbito, julgou ver uma farda de policial no beco fronteiro.
    Mais, viu assomar um soldado  janela da sala.
    Voltaram-lhe os suores; suores frios, malsos. No havia recuar: cumpria-lhe
passar diante da casa.
    Reunindo as foras, passou e examinou-a.
    Que espetculo!
    Um ptio atulhado de soldados da guarda de Paris, no meio dos quais se
via um comissrio do Chtelet, todo vestido de preto.
    Aquela gente... Beausire percebeu, num relance, que estava perturbada,
atarantada, desapontada. Uma pessoa tem ou no tem o hbito de ler nos
rostos dos policiais; quando o tem, como Beausire, no precisa olhar duas vezes
para saber se foram bem ou mal sucedidos.
    O Sr. de Crosne, disse entre si Beausire, avisado, no importa como nem
por quem, pretendera mandar prend-lo e s encontrara Oliva. Inde irae.
    Da a decepo. Certamente, se Beausire se achasse em circunstncias
normais, se no tivesse cem mil libras no bolso, ter-se-ia lanado ao meio dos
aguazis, gritando como Niso: Aqui estou! aqui estou! fui eu quem fez tudo!
    Mas a idia de que essa gente lhe apalparia as cem mil libras, e com elas
passaria vida regalada, a idia de que o golpe to audaz e to sutil tentado por
le aproveitaria apenas aos agentes do Chefe de Polcia, essa idia lhe triunfou de
todos os escrpulos, digamo-lo assim, e abafou os seus cuidados de amor.
    --  lgico... -- disse consigo mesmo: -- Deixo-me prender... Perco as cem
mil libras. No ajudo Oliva... Arruno-me... Provo-lhe que a amo como um
insensato... Mas mereo que ela me diga: s um cretino; devias amar-me um
pouco menos e salvar-me. Decididamente, raspemo-nos e coloquemos em lugar
seguro o dinheiro, que  a fonte de tudo: liberdade, felicidade, filosofia.
    Dito isso, aconchegou de si as notas do banco e recomeou a correr na
direo do Luxemburgo; fazia uma hora que o guiava to-
                           O COLAR DA RAINHA                                  377

-somente o instinto, e como j tivesse ido cem vezes procurar Oliva no jardim
do Luxemburgo, deixava que para l o conduzissem as pernas.
    Para um homem to cheio de lgica, era um pfio raciocnio.
    Com efeito, os arqueiros, que conhecem os hbitos dos ladres, como
Beausire conhecia os hbitos dos arqueiros, teriam ido naturalmente procur-lo
no Luxemburgo.
    Mas o cu ou o diabo haviam decidido que o Sr. de Crosne no o
encontraria daquela vez.
    Assim que o amante de Nicole virou a Rua Saint-Germain-des-Prs, quase
foi derrubado por uma bonita carruagem, cujos cavalos corriam
sobranceiramente para a Rua Dauphine.
    Graas  ligeireza parisiense, desconhecida do resto dos europeus, Beausire
s teve tempo de evitar a lana do carro.  verdade que no evitou o
xingamento nem a chicotada do cocheiro; mas a um proprietrio de cem mil
libras no fazem mossa as misrias de semelhante ponto de honra, mormente
quando tem no calcanhar as companhias da Estrela e os guardas de Paris.
    Beausire, portanto, atirou-se para um lado; mas, ao voltar-se, viu no carro
Oliva e um homem muito bem apessoado, conversando animadamente.
    Soltou um grito, que s serviu de estimular ainda mais os cavalos. Teria
seguido o veculo, se le no se endereasse  Rua Dauphine, a nica rua de
Paris em que no queria passar naquele momento.
    De mais a mais, que certeza tinha le de que era Oliva quem estava no
carro? Poderia ter visto um fantasma, uma viso, uma absurdeza.            Talvez
estivesse vendo mal e dobrado.
    Alm disso, outro raciocnio se impunha: Oliva no podia estar no carro
porque os arqueiros a tinham prendido em casa, na rua Dauphine.
    Moral e fisicamente metido em camisa de onze varas, enveredou o pobre
Beausire pela Rua des Fosss-Monsieur-le-Prince, chegou ao Luxemburgo,
atravessou o bairro j deserto, e conseguiu, fora das portas da cidade, acoitar-se
num gabinetezinho cuja dona tinha para le toda a sorte de atenes.
    Instalou-se na espelunca, escondeu as notas sob um ladrilho do quarto,
apoiou sobre o ladrilho o p da cama, e deitou-se, suando e praguejando, mas
entremeando as blasfmias de agradecimentos a Mercrio e s nuseas febris
de uma infuso de vinho aucarado com canela, beberagem apropriada para
normalizar a transpirao da pele e devolver a confiana ao corao.
    Estava certo de que a polcia no o acharia mais. Estava certo de que
ningum o despojaria do seu dinheiro.
378                         ALEXANDRE DUMAS

    Estava certo de que Nicole, ainda que fosse presa, no era culpada de crime
algum, e j tinham passado de moda as eternas recluses sem motivo.
    Estava certo, enfim, de que as cem mil libras lhe serviriam para arrancar
da priso, se a detivessem, Oliva, sua companheira inseparvel.
    Restavam os colegas da embaixada; com eles j seria mais difcil acertar
contas.
    Previra, porm, as chicanas. Deixava-os a todos em Frana e partia para a
Sua, pas livre e moral, assim que a Srta. Oliva estivesse em liberdade.
    Mas nada do que meditava, bebendo o vinho quente, sucedeu conforme as
suas previses: estava escrito.
    Engana-se quase sempre o homem ao pensar que v as coisas quando no as
v; e mais ainda ao pensar que no as viu quando realmente as viu.
    Comentaremos o assunto para o leitor.
                                     XLV
  Em que Srta. Oliva comea a perguntar a si mesma o que querem fazer dela


    SE O SR. BEAUSIRE tivesse querido louvar-se nos prprios olhos, que
eram excelentes, em vez de dar tratos ao esprito que, naquele momento, tudo
cegava, teria evitado muitos dissabores e decepes.
   Com efeito, fora realmente a Srta. Oliva que le vira na carruagem, ao lado
de um homem que no reconhecera olhando uma vez, mas que teria
reconhecido se tivesse olhado duas; Oliva, que, de manh, fora dar o seu
passeio habitual no jardim do Luxemburgo, e que, em lugar de voltar s duas
horas para jantar, fora encontrada, procurada e interrogada pelo estranho amigo
que conhecera no dia do baile da pera.
   De fato, no momento em que pagava a cadeira para voltar, e sorria para o
botequineiro do jardim cuja assdua freguesa era, Cagliostro, saindo de uma
alameda, aproximara-se e tomara-lhe do brao.
   Ela soltou um gritinho.
   -- Aonde ides? -- perguntou le.
   -- Para casa, na Rua Dauphine.
   -- Pois  precisamente o que desejam as pessoas que l esto  vossa
   espera, -- tornou o desconhecido.
   -- Pessoas... que esto  minha espera... como? Ningum est  minha
   espera.
   -- Como no! Uma dzia de visitas, pelo menos.
   -- Uma dzia de visitas! -- exclamou Oliva, desfechando uma gargalhada;
   -- e por que no um regimento logo de uma vez?
   -- Se fosse possvel mandar um regimento  Rua Dauphine, le l estaria.
   -- Estais-me assustando!
   -- Eu vos assustaria muito mais se vos deixasse ir  Rua Dauphine.
   -- Por qu?
   -- Porque l sereis presa, minha querida.
   -- Eu, presa?
380                        ALEXANDRE DUMAS

   -- Sem dvida; os doze senhores que esto  vossa espera so arqueiros
mandados pelo Sr. de Crosne.
   Oliva estremeceu: certas pessoas tm sempre medo de certas coisas.
   No obstante, inteiriando-se depois de um exame um pouco mais
profundo de conscincia:
   -- No fiz nada, -- disse ela. -- Por que haveriam de prender-me?
   -- Por que se prende uma mulher? Por intrigas, por tolices.
   -- No tenho intrigas.
   -- Mas j as tivestes.
   -- No digo que no.
   -- Em suma, fazem mal em prender-vos; mas o fato  que esto querendo
   faz-lo. Sempre vamos  Rua Dauphine?
   Deteve-se Oliva, perturbada e plida.
   -- Brincais comigo, -- disse ela, -- como um gato com um pobre ratinho.
Vamos a ver; se sabeis alguma coisa, dizei-mo.      No  Beausire que esto
querendo prender?
   E fitou em Cagliostro um olhar suplicante.
   -- Pode ser. Desconfio que le tem a conscincia menos limpa do que vs.
   -- Pobre rapaz!...
   -- Lastimai-o, se fr preso, mas no o imiteis, deixando-vos prender
   tambm.
   -- Mas que interesse tendes vs em proteger-me? Que interesse tendes
   em ocupar-vos de mim? No  natural, -- disse ela,com petulncia, --
   que um homem como vs...
   -- No termineis, que direis uma tolice; e os momentos so preciosos,
   porque os agentes do Sr. de Crosne no vos vendo voltar,seriam capazes de
   vir procurar-vos aqui.
   -- Aqui! Quem sabe que estou aqui?
   -- Como se fosse muito difcil sab-lo!        Pois eu no sei?      Mas
   continuemos. Como me interesso pela vossa pessoa e vos quero bem, o
   resto no tem importncia. Depressa, vamos at  Rua do Inferno. O
   meu carro l est  vossa espera. Ainda hesitais?
   -- Sim.
   -- Pois bem! vamos cometer uma grande imprudncia, mas que, espero-
   o, vos convencer de uma vez por todas. Passaremos de carro diante de
   vossa casa e depois que tiverdes visto os senhores da polcia de uma
   distncia suficientemente grande para no serdes presa e suficientemente
   pequena para aquilatardes as suas disposies, dareis s minhas boas
   intenes o valor que elas tm.
   Pronunciando essas palavras, conduzira Oliva at ao porto da Rua do
Inferno. O carro havia-se aproximado, recebido e conduzido o casal  Rua
Dauphine, onde Beausire os avistara.
                        O COLAR DA RAINHA                                   381

    Est visto que, se le tivesse gritado naquele momento, se tivesse seguido 
carruagem, Oliva teria feito tudo para juntar-se a le, a fim de salv-lo,
perseguido, ou, livre, salvar-se com le.
    Cagliostro, porm, viu o desgraado e desviou a ateno da moa
mostrando-lhe a multido que j principiava a aglomerar-se, curiosa, em torno
dos soldados.
   Assim que avistou os beleguins e a sua casa invadida, atirou-se Oliva nos
braos do protetor com um desespero que teria comovido quem quer que no
fosse aquele homem de ferro.
    Cagliostro contentou-se de apertar-lhe a mo e de escond-la, abaixando a
cortina da portinhola.
   -- Salvai-me! salvai-me! -- repetia, nesse em meio, a pobre rapariga.
   -- Est prometido, -- disse le.
   -- Mas se essa gente da polcia sabe tudo, acabar por encontrar-me.
   -- No, no; no lugar onde ficareis, ningum vos descobrir;pois se
   podem ir prender-vos em vossa casa, no iro prender-vos na minha.
   -- Oh! -- exclamou ela assustada, -- em vossa casa. .. vamos  vossa casa?
   -- Estais louca, -- volveu le; -- at parece que j no vos lembrais do
   que combinamos. No sou vosso amante, minha bela,nem o quero ser.
   -- Ento,  a priso que me ofereceis?
   -- Se preferis o hospital, estais livre.
   -- Est bem, -- replicou Nicole apavorada, -- entrego-me em vossas mos;
   fazei de mim o que quiserdes.
    le a conduziu  Rua Nova de So Gil,  mesma casa em que o vimos
receber Filipe de Taverney.
    E depois que a instalou longe do criado e de toda e qualquer vigilncia, num
apartamentozinho do segundo andar, disse:
   -- Cumpre que sejais mais feliz do que o sereis aqui.
   -- Feliz!       Como? -- acudiu ela, a pique de chorar. -- Feliz, sem
   liberdade, sem poder passear!          triste aqui!   No tem nem jardim!
   Vou morrer de tristeza.
    E relanceou um olhar vago e desesperado  sua volta.
    --        Tendes razo, -- disse le, -- quero que nada vos falte; aqui
    ficareis mal e, de resto, o meu pessoal vos acabaria vendo e incomodando.
    --        Ou me vendendo, -- ajuntou ela.
    --        Quanto a isso, nada receeis, pois a minha gente s vende o que
    lhe compro, minha querida filha; mas para que tenhais todo o sossego
    desejvel, buscarei encontrar-vos outra morada.
382                         ALEXANDRE DUMAS

    Mostrou-se Oliva o seu tanto consolada com a promessa. Alis, no se
desagradava do novo apartamento, onde encontrava bem--estar e livros
divertidos.
    O protetor deixou-a, dizendo-lhe:
    -- No quero render-vos pela fome, minha filha. Se quiserdes ver-me,
tocai a campainha, que virei imediatamente, se estiver em casa, ou logo que
voltar, se tiver sado.
    Beijou-lhe a mo e deixou-a.
    -- Ah! -- bradou ela, -- mandai-me principalmente notcias de Beausire.
    -- Antes de qualquer outra coisa, -- respondeu-lhe o conde.
      E fechou-a no quarto.
    Em seguida, descendo a escada, pensativo:
    -- Ser, -- disse le, -- uma profanao aloj-la na casa da Rua de So
Cludio. Mas urge que ningum a veja e, nessa casa, ningum a ver. Se, ao
contrrio, fr preciso que certa pessoa a veja,s poder v-la na casa da Rua de
So Cludio. Vamos, mais esse sacrifcio. Apaguemos a ltima falha do
facho que ardeu outrora.
    O conde tomou um amplo sobretudo, procurou umas chaves na secretria,
escolheu diversas dentre elas, considerando-as com expresso enternecida, e saiu
s, a p, do seu palcio, ressubindo a Rua de So Lus do Marais.
                                       XLVI


                                 A casa deserta

O SR. DE CAGLIOSTRO chegou s  antiga casa da Rua de So Cludio,
que os nossos leitores no devem ter esquecido de todo. Anoitecia quando le
sobresteve diante do porto. S se viam uns raros transeuntes na calada do
bulevar.
    Os passos de um cavalo ressoando na Rua de So Lus, uma janela que se
fechava com um rumor de ferragens velhas, o ranger das barras do macio
porto aps o regresso do dono da casa vizinha, eram os nicos movimentos
daquele bairro  hora de que estamos falando.
    Um co ladrava, ou melhor, uivava no ptiozinho do convento, e uma
rajada de vento morno trazia at  Rua de So Cludio as badaladas
melanclicas do relgio de So Paulo dando trs quartos de hora.
    Faltava um quarto para as nove.
    O conde chegou, como dissemos, defronte do porto, tirou do sobretudo uma
chave enorme e triturou, para faz-la entrar na fechadura, uma srie de
detritos que l se haviam aninhado, trazidos pelo vento, anos a fio.
    A palha seca, cuja moinha se introduzira no buraco ogival da fechadura; a
sementinha, que corria para o sul a fim de transformar-se em goivo ou malva,
e que um dia se achou aprisionada naquele sombrio reservatrio; a lasca de
pedra que escapara do edifcio vizinho; as moscas aquarteladas havia dez anos
naquele hospital de ferro, e cujos cadveres tinham acabado por encher--lhe
as profundezas; tudo isso gemeu e pulverizou-se sob a presso da chave.
    Depois que a chave executou as suas evolues na fechadura, restava apenas
abrir a porta.
    Mas o tempo fizera a sua obra. A madeira inchara nas juntas, a ferrugem
corroer os gonzos. O mato crescera em todos os interstcios da calada,
esverdeando a extremidade inferior da porta com as suas midas emanaes;
em toda  parte, uma espcie de massa de ninho de andorinha calafetava cada
frincha, e as vigorosas vegetaes das madrporas terrestres, sobrepondo as suas
arcadas, escondiam a madeira debaixo da carne vivaz de seus cotildones.
384                         ALEXANDRE DUMAS

    Cagliostro sentiu a resistncia; apoiou o punho, depois o cotovelo, depois o
ombro, e arrombou todas aquelas barricadas, que cederam, uma aps outra,
com um estalar mal-humorado.
    Quando a porta se abriu, todo o ptio surgiu desolado, musgoso como um
cemitrio, aos olhos do conde.
    Tornou a fechar a porta atrs de si, e os seus passos se imprimiram sobre a
grama espessa e resistente que invadira a prpria rea do pavimento.
    Ningum o vira entrar, ningum poderia v-lo no interior daqueles muros
enormes. Pde deter-se um momento e voltar, a pouco e pouco,  vida
passada, como acabava de voltar quela casa.
    Uma estava desolada e vazia; a outra, em runas e deserta.
    A escadaria, de doze degraus, no tinha mais do que trs inteiros.
    Os restantes, minados pelas guas fluviais, invadidos pelas parietrias e
papoulas, tinham, a princpio, oscilado e depois cado longe dos seus abraos.
Ao carem, as pedras haviam quebrado, a relva trepara nas runas e plantara,
altivamente, sobre elas, os seus penachos como estandartes de devastao.
    Cagliostro subiu a escada que lhe tremia debaixo dos ps e, com o auxlio
de outra chave, penetrou na imensa antecmara.
    Somente a acendeu a lanterna de que tivera o cuidado de munir-se; mas por
maior cautela que empregasse no acend-la, o hlito sinistro da casa apagou-a ao
primeiro sopro.
    O sopro da morte reagia violentamente contra a vida; a escurido matava a
luz.
    Cagliostro reacendeu a lanterna e continuou o seu caminho.
    Na sala de jantar, os aparadores embolorados nos cantos tinham quase
perdido a forma primeira, e o cho viscoso j no lhes sustentava os ps. Todas
as portas internas estavam abertas, deixando o pensamento penetrar livremente
com a vista naquelas fnebres profundezas em que j tinham deixado passar a
morte.
    O conde sentiu um como calafrio eriar-lhe a pele pois, na extremidade do
salo, no stio em que outrora comeava a escada, um rumor fizera-se ouvir.
    Antigamente, esse rumor anunciava uma presena querida, despertava em
todos os sentidos do dono da casa a vida, a esperana, a felicidade. Esse
rumor, que nada representava no presente, recordava tudo no passado.
    Com sobrecenho, respirando devagar, mos frias, endereou-se  esttua de
Harpcrates, ao p da qual funcionava a mola da antiga porta de
comunicao, elo misterioso, intangvel, que unia a casa conhecida  casa
secreta.
                         O COLAR DA RAINHA                                   385

    A mola funcionou sem dificuldade, embora a madeira carunchosa tremesse
ao redor. Mas tanto que o conde ps o p na escada secreta, o estranho rumor
fz-se ouvir de novo. Cagliostro estendeu a mo que empunhava a lanterna
para descobrir-lhe  causa: viu apenas uma cobra muito grande que descia
lentamente a escada e fustigava com a cauda cada degrau sonoro.
    O rptil fitou os olhos tranqilos e pretos em Cagliostro; depois, deslizou
pelo primeiro buraco da madeira e sumiu.
    Era, sem dvida, o gnio da solido.
    O conde continuou subindo.
    Por toda aquela ascenso o acompanhava uma lembrana, ou melhor, uma
sombra; e quando, nas paredes, a luz desenhava uma silhueta mvel, o conde
estremecia, pensando que a sua sombra era uma sombra estranha, ressuscitada
para visitar tambm a misteriosa estncia.
    Assim caminhando, assim meditando, chegou at  placa do fogo que
servia de passagem entre a sala de armas de Blsamo e o perfumado retiro
de Lourena Feliciani.
     As paredes estavam nuas, os quartos vazios. No fogo ainda aberto jazia
um monto de cinzas, entre as quais cintilavam alguns lingotezinhos de ouro e
de prata.
     A cinza fina, branca e perfumada, eram os mveis de Lourena, que Blsamo
 queimara at a ltima lasca; eram os armrios de tartaruga, o cravo e o aafate
 de pau-rosa, a bela cama tauxiada de porcelana de Svres, cuja poeira miccea,
 como p de mrmore, ainda se distinguia do resto; eram as molduras e ornatos
 de metal fundidos pelo grande fogo hermtico; eram as cortinas e tapearias de
 brocado de seda; eram as caixas de alos e de sndalo, cujo perfume penetrante,
 exalando-se pelas chamins, na ocasio do incndio, aromatizara toda a zona
 de Paris por onde passara a fumaa; de sorte que, durante dois dias, os
 transeuntes haviam erguido a cabea para respirar aqueles estranhos aromas
 misturados ao nosso ar parisiense; de sorte que o lojista do bairro do mercado
 e a costureira do bairro de Santo Honorato tinham vivido embriagados por
 aqueles tomos violentos e inflamados, que a brisa arranca s vertentes do
 Lbano e s plancies da Sria.
     Esses perfumes, dizamos, guardava-os ainda o quarto deserto e frio.
 Cagliostro abaixou-se, pegou num punhado de cinzas e respirou-o por muito
 tempo com selvagem paixo.
     -- Assim pudesse eu, -- murmurou, -- absorver um resto da alma que se
 comunicava outrora a esta poeira.
   Em seguida, considerou as barras de ferro, a tristeza do ptio vizinho e, pela
 escada, os profundos estragos que o incndio provocara na casa interior, cujo
 andar superior devorara.
386                         ALEXANDRE DUMAS

    Sinistro e belo espetculo! O quarto de Althotas desaparecera e das suas
paredes s restavam sete ou oito ameias sobre as quais o fogo estendera as
suas lnguas, que devoram e enegrecem.
    A quem quer que ignorasse a histria dolorosa de Blsamo e de Lourena, era
impossvel no deplorar aquela runa. Tudo na casa respirava a grandeza abatida,
o esplendor extinto, a felicidade perdida.
    Cagliostro, portanto, deixou-se impregnar desses sonhos. O homem desceu
das alturas de sua filosofia para envolver-se de novo no pouco de humanidade
terna que so os sentimentos do corao e no pertencem ao raciocnio.
    Depois de haver evocado os suaves fantasmas da solido e dado ao cu 
parte que lhe cabia, julgou ter pago o seu tributo  fraqueza humana quando
lhe pararam os olhos num objeto brilhante ainda no meio de todo aquele
desastre e de todas aquelas misrias.
    Abaixou-se e viu, numa fenda do soalho, semi-enterrada no p, uma
flechinha de prata que parecia recm-cada dos cabelos de uma mulher.
    Era um desses alfinetes italianos que as damas do tempo gostavam de usar
para segurar os anis da cabeleira, que se tornava pesada demais depois de
empoada.
    O filsofo, o sbio, o profeta, o contemplador da humanidade, o que queria
que o prprio cu contasse com le, o homem que abafara tantas dores em si
mesmo e arrancara tantas gotas de sangue do corao dos outros, Cagliostro, o
ateu, o charlato, o ctico zombeteiro, apanhou o alfinete, aproximou-o dos
lbios e, certo de que ningum poderia v-lo, deixou que uma lgrima lhe
assomasse aos olhos, enquanto murmurava:
    -- Lourena!
    E foi tudo. Havia algo do demnio naquele homem.
    Buscava a luta e, para sua prpria felicidade, mantinha-a dentro em si.
    Depois de haver beijado ardentemente a sagrada relquia, abriu a janela,
passou o brao atravs das barras e lanou o frgil pedao de metal ao ptio
do convento vizinho, aos ramos, ao ar, ao p, sabe Deus aonde.
    Castigava-se por haver deixado falar o corao.
    -- Adeus! -- disse ao insensvel objeto que se perdia talvez
para sempre. -- Adeus, lembrana enviada para enternecer-me, para
apequenar-me sem dvida. Doravante no pensarei seno na terra.
    "Sim, esta casa vai ser profanada. Que digo? J o foi. Reabri as portas,
alumiei as paredes, vi o interior do tmulo, remexi as cinzas da morte.
    "Est, portanto, profanada a casa! Pois seja-o agora de todo e para um
benefcio qualquer!
                        O COLAR DA RAINHA                                   387

    "Uma mulher atravessar este ptio, uma mulher por os ps nesta escada,
uma mulher cantar talvez debaixo desta abbada, onde vibra ainda o ltimo
suspiro de Lourena!
    "Seja. Mas todas essas profanaes ocorrero com uma finalidade, com a
finalidade de servir a minha causa. Se Deus perde com isso, Satans h de
ganhar."
    Pousou a lanterna na escada.
    -- Toda esta escada, -- continuou, -- cair. Cair tambm a casa interior.
Dissipar-se- o mistrio, o palcio ser esconderijo e deixar de ser santurio.
    Escreveu  pressa na carteira estas linhas:
        "Ao Sr. Lenoir, meu arquiteto:
        "Limpar o ptio e os vestbulos; restaurar as cozinhas e cocheiras;
      demolir o pavilho interno; reduzir a casa a dois andares: oito dias."
   -- Agora, -- disse le, -- vamos a ver se se avista daqui a janela da
condessinha.
   Abeirou-se de uma janela no segundo pavimento, de onde se via toda a
fachada oposta da Rua de So Cludio por cima do porto.
    Defronte, a uns sessenta metros no mximo, erguia-se a casa ocupada por
Joana de La Motte.
    --  infalvel, as duas se vero, -- observou Cagliostro. -- Bem.
    Retomou a lanterna e desceu a escada.
    Uma hora depois estava em casa e mandava as suas instrues ao arquiteto.
    Cumpre dizer que, desde o dia seguinte, cinqenta operrios invadiram o
palcio; o martelo, a serra e as picaretas ressoaram em toda parte; o mato,
amontoado comeou a fumegar num canto do ptio; e  noite, ao voltar para
casa, o transeunte, fiel  sua cotidiana inspeo, viu uma ratazana pendurada
por uma pata sob um arco de pipa no ptio, no centro de um crculo de
pedreiros, que lhe escarneciam dos bigodes agrisalhados e da venervel
obesidade.
    O silencioso habitante do palcio vira-se emparedado no seu buraco pela
queda de uma pedra. Semimorto quando o guindaste ergueu a pedra, foi
agarrado pelo rabo e sacrificado ao divertimento dos pedreiros da Auvergne;
fosse de vergonha, fosse por asfixia, o caso  que morreu.
    O transeunte fez esta orao fnebre:
    -- A est um cara que gozou dez anos!
                           Sic transit gloria mundi.
   Em oito dias se restaurou a casa, como Cagliostro ordenara ao arquiteto.
                                    XLVII
                                Joana protetora

    DOIS DIAS aps sua visita a Boehmer, o Sr. Cardeal de Rohan recebeu um
bilhete deste teor:
    "Sua Eminncia o Sr. Cardeal de Rohan sabe sem dvida onde cear hoje
 noite".
    -- Da condessinha, -- disse le, cheirando o papel. -- Irei.
    Expliquemos porque a Sra. de La Motte pedia a entrevista ao cardeal.
    Dos cinco lacaios postos a seu servio por Sua Eminncia, havia ela
distinguido um, de cabelos negros, olhos castanhos, com as cores floridas do
sanguneo misturadas  slida carnao do bilioso. Eram, para a observadora,
sintomas todos de uma organizao ativa, inteligente e pertinaz.
    Mandou chamar o homem e, quinze minutos depois, obteve da sua
docilidade e da sua perspiccia quanto quis arrancar-lhe.
    O homem seguiu o cardeal e informou-a de que vira Sua Eminncia ir duas
vezes em dois dias  casa dos Srs. Boehmer e Bossange.
    Joana j sabia o suficiente. Um homem como o Sr. de Rohan no regateia.
Hbeis negociantes como Boehmer no deixam fugir um comprador.                O
colar fora vendido.
    Vendido por Boehmer.
    Comprado pelo Sr. de Rohan! E este ltimo no dissera, a respeito, nem
uma palavra  sua confidente,  sua amante!
    Era grave o sintoma. Joana franziu a testa, mordeu os lbios finos e dirigiu
ao cardeal o bilhete que lemos.
    O Sr. de Rohan apareceu  noite. Fizera-se preceder de uma cesta com
garrafas de vinho de Tokai e outras coisas raras, exata-mente como se fosse
cear em casa da Guimard ou da Srta. Dangeville.
    A circunstncia, como tantas outras, no escapou a Joana; nada serviu do que
mandara o cardeal; mas, encetando a conversao com certa ternura, quando
ficaram a ss:
    -- Sinceramente, Monsenhor, -- disse ela, -- uma coisa me aflige
muitssimo.
                    O COLAR DA RAINHA                                  389

-- Qual, condessa? -- acudiu o Sr. de Rohan com essa afetao de
contrariedade que nem sempre  sinal de que se est realmente
contrariado.
-- A causa da minha mortificao, Monsenhor,  ver, no que j deixastes
de amar-me, porque nunca me amastes...
-- Oh! condessa, que estais dizendo!
-- No vos desculpeis, Monsenhor, que seria tempo perdido.
-- Para mim, -- disse, galante, o cardeal.
-- No, para mim, -- respondeu francamente a Sra. de La Motte. --
Alis...
-- Oh! condessa, -- tornou o cardeal.
-- No vos desoleis, Monsenhor, que isso me  perfeitamente indiferente.
-- Que eu vos ame ou no?
-- Sim.
-- E por qu?
-- Porque eu no vos amo.
-- Sabeis, condessa, que no  lisonjeiro o que me fazeis a honra de dizer?
-- Realmente, no estamos comeando com delicadezas; mas  um fato,
constatemo-lo.
-- Que fato?
-- Que nunca vos amei, Monsenhor, e que tambm nunca me amastes.
-- Oh! quanto a mim, no se deve dizer isso, -- exclamou o prncipe, em
tom quase sincero. -- J vos dediquei muita afeio,condessa. No me
coloqueis, portanto, em p de igualdade convosco.
-- Ora, Monsenhor, estimemo-nos o suficiente para dizer a verdade.
-- E a verdade, qual ?
-- H entre ns um elo bem mais forte que o amor.
-- Qual?
-- O interesse.
-- O interesse? No digais isso, condessa!
-- Dir-vos-ei, Monsenhor, como da forca dizia ao filho o campons
normando: Se te repugna, no faas que repugne aos outros. No vos
interessa o interesse, Monsenhor? Ora. ..
-- Pois vamos a ver, condessa: vamos supor que estamos interessados; em
que posso servir eu os vossos interesses, e vs os meus?
-- Em primeiro lugar, Monsenhor, e antes de qualquer outra coisa, estou
com vontade de tomar-vos satisfaes.
-- Tomai-as, condessa.
-- Tivestes, para comigo, uma falta de confiana e, portanto,de estima.
-- Eu! Quando foi isso, por favor?
390                     ALEXANDRE DUMAS

   -- Quando? Porventura negareis que, depois de me haverdes arrancado
   pormenores que eu estava morrendo por contar-vos...
   -- Sobre o que, condessa?
   -- Sobre o gosto de certa grande dama por certa coisa, vs vos dispusestes
   a satisfaz-lo sem me consultar?
   -- Arrancar pormenores, adivinhar o gosto de certa dama por certa coisa,
   satisfazer esse gosto! Na verdade, condessa, sois um enigma, uma esfinge.
   Ah! eu j tinha visto a cabea e o colo da mulher, mas ainda no vira as
   garras do leo. Parece que pretendeis mostrar-mas. Seja.
   -- No vos mostrarei coisa alguma, Monsenhor, visto que j no tendes
   desejo de ver. Dar-vos-ei pura e simplesmente a chave do enigma: os
   pormenores  o que se passou em Versalhes; o gosto de certa dama  a
   rainha; e a satisfao dada ao gosto da rainha foi  compra que fizestes
   ontem aos Srs. Boehmer e Bossange do famoso colar.
   -- Condessa! -- murmurou o cardeal, plido e vacilante.
   Joana fitou nele o seu mais claro olhar.
   -- Por que, -- perguntou, -- me olhais assim com ar to espantado? No
fechastes negcio ontem com os ourives do cais da Escola?
   Um Rohan no mente, nem sequer a uma mulher. Calou-se o cardeal.
   E quando j ia corar, desprazer que um homem nunca perdoa  mulher
que o provoca, Joana apressou-se em tomar-lhe a mo.
   -- Perdo, meu prncipe, -- continuou, -- quero dizer-vos logo em que vos
   enganveis a meu respeito. -- Julgaste-me tola e m, no foi?
   -- Oh! oh! condessa.
   -- Enfim...
   -- Nem mais uma palavra; deixai-me falar agora. Eu talvez consiga
   persuadir-vos, pois vejo claramente com quem estou tratando.           Eu
   supunha encontrar em vs uma mulher bonita, uma mulher inteligente,
   uma encantadora amante; sois mais do que isso. Escutai.
   Chegou-se Joana ao cardeal, deixando a mo entre as mos dele.
   -- Quisestes ser minha amante, minha amiga, sem me amar. Vs mesma
   o dissestes, -- prosseguiu o Sr. de Rohan.
   -- Disse e repito, -- confirmou a Sra. de La Motte.
   -- Tnheis, ento, um objetivo?
   -- Evidentemente.
   -- Que objetivo, condessa?
   -- Ser necessrio que eu vo-lo explique?
                       O COLAR DA RAINHA                                391

-- No; j o adivinhei. Quereis fazer a minha fortuna. E no est claro
que, feita a minha fortuna, o meu primeiro cuidado ser o de garantir a
vossa? E isso ou estou enganado?
-- No estais enganado, Monsenhor,  isso mesmo.                 Entretanto,
sinceramente, no persegui esse objetivo entre antipatias e repugnncias: o
caminho tem sido agradvel.
-- Sois amvel, condessa, e  um prazer falar de negcios convosco. Eu
dizia, portanto, que adivinhastes. Sabeis que dedico uma respeitosa afeio
a certa pessoa?
-- Percebi-o no baile da pera, meu prncipe.
-- Essa afeio nunca ser retribuda. Deus me livre de cr-lo!
-- Ora! -- acudiu a condessa, -- uma mulher no  sempre rainha, e vs,
que eu saiba, no ficais nada a dever ao Sr. Cardeal Mazarino.
-- Era tambm um belssimo homem, -- disse, rindo, o Sr. De Rohan.
-- E excelente primeiro ministro, -- emendou Joana com a maior calma
do mundo.
-- Diante de vs, condessa, no adianta pensar, e  uma redundncia
falar. Pensais e falais pelos amigos. Sim, pretendo ser primeiro ministro.
Tudo me leva a isso: o nascimento, o hbito dos negcios, certa
benevolncia que me demonstram as cortes               estrangeiras, a muita
simpatia que me dedica o povo francs.
-- Tudo enfim, -- observou Joana, -- exceto uma coisa.
-- Exceto uma repugnncia,  o que quereis dizer?
-- Sim, de parte da rainha; e essa repugnncia  o verdadeiro obstculo.
O que a rainha quer, fora  que o rei acabe querendo tambm; e o que ela
odeia, o rei detesta antes dela.
-- E ela me odeia?
-- Oh!
-- Sejamos francos. No creio que possamos parar em to belo caminho,
condessa.
-- Pois bem, Monsenhor, a rainha no vos quer bem.
-- Ento, estou perdido! No h colar que me valha.
-- Pois  nisso que podeis enganar-vos, prncipe.
-- O colar foi comprado!
-- Pelo menos ver a rainha que, se ela no vos ama, vs a amais.
-- Condessa!
-- Combinamos chamar as coisas pelo nome, Monsenhor!
-- Seja. Dizeis, ento, que no desesperais de ver-me, um dia,primeiro
ministro?
-- Tenho certeza disso.
-- Eu no me perdoaria se deixasse de perguntar-vos quais so as vossas
ambies.
392                         ALEXANDRE DUMAS

   -- Eu vo-las direi, prncipe, quando estiverdes em condies
   de satisfaz-las.
   -- Isso  que  falar! Estarei  vossa espera nesse dia.
   -- Obrigada; agora, vamos cear.
    O cardeal pegou na mo de Joana e apertou-a como Joana tanto desejara
que a sua mo fosse apertada alguns dias antes. Mas esse tempo j passara.
    Retirou a mo.
   -- E ento, condessa?
   -- Vamos cear, Monsenhor.
   -- J no tenho fome.
   -- Nesse caso, conversemos.
   -- J no tenho o que dizer.
   -- Separemo-nos.
   --  a isso que chamais a nossa aliana? Estais-me despedindo?
   -- Para sermos realmente sinceros um com o outro, Monsenhor,
   -- replicou ela, -- cumpre que primeiro sejamos sinceros conosco.
   -- Tendes razo, condessa; perdo se ainda uma vez me enganei a vosso
   respeito. Mas juro que ser a ltima.
    Retomou-lhe a mo e beijou-a to respeitosamente, que no viu o sorriso
sarcstico, diablico, da condessa, no momento em que se ouviram estas
palavras:
    "Ser a ltima vez que me enganarei a vosso respeito".
    Joana levantou-se, reconduziu o prncipe  antecmara. L, perguntou,
baixinho:
   -- E o resto, condessa?
   --  muito simples.
   -- Que hei de fazer?
   -- Nada. Esperai por mim.
   -- E ireis?
   -- A Versalhes.
   -- Quando?
   -- Amanh.
   -- Terei a resposta?
   -- Imediatamente.
   -- Muito bem, minha protetora, entrego-me em vossas mos.
   -- Deixai tudo a meu cargo.
    Dito isso, ela recolheu-se, deitou-se e, considerando vagamente o belo
Endimio de mrmore que esperava Diana:
   -- Decididamente vale mais a liberdade, -- murmurou.
                                   XLVIII


                               Joana protegida

    Senhora de um segredo to importante, rica de to brilhante futuro,
apoiada em dois esteios to considerveis, Joana se sentiu com foras para
levantar o mundo.
    Deu a si mesma quinze dias de prazo para comear a morder com vontade
o saboroso cacho que a fortuna lhe suspendia sobre a cabea.
    Aparecer na corte, no mais como solicitante, no mais como a pobre
mendiga recolhida pela Sra. de Boulainvilliers, seno como descendente dos
Valois, com cem mil libras de renda, um marido duque e par, ser chamada
favorita da rainha e, naquela quadra de intrigas e borrascas, governar o Estado
governando o rei atravs de Maria Antonieta, tal era o panorama que se
desenvolveu diante da imaginao inexaurvel da Condessa de La Motte.
    Mal surgiu o dia, abalou-se para Versalhes. No tinha audincia marcada;
mas a f que principiava depositar em sua fortuna era tal, que j no duvidava
de que a prpria etiqueta se sujeitaria ao seu desejo.
    E tinha razo.
    Todos os cortesos, to solcitos no adivinhar os gostos do amo, j tinham
observado o prazer que sentia Maria Antonieta na sociedade da linda
condessa.
    Foi o bastante para que,  sua chegada, um porteiro inteligente, desejoso
de fazer-se notar, se colocasse  passagem da rainha, que vinha da capela, e l
como que por acaso, pronunciasse diante do fidalgo de servio estas palavras:
    -- Senhor, que hei de fazer com a Sra. Condessa de La Motte Valois, que
no tem audincia marcada?
    A rainha estava conversando em voz baixa com a Sra. de Lamballe. O
nome de Joana, habilmente proferido pelo homem, interrompeu-lhe a
conversao.
    Voltou-se.
    -- Esto dizendo, -- perguntou, -- que a Sra. de La Motte Valois est a?
    -- Creio que sim, Majestade, -- replicou o gentil-homem.
    -- Quem foi?
394                         ALEXANDRE DUMAS

   -- Este porteiro.
   Inclinou-se modestamente o porteiro.
   -- Receberei a Sra. de La Motte Valois, -- declarou a rainha,continuando
o seu caminho.
   E, antes de retirar-se:
   -- Conduzi-a a sala dos banhos, -- acrescentou.
   E passou.
   Joana, a quem o homem referiu simplesmente o que acabara de fazer,
levou imediatamente a mo  bolsa, mas o porteiro a deteve com um sorriso.
   -- Sra. Condessa, -- disse ele, -- tende a bondade de acumular essa dvida;
logo ma pagareis com maiores juros.
   Joana reps o dinheiro no bolso.
   -- Tendes razo, meu amigo, obrigada.
    E por que, disse consigo s, no haveria eu de proteger um porteiro que
me protegeu? Fiz o mesmo por um cardeal!
   Pouco tempo depois, estava em presena da soberana.
    Encontrou Maria Antonieta sria, aparentemente pouco disposta, talvez
porque houvesse favorecido em demasia a condessa com uma recepo
inesperada.
   No ntimo, pensou a amiga do Sr. de Rohan, a rainha imagina que vim
mendigar outra vez... Antes que eu tenha pronunciado vinte palavras, o seu
semblante se ter desanuviado ou me tero jogado na rua.
   -- Senhora, -- disse a rainha, -- ainda no achei ocasio de falar ao rei.
   -- Vossa Majestade j foi boa demais para mim, e no espero mais nada.
   Voltei aqui...
   -- Por qu? -- interrompeu a rainha, hbil em perceber as transies.
   -- No haveis pedido audincia. H urgncia talvez... para vs?
   -- Urgncia... Sim, senhora; mas no para mim...
   -- Para mim, ento... Falai, condessa.
    E conduziu Joana  sala dos banhos, onde a esperavam as criadas.
   -- Senhora, -- comeou Joana, -- Vossa Majestade v-me bem embaraada.
   -- Eu no disse?...
   -- Vossa Majestade sabe, pois creio haver-lho dito, que o Sr.Cardeal de
   Rohan tem-se empenhado, com muita delicadeza, em obsequiar-me.
   A rainha franziu o cenho.
   -- No sei, -- repontou.
   -- Eu supunha...
   -- No importa... Falai.
                        O COLAR DA RAINHA                                    395

    -- Pois bem, senhora, Sua Eminncia me fez a honra de visitar-me
    anteontem.
    -- Ah!
    -- Por causa de uma obra de beneficncia que estou organizando.
    -- Muito bem, condessa, muito bem. Tambm contribuirei... para a vossa
    obra de beneficncia.
    -- Engana-se Vossa Majestade. Tive a honra de dizer-lhe que no vim
    pedir nada. O Sr. Cardeal, como  do seu costume, falou-me da bondade
    da rainha, da sua graa inexaurvel.
    -- E pediu que eu lhe protegesse os protegidos?
    -- Sim, Majestade.
    -- Pois hei de faz-lo, no pelo Sr. Cardeal, mas pelos desgraados que
    acolho sempre bem, venham de onde vierem. Entretanto, dizei a Sua
    Eminncia que no estou muito bem de finanas.
    -- Ah! senhora, foi exatamente o que eu lhe disse, e vem da o embarao
    que referi a Vossa Majestade.
    -- Ah! ah!
    -- Eu descrevia ao Sr. Cardeal a caridade to ardente que enche o corao
    de Vossa Majestade,  notcia de um infortnio qualquer,a generosidade que
    lhe esvazia constantemente a bolsa, sempre mui to apertada.
    -- Bem! bem!...
    -- "Vede, Monsenhor, por exemplo," disse-lhe eu.           "Sua Majestade se
    torna escrava das prprias bondades.       Sacrifica-se pelos pobres. O bem
    que faz resulta-lhe mal"... E a esse respeito acusei-me a mim mesma.
    -- Como assim, Condessa? -- atalhou a rainha, que escutava, j porque
    Joana- tivesse sabido interessar-lhe o fraco, j que o seu esprito elevado
    percebesse, sob o longo prembulo, um vivo interesse, resultante para ela
    da preparao.
    -- Eu disse, senhora, que Vossa Majestade me havia dado uma soma
    respeitvel alguns dias antes; que, de dois anos a esta parte,isso devera ter
    acontecido pelo menos mil vezes  rainha, e que se a rainha fosse menos
    sensvel, menos generosa, teria dois milhes em caixa, graas aos quais
    nenhuma considerao a impediria de ficar com aquele formoso colar de
    brilhantes, to nobremente, to corajosamente, mas, permita-me diz-lo,
    senhora, to injustamente rejeitado.
     A rainha corou e ps-se de novo a olhar para Joana. A concluso
encerrava-se evidentemente na ltima frase. Haveria ali algum lao? Ou seria
uma simples adulao? Assim colocada  questo, havia decerto perigo para
uma rainha. Mas Sua Majestade encontrou no rosto de Joana tanta doura, to
cndida benevolncia e uma verdade to pura, que nada podia acusar-lhe a
fisionomia de ser prfida ou aduladora.
396                         ALEXANDRE DUMAS

   E como apropria rainha tivesse uma alma verdadeiramente generosa, e na
generosidade h sempre fora, e na fora h sempre uma slida verdade, disse
Maria Antonieta despedindo um suspiro:
   -- Sim, o colar  bonito; isto , era bonito, e folgo muito que uma mulher
   de bom gosto me louve o hav-lo rejeitado.
   -- Se soubesse, senhora, -- exclamou Joana, cortando oportunamente a
   frase, -- como a gente acaba conhecendo os sentimentos das pessoas
   quando se interessa por aqueles que essas pessoas querem bem!
   -- Que quereis dizer?
   -- Quero dizer, senhora, que vi empalidecer o Sr. de Rohan ao saber do
   seu herico sacrifcio do colar.
   -- Empalidecer!
   -- Os seus olhos se encheram imediatamente de lgrimas. No sei, senhora,
   se o Sr. de Rohan  realmente o belo homem e o per feito cavalheiro que
   muita gente apregoa; s sei que, nesse mo mento, o seu rosto, iluminado
   pelo fogo de sua alma, e todo riscado das lgrimas provocadas pelo
   generoso desinteresse, que digo? pela sublime renncia           de Vossa
   Majestade, nunca mais me sair da lembrana.
   Demorou-se a rainha um momento para fazer cair  gua do bico de cisne
dourado que lhe mergulhava na banheira de mrmore.
   -- Pois bem, condessa, -- disse ela, -- visto que o Sr. de Rohan vos
   pareceu to belo e to perfeito, como acabais de dizer, no vos
   aconselho a demonstr-lo em presena dele.           um prelado mundano,
   um pastor que toma a ovelha tanto para si quanto para o Senhor.
   --                      Oh! senhora.
   -- Que foi? Acaso o estou caluniando? No  essa a sua reputao? le
   mesmo no faz disso gala? No o vedes, nos dias de cerimnia, agitar no ar
   as belas mos, que so realmente belas, para torn-las mais brancas ainda, e
   nessas mos, em que refulge o anel pastoral, cravam as devotas olhos mais
   brilhantes do que o brilhante do cardeal?
   Joana inclinou-se.
   -- Os trofus do cardeal, -- prosseguiu a rainha, arrebatada,-- so
   numerosos. Alguns fizeram escndalo. O prelado  um amo roso como os
   da Fronda. Louve-o quem quiser por isso, mas eu nunca o farei.
   -- No sei, senhora, -- volveu Joana, sentindo-se  vontade ante aquela
   familiaridade, como tambm ante a situao puramente fsica da
   interlocutora, -- no sei se o Sr. Cardeal estava pensando nas devotas
   quando me falou com tanto ardor das virtudes de Vossa Majestade; mas sei
   que as suas belas mos no estavam no ar, estavam postas sobre o seu
   corao.
                        O COLAR DA RAINHA                                  397

   A rainha sacudiu a cabea com riso forado.
    -- Oh! -- pensou Joana, -- dar-se- que as coisas vo melhor do que o
supnhamos? Ser porventura o despeito nosso auxiliar? As facilidades, nesse
caso, aumentaro.
    A rainha no tardou em reassumir o ar nobre e indiferente.
    -- Continuai, -- ordenou.
    -- Vossa Majestade deixa-me gelada; essa modstia que a faz repelir o
    prprio louvor.. .
    -- Do Cardeal? Sim.
    -- Mas por que, senhora?
    -- Porque le me  suspeito, condessa.
    -- J no me cabe, -- voltou Joana com o mais profundo respeito, --
    defender quem teve a suprema desdita de incorrer no de sagrado de Vossa
    Majestade; h de ser bem culpado, sem dvida,visto que desagradou 
    rainha.
    -- O Sr. de Rohan no me desagradou; ofendeu-me.           Entre tanto, sou
    rainha e crist; duplamente levada, por conseguinte, a esquecer as ofensas.
    E Maria Antonieta pronunciou essas palavras com a majestosa bondade
que lhe era peculiar. Calou-se Joana.
    -- No dizeis mais nada?
    -- Eu me tornaria suspeita a Vossa Majestade, incorreria no seu
    desagrado, mereceria a sua censura, se exprimisse uma opinio contrria 
    sua.
    -- Pensais o contrrio do que penso em relao ao cardeal?
    -- Exatamente o oposto, senhora.
    -- No falareis assim no dia em que souberdes o que fez contra mim o
    Prncipe Lus.
    -- Sei apenas o que o vi fazer pelo servio de Vossa Majestade.
    -- Galanterias?
    Joana inclinou-se.
    -- Finezas, votos, cumprimentos? -- continuou a rainha.
    Joana calou-se.
    -- Voltais ao Sr. de Rohan grande amizade, condessa; no tornarei a atac-
lo diante de vs.
    E a rainha desatou a rir.
    -- Senhora, -- respondeu Joana, -- prefiro a clera  zombaria de
    Vossa Majestade.       O sentimento que o Sr. Cardeal dedica a Vossa
    Majestade  to respeitoso que, se a visse escarnec-lo, morreria, tenho
    certeza.
    -- Oh! oh! Nesse caso, le deve ter mudado muito.
     --       Mas Vossa Majestade fez a honra de dizer que, j h dez anos,
     o Sr. de Rohan estava apaixonadamente...
     --       Foi uma brincadeira, -- atalhou severa, a soberana.
398                          ALEXANDRE DUMAS

    Obrigada a calar-se, Joana pareceu  rainha resignada a depor as armas;
enganava-se, entretanto, Maria Antonieta. Para essas mulheres, natureza de tigre
e de serpente, o momento em que se encolhem  sempre o preldio do ataque: o
repouso concentrado precede o mpeto.
    -- Falastes nos brilhantes -- sobreveio, imprudente, a rainha.-- Confessai
    que andastes pensando neles.
    -- Dia e noite, senhora, -- tornou Joana, com a alegria de um general que,
    no campo de batalha, v o inimigo cometer um erro decisivo. -- So to
    belos, ficaro to bem em Vossa Majestade!
    -- Como assim?
    -- Em Vossa Majestade, sim.
    -- Mas esto vendidos!
    -- Esto.
    -- Ao embaixador de Portugal?
    Joana sacudiu mansamente a cabea.
    -- No? -- perguntou a rainha, jubilosa.
    -- No, senhora.
    -- A quem, ento?
    -- Comprou-os o Sr. de Rohan.
    A rainha estremeceu; mas, logo, com frieza:
    -- Ah! -- exclamou.
    -- Veja, senhora, -- continuou Joana com eloqncia fogosa e arrebatada,
-- o que o Sr. de Rohan est fazendo  soberbo,  um gesto de
generosidade, de bom corao; um belo gesto! Uma alma como a de Vossa
Majestade no pode menos de simpatizar com tudo o que  bom e sensvel.
Assim que o Sr. de Rohan soube,por mim, confesso-o, das momentneas
dificuldades de Vossa Majestade, exclamou:
    "Como! A rainha de Frana recusa o que no se atreveria a recusar a
mulher de um burgus endinheirado? A rainha expe--se a ver um dia a Sra.
Necker galhardeando esses brilhantes?"
    "O Sr. de Rohan ainda no sabia que o embaixador de Portugal havia
comeado a negoci-los. Contei-lho eu. A sua indignao redobrou:" J no 
", disse le," uma questo de proporcionar um prazer  rainha,  uma questo
de dignidade real. Conheo o esprito das cortes estrangeiras, a sua vaidade e
ostentao; zombaro da rainha de Frana, que j no tem dinheiro para
satisfazer um desejo legtimo! Hei de acaso permitir que zombem da rainha
de Frana? Nunca!" E deixou-me precipitadamente. Uma hora depois, eu
soube que le havia comprado os brilhantes".
    -- Um milho e quinhentas mil libras?
    -- Um milho e seiscentas mil.
    -- E qual foi a sua inteno ao compr-los?
                        COLAR DA RAINHA                                 399

   -- Visto que no podiam pertencer a Vossa Majestade, Sua Eminncia no
   quer que pertenam a mais ningum.
   -- E tendes certeza de que no foi para presentear com ele alguma
   amante que o Sr. de Rohan comprou o colar?
   -- Tenho certeza de que foi antes para dar cabo dele do que o ver brilhar
   em outro pescoo que no o de Vossa Majestade.
    Maria Antonieta refletiu, e em sua nobre fisionomia transpareceu, sem
nuvens, tudo o que se lhe passava na alma.
   -- O que fez o Sr. de Rohan foi bem feito, -- disse ela; -- um gesto nobre
e delicado.
   Joana absorvia-lhe ardentemente as palavras.
   -- Agradecereis, portanto, ao Sr. de Rohan, -- continuou a rainha.
   -- Oh! sim, senhora.
   -- Acrescentareis que a amizade do Sr. de Rohan me ficou provada, e
   que eu, como um homem de bem, como diz Catarina,tudo aceito da
   amizade, reservando-me o direito da retribuio. Por conseguinte,
   aceito, no o presente do Sr. de Rohan...
   -- O que, ento?
   -- O seu adiantamento... O Sr. de Rohan teve a bondade de adiantar-me
   dinheiro, ou crdito, para ser-me agradvel.         Hei de reembols-lo.
   Boehmer, se no me engano, pedira uma parte  vista?
   -- Sim, senhora.
   -- Quanto? Duzentas mil libras?
   -- Duzentas e cinqenta mil.
   --  o trimestre da penso que me d o rei.       Mandaram-na hoje cedo;
adiantada, eu sei, mas o fato  que j est comigo.
    A rainha chamou rapidamente as criadas, que a vestiram, depois de t-la
envolvido em finas cambraias aquecidas.
    Ficando a ss com Joana, e reinstalada em seu quarto, disse ela 
condessa:
   -- Fazei-me o favor de abrir aquela gaveta.
   -- A primeira?
   -- No, a segunda. Estais vendo uma carteira?
   -- Ei-la, senhora.
   -- Contm duzentas e cinqenta mil libras. Contai-as.
   Joana obedeceu.
    --       Levai-as ao cardeal. Tornai a agradecer-lhe. Dizei-lhe que todo
ms darei um jeito de pagar assim.       Depois acertaremos os juros. Dessa
maneira, terei o colar que tanto me agradava e, ainda que me sacrifique para
pag-lo, pelo menos no sacrificarei o rei.
   Recolheu-se por um minuto.
400                         ALEXANDRE DUMAS

   -- E terei ganho com isso, -- continuou, -- a certeza de que tenho um
amigo delicado que me serviu...
   fez nova pausa.
   -- E uma amiga que me adivinhou, -- concluiu, oferecendo a mo a
Joana, que sobre ela se precipitou.
   Logo, como fosse sair, depois de haver hesitado ainda uma vez:
   -- Condessa, -- disse baixinho, como se tivesse medo do que estava
dizendo, -- direis ao Sr. de Rohan que ser bem-vindo em Versalhes e que
desejo apresentar-lhe os meus agradecimentos.
   Atirou-se Joana para fora do aposento, no bbeda, mas insensata de alegria
e de orgulho satisfeito.
   Apertava as notas de banco como um abutre aperta a presa roubada.
                                     XLIX
                              A carteira da rainha

    Ningum sentiu mais a importncia da fortuna, no sentido prprio e
figurado, que levava Joana de Valois, do que os cavalos que a reconduziram
de Versalhes a Paris. Se j houve cavalos empenhados em ganhar um prmio, e
voassem em vez de correr, foram sem dvida queles dois pobres animais de
praa.
    Estimulado pela condessa, o cocheiro deu-lhes a entender que eram os
algeros quadrpedes do pas de Elis, c que se tratava de ganhar dois talentos de
ouro para o amo, e uma triplicada rao de cevada para eles.
    O cardeal ainda no havia sado, quando a Sra. de La Motte chegou  sua
casa, no meio dos seus criados e familiares.
    Fz-se anunciar ainda mais cerimoniosamente do que em Versalhes.
    -- Estais chegando do pao?
    -- Estou, Monsenhor.
le a examinava; ela permanecia impenetrvel. Ela o viu estremecer,
entristecer-se, sentir-se mal, mas no se condoeu.
    -- E ento? -- perguntou o prelado.
    -- E ento? Vamos, Monsenhor, que desejais? Dizei qualquer coisa, a fim
    de que eu no precise censurar-me tanto.
    -- Ah! condessa, estais-me dizendo isso com uns modos!...
    -- Que entristecem, no ?
    -- Que matam.
    -- Quereis que eu me avistasse com a rainha?
    --                                    Queria.
    -- Pois avistei-me. Quereis que ela me deixasse falar em vs,ela que vrias
    vezes demonstrara repulsa e descontentamento ou vindo pronunciar o
    vosso nome?
    -- Se j tive esse desejo, vejo agora que me cumpre desistir de v-lo
    satisfeito.
    -- No, a rainha me falou de vs.
    -- Ou melhor, tivestes a bondade de falar-lhe de mim?
    --  verdade.
402                        ALEXANDRE DUMAS

   -- E Sua Majestade ouviu?
   -- Isso precisa de uma explicao.
   -- Nem mais uma palavra, condessa: vejo quanta repugnncia
   teve Sua Majestade...
   -- Nem tanta... Atrevi-me a falar do colar.
   -- A dizer que pensei...
   -- Sim, compr-lo para ela.
   -- Oh! condessa,  sublime! E ela ouviu?
   -- Ouviu.
   -- Dissestes-lhe que eu lhe oferecia os brilhantes?
   -- Ela recusou.
   -- Estou perdido.
   -- Recusou aceitar o presente; mas o emprstimo...
   -- O emprstimo?...          Tereis dado uma cor to delicada ao meu
   oferecimento?
   -- To delicada, que ela aceitou.
   -- Eu emprestar  rainha!...' Ser possvel, condessa?
   -- Emprestar vale mais do que dar, no  verdade?
   -- Mil vezes.
    -- Era o que eu pensava. No entanto, Sua Majestade aceita.Levantou-se
o cardeal e tornou a sentar-se. Abeirou-se de Joana e, travando-lhe das mos:
   -- No me enganeis, -- disse le. -- Observai que, com uma palavra,
   podeis fazer de mim o ltimo dos homens.
   -- No se brinca com as paixes, Monsenhor; isso s  permitido com o
   ridculo; e os homens da vossa posio e com os vossos mritos nunca
   podem ser ridculos.
   --  verdade. Ento, o que me estais dizendo...
   --  a purssima verdade.
   -- H um segredo entre mim e a rainha?
   -- Um segredo... mortal.
    O cardeal correu para Joana e apertou-lhe ternamente a mo.
   -- Gosto desse aperto de mo, -- disse a condessa; --  um aperto de
   homem para homem.
   -- De um homem feliz para um anjo protetor.
   -- Monsenhor, no exagereis.
   -- Oh! sim, minha alegria, meu reconhecimento... nunca...
   -- Mas estais exagerando. No quereis emprestar um milho e meio 
   rainha?
   Suspirou o cardeal.
   -- Buckinghan teria pedido outra coisa a Ana d'ustria, Monsenhor,
depois de ver as suas prolas espalhadas pelo soalho do quarto real.
    -- O que Buckinghan obteve, condessa, no quero sequer de desejar, nem
mesmo em sonhos.
                        O COLAR DA RAINHA                                   403

    -- Explicar-vos-eis sobre isso com a rainha, Monsenhor, pois ela vos
manda avisar que vos ver com prazer em Versalhes.
    No acabara a imprudente de pronunciar essas palavras, e o cardeal
empalideceu como um adolescente ao primeiro beijo de amor.
    Agarrou-se, tateando como um bbedo,  primeira poltrona que
encontrou.
    -- Ah! ah! -- pensou Joana, -- isto  mais srio ainda do que eu pensava;
eu havia sonhado com o ducado, o pariato, cem mil libras de rendas! Pois
irei at o principado, at ao meio milho de rendas; o Sr. de Rohan no
trabalha por ambio nem por avareza, trabalha por amor!
    O Sr. de Rohan logo tornou em si. A alegria no  doena que dure
muito tempo, e como le tivesse um esprito slido, achou conveniente falar de
negcios com Joana, a fim de faz-la esquecer que acabava de falar de amor.
    A condessa no se ops.
    -- Minha amiga, -- disse le, apertando-a nos braos, -- que pretende
    fazer a rainha do emprstimo que lhe supusestes?
    -- Perguntais-me isso porque se propala que a rainha no tem dinheiro?
    -- Exatamente.
    -- Ela pretende pagar-vos como pagaria a Boehmer, com uma diferena: se
    tivesse comprado de Boehmer, Paris inteira o saberia;ora, isso tornou-se
    impossvel depois da famosa frase do navio, pois se ela deixasse o rei
    constrangido, deixaria toda a Frana carrancuda.A rainha quer, portanto, os
    brilhantes pouco a pouco, e quer pag-los pouco a pouco.            Vs lhe
    fornecereis a ocasio; sois um tesoureiro discreto, um tesoureiro solvvel,
    para o caso em que ela se veja em dificuldades, mais nada; ela est contente
    e pagar. No peais mais nada.
    -- Pagar! Como?
    -- A rainha, mulher que compreende tudo, sabe perfeitamente que estais
    endividado, Monsenhor; alm disso,  altiva, no  uma amiga que receba
    presentes... Quando eu lhe disse que haveis adiantado duzentas e
    cinqenta mil libras...
    -- Pois lho dissestes?
    -- Por que no?
    -- Era impossibilitar-lhe de plano o negcio.
    -- Era fornecer-lhe o meio, a razo para aceit-lo. Nada por nada, tal  a
    sua divisa.
    -- Meu Deus!
    Joana enfiou tranqilamente a mo no bolso e dele tirou a carteira de Sua
Majestade.
    -- Que  isso? -- perguntou o Sr. de Rohan.
404                         ALEXANDRE DUMAS

   -- Uma carteira com duzentas e cinqenta mil libras em notas.
   -- Deveras?
   -- Que a rainha vos envia com os seus agradecimentos.
   -- Oh!
   -- A quantia est certa. Eu contei.
   -- No se trata disso.
   -- Mas que estais olhando?
   -- Estou olhando a carteira, que no vos conhecia.
   -- Agrada-vos? No  bonita nem rica.
   -- Agrada-me, no sei por qu.
   -- Tendes bom gosto.
   -- Estais caoando? Por que dizeis que tenho bom gosto?
   -- Porque tendes o mesmo gosto da rainha.
   -- Essa carteira...
   -- Era dela, Monsenhor...
   -- E querei-la muito?
   -- Muitssimo.
   O Sr. de Rohan suspirou.
   -- Concebe-se, -- disse le.
   -- Entretanto, se vos agrada, -- tornou a condessa com esse sorriso que
   perde os santos.
   -- Sabeis que sim, condessa; mas no quero privar-vos dela.
   -- Guardai-a.
   -- Condessa! -- bradou o cardeal no auge do contentamento,-- sois a
   amiga mais preciosa, mais inteligente, mais...
   -- Sim, sim.
   -- E seremos amigos?...
   -- Para todo o sempre! como sempre se diz. No, s tive um mrito.
   -- Qual?
   -- O de haver cuidado dos vossos interesses com muita sorte e muito zelo.
   -- Se tivsseis apenas essa sorte, minha amiga, eu diria que valho quase
   tanto quanto vs, pois enquanto eis a Versalhes tambm trabalhei por vs.
   Joana considerou, surpresa, o cardeal.
   -- Sim, uma nonada.        Veio um homem, o meu banqueiro,propor-me
aes de no sei que firma organizada para drenar ou explorar umas lagoas.
   -- Ah!
   --        Era lucro certo; aceitei.
   -- Fizestes bem.
   -- Vereis que estais sempre em primeiro lugar no meu esprito.
   -- Em segundo, e ainda assim no o mereo. Mas vamos a ver.
                       O COLAR DA RAINHA                                   405

   -- O meu banqueiro deu-me duzentas aes; tomei a quarta parte
   para vs, as ltimas.
   -- Oh! Monsenhor.
   -- Deixai-me falar. Duas horas depois voltou. O simples fato de terem
   sido as aes colocadas naquele dia determinara uma alta de cem por
   cento. le entregou-me cem mil libras.
   -- Bela especulao.
   -- Aqui est a vossa parte, querida condessa, quero dizer, que rida
   amiga.
   E do pacote das duzentas e cinqenta mil libras dadas pela rainha,
separou vinte e cinco mil, que ps nas mos de Joana.
   -- Est bem, Monsenhor, d-se a quem d. O que mais me
   lisonjeia  o fato de haverdes pensado em mim.
   -- E ser sempre assim, -- replicou o cardeal, beijando-lhe a mo.
   -- Esperai pela retribuio, -- voltou Joana... -- At  vista,
   Monsenhor, em Versalhes.
    E partiu, depois de haver dado ao cardeal a lista dos vencimentos
escolhidos pela rainha, o primeiro dos quais, um ms depois, era de
quinhentas mil libras.
                                        L

                    Em que se torna a encontrar o Dr. Lus

 POSSVEL que os nossos leitores, lembrados da situao difcil em que
deixamos o Sr. de Charny, no se desagradem de voltar  antecmara dos
aposentos de Versalhes, onde o bravo marinheiro, que nem os homens nem os
elementos haviam jamais intimidado, fugira com receio de sentir-se mal diante
de trs mulheres: a rainha, Andria e a Sra. de La Motte.
    Alcanando a metade da antecmara, compreendera efetiva-mente que lhe
era impossvel ir mais longe. Cambaleante, estendera os braos. Percebendo
que as foras lhe faleciam, os circunstantes haviam acudido.
    Nesse momento o jovem oficial desmaiara e, ao cabo de alguns instantes,
tornara em si, sem suspeitar que fora visto pela rainha, que talvez o tivesse
socorrido, num primeiro mpeto de inquietude, se a no tivesse detido
Andria, muito mais por cime do que por um frio senso das convenincias.
    De resto, bem fizera a rainha voltando ao quarto ante o aviso de Andria,
fosse qual fosse o sentimento que o ditara, pois tanto que a porta se fechou
atrs dela, ouviu, atravs da sua espessura, o grito do proteiro:
    -- O rei!
    Era, com efeito, o rei, que dos seus aposentos se dirigia ao terrao, desejoso,
antes de assistir ao conselho, de visitar os trens de caa, que lhe pareciam um
tanto descurados ultimamente.
    Entretanto na antecmara, seguido de alguns oficiais de sua casa,
sobresteve o monarca: viu um homem deitado sobre o peitoril da janela, em
posio que assustava os dois guardas que o sustinham, desabituados de ver
desmaiarem -toa os oficiais.
    Por isso mesmo, enquanto seguravam o Sr. de Charny, gritavam:
    -- Senhor! senhor! Que tendes?
Mas o doente, sem voz, no podia responder. Compreendendo, pelo silncio,
a gravidade do mal, o rei apertou o passo.
    -- Sim, -- observou, -- sim, foi algum que perdeu os sentidos.
     voz do rei, voltaram-se os guardas e, maquinalmente, largaram o Sr. de
Charny, que, ainda sustentado por uns restos de fora, caiu, ou melhor, deixou-
se cair sobre as ljeas com um gemido.
                        O COLAR DA RAINHA                                 407

    -- Oh! senhores, -- exclamou o rei, -- que estais fazendo?
    Precipitaram-se todos.       Ergueram suavemente o Sr. de Charny que
    desfalecera, e colocaram-no sobre uma poltrona.
    -- Mas  o Sr. de Charny! -- exclamou o soberano, de
    repente,reconhecendo o jovem oficial.
    -- O Sr. de Charny? -- repetiram os assistentes.
    -- Sim, o sobrinho do Sr. de Suffren.
    Essas palavras produziram um efeito mgico. Charny, de um momento para
outro, viu-se literalmente inundado de guas de cheiro, como se se achasse
entre dez mulheres. Chamou-se um mdico e este examinou prestesmente o
enfermo.
    Curioso de toda cincia e compadecido de todos os males, o rei no
queria afastar-se; assistia  consulta.
    O primeiro cuidado do mdico foi abrir o colete e a camisa do rapaz, a fim
de que o ar lhe tocasse o peito; mas, ao faz-lo, encontrou o que no estava
procurando.
    -- Um ferimento! -- bradou Sua Majestade com redobrado interesse e
    acercando-se de modo que visse com os prprios olhos.
    -- Sim, sim, -- murmurou o Sr. de Charny, tentando soerguer-se, e
    relanceando  sua volta os olhos amortecidos, -- foi uma ferida antiga que
    se reabriu. No  nada... nada...
    E apertava com a mo, imperceptivelmente, os dedos do mdico.
    Um mdico compreende e deve compreender tudo. Aquele no era um
mdico da corte, mas um cirurgio qualquer de Versalhes. Quis dar-se ares.
    -- Oh! antiga... Isso dizeis vs, senhor; os lbios ainda esto frescos, o
sangue  vermelho demais: essa ferida no tem vinte e quatro horas.
    Charny, a quem a contradita devolvera as foras, ergueu-se em p e disse:
    -- Parece-me que no sereis vs quem me dir quando recebi o
ferimento, senhor! Digo e repito:  um ferimento antigo.
    Nesse momento, avistou e reconheceu o rei. Abotoou a vestia, como que
corrido ante to ilustre espectador da sua fraqueza.
    -- O rei! murmurou.
    -- Sim, Sr. de Charny, sou eu mesmo; e dou graas ao cu por estar aqui
    para trazer-vos algum alvio.
    -- Um arranho, Sire, -- balbuciou Charny; -- uma velha ferida, Sire,
    nada mais.
    -- Velha ou nova, -- volveu Lus XVI, -- a ferida mostrou-me o vosso
    sangue, sangue precioso de um bravo gentil-homem.
    -- Ao qual duas horas na cama lhe devolvero a sade, -- ajuntou Charny,
    querendo levantar-se outra vez. Mas no calculara as foras. Com a
    cabea andando a roda, as pernas vacilantes, s se
    ergueu para recair na poltrona.
408                          ALEXANDRE DUMAS

   -- le est bem mal, -- observou o rei.
   -- Est, sim, -- acudiu o mdico com ar fino e diplomtico, que recendia a
   um pedido de promoo; -- mas pode salvar-se.
   Homem de bem, o rei adivinhara que Charny estava escondendo qualquer
coisa. Esse segredo era-lhe sagrado. Qualquer outra pessoa teria procurado
colh-lo dos lbios do mdico, que to obsequiosamente lho oferecia; mas Lus
XVI preferiu deix-lo ao proprietrio.
   -- No quero, -- disse le, -- que o Sr. de Charny se exponha a risco
nenhum voltando para casa.             Ser tratado em Versalhes;chamem-lhe
depressa o tio, o Sr. de Suffren, e depois que se tiver agradecido a este
senhor os cuidados que teve, -- e designava o obsequioso mdico, --
chamem o cirurgio de minha casa, o Dr.Lus. Se no me engano,  le
quem est de servio.
    Correu um oficial a executar as ordens reais. Dois outros se encarregaram de
Charny e o transportaram para o extremo da galeria, acomodando-o no quarto
do oficial dos guardas.
    Passou-se esta cena mais rapidamente que a da rainha e do Sr. de
Crosne.
    Mandaram-se chamar o Sr. de Suffren e o Dr. Lus.
    Conhecemos este homem honrado, modesto e sbio, de uma inteligncia
menos brilhante do que til, corajoso lavrador do campo imenso da cincia,
onde mais se honra quem faz a colheita, mas onde no tem menos
merecimento quem arroteia a terra.
    Atrs do cirurgio, inclinado sobre o paciente, afligia-se j o bailo de
Suffren, que um estafeta acabara de avisar.
    O ilustre marujo no compreendia aquela sncope, aquele sbito mal-estar.
    Quando pegou na mo de Charny e lhe considerou os olhos baos:
   --  esquisito! -- disse le, -- esquisito!          Sabeis, doutor, que meu
   sobrinho nunca esteve doente?
   -- Isso no prova coisa alguma, Sr. Bailio, -- replicou o mdico.
   -- Nesse caso, o ar de Versalhes deve ser bem pesado, pois re pito que vi
   Oliveiros dez anos em alto mar, sempre vigoroso, direito como um mastro.
   --  a ferida, -- alvitrou um dos oficiais presentes.
   -- Ferida, como! -- bradou o almirante. -- Oliveiros nunca foi ferido!
   -- Oh! perdo, -- replicou o oficial, mostrando a cambraia manchada;
   -- mas eu cria. ..
    O Sr. de Suffren viu sangue.
   -- Est bem, est bem, -- atalhou com familiar rudeza o doutor,que acabava
de tomar o pulso ao doente, -- mas no vamos discutir a origem do mal.
Temos o mal, contentemo-nos com le e curemo-lo, se possvel.
                              O COLAR DA RAINHA                               409

    O bailio gostava das frases sem resposta; no habituara os cirurgies dos seus
navios a suavizar as palavras.
    --  muito perigoso, doutor? -- perguntou, mais comovido do que desejava
    mostrar-se.
    -- Mais ou menos como um corte de navalha no queixo.
    -- Bem. Agradecei ao rei, senhores. Oliveiras, voltarei para ver-te.
    Oliveiros moveu os olhos e os dedos, como que para agradecer ao mesmo
tempo ao tio que se afastava e ao mdico, que o fizera largar a presa.
    Em seguida, feliz por se achar numa cama, feliz por se ver entregue a um
homem inteligente e compassivo, fingiu adormecer.
    O facultativo mandou embora toda a gente.
    O fato  que Oliveiros adormeceu, no sem haver agradecido ao cu
quanto lhe sucedera, ou melhor, o no lhe haver sucedido nenhum mal em
circunstncias to graves.
    Apoderara-se dele a febre, essa febre maravilhosa e regeneradora da
humanidade, seiva eterna que floresce no sangue do homem e, servindo aos
desgnios de Deus, isto , do gnero humano, faz germinar a sade no doente ou
carrega o vivente no meio da sade.
    Depois que Oliveiros ruminou, com o ardor dos febris, a cena com Filipe, a
cena com a rainha, a cena com o rei, caiu no crculo terrvel que o sangue
furioso atira, como uma rede, sobre a inteligncia. .. Delirou.
    Trs horas depois, era possvel ouvi-lo da galeria em que passeavam alguns
guardas; e, tendo-o observado, o cirurgio chamou o seu lacaio e ordenou-lhe
que carregasse Oliveiros nos braos. Oliveiros gemeu.
    -- Cobre-lhe a cabea com as cobertas.
    -- E que farei com le? -- perguntou o lacaio. --  muito pesado e se
    debate demais. Vou pedir auxlio a um dos senhores guardas.
    -- s um fracalho se tens medo de um doente, -- observou c velho
    mdico.
    -- Senhor...
    -- E se te parece pesado demais, no s to forte quanto eu cuidava.
    Terei de recambiar-te para a Auvergne.
    Surtiu efeito a ameaa. Gritando, urrando, delirando e gesticulando, Charny
foi carregado como uma pluma pelo criado do Dr. Lus,  vista dos guardas.
    Estes cercaram o mdico e crivaram-no de perguntas.
    -- Senhores, -- disse o doutor, berrando mais do que Charny para
encobrir-lhe os gritos, -- haveis de compreender que no posso andar uma
lgua de hora em hora para visitar este doente que me confiou o rei. A vossa
galeria fica no fim do mundo.
410                          ALEXANDRE DUMAS

    -- Para onde o levareis, doutor?
    -- Para o meu apartamento, como bom preguioso que sou. Como o
    sabeis, tenho dois quartos; coloc-lo-ei num deles e, depois de amanh, se
    ningum se intrometer, darei notcias suas.
    -- Mas, doutor, -- acudiu o oficial, -- garanto-vos que o doente aqui ficar
    muito bem; todos gostamos do Sr. de Suffren, e . . .
    -- Sei, sei, conheo esses cuidados entre camaradas.     O ferido est com
    sede, so todos muito bonzinhos, do-lhe de beber, e ele morre. Deus me
    livre dos cuidados dos senhores guardas!         J me mataram assim dez
    doentes.
    O cirurgio ainda estava falando quando Oliveiros j no podia ser ouvido.
    -- Sim! -- prosseguiu, com os seus botes, o digno esculpio --tudo isso
est muito bem,  muito lgico. Mas tem um inconveniente,  que o rei h
de querer ver o doente... E se le o vir...ouvir tambm... Diabo! No
se pode hesitar. Vou prevenir a rainha, que me dar conselho.
    Tendo tomado essa resoluo com a presteza do homem cujos segundos so
contados pela natureza, o bom doutor inundou de gua fresca o rosto do
ferido e colocou-o numa cama de modo que le se no viesse a matar se se
mexesse ou casse. Ps cadeado nos postigos, fechou a porta com duas voltas de
chave e, guardando a chave no bolso, foi procurar a rainha, depois de certificar-
se, ouvindo de fora, de que nenhum dos gritos de Oliveiros poderia ser
percebido ou compreendido.
    Ser desnecessrio dizer que, para maior precauo, o criado foi encerrado
em companhia do doente.
    Encontrou  porta a Sra. de Misery, que a rainha mandara para saber
notcias do ferido.
    Ela insistia em entrar.
    -- Vinde, vinde, senhora, que estou de sada!
    -- Mas, doutor, a rainha est esperando!
    -- Vou procur-la.
    -- A rainha deseja...
    -- Garanto que a rainha saber tudo o que deseja saber.Vamos!
    E afastou-se to depressa que obrigou a dama de Maria Antonieta a correr
para chegar ao mesmo tempo que le.
                                     LI
                                Aegri Somnia

   A RAINHA esperava a resposta da Sra. de Misery, no esperava o
mdico.
   Este entrou com a costumeira familiaridade.
   -- Senhora, -- anunciou em voz alta, -- o doente pelo qual
Vossa Majestade e o rei se interessam, vai to bem quanto pode ir uma
pessoa que est com febre.
   A rainha conhecia o cirurgio; conhecia-lhe o horror s pessoas que, no
seu dizer, do gritos inteiros quando sentem apenas meias dores.
   Imaginou que o Sr. de Charny exagerara um pouco a sua situao. As
mulheres fortes esto sempre dispostas a achar fracos os homens fortes.
   -- O ferido, -- disse ela, --  um ferido de mentira.
   -- No sei... -- tornou o doutor.
   -- Um arranho...
   -- No, no, senhora; mas, arranho ou ferida, est com febre.
   -- Pobre rapaz! Uma febre muito forte?
   -- Terrvel.
   --        Sim? -- atalhou a rainha assustada; -- eu no supunha que
   assim... de repente... a febre...
    O cirurgio considerou-a por um momento.
   -- H febres e febres, -- replicou le.
   -- Meu caro Lus, estais-me assustando.               Sois, de hbito, to
   tranqilizador! Francamente, no sei o que tendes esta noite.
   -- Nada de extraordinrio.
   -- Homessa! No parais quieto, olhais para a direita e para a esquerda,
   com o ar de um homem que desejaria confiar-me um grande segredo.
   -- E quem diz que no?
   -- Eu no disse? Um segredo sobre febre!
   -- Exatamente.
   -- Sobre a febre do Sr. de Charny!
   -- Exatamente.
   -- E procurais-me por causa dele?
   -- Exatamente.
412                         ALEXANDRE DUMAS

    -- Vamos depressa aos fatos. Sabeis que sou curiosa. Mas comecemos pelo
    comeo.
    -- Como o Joozinho, no ?
    -- Sim, meu caro doutor.
    -- Pois bem! senhora...
    -- Estou esperando, doutor.
    -- No, quem est esperando sou eu.
    -- O qu?
    -- Que Vossa Majestade me interrogue. No sei contar direito,mas quando
    me perguntam, respondo como um livro.
    -- Perguntei-vos como vai a febre do Sr. de Charny.
    -- Mal comeado. Pergunte-me primeiro Vossa Majestade por que cargas
    d'gua o Sr. de Charny est no meu apartamento, num quartinho, em vez
    de estar na galeria ou nos aposentos do oficial dos guardas.
    -- Seja, pergunto. De fato,  surpreendente.
    -- Pois bem! senhora, eu no quis deixar o Sr. de Charny nessa galeria, nem
    no quarto do oficial, porque a febre do Sr. de Charny no  uma febre
    comum.
    A rainha esboou um gesto de surpresa.
    -- Que quereis dizer?
    -- Quando est com febre, o Sr. de Charny delira imediata mente.
    -- Oh! -- exclamou a rainha, juntando as mos.
    -- E, -- prosseguiu Lus, aproximando-se, -- quando delira, o pobre rapaz
    diz uma srie de coisas extremamente delicadas para os ouvidos dos
    senhores guardas do rei ou de qualquer outra pessoa.
    -- Doutor!
    -- Vossa Majestade no devia interrogar-me, se no quisesse ouvir as
    respostas.
    -- Dizei sempre, meu caro doutor.
    E a rainha pegou na mo do bom sbio.
    -- O rapaz talvez seja ateu e, no seu delrio, blasfema.
    -- No, no.  pelo contrrio, profundamente religioso.
    -- Talvez haja, nesse caso, exaltao em suas idias?
    -- Exaltao,  isso mesmo.
    A rainha comps o semblante e, revestindo-se do admirvel sangue frio que
sempre acompanha os atos dos prncipes habituados ao respeito dos outros e 
estima de si mesmos, faculdade indispensvel aos grandes da terra para
dominarem e no se trarem:
    -- O Sr. de Charny, -- disse ela, -- foi-me recomendado.  sobrinho do
Sr. de Suffren, nosso heri. J me prestou servios;
                       O COLAR DA RAINHA                                   413

quero ser, para le, o que seria uma parenta, uma amiga. Dizei--me, pois, a
verdade; devo e quero ouvi-la.
    --Pois no posso dizer-lha, -- replicou Lus. -- E j que Vossa Majestade
    faz tanto empenho em sab-la, s conheo                 um meio: oua-o
    pessoalmente.      Dessarte, se o rapaz disser alguma inconvenincia, Vossa
    Majestade no se zangar com o indiscreto que houver deixado reslumbrar o
    segredo nem com o imprudente que o houver abafado.
    --       Aprecio a vossa amizade, -- bradou a rainha, -- e creio desde j
    que o Sr. de Charny diz coisas estranhas em seu delrio...
    --       Coisas que Vossa Majestade precisa ouvir urgentemente para poder
    apreci-las, -- tornou o bom doutor.
    E pegou delicadamente na mo comovida da rainha.
    --Mas, primeiro que tudo, cuidado! -- advertiu Maria Antonieta. --
    Nunca dou um passo aqui sem que me acompanhe algum caridoso espio.
    --       Esta noite, o nico espio serei eu.        s atravessar o meu
    corredor, que tem uma porta em cada extremidade.           Fecharei a porta
    pela qual entrarmos, e ningum poder seguir-nos.
    --       Entrego-me a vs, meu caro doutor, -- disse a rainha.
    E, travando do brao de Lus, saiu do quarto, palpipante de curiosidade.
    O esculpio cumpriu a promessa. Rei nenhum, marchando para o
combate ou fazendo um reconhecimento numa praa de guerra; nenhuma
rainha, escoltada para uma aventura, foram mais vulgarmente alumiados por
um capito dos guardas ou por um grande oficial do pao.
    O cirurgio fechou a primeira porta e, aproximando-se da segunda, aplicou
nela o ouvido.
    --        a que est o vosso doente?
    --       No, senhora, -- est no quarto pegado. Se estivesse aqui, Vossa
    Majestade j o teria ouvido desde o fundo do corredor. Escute s desta
    porta.
    Ouvia-se, com efeito, o murmrio no articulado de algumas queixas.
    --       le est gemendo, est sofrendo, doutor.
    --       No, no, no est gemendo coisa alguma.            Est  falando
    mesmo. Preste ateno, vou abrir a porta.

   --      Mas no quero entrar no quarto dele! protestou a rainha,
   recuando.
   --      Nem  isso o que lhe proponho, -- conveio o doutor. --Sugiro
   apenas que Vossa Majestade entre no primeiro quarto e, de
414                        ALEXANDRE DUMAS

l, sem receio de ser vista ou de ver, ouvir quanto se disser no quarto do
ferido.
    -- Todos esses mistrios, todos esses preparativos, esto-me deixando com
    medo, -- murmurou Maria Antonieta.
    -- Como ser ento quando Vossa Majestade tiver ouvido! --replicou o
    mdico.
    E entrou sozinho no quarto de Charny.
    Vestindo as calas do uniforme, cujas fivelas o bom doutor havia
desatado, com as pernas nervosas e finas presas em meias de seda de espirais
opalinas e nacaradas, os braos estendidos como os de um cadver, rijos entre
as mangas de cambraia amarrotada, Charny tentava erguer sobre o travesseiro a
cabea, que lhe pesava mais do que se fosse de chumbo.
    Ardente suor lhe escorria, em prolas, da fronte, colando-lhe s tmporas
os anis soltos do cabelo.
    Abatido, inerte, esmagado, no era mais que um pensamento, um
sentimento, um reflexo; o corpo s lhe vivia em funo dessa chama, sempre
animada, e que por si mesma se lhe irritava no crebro, como o pavio na
lamparina de alabastro.
    No foi apenas uma v comparao que escolhemos, pois essa chama, nica
existncia de Charny, alumiava fantasticamente, suavizando-as, certas mincias
que a memria apenas seria incapaz de traduzir em longos poemas.
    Charny estava recontando a si mesmo a entrevista no fiacre com a dama
alem encontrada no trajeto entre Paris e Versalhes.
    -- Alem! alem! -- repetia sem cessar.
    -- Sim. Alem, j sabemos, -- acudiu o cirurgio. -- No caminho de
    Versalhes.
    -- Rainha de Frana! -- bradou de repente.
    -- Hein? -- disse Lus, olhando para o quarto em que se achava a rainha. --
    Que diz a isso Vossa Majestade?
    -- O que  horrvel, -- murmurou Charny, --  amar um anjo,uma
    mulher, am-la loucamente, dar por ela a vida, e no ver diante de si,
    quando a gente se aproxima, seno uma rainha de veludo e ouro, metal
    ou tecido, mas nenhum corao!
    -- Oh! -- exclamou o doutor, despedindo uma gargalhada forada.
     No se advertiu o rapaz da interrupo.
    -- Eu amaria -- disse le, -- uma mulher casada.        Am-la-ia com esse
amor selvagem que faz que a gente se esquea de tudo. Pois bem!... eu diria
a essa mulher: restam-nos alguns dias bonitos sobre a terra; os que nos
esperam fora do nosso amor valero,acaso, esses dias? Vem, minha adorada,
enquanto me amares e eu
                        O COLAR DA RAINHA                                    415

te amar, viveremos a vida dos eleitos. Depois, no faz mal! depois, ser a morte,
isto , a vida que vivemos neste momento. Fruamos, portanto, os benefcios do
amor.
    -- No est mal o raciocnio para um homem com febre, --murmurou o
    facultativo, -- embora essa moral no seja das mais austeras.
    -- Mas os filhos!. . . -- bradou Charny a sbitas, colrico, --ela no
    deixar os dois filhos.
    -- Eis a o obstculo, hic nodus, -- observou Lus, enxugando o suor da
    testa de Charny, com uma sublime mistura de zombaria e caridade.
    -- Oh! -- voltou o rapaz, insensvel a tudo, -- os filhos cabem
    perfeitamente num capote de viagem!...
    -- Ora, Charny, j que carregas a me, leve como pena de toutinegra;
    j que a sustns sem sentir mais que um frmito de amor em lugar de
    um fardo, no levarias tambm os filhos de Maria... Ah!...
    le desferiu um grito terrvel.
    -- Os filhos de um rei so to pesados que a sua falta seria sentida por
metade do mundo!
Lus deixou o enfermo e voltou para beira da rainha. Encontrou-a em p,
fria e trmula. Tomou-lhe a mo. Ela tambm estava arrepiada.
    -- Tnheis razo, -- assentiu Maria Antonieta. --  mais que um delrio, 
    um perigo real que correria esse moo se o ouvissem.
    -- Escute! escute! -- prosseguiu o doutor.
    -- No, nem mais uma palavra.
    -- le est-se acalmando. Veja, ei-lo que reza.
    Com efeito, Charny acabava de soerguer-se e juntava as mos, olhos
arregalados e espantados fitos no vago e quimrico infinito.
    -- Maria, -- clamou com voz doce e vibrante, -- Maria, bem vi que me
    amveis. Oh! no o revelarei a ningum. O vosso p, Maria, acercou-se
    do meu no fiacre e senti-me desfalecer.        Vossa mo desceu sobre a
    minha... no... no direi nada,  o segredo de minha vida. Por mais que
    me corra o sangue da ferida, Maria,o segredo no sair com le. Meu
    inimigo embebeu a espada no meu sangue; mas se le conhece um pouco
    do meu segredo, no
    conhece o vosso. No temais, Maria; no me digais sequer que me amais: 
    intil; visto que corais, j no tendes o que me revelar.
    -- Oh! oh! -- atalhou o doutor. -- Agora j no se trata apenas de febre;
    veja como le est calmo. . . ...
    -- ?. .. -- repetiu a rainha, conturbada.
    --  um xtase, senhora: o xtase parece  memria. , com efeito, a
 memria de uma alma que se lembra do c
416                        ALEXANDRE DUMAS

   -- J ouvi bastante, -- murmurou a rainha, to perturbada que
tentou fugir.
   Reteve-a o doutor violentamente pela mo.
   -- Senhora, senhora, -- disse le, -- que quer Vossa Majestade?
   -- Nada, doutor; nada.
   -- E se o rei quiser ver o seu protegido?
   -- Seria uma desgraa!
   -- Que hei de dizer?
   -- No tenho idia, doutor; no tenho sequer uma palavra;
   este espetculo horrvel cortou-me o corao.
   -- E o exttico pegou-lhe a febre, -- observou, em voz baixa,o
   facultativo: -- o seu pulso bate pelo menos com cem pulsaes.
   A rainha no respondeu. Desvencilhou a mo e desapareceu.
                                      LII
      Em que se demonstra que a autpsia do corao  mais difcil do que
                                 a do corpo

    O DOUTOR ficou pensativo, vendo afastar-se a soberana. Logo,
falando consigo s e meneando a cabea:
    -- H neste castelo, -- murmurou, -- mistrios que fogem ao domnio da
cincia. Contra uns, armo-me do bisturi e rasgo--lhes a veia para cur-los;
contra os outros, armo-me da censura e rasgo-lhes o corao: conseguirei
alguma coisa?
    Em seguida, como houvesse passado o acesso, fechou os olhos de Charny,
que tinham ficado abertos e esgazeados, refrescou-lhe as tmporas com gua e
vinagre, e dispensou-lhe os cuidados que transformam a atmosfera abrasadora
do doente num paraso de delcias.
    Vendo, ento, regressar a calma aos traos do paciente, observando que os
seus soluos se mudavam lentamente em suspiros e que umas slabas vagas se
lhe escapavam da boca em lugar das palavras furiosas:
    --Sim, sim, no havia apenas simpatia, havia influncia tambm, -- disse
le; -- ocorreu o delrio como que para ir ao encontro da visita que o doente
recebeu; os tomos humanos se deslocam como, no reino vegetal, as poeiras
fecundantes; o pensamento tem comunicaes invisveis, os coraes tm
relaes secretas.
    Sbito, estremeceu e voltou-se a meio, olhos e ouvidos fitos.
    --Quem estar ainda a? -- perguntou, num sussurro.
    De feito, acabava de ouvir uma espcie de murmrio e um roar de
vestido no fundo do corredor.
    -- impossvel que seja a rainha, -- continuou, no mesmo tom; -- ela
no voltaria atrs de uma resoluo provavelmente invarivel. Vamos a ver.
    E foi mansamente abrir outra porta, que dava tambm para o corredor.
Espichando a cabea sem fazer barulho, viu, a dez passos de si, uma mulher
envolta em longos vestidos de pregas imveis, semelhante  esttua fria e inerte
do desespero.
    Era noite fechada, e a fraca luz colocada no corredor no podia
ilumin-lo de um extremo a outro; mas por uma janela
418                        ALEXANDRE DUMAS

aberta passava um raio de lua que incidia sobre a mulher, tornando-a visvel
at que uma nuvem passasse entre ela e o raio.
    O mdico tornou a entrar devagarinho, transps o espao que separava
uma porta da outra e, silenciosa mas rapidamente, abriu a porta atrs da qual
se escondera a mulher.
    Ela soltou um grito, estendeu as mos e encontrou as do Dr. Lus.
    -- Quem est a? -- perguntou le com uma voz em que havia mais
piedade que ameaa; pois adivinhava, pela prpria imobilidade daquela
sombra, que ela estava escutando muito mais com o corao do que com os
ouvidos.
    -- Eu, doutor, eu, -- respondeu uma voz doce e triste.
    Embora o timbre no fosse desconhecido para o mdico, no despertou
    nele mais que uma vaga e distante lembrana.
    -- Eu, Andria de Taverney, doutor.
    -- Ah! meu Deus! que aconteceu? -- bradou o cirurgio. -- Ela sentiu-se
    mal?
    -- Ela! -- bradou Andria, -- ela! Ela, quem?
    Percebeu o mdico que acabava de cometer uma imprudncia.
    -- Perdo, mas vi h pouco afastar-se uma mulher. reis vs,talvez?
    -- Ah! sim, -- disse Andria, -- esteve aqui uma mulher antes de mim,
    no esteve?
    E proferiu essas palavras com ardente curiosidade, que no deixou dvida
nenhuma no esprito do mdico sobre o sentimento que as ditara.
    -- Minha querida filha, -- tornou o doutor, -- parece-me que estamos
    jogando o jogo dos disparates. De quem me estais falando? Que me quereis?
    Explicai-vos.
    -- Doutor, -- redargiu Andria com voz to triste, que traspassou o
    corao do interlocutor, -- meu bom doutor, no tenteis enganar-me, vs
    que tendes o hbito de dizer-me a verdade; confessai que uma mulher
    esteve aqui h pouco, confessai-mo, que tambm a vi.
    -- E quem vos disse que no veio ningum?
    -- Sim; mas uma mulher, uma mulher, doutor.
    -- Uma mulher,  claro; a menos que desejeis sustentar a tese de que uma
    mulher s  mulher at aos quarenta anos.
    -- A que veio tinha quarenta anos? -- bradou Andria, respirando pela
    primeira vez. -- Ah!
    -- Quando digo quarenta, ainda lhe perdoo uns cinco, ou seis,bem
    contados.      Mas precisamos ser galantes com as amigas, e a Sra. de
    Misery  minha amiga, e at uma boa amiga.
    -- A Sra. de Misery?
    -- Sem dvida.
    -- Foi ela quem veio?
                       O COLAR DA RAINHA                                  419

    -- E por que diabo no vos diria eu se fosse outra?
    -- Oh!  que...
    -- Em verdade, as mulheres so todas iguais, inexplicveis; no entanto, eu
    cria conhecer-vos. Pois agora vejo que no vos conheo melhor do que as
    outras.  uma coisa tremenda.
    -- Meu bom e querido doutor!
    -- Basta.Vamo aos fatos.
    Considerou-o Andria com inquietude.
    -- Ela sentiu-se mal? -- insistiu Lus.
    -- Quem?
    -- Ora, essa! A rainha.
    -- A rainha!
    -- Sim, a rainha, para a qual a Sra. de Misery veio buscar-me h pouco; a
rainha, que est com sufocaes, palpitaes. Triste doena, minha querida
senhorita, incurvel. Dai-me, portanto, notcias dela se vindes da sua parte,
e voltemos para junto de Sua Majestade.
    E o Galeno fz um movimento indicativo de que desejava afastar-se do
lugar em que estava.
    Deteve-o, porm, Andria docemente e respirando mais  vontade.
    -- No, meu caro doutor, -- disse ela, -- no venho da parte da rainha.
    Eu at ignorava que ela no estava bem. Pobre rainha! Se eu tivesse
    sabido... Perdoai-me, doutor, j nem sei o que digo.
    --  o que estou vendo.
    -- No s no sei o que digo, como tambm no sei o que fao.
    -- Oh! o que estais fazendo sei-o eu: estais-vos sentido mal.
    Andria, com efeito, largara o brao do mdico; a mo, fria, recara-lhe
    ao longo do corpo e ela se inclinava, lvida, gelada.
    O facultativo a reergueu, reanimou, realentou.
    Andria fz sobre si mesma violento esforo. Aquela alma vigorosa, que
nunca se deixara abater, nem pela dor fsica, nem pela dor moral, entesou as
molas de ao.
    -- Doutor, -- voltou ela, -- sabeis que sou nervosa e que a escurido me
    causa terrores horrveis? Perdi-me na escurido, da o estado estranho em
    que me encontro.
    -- E por que diabo, nesse caso, vos espondes  escurido? Quem vos
    obriga a isso? Ningum vos mandou aqui, nada aqui vos chamava.
    -- Eu no disse nada, doutor; disse ningum.
    -- Ah! ah! sutilezas, minha querida paciente.         Mas estamos aqui mal
    acomodados. Vamos para outro lugar, sobretudo se a parlenga promete
    prolongar-se.
    -- Dez minutos, doutor, no vos peo mais do que isso.
420                        ALEXANDRE DUMAS

   -- Dez minutos, seja.      Mas no em p; as minhas pernas recusam-se
   terminantemente a esse gnero de dilogos; vamos sentar-nos.
   -- Onde?
   -- No banco do corredor, se quiserdes.
   -- E acreditais que l ningum poder ouvir-nos, doutor? --perguntou
   Andria, receosa.
   -- Ningum.
   -- Nem sequer o ferido que a est? -- continuou ela, no mesmo tom,
   indicando ao mdico o quarto iluminado por um suave reflexo azul, em
   que mergulhava o seu olhar.
   -- No, -- afirmou o doutor, -- nem sequer esse pobre rapaz; e posso at
   acrescentar que, se algum nos ouvir, decerto no ser le.
   Andria juntou as mos.
   -- Oh! meu Deus! Quer dizer, ento, que est muito mal?
   -- No est bem.       Mas falemos do que vos traz; depressa,minha filha,
   depressa; sabeis que a rainha est  minha espera!
   -- Pois  o que estamos fazendo, doutor, -- replicou Andria com um
   suspiro.
   -- Como! O Sr. de Charny?
   --  dele que se trata. Vim saber notcias suas.
    O silncio com que o Dr. Lus acolheu as palavras, que le, no entanto,
devia estar esperando, foi glacial. De fato, o cirurgio censurava naquele
momento a atitude de Andria e a atitude da rainha; via as duas mulheres
movidas pelo mesmo sentimento e, diante dos sintomas, supunha reconhecer
nesse sentimento um violento amor.
   Andria, que ignorava a visita da rainha, e no podia ler no esprito do
mdico tudo o que nele havia de triste benevolncia e misericordiosa
piedade, tomou o silncio do facultativo por um reproche, talvez um tanto
duramente formulado, e reergueu-se como soa debaixo dessa presso,
embora continuasse muda.
   -- Parece-me, doutor, que podeis desculpar-me  atitude, --tornou ela,
   -- pois o Sr. de Charny foi ferido num duelo, e o ferimento quem lho
   produziu foi meu irmo.
   -- Vosso irmo! -- exclamou o Dr. Lus. -- Foi o Sr. Filipe de Taverney
   quem feriu o Sr. de Charny?
   -- Sim, senhor.
   -- Eu ignorava essa circunstncia.
   -- Mas agora que a sabeis, no vos parece que eu deva indagar do estado
   em que le se encontra?
   -- De fato, minha filha, -- volveu o bom doutor, encantado por
   encontrar um pretexto para a indulgncia. -- Eu no podia adivinhar
   acausa verdadeir
                        O COLAR DA RAINHA                                421

    E acentuou as ltimas palavras de modo que provasse a Andria que
lhe adotava com reservas as concluses.
    -- Vamos, doutor, -- instou Andria, apoiando as mos no brao do
    interlocutor e encarando com le, -- dizei o que estais pensando.
    -- Eu j disse. Por que haveria de fazer restries mentais?
    -- Um duelo entre fidalgos  coisa corriqueira,  um acontecimento de
    todos os dias.
    -- S poderia ter importncia esse duelo se se houvessem os nossos
    dois rapazes batido por uma mulher.
    -- Por uma mulher, doutor?
    -- Sim. Por vs, por exemplo.
    -- Por mim! -- e Andria despediu um suspiro profundo. --No, no
    foi por mim que o Sr. de Charny se bateu, doutor.
    O mdico pareceu contentar-se da resposta. Mas, de um modo ou de
outro, quis ter a explicao do suspiro.
    -- Ento, -- arriscou, -- j compreendi: foi vosso irmo quem vos
pediu um boletim exato da sade do ferido.
    -- Sim! foi meu irmo! Sim, doutor, -- exclamou Andria.
    O cirurgio encarou nela por sua vez.
    -- O que tens no corao, alma inflexvel, hei de sab-lo, --
murmurou.
    Logo, em voz alta:
    -- Nesse caso, -- prosseguiu, -- vou dizer-vos toda a verdade,como
    deve ser dita s pessoas interessadas em conhec-la. Transmiti-a a vosso
    irmo, para que le tome as providncias cabveis...Compreendeis.
    -- No, doutor!       Estou procurando saber o que quereis dizer com
    estas palavras: Para que le tome as providncias cabveis.
    --  simples...      Um duelo, mesmo agora, no  coisa que agrade ao
    rei.    Sua Majestade no tem feito observar os ditos, verdade; mas
    quando um duelo provoca escndalo, o rei exila ou prende.
    --  verdade.
    -- E quando, por desgraa, sobrevm a morte de um dos contendores,
    o rei  implacvel. Por conseguinte, aconselhai a vosso irmo que se
    ponha em lugar seguro por algum tempo.
    -- Doutor, -- bradou Andria, -- doutor, est muito mal, ento, o Sr. de
    Charny?
    -- Escutai, minha querida senhorita, prometi-vos a verdade, e a
    verdade  esta: estais vendo o pobre rapaz dormindo, ou melhor,
    estertorando naquele quarto?
    -- Sim, doutor, -- replicou Andria com voz entrecortada; -- e ento?...
    -- Ento, se le no estiver salvo amanh h estas horas, se a febre
    que acaba de declarar-se e que o devora no tiver cedido, amanh h
    estas horas o Sr. de Charny ser um homem morto.
422                         ALEXANDRE DUMAS

    Sentiu Andria que ia desferir um grito, comprimiu a garganta, enfiou as
unhas na carne, para extinguir na dor fsica um pouco da angstia que lhe
lacerava o corao.
    Lus no lhe pde ver nos traos os medonhos estragos produzidos por essa
luta.
    Dominava-se Andria espartnicamente.
    -- Meu irmo, -- disse ela, -- no fugir; bateu-se com o Sr. de Charny
    como um homem de bem; se teve  desdita de feri-lo,f-lo em legtima
    defesa; se o matou, Deus o julgar.
    -- Ela no veio por conta prpria, -- cuidou o mdico entre si; -- veio,
    portanto, de parte da rainha. Vejamos se Sua Majestade levou a leviandade
    at a esse ponto.
    -- Que foi o que a rainha achou desse duelo? -- perguntou.
    -- A rainha? No sei, -- retrucou Andria. -- Que importa a rainha?
    -- Suponho que ela goste do Sr. de Taverney?
    -- O Sr. de Taverney est so e salvo; esperemos que Sua Majestade
    defenda pessoalmente meu irmo, se o acusarem.
    Vencido nos dois lados da sua dupla hiptese, Lus desistiu.
    -- No sou fisiologista, -- refletiu, -- sou apenas cirurgio. Por que
    diabo, quando conheo to bem o jogo dos msculos e dos nervos, hei
    de meter-me no jogo das paixes e dos caprichos femininos?
    -- Senhorita, soubestes o que desejveis saber. Fazei ou no fugir o Sr.
    de Taverney, isso  convosco. Quanto a mim, tenho por obrigao tentar
    salvar o ferido... esta noite, pois do contrrio a morte, que continua
    tranqilamente a sua obra, mo levaria nas prximas vinte e quatro horas.
    Adeus.
    E fechou, delicada mas definitivamente, a porta atrs dela.
    Andria passou a mo convulsa pela testa, viu-se sozinha, sozinha com a
aterradora realidade. Teve a impresso de que a morte, da qual acabava de
falar to friamente o mdico, descia sobre aquele quarto e passava,
amortalhada, pelo corredor escuro.
    O vento da fnebre apario gelou-lhe os membros. Voltou correndo para
os seus aposentos, fechou a porta do quarto com trs voltas de chave e,
caindo de joelhos sobre o tapete da cama:
    -- Meu Deus! -- bradou com selvagem energia, entre torrentes de lgrimas,
-- meu Deus! no sois injusto, no sois insensato; no sois cruel, meu Deus!
Podeis tudo, no deixareis morrer esse rapaz, que no fz mal algum e 
querido neste mundo.        Meu Deus! ns, pobres humanos, s acreditamos
realmente no poder da vossa beneficncia, embora em todas as ocasies
tremamos ante o poder de vossa clera. Mas eu!. . . eu. . . que vos suplico,
j fui bastante atribulada, j sofri muito sem haver cometido crime algum.
No entanto, nunca me queixei, nem sequer a vs; nunca duvidei de
                         O COLAR DA RAINHA                                423

vs. Se hoje que vos rogo; se hoje que vos conjuro; se hoje que vos peo,
que quero a vida de um rapaz... se hoje ma recussseis,  meu Deus! direi que
empregastes contra mim todas as vossas foras, e que sois um Deus de sombrias
cleras, de vinganas desconhecidas; direi... Oh! estou blasfemando, perdo!
estou blasfemando! ... e no me feris! Perdo, perdo! agora conheo que sois
realmente o Deus da clemncia e da misericrdia.
    Sentiu Andria que a vista se lhe extinguia, que se lhe dobravam os
msculos; deixou-se cair, inanimada, cabelos soltos, e quedou como um
cadver sobre o pavimento.
    Quando despertou desse sono frio, e tudo lhe voltou ao esprito, fantasmas
e dores:
    -- Meu Deus! -- murmurou, com sinistro acento, -- fostes misericordioso;
castigastes-me, eu o amo!... Sim, amo-ol  o bastante, no ? Matar-mo-eis
agora?
                                     LIII
                                   Delrio

    DEUS ouvira, sem dvida, a prece de Andria. O Sr. de Charny no
sucumbiu ao acesso de febre. No dia seguinte, ao passo que ela absorvia
com avidez todas as notcias que lhe chegavam do ferido, este, graas aos
cuidados do bom Dr. Lus, passava da morte  vida. A inflamao cedera
ante a energia e o remdio. Principiava a cura.
    Tendo salvo Charny, o Dr. Lus entrou a ocupar-se dele muito menos; o
paciente deixava de interessar-lhe. Para o mdico  bem pouca coisa o vivo,
mormente quando est convalescendo ou passando bem.
    No obstante, ao cabo de oito dias, durante os quais Andria se
tranqilizou completamente, Lus, lembrado ainda de todas as manifestaes do
doente durante a crise, julgou de bom alvitre faz-lo transportar para um
stio afastado. Queria expatriar o delrio.
    Entretanto, logo s primeiras tentativas, Charny se revoltou; cravou no
mdico os olhos fuzilantes de clera, disse que estava em casa do rei e que
ningum tinha o direito de escorraar um homem a quem Sua Majestade
dava asilo.
    O doutor, que no tinha pacincia com os convalescentes rebeldes, fz
entrar pura e simplesmente quatro criados no quarto, ordenando-lhes que
transportassem o ferido.
    Mas Charny se agarrou  grade da cama e golpeou violentamente um dos
homens, ameaando os outros como Carlos XII ameaava Bender.
    O Dr. Lus tentou persuadi-lo com argumentos. O rapaz a princpio,
mostrou-se assaz lgico, mas como os criados insistissem, fz tamanho esforo
que a ferida se reabriu e, com o sangue, fugiu--lhe a razo. Teve um acesso de
delrio mais violento que o primeiro.
    Comeou a gritar que queriam afast-lo para o privar das vises que tivera
durante o sono, mas que isso era debalde, que as vises continuariam a sorrir-
lhe, que o amavam e que viriam v-lo a despeito do mdico: a mulher que o
amava ocupava uma posio que a colocava acima de qualquer recusa.
                        O COLAR DA RAINHA                                    425

    A essas palavras, o trmulo facultativo se apressou de dispensar os criados,
recomeou a tratar da ferida desde o princpio e, decidido a cuidar da razo
depois de haver cuidado do corpo, reps a matria em estado satisfatrio, mas
no atalhou o delrio. Isso o assustou, visto que do desvario podia o doente
passar  loucura.
    Tudo piorou, um dia, de tal sorte que o Dr. Lus pensou nos remdios
hericos. O doente no s se perdia, mas perdia tambm a rainha;  fora de
falar gritava,  fora de lembrar-se inventava; e o pior  que, nos momentos
de lucidez, que eram muitos, mostrava-se mais louco do que nos momentos de
loucura.
    Tremendamente atrapalhado, no podendo firmar-se na autoridade do rei,
porque nela se firmava tambm o doente, decidiu contar tudo  rainha e
aproveitou, para faz-lo, um momento em que Charny estava dormindo,
cansado de contar os seus sonhos e evocar a sua viso.
    Encontrou Maria Antonieta pensativa e radiante h um tempo, na
suposio de que o mdico ia levar-lhe boas novas do paciente.
    Surpreendeu-se, porm; desde a primeira pergunta, Lus respondeu sem
rebuos que o doente estava muito doente.
    -- Como! -- exclamou a rainha, -- ontem le estava muito bem!
    -- No, senhora, estava muito mal.
    -- Mandei Misery e vs lhe entregastes um bom boletim.
    -- Eu me iludia e queria iludir Vossa Majestade.
    -- Que significa isso? -- voltou a rainha, muito plida, -- se le est mal,
    por que mo ocultar? Que hei de temer, doutor, seno uma desgraa,
    infelizmente, muito comum?
    -- Senhora. ..
    -- E se est bem, por que me deixar numa inquietude muito natural,
    visto que se trata de um bom servidor do rei?...             Vamos, respondei
    francamente: sim ou no! Que h sbria doena? Que h sobre o doente?
    Algum perigo?
    -- Para le menos que para outros, senhora.
    -- J comeam os enigmas, doutor, -- acudiu a rainha, impaciente. --
    Explicai-vos.
    --  difcil, senhora, -- retrucou o cirurgio. -- Basta-lhe saber
    que o mal do Conde de Charny  inteiramente moral. A ferida no
    passa de um simples acessrio dos sofrimentos, um pretexto para o
    delrio.
    -- Um mal moral! O Sr. de Charny!
    -- Sim, senhora; e chamo moral ao que no se analisa com o escalpelo.
    Poupe-me Vossa Majestade ao enleio de dizer-lhe o resto.
    -- Quereis dizer que o conde. . . -- insistiu a rainha.
    -- Vossa Majestade insiste? -- inquiriu o doutor.
    --  claro que sim.
426                          ALEXANDRE DUMAS

    -- Pois quero dizer que o conde est apaixonado. Vossa Majestade pede
uma explicao: explico-me.
   A rainha fz um leve movimento de ombros, como quem diz: grande
coisa!
    -- E cr Vossa Majestade que algum sare assim de um ferimento? --
    volveu o facultativo; -- no, o mal se agrava e, do delrio passageiro, o Sr.
    de Charny cair numa monomania mortal. E nesse caso...
    -- Nesse caso, doutor?
    -- Vossa Majestade ter perdido o rapaz.
    -- Francamente, doutor, so surpreendentes os vossos modos. Eu terei
    perdido o rapaz! Serei, porventura, a causa da loucura dele, se  que le
    est louco?
    -- Sem dvida.
    -- Isso  revoltante!
    -- Se Vossa Majestade no  a causa neste momento, -- prosseguiu o
    inflexvel doutor, dando de ombros, -- s-lo- mais tarde.
    -- Dai-me conselhos, ento, j que  esse o vosso ofcio, -- pedia a
    rainha, o seu tanto mais abrandada.
    -- Devo receitar?
    -- Se o quiserdes.
    -- Pronto: seja o rapaz curado pelo blsamo ou pelo ferro; e a mulher
    cujo nome invoca a todo instante o mate ou cure.
    -- Ou oito ou oitenta, -- interrompeu Maria Antonieta, voltando a
    agastar-se. -- Matar... curar... grandes palavras!        Acaso se mata um
    homem com rigor? Acaso se cura um pobre louco com um sorriso?
    -- Se Vossa Majestade tambm  incrdula, -- acudiu o cirurgio, -- no
    posso fazer outra coisa seno apresentar-lhe os meus humlimos respeitos.
    -- Mas, vamos a ver: em primeiro lugar, trata-se de mim?
    -- No sei, e no quero saber; repito-lhe to-smente que o Sr. de
    Charny  um louco razovel, que a razo pode, ao mesmo tempo,
    conduzir  loucura e  morte, e que a loucura pode conduzir  razo e 
    cura. Assim, quando Vossa Majestade quiser livrar este palcio de gritos,
    sonhos e escndalos, tomar uma deciso.
    -- Qual?
    -- A  que so elas!        S dou receitas, no dou conselhos. Terei,
    porventura, a certeza de haver ouvido o que ouvi, de haver visto o que
    viram meus olhos?
    -- Muito bem, suponde que eu vos compreenda. Que resultar disso?
    -- Duas felicidades: uma, a melhor para Vossa Majestade e para todos
    ns,  que o doente, ferido em pleno corao pelo infalvel estilete que se
    chama razo, ver terminar a sua agonia que
                      O COLAR DA RAINHA                                  427

est comeando; a outra... bem! a outra... perdoe-me Vossa Majestade se ca
na asneira de ver duas sadas para o labirinto. H uma s para Maria
Antonieta, para a rainha de Frana.
    -- Compreendo; falastes com franqueza, doutor. Cumpre que a mulher
    pela qual o Sr. de Charny perdeu a razo lha devolva, por bem ou por
    mal.
    --  isso mesmo!
    -- Cumpre que ela tenha a coragem de ir arrancar-lhe os sonhos, isto , a
    serpente roedora que vive escondida nas profundezas de sua alma.
    -- Sim, Majestade.
    -- Mandai avisar algum; a Srta. de Taverney, por exemplo.
    -- A Srta. de Taverney! -- repetiu o doutor.
    -- Sim, disporeis tudo de modo que o ferido nos receba
    convenientemente.
     --       Muito bem, senhora.
    -- Sem nenhuma contemplao.
    -- Assim  preciso.
    -- Mas, -- murmurou a rainha, --  mais triste do que imaginais arriscar
    assim a vida ou a morte de um homem.
    --  o que fao todos os dias quando me acerco de uma molstia
    desconhecida.     Devo atac-la pelo remdio que mata o mal, ou pelo
    remdio que mata o doente?
    -- Estais certo de matar o doente, no  verdade? -- observou Maria
    Antonieta, estremecendo.
    -- Ora! -- tornou o doutor com ar sombrio, -- ainda que morresse um
    homem pela honra de uma rainha, quantos no morrem todos os dias
    pelo capricho de um rei? Vamos, senhora, vamos!
    Suspirou a rainha e seguiu o velho mdico, sem ter podido encontrar
Andria.
    Eram onze horas da manh; completamente vestido, Charny estava
dormindo numa poltrona aps a agitao de uma noite terrvel. Os postigos do
quarto, cuidadosamente fechados, deixavam passar apenas um plido reflexo
do dia. Tudo se dispusera para c doente de modo que no lhe ferisse a
sensibilidade nervosa, causa primeira de seus padecimentos.
    Nenhum rudo, nenhum contacto, vista nenhuma. O Dr. Lus prevenia
habilmente todos os pretextos de uma recrudescncia e, no entanto, decidido
a desfechar um grande golpe, no recuava diante de uma crise que poderia
matar-lhe o doente.  verdade que tambm poderia salv-lo.
    Vestindo trajos matutinos, penteada com displicente elegncia, entrou
bruscamente a rainha no corredor que levava ao quarto de Charny.
Recomendara-lhe o mdico que no hesitasse, que no experimentasse, mas que
se apresentasse de chofre, resoluta, para produzir um efeito violento.
428                          ALEXANDRE DUMAS

    Ela virou, portanto, to depressa o trinco cinzelado da primeira porta da
antecmara, que uma pessoa apoiada  porta do quarto de Charny, uma
mulher envolta em sua capa, mal teve tempo para endireitar-se e assumir uma
atitude, cuja tranqilidade lhe desmentiam a fisionomia transtornada e as
mos trmulas.
    -- Andria! -- exclamou, espantada, a rainha. -- Tu aqui?
    -- Eu! -- replicou Andria conturbada e plida, -- eu! sim,
    Majestade. Mas Vossa Majestade tambm no est aqui?
    -- Oh! oh! temos complicaes, -- murmurou o doutor.
    -- Procurei-te por toda  parte; onde estavas?
    Havia nas palavras da rainha um tom que no era o de sua costumeira
bondade. Dir-se-ia o preldio de um interrogatrio, o germe de uma suspeita.
    Andria teve medo; receava principalmente que o inconsiderado de sua
atitude lhe trasse os sentimentos, to assustadores para ela mesma. Da que, a
despeito da sua soberba, decidisse mentir pela segunda vez.
    -- Aqui, como Vossa Majestade est vendo.
    -- Sem dvida; mas como?
    -- Senhora, -- replicou ela, -- disseram-me que Vossa Majestade
    me havia mandado chamar; por isso, vim.
    A rainha, cuja desconfiana ainda no se dissipara de todo, insistiu.
    -- Que fizeste para adivinhar aonde eu ia?
    -- Foi fcil, senhora; Vossa Majestade estava com o Sr. Dr.
    Lus, e foi vista atravessando os aposentos particulares; no podia
    ter, evidentemente, outro destino que no este pavilho.
    -- Bem adivinhado, -- voltou a rainha, indecisa ainda mas j
    sem dureza, -- bem adivinhado.
    Andria fz um derradeiro esforo.
    -- Senhora, -- disse, sorrindo, -- se Vossa Majestade trazia a
    inteno de esconder-se, no devia ter-se mostrado nas galerias, co
    mo h pouco se mostrou, para vir aqui. Quando a rainha atravessa
    o terrao, a Srta. de Taverney a v do seu apartamento, e no 
    difcil seguir ou preceder algum visto de longe.
    -- Ela tem razo, -- observou a rainha, -- cem vezes razo.
    Tenho o desgraado hbito de nunca adivinhar; e como reflito
    pouco, no creio nas reflexes dos outros.
    Sentia talvez a rainha que teria necessidade de indulgncia, visto que
tinha preciso de uma confidente.
    De resto, no sendo a sua alma um composto de coqueteria e desconfiana,
como a alma das mulheres vulgares, tinha f nas suas amizades, sabendo que
podia amar. As mulheres que desconfiam de si mesmas, desconfiam muito
mais ainda das outras. A grande infelicidade que pune as scias  que nunca se
crem amadas de seus amantes.
                       O COLAR DA BAINHA                                 429

   Maria Antonieta esqueceu, portanto, a impresso que lhe causara a Srta. de
Taverney diante da porta de Charny. Pegou na mo de Andria, f-la virar a
chave da porta e, passando na frente com extrema rapidez, entrou no quarto do
doente ao passo que o mdico ficava do lado de fora em companhia de
Andria.
    Assim que esta ltima viu desaparecer a rainha, ergueu para o cu um
olhar cheio de clera e de dor, cuja expresso semelhava uma imprecao
furiosa.
    Travou-lhe do brao o bom doutor e ps-se a percorrer com ela o
corredor, dizendo-lhe:
    -- Acreditais que seja bem sucedida?
    -- Bem sucedida em que, Santo Deus? -- acudiu Andria.
    --       Em fazer transportar para outro lugar esse pobre louco, que
    morrer aqui se a febre durar um pouco mais.

  -- E poder sarar longe daqui? -- bradou Andria.
  Surpreso, inquieto, o cirurgio encarou com ela.
  -- Creio que sim, -- disse.
  --       Oh! tomara, ento, que seja bem sucedida! -- exclamou a pobre
moa.
                                     LIV
                                Convalescena


    ENTREMENTES, a rainha se endereara diretamente  poltrona de
Charny.
    Este ergueu a cabea ao rudo que faziam os chapins sobre o assoalho.
   -- A rainha! -- murmurou, tentando erguer-se.
   -- A rainha, sim, senhor, -- deu-se pressa em dizer Maria Antonieta, -- a
   rainha que sabe o quanto forcejais por perder a razo e a vida, a rainha
   que ofendeis em vossos sonhos, a rainha que ofendeis desperto, a
   rainha que zela pela sua honra e pela vossa segurana! Eis por que vos
   procura, senhor, e no  assim que deveis receb-la.
   Levantara-se Charny tremulo, desvairado; s ltimas palavras, porm,
deixara-se escorregar sobre os joelhos, to esmagado pela dor fsica e pela dor
moral que, inclinado como um criminoso, no queria nem podia levantar-se.
   -- Ser possvel, -- continuou a rainha, comovida por aquele respeito e
aquele silncio, -- ser possvel que um fidalgo, renomado outrora entre os
mais leais, persiga como inimigo a reputao de uma mulher? Pois notai
uma coisa, Sr. de Charny, desde o nosso primeiro encontro, no foi a rainha
que vistes e que vos mostrei, foi uma mulher, e nunca devereis t-lo
esquecido.
   Arrastado por essas palavras sadas do corao, Charny quis tentar articular
qualquer coisa em sua defesa; Maria Antonieta, no entanto, no lhe deu
tempo.
   -- Que faro os meus inimigos, -- prosseguiu, -- se parte de vs o
   exemplo da traio?
   -- Traio... -- balbuciou o moo.
   -- Escolhei, senhor: ou sois um insensato, e vou privar-vos dos meios de
   fazer o mal; ou sois um traidor, e vou punir-vos.
   -- No diga, senhora, que sou um traidor.         Na boca dos reis essa
   acusao precede a sentena de morte; na boca de uma mulher, desonra.
   Rainha, mate-me; mulher, poupe-me.
   -- Estais na posse de vossas faculdades, Sr. de Charny? -- sobre veio 
   rainha com voz alterada.
   -- Estou, senhora.
                        O COLAR DA RAINHA                                  431

    -- Tendes conscincia de vossas culpas para comigo, de vosso crime para
    com.. . o rei?
    -- Meu Deus! -- murmurou o infortunado.
    -- Pois, esquecei-lo com demasiada facilidade, senhores fidalgos! O rei  o
    marido da mulher que todos insultais erguendo os olhos para ela;  o pai de
    vosso futuro amo, o meu delfim.  um homem maior e melhor do que
    todos vs, um homem que venero e amo.
    -- Oh! -- murmurou Charny, arrancando do peito um surdo gemido e
    sendo obrigado, para no cair, a apoiar uma das mos no cho.
    O seu grito traspassou o corao da rainha. Ela leu no apagado olhar do
rapaz que le acabava de ser mortalmente ferido e s se salvaria se ela mesma
arrancasse da ferida o dardo que nela fincara.
    Foi porque, misericordiosa e doce, teve medo da palidez e da fraqueza do
culpado e por um triz no chamou por socorro.
    Refletiu, porm, que o mdico e Andria interpretariam mal o desmaio do
doente. Ergueu-o com as prprias mos.
    -- Falemos, -- disse, -- eu como rainha e vs como homem. O Dr. Lus
    tentou curar-vos; esse ferimento, que no era nada, est-se agravando com
    as extravagncias de vosso crebro.           Quando se curar a ferida?
    Quando deixareis de dar ao bom doutor o espetculo escandaloso de uma
    loucura que o inquieta? Quando partireis do castelo?
    -- Senhora, -- balbuciou Charny, -- Vossa Majestade est-me
    mandando embora. Eu vou, eu vou.
    E fz um movimento to violento para partir que, perdendo o equilbrio,
foi cair, cambaleante, nos braos da rainha que lhe barrava a passagem.
    Mal sentiu le o contacto daquele peito ardente que o retinha, mal vergou
sob a involuntria presso do brao que o segurava, a razo desamparou-o de
todo, a boca se lhe abriu para deixar passar um sopro devorador que no era
uma palavra e no ousava ser um beijo.
    A prpria rainha, queimada por esse contacto, vencida por aquela
fraqueza, no teve tempo de acomodar o corpo inanimado na poltrona, e quis
fugir; mas a cabea de Charny cara para trs, batendo na madeira do espaldar.
Um leve tom rseo lhe coloria a escuma dos lbios, uma gota rsea e quente
lhe cara da fronte sobre a mo de Maria Antonieta.
    -- Oh! tanto melhor, -- murmurou le, -- tanto melhor! Morro
s mos de Vossa Majestade.
    A rainha esqueceu tudo. Voltou, ergueu Charny nos braos, aconchegou do
seio a sua cabea morta e apoiou a mo gelada sobre o corao do rapaz.
432                         ALEXANDRE DUMAS

    O amor provocou um milagre: Charny ressuscitou. Abriu os olhos, a viso
sumiu. Apavorava-se a mulher de haver deixado uma lembrana onde supunha
deixar apenas um derradeiro adeus.
    Deu trs passos na direo da porta com tamanha precipitao, que Charny
mal teve tempo de agarrar-lhe a fmbria do vestido, bradando:
    -- Senhora, em nome do respeito que consagro a Deus, menor que o
    respeito que dedico a Vossa Majestade...
    -- Adeus! adeus! -- disse a rainha.
    -- Senhora! perdoe-me!
    -- Eu vos perdoo, Sr. de Charny.
    -- Um ltimo olhar, senhora!
    -- Sr. de Charny, -- volveu a rainha, tremendo de comoo e de clera,
    -- se no fordes o ltimo dos homens, esta noite, amanh, estareis morto
    ou longe do castelo.
    Uma rainha pede quanto ordena nesses termos. Juntando as mos,
inebriado, Charny arrastou-se, de joelhos, at aos ps de Maria Antonieta.
    Esta j abrira a porta para fugir mais depressa ao perigo.
    Andria, cujos olhos devoravam a porta desde o princpio da entrevista, viu o
rapaz prostrado, a rainha emocionadssima; viu os olhos dele resplendentes de
esperana e de orgulho, os olhos dela amortecidos, cravados no cho.
    Ferida em pleno corao, alucinada, cheia de dio e desdm, no curvou a
cabea. Quando viu voltar a rainha, pareceu-lhe que Deus dera demais quela
mulher, dando-lhe como suprfluo um trono e a beleza, pois acabava de dar-
lhe meia hora com o Sr. de Charny.
    O doutor, por sua vez, via tantas coisas que no podia observar nenhuma.
    Preocupado com o xito de negociao entabulada pela rainha, contentou-se
em dizer:
    -- E ento, senhora?
    A rainha levou um minuto para se recompor e reencontrar a voz, abafada
pelas batidas do corao.
    -- Que far le? -- perguntou o mdico.
    -- Partir, -- murmurou a soberana.
    E sem atentar para Andria, que franzia o cenho, e para Lus, que esfregava
as mos, atravessou com passo rpido o corredor da galeria, cobriu-se
maquinalmente com a capa com fofos de renda e voltou aos seus aposentos.
    Andria apertou a mo do doutor, que corria para junto do doente; em
seguida, com passo solene como o de uma sombra, recolheu ao seu quarto,
cabea baixa, olhar parado e esprito ausente.
    No pensara sequer em pedir as ordens da rainha. Para uma natureza como
a sua, a rainha no era nada: a rival era tudo.
                        O COLAR DA RAINHA                                   433

    Entregue de novo aos cuidados de Lus, Charny j no parecia o homem
da vspera.
    Forte at ao exagero, temerrio at  fanfarronice, crivou o bom do
cirurgio com perguntas to insistentes e enrgicas sobre a sua prxima
convalescena, o regime que deveria seguir, os meios de transporte, que Lus
acreditou numa recada mais perigosa ainda, motivada por uma mania de outra
ordem.
    Mas Charny no tardou em desengan-lo; lembrava esses ferros avermelhados
ao contacto do fogo, cuja colorao empalidece  proporo que diminui a
intensidade do calor. O ferro, negro, j no fala  vista, mas ainda 
bastante ardente para devorar o que quer que se lhe apresente.
    Lus viu o rapaz retomar a calma e a lgica dos bons dias. Mostrou-se
realmente Charny to razovel que se julgou na obrigao de explicar ao
mdico a repentina mudana de resoluo.
    -- A rainha, -- disse le, -- curou-me melhor envergonhando-me, do que a
    vossa cincia, meu caro doutor, o teria feito com os mais excelentes
    remdios; levar-me pelo amor-prprio  dmar-me como se doma um
    cavalo com o freio.
    -- Tanto melhor, tanto melhor, -- murmurava o doutor.
    -- Sim, lembro-me de um espanhol, e os espanhis so muito fanfarres,
    que me dizia um dia, para provar-me a sua fora de vontade, que lhe
    bastara, num duelo em que fora ferido, querer reter o sangue para que o
    sangue no corresse e no alegrasse os olhos do adversrio. Ri-me do
    espanhol, mas o caso  que sou meio parecido com le; se a febre e o
    delrio que me reprochais devessem reaparecer, aposto que eu os repeliria,
    dizendo: "Delrio e febre, no tornareis a aparecer".
    -- Temos exemplos desse fenmeno, -- disse gravemente o mdico. --
    Entretanto, permiti que eu vos felicite. Estais moralmente curado?
    -- Estou!
    -- Pois bem, no demorareis em ver as relaes que existem entre o
    moral e o fsico do homem.  uma teoria to bonita que eu seria capaz de
    escrever um livro sobre ela, se tivesse tempo. So de esprito, estareis so
    de corpo dentro em oito dias.
    -- Obrigado, meu querido doutor!
    -- E, para comear, partireis?
    -- Quando quiserdes. Imediatamente.
    -- Esperemos a noite.        Moderemo-nos.        Os extremos so sempre
    perigosos.
    -- Esperemos a noite, doutor.
    -- Ireis para longe?
    -- Para o fim do mundo, se fr preciso.
434                          ALEXANDRE DUMAS

    --  muito longe para a primeira sada, -- observou o cirurgio com a
    mesma fleuma. -- Contentemo-nos, por ora, com Versalhes.
    -- Pois seja Versalhes, j que assim o quereis.
    -- Parece-me, -- volveu o mdico, -- que o fato de haverdes curado um
    ferimento no  razo para que vos expatrieis.
    Esse estudado sangue frio acabou de pr Charny de preveno.
    --  verdade; tenho uma casa em Versalhes.
    -- Muito bem! isso resolve o nosso caso: para l ireis esta noite.
    -- No me compreendestes bem, doutor; eu desejava dar uma volta pelas
    minhas terras!
    -- Ah! e por que no o dissestes logo? Mas as vossas terras, que diacho!
    no ficam no fim do mundo.
    -- Ficam na fronteira da Picardia, a quinze ou dezoito lguas daqui.
    -- Estais vendo?
    Charny apertou a mo do facultativo, como para agradecer-lhe todas as
delicadezas.
     noite, os quatro lacaios que le tanto maltratara por ocasio da primeira
tentativa, transportaram-no  carruagem que o esperava diante do
portozinho de servio.
    Tendo caado o dia inteiro, o rei acabara de cear e j estava dormindo. Um
tanto preocupado de sair sem se despedir, Charny foi plenamente
tranqilizado pelo mdico, que lhe prometeu justificar a partida atribuindo-a a
uma necessidade de mudana de ares.
    Antes de entrar no carro, deu-se Charny a dolorosa satisfao de olhar, at
o derradeiro momento, para as janelas do apartamento da rainha. Ningum
podia v-lo. Um dos lacaios, com um archote na mo, alumiava o caminho
sem alumiar a sua fisionomia.
    Charny s encontrou  sada alguns oficiais, seus amigos, avisados a tempo,
para que a partida no tivesse o aspecto de uma fuga.
    Escoltado at ao carro pelos alegres companheiros, pde deixar que os olhos
lhe errassem pelas janelas: as da rainha resplandeciam de luzes. Um pouco
indisposta, Sua Majestade recebera as damas no quarto de dormir.
    As de Andria, tristes e escuras, escondiam atrs das pregas das cortinas de
damasco uma mulher ansiosa, palpitante, que seguia, sem ser pressentida, os
menores movimentos do enfermo e de sua escolta.
    Arrancou-se dali, finalmente, o veculo, mas to devagar que se ouvia
percutir nas pedras do cho cada ferradura dos cavalos.
    -- Se le no  meu, -- murmurou Andria, -- pelo menos tambm no
     de mais ningum.
    -- Se lhe voltarem desejos de morrer, -- disse entre si o doutor ao recolher-
    se, -- pelo menos no morrer em minha casa nem
                        O COLAR DA RAINHA                                  435

minhas mos. O diabo carregue as doenas da alma! No sou o mdico de
Antoco e de Estratonice para curar essas doenas.
    Charny chego so e salvo  sua casa. O mdico foi visit-lo  noite, e
encontrou-o to bem, que se deu pressa em anunciar-lhe que seria aquela a sua
ltima visita.
    O doente comeu,  ceia, um peito de frango e uma colher de gelia de
Orlans.
    No dia seguinte, recebeu a visita do tio, o Sr. de Suffren, a visita do Sr.
de Lafayette, e a de um enviado do rei. Praticamente o mesmo aconteceu no
dia imediato, e depois ningum mais se preocupou com le.
    Charny se levantava e passeava no jardim.
    Ao termo de oito dias, j podia montar um cavalo de passo macio;
tinham-lhe voltado s foras. Pediu ao mdico do tio e mandou pedir ao Dr.
Lus autorizao para viajar para as suas terras.
    Lus respondeu, sem hesitao, que a locomoo era a ltima fase do
tratamento das feridas; que o Sr. de Charny tinha um bom carro, e que a estrada
da Picardia era lisa como um espelho; nessas condies, ficar em Versalhes
quando se podia viajar to bem e to felizmente, seria loucura.
    Charny mandou carregar de bagagens uma carroa; apresentou suas
despedidas ao rei, que o cumulou de gentilezas, rogou ao Sr. de Suffren que
transmitisse os seus respeitos  rainha, que nessa noite se achava enferma e
no recebia ningum. Logo, tomando o carro diante do prprio porto do
castelo real, guiou para a cidadezinha de Villers-Cotterets, de onde devia
seguir para o castelo de Bourssonnes, a uma lgua do lugarejo que j
ilustravam as primeiras poesias de Dumoustier.
                                       LV
                           Dois coraes que sangram

    NO DIA seguinte quele em que a rainha fora surpreendida por Andria
fugindo de Charny, ajoelhado diante dela, a Srta. de Taverney entrou, como
de costume, no quarto real  hora em que Sua Majestade se vestia para ir 
missa.
   A rainha ainda no recebera visitas. Acabava apenas de ler um bilhete
da Sra. de La Motte, e estava de bom humor.
   Ainda mais plida que na vspera, apresentava Andria em toda a sua
pessoa o ar srio e a fria reserva que chamam a ateno e obrigam os mais
fortes a contar com os mais fracos.
   Simples, austera por assim dizer no trajar, Andria parecia uma mensageira
de desgraa, fosse essa desgraa para si ou para outros.
   A rainha estava num de seus dias de distrao; por isso mesmo no deu tento
do andar lento e grave da moa, dos seus olhos avermelhados, da plida alvura
de suas tmporas e de suas mos.
   Virou a cabea apenas o suficiente para fazer ouvir a sua amistosa saudao.
   -- Bom dia, menina.
    Esperou Andria que a rainha lhe desse ocasio de falar. Esperou, certa de
que o seu silncio, a sua imobilidade, acabariam chamando a ateno de Maria
Antonieta.
   Foi o que aconteceu. No recebendo como resposta seno uma profunda
reverncia, a rainha voltou-se e, de soslaio, observou o rosto doloroso e rgido.
   -- Santo Deus!        Que aconteceu, Andria? -- perguntou, voltando-se
   completamente. -- Sucedeu-te alguma desgraa?
   -- Uma grande desgraa, sim, senhora, -- replicou a moa.
   -- Qual?
   -- Vou deix-la, Majestade.
   -- Deixar-me! Vais partir?
   -- Sim, senhora.
   -- Aonde vais? Qual ser a causa dessa partida precipitada?
    -- Senhora, no sou feliz em minhas afeies...
    A rainha ergueu a cabea.
    -- De famlia, -- ajuntou Andria, purpureando-se.
                        O COLAR DA RAINHA                                 437

A rainha corou tambm, e o relmpago dos olhares de ambas se cruzou
brilhando como um choque de espadas. Foi a rainha a primeira que se
recobrou.
    -- No te compreendo bem, -- disse ela; -- parece-me que ontem estavas
    feliz.
    -- No, senhora, -- retrucou Andria com firmeza; -- ontem foi um dos
    dias mais infelizes de minha vida.
    -- Ah! -- exclamou a rainha, tornando-se pensativa.
    E acrescentou:
    -- Explica-te.
    -- Fora preciso que eu me resignasse a fatigar Vossa Majestade com
pormenores indignos de si.        No encontro satisfao alguma em minha
famlia; no tenho nada que esperar dos bens terrenos, e venho pedir
permisso a Vossa Majestade para me ocupar da minha salvao.
    Ergueu-se a rainha, e posto que o gesto parecesse custar-lhe ao orgulho,
pegou na mo de Andria.
    -- Que significa essa deciso de cabeuda? -- perguntou. -- No tinhas
ontem um irmo, um pai, como hoje? Seriam, acaso, menos incmodos ontem
e menos perniciosos do que hoje?         Acreditas-me capaz de deixar-te em
situao difcil, e j no sou a me de famlia que d uma famlia aos que a
no tm?
    Andria ps-se a tremer como uma culpada e, inclinando-se diante da
rainha, disse:
    -- Senhora, a bondade de Vossa Majestade me penetra mas no me
    dissuadir. Resolvi deixar a corte, tenho necessidade de voltar  solido,
    no me exponha Vossa Majestade a trair os meus deveres para consigo pela
    falta de vocao que sinto em mim.
    -- Desde ontem, ento?
    -- Haja Vossa Majestade por bem no me ordenar que fale sobre esse
    assunto.
    -- S livre, -- voltou  rainha com azedume, -- mas eu tinha contigo
    suficiente confiana para que a tivesses comigo tambm. Mas a quem
    no quer falar louco  o que pede uma palavra. Guarda os teus
    segredos, senhorita; s mais feliz longe daqui do que aqui o foste.
    Lembra-te apenas de uma coisa,  que a minha amizade no desampara as
    pessoas a despeito dos seus caprichos, e que no deixars de ser para mim
    uma amiga. Agora, Andria, vai, que ests livre.
    Andria fz uma reverncia formal e saiu.  porta, a rainha voltou a
cham-la.
    -- Aonde vais, Andria?
    --  abadia de So Dinis, senhora.
    -- Para o convento! Muito bem, senhorita, talvez no tenhais nada que
    vos censurar; mas ainda que fsseis apenas ingrata e des-
438                        ALEXANDRE DUMAS

lembrada, sereis assaz culpada para comigo; ide, Srta. de Taverney, ide.
    Disso resultou que, sem dar quaisquer outras explicaes com que contava
o bom corao da rainha, sem se humilhar, Andria tomou ao p da letra a
autorizao e desapareceu.
    Maria Antonieta pde perceber, e percebeu, que a Srta. de Taverney deixava
imediatamente o castelo.
    Com efeito, dirigia-se para a casa do pai, onde, como esperava, encontrou
Filipe no jardim. O irmo devaneava; a irm agia.
     vista de Andria, cujo servio deveria ret-la no castelo quela hora,
Filipe adiantou-se surpreso, quase assustado.
    Assustado sobretudo pelo semblante sombrio, pois a irm nunca o procurava
seno com um sorriso de terna amizade, comeou como o fizera Sua
Majestade: interrogou. Anunciou-lhe Andria que acabava de deixar o servio
da rainha; que o pedido de dispensa fora aceito e que ela ia entrar para o
convento. Filipe bateu as mos com fora, como quem recebe um golpe
inesperado.
    -- Como! -- bradou, -- tu tambm, mana?
    -- Eu tambm, como? Que queres dizer?
    -- Ser, porventura, um contacto maldito para a nossa famlia o dos
    Bourbons? -- exclamou; -- julgas-te obrigada a professar, tu! religiosa por
    gosto, por alma; tu, a menos mundana das mulheres e a menos capaz de
    eterna obedincia s leis do ascetismo! Vamos a ver, que reprochas 
    rainha?
    -- No se lhe pode reprochar coisa alguma, Filipe, -- respondeu friamente
    a moa; -- tu, que tanto contaste com o favor das cortes; tu, que mais do
    que ningum, devias contar com eles, por que no pudeste ficar? Por
    que l no ficaste nem trs dias? Eu fiquei trs anos!
    -- A rainha, s vezes,  caprichosa, Andria.
    -- Se assim , poderias sofr-lo, Filipe, tu que s homem; eu, mulher, no
    quero nem devo sofr-lo; se ela tem caprichos, as cria das l esto para
    servi-la.
    -- Mas nada disso, mana, -- atalhou o rapaz constrangido, --me
    esclarece o que houve entre ti e a rainha.
    -- No houve nada; houve, acaso, alguma coisa entre ti e ela quando a
    deixaste? Essa mulher  ingrata.
    -- Deves perdo-la, Andria.       A lisonja estragou-a um pouco,mas, no
    ntimo,  boa.
    -- Prova disso  o que fz por ti, Filipe.
    -- Que foi o que fz?
    -- J te esqueceu? Pois tenho melhor memria. Por isso mesmo, num dia
    s, e com uma s resoluo, pago a tua dvida e a minha, Filipe.
    -- Mas caro demais, a meu ver, Andria; no  na tua idade,com a tua
    beleza, que a gente renuncia ao mundo. Cuidado, minha
                         O COLAR DA RAINHA                                  439

querida amiga, se o deixas moa, ters saudades dele quando fores velha, e,
quando j no fr ocasio, a le voltars, desagradando os teus amigos, dos
quais uma loucura te haver separado.
    -- No raciocinavas assim, tu, bravo oficial honrado e sensvel, mas pouco
    zeloso do renome ou da fortuna, pois, onde cem outros grangearam ttulos
    e ouro no soubeste seno fazer dvidas e apequenar-te; no raciocinavas
    assim quando me dizias: ela  caprichosa, Andria, ela  casquilha, ela 
    prfida; prefiro no a servir. Como prtica dessa teoria, renunciaste ao
    mundo, embora no tenhas professado, e de ns dois o que est mais
    perto dos votos irrevogveis, no sou eu que os vou fazer, mas tu que j os
    fizeste.
    -- Tens razo, mana, e no fora nosso pai...
    -- Nosso pai! ah! Filipe, no fales assim, -- voltou Andria com
    amargura, -- um pai no deve ser o sustentculo dos filhos ou conseguir-
    lhes um apoio? S nessas condies  pai. Que faz o nosso, pergunto
    eu?      J tiveste alguma vez a idia de confiar um segredo ao Sr. de
    Taverney? E julga-lo capaz de chamar-te para te confiar um segredo seu?
    No, -- continuou Andria com expresso de tristeza, -- no, o Sr. de
    Taverney foi feito para viver s neste mundo.
    -- De acordo, Andria, mas no foi feito para morrer s.
     Ditas com doce severidade, essas palavras lembravam  moa
que ela deixava s suas cleras, aos seu azedumes, aos seus rancores contra o
mundo, um lugar demasiado grande no corao.
    -- Eu no quisera, -- respondeu, -- que me tomasses por uma criatura
sem entranhas; sabes que sou terna irm; mas cada qual, neste mundo,
procurou sempre matar em mim o instinto simptico que lhe correspondia.
Deus me havia dado ao nascer, como a todas as criaturas, uma alma e um
corpo; dessa alma e desse corpo toda a criatura humana pode dispor, para sua
felicidade, neste mundo e no outro.        Um homem que eu no conhecia
tomou-me a alma:
Blsamo. Um homem que mal conhecia, e que no era um homem para mim,
tomou-me o corpo: Gilberto. Repito-o, Filipe, para ser uma rapariga boa e
piedosa, s me falta um pai. Passemos ao teu caso, examinemos o que te
rendeu o servio dos grandes da terra, a ti que os amavas.
    Filipe abaixou a cabea.
    -- Poupa-me, -- disse le; -- os grandes da terra no eram para mim seno
    criaturas minhas semelhantes: eu os amava: Deus ordenou que nos
    amssemos uns aos outros.
    -- Oh! Filipe, -- contraditou a moa, -- nunca sucede nesta terra que o
    corao amante corresponda diretamente a quem o ama; os que ns
    escolhemos escolhem outros.
    Ergueu Filipe a cabea plida e considerou longamente a irm, com uma
expresso de espanto gravada no rosto.
440                         ALEXANDRE DUMAS

     -- Por que me dizes isso? Aonde queres chegar? -- perguntou.
     -- A nada, a nada, -- replicou generosamente Andria, que recuou
     diante da idia de descer a relatrios ou a confidncias. --Estou ferida,
     mano.      Creio que a minha razo est sofrendo; no ds s minhas
     palavras ateno alguma.
     -- Entretanto...
     Andria abeirou-se de Filipe e tomou-lhe a mo.
     -- Mudemos de assunto, mano querido. Vim pedir-te que me conduzas a
um convento: escolhi o de So Dinis; no quero professar, tranqiliza-te.
Isso vir mais tarde, se fr preciso. Ao invs de buscar num asilo o que nele
deseja encontrar a maioria das mulheres, o esquecimento, pedir-lhe-ei a
memria. Parece-me que esqueci por demais o Senhor. le  o nico rei, o
nico amo, a nica consolao, como tambm o nico verdadeiro
aflitor.Reaproximando-me dele, hoje que o compreendo, farei mais pela minha
felicidade do que se tudo o que h de rico, de forte, de poderoso e de
amvel neste mundo conspirasse para proporcionar-me uma vida feliz. 
solido, mano,  solido, vestbulo da eterna beatitude!... Na solido, Deus
fala ao corao do homem; na solido, o homem fala ao corao de Deus.
     Filipe deteve Andria com o gesto.
     -- Lembra-te, -- disse le, -- que me oponho moralmente a esse projeto
     desesperado: no me fizeste juiz das causas do teu desespero.
     -- Desespero! -- sobreveio ela com soberano desdm. -- Desespero!
     Graas a Deus no parto desesperada!          Sentir falta com desespero!
     No! no! mil vezes no!
     E com um movimento de selvagem altivez, atirou sobre os ombros a capa
de seda que repousava junto dela sobre uma poltrona.
     -- Esse mesmo excesso de desdm revela em ti um estado que no pode
     durar, -- volveu Filipe; -- se no queres a palavra desespero, Andria,
     aceita a palavra despeito.
     -- Despeito! -- retrucou a moa, convertendo o sorriso sardnico num
     sorriso cheio de soberba. -- No acreditas, meu irmo, que a Srta. de
     Taverney seja to fraca que ceda o seu lugar neste mundo por um
     movimento de despeito.         O despeito  a fraqueza das scias ou das
     nscias. O olhar iluminado pelo despeito logo se inunda de lgrimas, e o
     incndio se apaga.      No tenho despeito, Filipe.    Eu quisera que me
     acreditasses, e para isso bastaria que tu
     mesmo te interrogasses, quando alguma coisa te aflige.       Responde: se
     amanh te recolhesses  Trapa, se te fizesses cartuxo, como chamarias 
     causa que te houvesse levado a essa resoluo?
     -- Eu lhe chamaria tristeza incurvel, mana, -- respondeu Filipe com a
     suave majestade do infortnio.
                         O COLAR DA RAINHA                                  441

    -- Ainda bem, Filipe, eis a uma expresso que me convm e que adoto.
    Seja; , portanto, uma tristeza incurvel que me arrasta para a solido.
    -- Bem! -- respondeu Filipe, -- e assim o irmo e a irm no tero tido
    dessemelhanas em suas vidas.        Felizes de uma forma igual, tero sido
    sempre infelizes no mesmo grau.  isso que faz a boa famlia, Andria.
    Cuidou Andria que Filipe, presa da emoo, lhe estivesse fazendo outra
pergunta, e talvez o seu corao inflexvel houvesse cedido  presso da
amizade fraternal.
    Mas Filipe sabia por experincia que as grandes almas se bastam a si
mesmas: No perturbou a de Andria na trincheira que ela escolhera para si.
    -- A que horas e em que dia esperas partir? -- perguntou.
    -- Amanh; hoje mesmo, se houvesse tempo.
    -- No dars comigo uma ltima volta pelo parque?
    -- No.
    O rapaz compreendeu pelo aperto de mo que acompanhou a recusa, que ela
procurava apenas evitar uma ocasio de se deixar enternecer.
    -- Estarei pronto quando me mandares avisar.
    E beijou-lhe a mo sem acrescentar qualquer outra palavra, que teria
feito transbordar a amargura de seus coraes.
    Depois de haver concludo os primeiros preparativos, Andria recebeu o
seguinte bilhete de Filipe:
    "Poders ver nosso pai s cinco horas da tarde. O adeus  indispensvel. O
Sr. de Taverney se queixaria, depois, de abandono e ingratido."
   Ela respondeu:
         "s cinco horas estarei em casa do Sr. de Taverney em trajos de
      viagem. As sete poderemos estar em So Dinis. No queres dedicar--
      me  noite de hoje?"
  Por nica resposta, Filipe gritou da janela, to prxima do apartamento de
Andria que a irm pde ouvi-lo:
  -- s cinco horas, o carro estar pronto.
                                      LVI
                           Um ministro das finanas

    VIMOS que, antes de receber Andria, a rainha lera um bilhete da
Sra. de La Motte e sorrira.
    O bilhete continha apenas estas palavras, acompanhadas de todas as
frmulas possveis de respeito:
         "...E Vossa Majestade pode ficar certa de que se lhe dar crdito, e de
       que a mercadoria ser entregue em confiana."
    A rainha sorrira e queimara o recadinho de Joana.
    Depois que se entristeceu um pouco na companhia da Srta. de Taverney, a
Sra. de Misery foi anunciar-lhe que o Sr. de Calonne estava esperando a
honra de ser recebido por ela.
    No ser despropositado explicar ao leitor quem  o novo personagem. A
histria j o tornou assaz conhecido, mas o romance, que debuxa com menos
exatido as perspectivas e traos principais, proporciona talvez pormenores
mais satisfatrios  imaginao.
    O Sr. de Calonne era um homem inteligente, inteligentssimo at, que,
saindo da gerao da ltima metade do sculo, pouco habituada s lgrimas,
embora arrazoadora, se conformara com a desgraa suspensa sobre a Frana,
misturava o seu interesse ao interesse comum, dizia como Lus XV: "Depois
de ns o fim do mundo" e, em toda  parte, buscava as flores para enfeitar o
seu ltimo dia.
    Estava a par de tudo, era um corteso. Cultivara todas as mulheres ilustres
pelo esprito, pela riqueza e pela beleza, com homenagens semelhantes s que a
abelha presta s plantas carregadas de aromas e de sucos.
    Todos os conhecimentos da poca se resumiam na conversao de sete ou
oito homens e dez ou doze mulheres. O Sr. de Calonne pudera calcular com
d'Alembert, arrazoar com Diderot, rir com Voltaire, sonhar com Rousseau;
mostrara-se, enfim, suficientemente forte para caoar da popularidade do Sr.
Necker.
    O Sr. Necker, o sbio, o profundo, cujo relatrio parecera iluminar a Frana
inteira! Tendo-o examinado muito bem por todos os prismas, Calonne
acabara ridiculizando-o at aos olhos daqueles que mais o temiam, e a rainha e
o rei, que esse nome fazia estre-
                        O COLAR DA RAINHA                                  443

mecer, ainda no se tinham acostumado a ouvir, sem tremer, escarnec-lo um
estadista elegante, bem-humorado, que, para responder a tantos lindos
algarismos, se contentava em dizer: "De que adianta provar que no se pode
provar coisa alguma?"
    De feito, Necker s conseguira provar que lhe era impossvel continuar
gerindo as finanas, ao mesmo passo que o Sr. de Calonne as aceitara como
um fardo leve demais para os seus ombros. No entanto, desde os primeiros
momentos, pode dizer-se que vergara sob o seu peso.
    Que queria o Sr. Necker? Reformas. Essas reformas parciais apavoravam
todos os espritos. Pouca gente ganhava com elas, e os que ganhavam,
ganhavam muito pouco; muita gente, pelo contrrio, perdia e perdia muito.
Quando Necker pretendia proceder a uma justa repartio de impostos,
quando entendia de taxar as terras da nobreza e as rendas do clero, indicava
brutalmente uma revoluo impossvel. Fracionava a nao e prematuramente a
enfraquecia quando teria sido necessrio concentrar-lhe todas as foras para
conduzi-la a um resultado geral de renovao.
    Necker mostrava esse desiderato e tornava-o impossvel de atingir-se pelo
simples fato de hav-lo mostrado. Falar em reforma de abusos queles que no
querem que os abusos sejam reformados, no  expor-se  oposio dos
interessados? Deve-se, acaso, avisar o inimigo da hora em que ser desfechado
o ataque  sua fortaleza?
    Compreendera-o Calonne, mais verdadeiramente amigo da nao, nesse
ponto, do que o genebrs Necker, mais amigo, dizemos ns, no tocante aos
fatos consumados, pois, em lugar de prevenir um mal inevitvel, acelerava o
advento do flagelo.
    O seu plano era arrojado, gigantesco, seguro; tratava-se de arrastar para a
bancarrota o rei e a nobreza, que a teriam retardado por mais dez anos;
depois, diante da bancarrota, dizer: "Agora, ricos, pagai pelos pobres, porque
eles tm fome e devoraro os que os no alimentarem".
    Como foi que o rei no viu, desde logo, as conseqncias desse plano ou o
prprio plano? Como foi que le, que fremira de clera ao ler o relatrio, no
estremeceu adivinhando o seu ministro? Como foi que no optou por um dos
dois sistemas, e preferiu deixar--se ir ao sabor da aventura? So estas,
realmente, as nicas contas que Lus XVI, como poltico, tem de acertar com a
posteridade. Era o famoso princpio ao qual sempre se ope quem quer que no
tenha foras suficientes para cortar o mal quando o mal  inveterado.

   Mas para que a venda se tenha espessado de tal arte nos olhos do rei; para
que a rainha, to clarividente e exata em seus exames, se tenha mostrado to
cega quanto o marido em relao ao procedimento do ministro, a historia, ou
melhor o romance, e  aqui
444                         ALEXANDRE DUMAS

que le se torna bem-vindo, vai dar-nos alguns pormenores indispensveis.
    O Sr. de Calonne entrou nos aposentos da rainha.
    Era um belo homem, alto, de modos fidalgos; sabia fazer rir as rainhas e
chorar as amantes. Certo de que Maria Antonieta o mandara chamar por
alguma necessidade urgente, chegava com o sorriso nos lbios. Muitos outros
teriam vindo com sobrecenho, para duplicar mais tarde o mrito do seu
consentimento.
    A rainha tambm se mostrou graciosa; fz sentar-se o ministro e comeou
falando sobre mil e uma coisas sem importncia.
    -- Temos dinheiro, -- perguntou em seguida, -- meu caro Sr.
    de Calonne?
    -- Dinheiro? -- bradou o Sr. de Calonne. -- Est visto que o
    temos, senhora; temo-lo e sempre o teremos.
    -- Que maravilha! -- volveu a rainha, -- sois a primeira pessoa que
    conheo a responder assim a pedidos de dinheiro; como financista sois
    incomparvel.
    -- De quanto precisa Vossa Majestade? -- acudiu Calonne.
    -- Explicai-me primeiro, por favor, o que fizestes para achar dinheiro
    onde o Sr. Necker jurava no o haver?
    -- O Sr. Necker tinha razo; no havia dinheiro nos cofres, e isso  to
    verdadeiro que, no dia em que assumi a direo do ministrio, a 5 de
    novembro de 1783, essas coisas no se esquecem,vasculhando o tesouro
    pblico, apenas encontrei em caixa dois sacos de mil e duzentas libras.
    Nem um ceitil a menos.
    A rainha abriu a rir.
    -- E ento? -- exclamou.
    -- Ento, senhora, se o Sr. Necker, em vez de dizer:            "J no h
    dinheiro", se pusesse a pedir emprestado, como eu fiz, cem milhes no
    primeiro ano e cento e vinte no segundo; se tivesse certeza,como tenho, de
    um novo emprstimo de oitenta milhes para o terceiro, o Sr. de Necker
    teria sido um verdadeiro financista: qual quer um pode dizer: "J no h
    dinheiro em caixa"; mas nem todos sabem responder: "H".
    -- Era o que eu vos dizia; e por isso vos felicitava, senhor. Mas como se
    pagar? A  que est a dificuldade.
    -- Oh! senhora, -- respondeu Calonne com um sorriso cuja profundeza e
    cuja aterradora significao nenhum olhar humano poderia medir, --
    garanto-lhe que se h de pagar.
    -- Fio-me de vs, -- disse a rainha; -- mas continuemos a conversar sobre
    finanas; convosco,  uma cincia interessantssima; sara exposta pelos
    outros, exposta por vs  uma rvore frutfera.
    Calonne inclinou-se.
    -- Tendes algumas idias novas? -- perguntou a rainha; -- contai-mas
com primazia, por favor.
                        O COLAR DA RAINHA                                 445

   -- Tenho uma idia, senhora, que por vinte milhes no bolso dos
   franceses, e sete ou oito no seu; perdo, na caixa de Sua Majestade.
   -- Esses milhes sero bem-vindos aqui e ali. Por onde chegaro?
   -- Vossa Majestade no ignora que a moeda de ouro no tem o mesmo
   valor em todos os Estados da Europa.
   -- Eu sei. Na Espanha, o ouro  mais caro do que em Frana.
   -- Vossa Majestade tem toda a razo, e  um prazer conversar consigo
   sobre finanas. O ouro vale na Espanha, de uns cinco a seis anos a esta
   parte, dezoito onas a mais por marco do que em Frana. Da resulta que
   os exportadores ganham sobre um marco de ouro que exportam da Frana
   para a Espanha catorze onas de prata, mais ou menos.
   --  considervel! -- observou a rainha.
   -- De tal sorte que, daqui a um ano, -- continuou o ministro, -- se os
   capitalistas soubessem o que sei, no restaria entre ns um lus de ouro
   sequerl
   -- E impedireis que isso acontea?
   -- Imediatamente: aumentarei o valor do ouro de quinze marcos por
   quatro onas, dando um lucro de quinze por cento. Compreender Vossa
   Majestade que no ficar um lus nos cofres quando se souber que a Casa da
   Moeda paga esse lucro aos portadores de
   ouro. Far-se-, portanto, a refundio da moeda e, no marco de ouro,
   que contm hoje trinta luses, acharemos trinta e dois.
   -- Lucro presente, lucro futuro! -- exclamou a rainha. --  uma idia
   encantadora, que far furor.
   -- Assim o creio, senhora, e folgo muito em que ela tenha obtido to
   completa aprovao de Vossa Majestade.
   -- Tende-as sempre assim e acabaremos pagando as nossas dvidas.
   -- Permita-me, senhora, -- tornou o ministro, -- voltar ao que Vossa
   Majestade deseja de mim.
   Seria possvel, senhor, obter neste momento...
   -- Quanto?
    --       Oh! uma soma talvez exagerada...
    Calonne sorriu de modo que animou a rainha.
    -- Quinhentas mil libras, -- disse ela.
    -- Ah! senhora, -- bradou o ministro, -- Vossa Majestade me pregou um
susto! Imaginei que se tratasse de uma soma de verdade.
    --Podei-lo?
    -- Seguramente.
    --       Sem que o rei. ..
    -- Isso  que  difcil; todas as minhas contas so mensalmente
    apresentadas a Sua Majestade; at agora, porm, no se soube de uma vez
    sequer em que o rei as tivesse lido, o que muito me honra.
446                        ALEXANDRE DUMAS

   -- Quando poderia eu contar com a importncia?
   -- Em que dia ter Vossa Majestade preciso dela?
   -- No dia cinco do ms que vem.
   -- As contas sero apresentadas no dia dois; Vossa Majestade ter o
   dinheiro no dia trs.
   -- Obrigada, Sr. de Calonne.
   -- A minha maior felicidade consiste em agradar a Vossa Majestade.
   Suplico-lhe que nunca se constranja com a minha caixa.Isto ser um
   verdadeiro blsamo para o amor-prprio do seu ministro das finanas.
   le se havia levantado e cortejado graciosamente; a rainha deu--lhe a mo
para beijar.
   -- Mais uma palavrinha, -- disse ela.
   -- Sou todo ouvidos, senhora.
   -- Esse dinheiro custa-me um remorso.
   -- Um remorso... -- repetiu o ministro.
   -- Sim.  para satisfazer um capricho.
   -- Tanto melhor, tanto melhor...        Nesse caso, pelo menos metade da
   soma reverter em lucros para a nossa indstria, para o nosso comrcio ou
   para os nossos prazeres.
   -- De fato,  verdade, -- murmurou a rainha, -- e tendes um modo
   encantador de consolar-me.
   -- Louvado seja Deus! Se os nossos remorsos forem todos como os de Vossa
   Majestade, iremos direitinho para o cu.
   --  que, Sr. de Calonne, seria demasiado cruel para mim fazer que o pobre
   povo pagasse os meus caprichos.
   -- Pois bem! -- disse o ministro, acentuando com o seu sorriso sinistro
   cada palavra, -- ponhamos de parte todo e qualquer escrpulo, senhora,
   pois juro-lhe que o pobre povo nunca pagar.
   -- Por qu? -- inquiriu, surpresa, a rainha.
   -- Porque o pobre povo j no tem nada, -- respondeu
   imperturbavelmente o ministro, -- e onde no h nada perde o rei seus
   direitos.
   Cumprimentou e saiu.
                                    LVII


                   Iluses reencontradas -- segredo perdido

    SR. DE CALONNE ainda estava atravessando a galeria de volta  sua
casa, quando a unha de uma mo apressada arranhou a porta do toucador
da rainha. Apareceu Joana.
   -- Senhora, -- disse ela, -- le est aqui.
   -- O cardeal? -- perguntou a rainha, espantada com a palavra le, que
   tantas coisas significa quando pronunciada por uma mulher.
    No terminou. Joana j havia introduzido o Sr. de Rohan e despediu-se,
apertando, s escondidas, a mo do protetor protegido.
   Viu-se o prncipe a trs passos apenas da soberana, a quem dirigiu
respeitosamente os cumprimentos de praxe.
   Diante dessa reserva cheia de tacto, sentiu-se a rainha tocada; estendeu a mo
ao cardeal, que ainda no levantara os olhos para ela.
   -- Senhor, -- disse ela, -- contaram-me de vs um gesto que redime
   muitas culpas.
   -- Seja-me permitido, -- respondeu o prncipe, tremendo de no afetada
   comoo, -- seja-me permitido, senhora, afirmar-lhe que as culpas a que
   Vossa Majestade se refere seriam bem atenuadas se fosse possvel uma
   palavra de explicao entre ns.
   -- No vos defendo que vos justifiqueis, -- replicou a rainha com
   dignidade, -- mas o que me direis projetaria uma sombra sobre o amor
   e o respeito que dedico ao meu pas e  minha famlia.              No podeis
   desculpar-vos seno ferindo-me, Sr. Cardeal. Mas faamos uma coisa: no
   toquemos nesse fogo mal extinto, que talvez ainda queimasse os vossos
   dedos ou os meus; ver-vos  nova luz que a mim vos revelou, obsequioso,
   respeitoso, devotado...
   -- Devotado at  morte, -- atalhou o cardeal.
   -- Ainda bem. Mas, -- prosseguiu Maria Antonieta, sorrindo, -- por
   enquanto s se trata da runa.        Ser-me-eis devotado at  runa, Sr.
   Cardeal?  bonito, muito bonito. Felizmente, estou pondo nisso um
   pouco de ordem. Vivereis e no ficareis arruinado,
   a menos que, como se diz, vos arruineis sozinho.
   -- Senhora...
448                      ALEXANDRE DUMAS

   -- Mas esse  problema vosso. Entretanto, como amiga, visto que agora
   somos bons amigos, dar-vos-ei um conselho:            Sede econmico,  uma
   virtude pastoral; o rei vos apreciar mais econmico do que prdigo.
   -- Far-me-ei avaro para agradar a Vossa Majestade.
   -- O rei, -- voltou  rainha com sutil inteno, -- tambm no gosta de
   avaros.
   -- Far-me-ei o que quiser Vossa Majestade, -- interrompeu o cardeal com
   mal disfarada paixo.
   -- Dizia-vos eu, portanto, -- atalhou bruscamente a rainha, -- que no
   ficareis arruinado por minha causa.         Respondestes por mini, sou-vos
   imensamente grata, mas tenho com que honrar os meus compromissos;
   por conseguinte, no volteis a preocupar-vos com estes negcios, que, a
   partir do primeiro pagamento, s a mim diro respeito.
   -- Para que se conclua o negcio, senhora, -- disse o cardeal, inclinando-
   se, -- resta-me oferecer o colar a Vossa Majestade.
   E tirou, ao mesmo tempo, o escrnio do bolso e apresentou-o  rainha.
   Maria Antonieta nem sequer o passou pelos olhos, o que nela denotava um
desejo imenso de v-lo, e, tremula de alegria, dep-lo sobre um aparador.
    O cardeal, em seguida, arriscou-se a dizer algumas delicadezas, que foram
muito bem recebidas, e logo voltou s palavras da soberana sobre a
reconciliao entre ambos.
   Mas, como ela prometera a si mesma no olhar para os brilhantes em
presena dele, e morresse por v-los, ouviu-o distrada.
   Distrada tambm, abandonou-lhe a mo, que le beijou com transportes;
depois, julgando importun-la, despediu-se, o que a cumulou de alegria. Um
simples amigo no incomoda nunca, e um indiferente ainda menos.
   Assim se passou essa entrevista, que fechou todas as feridas do corao do
cardeal. le saiu dos aposentos da rainha, entusiasmado, bbedo de esperana, e
pronto a demonstrar a Sra. de La Motte um reconhecimento sem limites pela
negociao to felizmente levada a cabo.
    Joana esperava-o no carro, a cem passos adiante da barreira; recebeu os
ardentes protestos de sua amizade.
   -- E ento? -- perguntou, aps a primeira exploso de gratido, -- sereis
   Richelieu ou Mazarino?        O lbio austraco vos animou  ambio ou 
   ternura? Estais metido na poltica ou na intriga?
   -- No caoeis, querida condessa, -- disse o prncipe; -- estou louco de
   alegria.
                    O COLAR DA RAINHA                                  449

--       Ajudai-me que, dentro de trs semanas, poderei ter um ministrio.
--       Diabo!     Trs semanas!       muito tempo; o vencimento dos
primeiros compromissos est marcado para daqui a quinze dias.
--       Todas as felicidades vm junto: a rainha tem dinheiro, pagar;
terei tido apenas o mrito da inteno.      pouco, condessa,palavra de
honra!  muito pouco. Deus  testemunha de que eu teria pago de bom
grado por essa reconciliao quinhentas mil
libras.
--       Tranquilizai-vos, -- atalhou, sorrindo, a condessa. -- Tereis
tambm esse mrito, alm dos outros. Fazeis muito empenho nisso?
--       Confesso que sim; a rainha tornando-se minha obrigada...
--       Monsenhor, alguma coisa me palpita que tereis essa satisfao.
Estais preparado para ela?
--       Vendi os meus ltimos bens e empenhei as minhas rendas e
benefcios do prximo ano.
--       Tendes, ento, as quinhentas mil libras?
--       Tenho-as; s que, feito o pagamento, j no saberei o que fazer.
--       Esse pagamento, -- exclamou Joana, -- nos d um trimestre de
sossego.  em trs meses, quanta coisa vai acontecer, meu Deus!
--        verdade.     Mas o rei mandou-me dizer que no faa mais
dvidas.
--       Com dois meses no ministrio poreis em dia todas as vossas contas.
--       Oh! condessa...
--       No vos revolteis.      Se o no fizsseis, f-lo-iam os vossos
primos.
--       Tendes sempre razo. Aonde ides?
--       Procurar de novo a rainha, saber o efeito que produziu a
vossa presena.
--       Muito bem. Mas eu volto a Paris.
--       Por qu? Voltareis esta noite para o jogo.  uma boa ttica:
no abandonar o terreno.
--       Infelizmente  preciso que eu v a um encontro marcado hoje
cedo.
--       Um encontro?
--       Muito srio, a julgar pelo contedo do bilhete que me
mandaram. Vede...
 --      Letra de homem! -- exclamou a condessa.
 E leu:
        "Monsenhor, algum quer falar convosco sobre a recuperao de
     uma soma importante. Essa pessoa apresentar-se- esta noite em vossa
     casa, cm Paris, para obter a honra de uma audincia."
--       Annimo...    Um mendigo.
450                           ALEXANDRE DUMAS

    -- No condessa, ningum se expe voluntariamente a ser espancado
    pelos meus criados por haver zombado de mim.
    -- Acreditai-lo?
    -- No sei por que, mas tenho a impresso de que conheo a letra.
    -- Nesse caso, ide, Monsenhor; alis, nunca se arrisca grande coisa com
    as pessoas que prometem dinheiro. Pior seria se no pagassem. Adeus,
    Monsenhor.
    -- At  vista, condessa.
    -- A propsito, Monsenhor, duas coisas:
    -- Quais?
    -- Se, por acaso, recebsseis inopinadamente uma boa soma?
    -- Que  que tem?
    -- Qualquer coisa perdida: um achado! um tesouro!
    -- J vos percebo, ladina! Diviso pela metade,  o que quereis dizer, no
    ?
    -- Palavra! Monsenhor...
    -- Dais-me sorte, condessa; por que no haveramos de dividir? Ser
    dividido. E qual  a outra coisa?
    -- Esta: no comprometais as quinhentas mil libras.
    -- No tenhais receio.
    E separaram-se. Depois, o cardeal voltou a Paris numa atmosfera de
celestes felicidades.
    Com efeito, fazia duas horas que a vida mudava de aspecto para le. Se
estivesse apenas apaixonado, a rainha acabava de dar--lhe muito mais do que
le teria ousado esperar; se fosse ambicioso, ela o fazia esperar mais ainda.
    Habilmente conduzido pela esposa, tornava-se o rei instrumento de uma
fortuna que, doravante, nada poderia deter. Sentia-se o Prncipe Lus cheio
de idias; tinha mais gnio poltico do que os rivais, conhecia a questo dos
melhoramentos, uniria o clero ao povo e formaria uma dessas slidas maiorias
que governam muito tempo pela fora e pelo direito.
    Colocar  testa do movimento de reforma a rainha, que le adorava, e cuja
impopularidade sempre crescente converteria em popularidade sem igual: tal era
o sonho do prelado, e bastava uma palavra terna de Maria Antonieta para
mud-lo em realidade.
    O estouvado renunciava aos seus fceis triunfos, o mundano fazia-se filsofo,
o ocioso transformava-se em trabalhador infatigvel.  fcil para os grandes
caracteres a tarefa de trocar a palidez dos depravados pela fadiga do estudo. O
Sr. de Rohan teria ido longe, arrastado pela ardente parelha do amor e da
ambio.
    Entendeu que devia pr mos  obra assim que voltasse a Paris.
Queimou de uma vez s uma caixa de bilhetinhos de amor, chamou o
intendente para ordenar algumas reformas, mandou que um secretrio lhe
aparasse as penas para escrever as suas memrias
                       O COLAR DA RAINHA                                 451

sobre a poltica da Inglaterra, que compreendia s mil maravilhas e, depois
de um hora de trabalho, recomeava a entrar na posse de si mesmo, quando
um toque de campainha o avisou, no gabinete, de que lhe chegara uma visita
importante.
   -- Surgiu um porteiro.
   -- Quem est a? -- perguntou o prelado.
   -- A pessoa que escreveu hoje cedo a Vossa Alteza.
   -- Sem assinar?
   -- Sim, Monsenhor.
   -- Mas essa pessoa h de ter um nome. Pergunta-lho.
   O porteiro voltou logo em seguida.
   --  o Sr. Conde de Cagliostro, -- disse.
   Estremeceu o prncipe.
   -- Faze-o entrar.
   Entrou o conde e as portas se fecharam sobre le.
   -- Santo Deus! -- bradou o cardeal, -- que estou vendo?
   -- No  verdade, Monsenhor, -- acudiu Cagliostro com um sorriso, --
   que pouco mudei?
   -- Ser possvel!... -- murmurou o Sr. de Rohan. -- Jos Blsamo vivo,
   quando todos o diziam morto naquele incndio! Jos Blsamo...
   -- Conde de Fnix, vivo, sim, Monsenhor, e mais vivo do que nunca.
   -- Mas, senhor, sob que nome vos apresentais agora... e por que no
   conservastes o antigo?
   -- Precisamente, Monsenhor, porque  antigo e porque lembra, primeiro
   a mim, depois aos outros, muita coisa triste ou incmoda. No vosso caso,
   por exemplo,Monsenhor: no tereis recusado a entrada a Jos Blsamo?
   -- Eu! nunca, senhor, nunca.
   Estupefato ainda, o cardeal no oferecera sequer uma cadeira a Cagliostro.
   -- Nesse caso, -- voltou este ltimo, --  que Vossa Eminncia tem mais
   memria e probidade do que todos os outros homens reunidos.
   -- Senhor, prestaste-me outrora tamanho servio...
   -- No  verdade, Monsenhor, -- atalhou Blsamo, -- que conservo a
   mesma idade e sou uma bela amostra da eficcia das minhas gotas de vida?
   --  verdade, senhor; mas estais acima do gnero humano, pois a todos
   dispensais liberalmente ouro e sade.
   -- A sade, no digo que no, Monsenhor; mas o ouro...no! no. ..
   -- J no o fabricais?
   -- No, Monsenhor.
452                         ALEXANDRE DUMAS

   -- Por qu?
   -- Porque perdi a ltima parcela de um ingrediente indispensvel que
   meu amo, o sbio Althotas, me havia dado ao sair do Egito. Foi a
   nica receita que nunca possu.
   -- le a guardou?
   -- No... isto , sim: guardou ou levou para o tmulo, como quiserdes.
   -- Morreu?
   -- Eu o perdi.
   -- Como no prolongastes a vida desse homem, indispensvel receptador
   da indispensvel receita, vs que vos conservastes vivo e jovem atravs dos
   sculos, pelo que dizeis?
   -- Porque tudo posso contra a doena, contra a ferida, mas nada contra
   o acidente que mata sem que me chamem.
   -- E foi um acidente que ps termo aos dias de Althotas?
   -- Vossa Eminncia deve t-lo sabido, pois sabia da minha morte.
   -- O incndio da Rua de So Cludio em que desaparecestes...
   -- Matou apenas Althotas; ou melhor, o sbio, cansado da vida,quis morrer.
   --  estranho!
   --  natural.      Tambm j pensei mais de cem vezes em dar cabo da
   minha.
   -- Sim, mas, no obstante, persististes.
   -- Porque escolhi um estado de juventude no qual a sade, as paixes, os
   prazeres do corpo me proporcionam ainda alguma distrao; Althotas, ao
   contrrio, escolhera o estado de velhice.
    -- Althotas devia ter feito como vs.
   -- Era um homem profundo e superior; de todas as coisas deste
mundo, s queria a cincia. E a mocidade de sangue imperioso, as paixes,
os prazeres, o teriam desviado da eterna contemplao; cumpre, Monsenhor,
que estejamos sempre isentos de febre;para pensar bem, devemos poder
absorver-nos numa sonolncia imperturbvel.
   "O velho medita melhor do que o rapaz e, por isso, quando a tristeza o
domina, j no h remdio. Althotas morreu vtima de sua dedicao 
cincia. Eu vivo como um mundano, perco o meu tempo e no fao
absolutamente nada. Sou uma planta... no ouso dizer uma flor; no vivo,
respiro."
   -- Oh! -- murmurou o cardeal, -- com o homem ressuscitado, renascem
todos os meus espantos. Devolveis-me, senhor, a quadra em que a magia de
vossas palavras, o fascnio de vossas aes, duplicavam todas as minhas
faculdades e a meus olhos realavam o valor de uma criatura. Recordais-me os
dois sonhos de minha juventude. Sabeis que faz dez anos que me aparecestes?
                        O COLAR DA RAINHA                              453

    --Sei. Ambos envelhecemos bastante. Hoje, Monsenhor, j no sou um
sbio, sou um erudito.         J no sois um belo rapaz,mas um formoso
prncipe. Lembrais-vos, Monsenhor, do dia em que, no meu gabinete, hoje
remoado com tapearias, eu vos- prometia o amor de uma mulher cujos
loiros cabelos consultara a minha vidente?
    Empalideceu o cardeal e depois, sbito, corou. O terror e a alegria
acabavam de suspender-lhe sucessivamente as batidas do corao.
--             Lembro-me, -- disse le, -- mas confusamente...
    --         Vamos a ver, -- acudiu Cagliostro sorrindo, -- vamos a ver
    se ainda poderei passar por feiticeiro. Esperai que me concentre nessa
    idia.
    Refletiu.
    --A loira criana dos vossos sonhos de amor, -- disse, aps um
momento de silncio, -- onde est? Ah! estou-a vendo; sim...e vs mesmo
a vistes hoje. Digo mais, estais saindo de ao p dela.
    O cardeal apoiou a mo gelada sobre o palpitante corao.
    --         Senhor, -- disse le to baixo que Cagliostro mal o
    ouviu,-- por favor...
    --         Quereis que falemos de outra coisa? -- sobreveio o
    adivinho,corts. -- Estou inteiramente s vossas ordens, Monsenhor.
    Fazei-me o obsquio de dispor de mim.
    E estendeu-se, com inteira liberdade, sobre um sof que o cardeal se
esquecera de indicar-lhe desde o comeo da interessante conversao.
                                   LVIII
                            O devedor e o credor

    O CARDEAL considerou o hspede, embasbacado.
     -- Muito bem! -- exclamou este ltimo, -- agora que nos tornamos a
conhecer, Monsenhor, conversemos, por favor.
-- Sim, -- volveu o prelado, que aos poucos se recompunha, --
conversemos sobre essa restituio que... q u e . . .
   -- Que lhe indiquei na minha carta, no ? Vossa Eminncia tem pressa
   de saber...
   -- Era um pretexto, no era? Pelo menos,  o que presumo.
   -- No, Monsenhor, era uma realidade e das mais srias. Essa restituio
   vale a pena, visto que se trata de quinhentas mil libras, e quinhentas mil
   libras so uma soma respeitvel.
   -- Que me emprestastes, alis, muito graciosamente, -- exclamou o
   cardeal, empalidecendo.
-- Sim, Monsenhor, que vos emprestei, -- confirmou Blsamo;-- gosto de
encontrar num grande prncipe como vs to boa memria.
    Recebendo o golpe, sentia o cardeal um suor frio descer-lhe da testa s
faces.
   -- Julguei por um momento, -- disse, tentando sorrir, -- que Jos
   Blsamo, o homem sobrenatural, levara o seu crdito para o tmulo,
   assim como atirara ao fogo o meu recibo.
   -- Monsenhor, -- respondeu gravemente o conde, -- a vida de Jos
   Blsamo  indestrutvel como o  esta folha de papel que julgveis
   aniquilada. A morte nada pode contra o elixir da vida e o fogo no pode
   nada contra o amianto.
   -- No compreendo, -- tornou o cardeal sentindo-se repentinamente
   ofuscado.
   -- Tenho certeza de que Vossa Eminncia vai compreender, -- acudiu
   Cagliostro.
   -- Como assim?
   -- Reconhecendo a sua assinatura.
    E apresentou um papel dobrado ao prncipe, que, antes at de abri-lo
bradou:
   -- O meu recibo!
                        O COLAR DA RAINHA                                   455

    -- Sim, Monsenhor, o seu recibo, -- replicou Cagliostro com leve sorriso,
    mitigado ainda por uma fria reverncia.
    -- Entretanto, senhor, haviei-lo queimado, pois vi as chamas.
     --  verdade que atirei o papel ao fogo, -- assentiu o conde, -- mas,
     como j vos disse, Monsenhor, quis o acaso que tivsseis escrito num
     pedao de amianto, em vez de escrever num papel comum, de sorte que
     tornei a encontr-lo intacto entre as cinzas.
    -- Senhor, -- volveu o cardeal com certa altivez, pois cria ver na
    apresentao do recibo um sinal de desconfiana, -- acreditai que eu no
    teria negado a minha dvida sem esse papel, como no a nego com le;
    dessarte, fizestes mal pretendendo enganar-me.
    -- Juro, Monsenhor, que no me passou sequer pela cabea a
    idia de enganar-vos.
    O cardeal fz um sinal com a cabea.
    -- Fizestes-me acreditar, -- murmurou -- que a dvida havia sido cancelada.
-- Para deixar-vos o gozo calmo e feliz das quinhentas mil libras, -- respondeu
Blsamo, por sua vez, com leve movimento de ombros.
    -- Mas afinal, senhor, -- continuou o cardeal, -- como  que, durante dez
    anos, deixastes de cobrar soma to vultosa?
    -- Eu sabia, Monsenhor, que ela estava em boas mos.                      Os
    acontecimentos, o jogo, os ladres, despojaram-me sucessivamente de todos
    os meus bens. Mas, sabendo que tinha esse dinheiro seguro,pacientei e
    esperei at o ltimo momento.
    -- E o ltimo momento chegou?
    -- Infelizmente, Monsenhor!
    -- De sorte que j no podeis pacientar nem esperar.
    -- De fato, j no posso, -- retrucou Cagliostro.
    -- Viestes, ento, cobrar o dinheiro?
    -- Vim, Monsenhor.
    -- Hoje?
    -- Seria um favor.
    Manteve o cardeal um silncio palpitante de desespero. Logo, com voz
alterada:
    -- Sr. Conde, -- exclamou, -- os desgraados prncipes da terra no
    improvisam fortunas to rapidamente quanto vs, os feiticeiros,que
    comandais os espritos das trevas e das luzes.
    -- Oh! Monsenhor, -- atalhou Cagliostro, -- eu no vos teria pedido essa
    soma se no soubesse de antemo que a tnheis convosco.
    -- Eu tenho quinhentas mil libras? -- bradou o cardeal.
    -- 30.000 libras em ouro, 10.000 em prata, e o resto em notas.
    Empalideceu o prelado.
    -- Que esto l, naquele armrio de Boule, -- continuou Cagliostro.
    -- Tambm o sabeis, senhor?
456                         ALEXANDRE DUMAS

    -- Sei, Monsenhor, e sei tambm quantos sacrifcios precisastes fazer para
    conseguir o dinheiro. Ouvi dizer at que pagastes por le duas vezes o
    seu valor.
    --  verdade.
    -- Mas...
    -- Mas?. . . -- repetiu o amofinado prncipe.
    -- Mas eu, Monsenhor, -- prosseguiu Cagliostro, -- no espao de dez
    anos, quase morri  mngua ao lado desse papel, que para mini
    representava meio milho; e, todavia, no querendo incomodar-vos,
    esperei. Creio, portanto, que estamos mais ou menos quites.
    -- Quites, senhor! -- exclamou o prncipe; -- no digais que estamos
    quites, pois ainda levais a vantagem de me haverdes generosamente
    emprestado tamanha soma! Quites! no! no! Sou e serei eternamente
    vosso obrigado.         Entretanto, Sr. Conde, eu gostaria de saber por que,
    tendo podido cobr-la nos ltimos dez anos,ficastes em silncio? Durante
    esse tempo eu teria tido vinte ocasies de devolver-vos o dinheiro sem me
    atrapalhar.
    -- Ao passo que hoje?... -- arriscou Cagliostro.
    -- Hoje confesso que a restituio que exigis de mim, porque a estais
    exigindo, no  verdade?...
    -- Infelizmente, Monsenhor.
    -- . . . m e atrapalha horrivelmente.
    Cagliostro fz com a cabea e com os ombros um movimentozinho que
significava: -- Que quereis, Monsenhor! o negcio  assim e no pode ser de
outro jeito!
    -- Mas vs, que tudo adivinhais, -- bradou o prncipe: -- vs,que sabeis
    ler no fundo dos coraes e at no fundo dos armrios,o que s vezes 
    bem pior, haveis de conhecer por que preciso tanto do dinheiro e qual o
    misterioso e sagrado emprego que lhe destino.
    -- Estais enganado, Monsenhor, -- volveu Cagliostro em tom glacial, --
    no sei; os meus prprios segredos me tm proporcionado tantas tristezas,
    decepes e misrias, que no me preocupam os segredos alheios, a menos
    que me interessem. Interessava-me saber
    se tnheis o dinheiro, ou se o no tnheis, visto que mo deveis.Mas,
    ciente de que le se achava em vossas mos, pouco me importava conhecer
    o destino que lhe pensveis dar. De resto, Monsenhor, se soubesse neste
    momento a causa do vosso enleio, ela me
    pareceria talvez to grave e respeitvel que eu teria a fraqueza de
    contemporizar ainda; e repito que, nas atuais circunstncias, isso me
    ocasionaria o maior dos prejuzos. Portanto, prefiro ignorar.
    -- Oh! -- exclamou o cardeal, cujo orgulho e cuja suscetibilidade
    acabavam de ser aguilhoados pelas ltimas palavras, -- no cuideis, pelo
    menos, que eu queira inspirar-vos compaixo com as minhas dificuldades
    pessoais; tendes os vossos interesses represen-
                      O COLAR DA RAINHA                                   457
tados e garantidos por esse bilhete; o bilhete est assinado por mim;  o
suficiente. Recebereis as quinhentas mil libras.
    Inclinou-se Cagliostro.
    -- Eu sei, -- continuou o cardeal, devorado pela mgoa de perder num
    minuto tanto dinheiro penosamente juntado, -- eu sei que esse papel
    no passa de uma confisso de dvida e no fixa o dia do vencimento.
    -- Queira perdoar-me Vossa Eminncia, -- refutou o Conde; -- reporto-
    me, porm, ao texto do recibo e nele vejo escrito:
        "Reconheo haver recebido do Sr. Jos Blsamo a importncia de
      500.000 libras, que lhe pagarei assim que le mas pedir.
                             "Assinado, LUS DE ROHAN."
    Um frmito sacudiu todos os membros do prelado; no somente lhe
esquecera a dvida mas tambm os termos do seu reconhecimento.
   -- Vede, Monsenhor, -- continuou Blsamo, -- que no estou pedindo o
impossvel. No podeis pagar, seja. Lamento apenas que Vossa Eminncia
parea esquecer-se de que a soma lhe foi dada por Jos Blsamo
espontaneamente, numa hora suprema; e a quem?
ao Sr. de Rohan, que le no conhecia. Eis a, segundo me parece,um desses
gestos fidalgos que o Sr. de Rohan, fidalgo como quem o mais o seja, teria
podido imitar na restituio.     Entendestes, porm, que no deveis faz-lo;
no se fala mais nisso. Fico com o recibo. Adeus, Monsenhor.
    E dobrou friamente o papel, fazendo meno de enfi-lo novamente no
bolso.
    O cardeal deteve-o.
   -- Sr. Conde, -- disse le, -- um Rohan no admite que ningum no
mundo lhe d lies de generosidade.         Isto, alis, seria,quando muito,
uma lio de probidade.        Entregai-me o recibo,por favor, para que eu
possa pag-lo.
    Foi ento Cagliostro, por seu turno, quem pareceu hesitar.
    Dir-se-ia, com efeito, que o rosto plido, os olhos inchados e a mo
trmula do cardeal despertassem nele vivssima compaixo.
    Por altivo que fosse, percebeu o cardeal o generoso impulso de
Cagliostro. Por um instante esperou que se lhe seguisse um bom resultado.
    Sbito, porm, o olhar do conde se endureceu, uma nuvem lhe passou
por entre as sobrancelhas franzidas, e le estendeu a mo e o recibo ao
prelado.
    Embora atingido em pleno corao, o Sr. de Rohan no perdeu um
instante; dirigiu-se para o armrio assinalado por Cagliostro e dele tirou
um mao de notas; em seguida, indicou com o dedo vrios saquinhos de
prata e abriu uma gaveta cheia de ouro.
458                         ALEXANDRE DUMAS

   -- Sr. Conde, -- disse, -- aqui esto as vossas quinhentas mil libras;
   entretanto, ainda vos fico devendo duzentas e cinqenta mil de juros, na
   hiptese de recusardes os juros compostos, que dariam uma soma muito
   mais considervel. Mandarei o meu intendente
   fazer as contas e vos darei as garantias necessrias, rogando-vos apenas que
   me concedais um prazo.
   -- Monsenhor, -- retorquiu Cagliostro, -- emprestei quinhentas mil libras
   ao Sr. de Rohan.        O Sr. de Rohan me deve apenas quinhentas mil
   libras. Se eu tivesse querido receber os juros, t-los-ia includo no recibo.
   Procurador ou herdeiro de Jos Blsamo, como quiserdes, porque a verdade
    que Jos Blsamo est morto, s devo aceitar as somas estipuladas no
   recibo; vs pagais, eu recebo e agradeo, rogando-vos aceiteis as minhas
   respeitosas homenagens. Levo, pois, as notas, Monsenhor, e, como tenho
   urgente necessidade da soma toda para o dia de hoje, mandarei buscar o
   ouro e a prata, que vos peo tenhais preparados.
   Ditas essas palavras, a que o cardeal no achou o que responder, Cagliostro
ps o mao de notas no bolso, cortejou respeitosamente o prncipe, em cujas
mos deixou o recibo, e saiu.
   -- O infortnio  s meu, -- suspirou o Sr. de Rohan, aps a partida de
Cagliostro, -- visto que a rainha est em condies de pagar, e dela, pelo
menos, um Jos Blsamo inesperado no vir reclamar uma dvida atrasada
de quinhentas mil libras.
                                     LIX


                               Contas domsticas

    ERA A ANTEVSPERA do primeiro pagamento marcado pela rainha.
O Sr. de Calonne ainda no cumprira o prometido. As suas contas no
tinham sido assinadas pelo rei.
    O ministro tivera muito o que fazer e esquecera-se um pouco da rainha.
Ela, de seu lado, achava que a sua dignidade no lhe permitia refrescar a
memria do diretor das finanas. Tendo recebido uma promessa, aguardava-
lhe o cumprimento.
    Entretanto, principiava a inquietar-se e a informar-se, buscando os meios de
falar com o Sr. de Calonne sem se comprometer, quando lhe chegou s mos
um bilhete do ministro.
         "Esta noite", rezava o bilhete, "o negcio de que Vossa Majestade me
      fz a honra de encarregar-me, ser assinado na reunio do conselho, e
      amanh cedo os fundos estaro em seu poder."
    A alegria voltou aos lbios de Maria Antonieta, que no pensou em mais
nada, nem sequer no amanh, to pesado.
   Viram-na at procurar, nos passeios, os atalhos mais secretos, como que
para isolar os seus pensamentos de todo e qualquer contacto material e
mundano.
    Ainda estava passeando com a Sra. de Lamballe e com o Conde do Artois,
que fora ter com ela, quando o rei entrou na sala do conselho, aps o jantar.
    O monarca estava de mau humor. As notcias da Rssia eram ms. Perdera-
se um navio no Golfo de Lio. Algumas provncias recusavam-se a pagar o
imposto. Um belo mapa-mndi, polido e envernizado pelo prprio rei,
estourara por efeito do calor, cortando a Europa em duas partes, no ponto de
juno entre o 30 grau de latitude e o 55 de longitude. Sua Majestade
amarrara a cara para todo o mundo -- at para o Sr. Calonne.
    Debalde lhe apresentou o ministro a bela pasta perfumada e um
semblante risonho. Mudo e taciturno, ps-se o rei a rabiscar num pedao de
papel uns traos, que significavam tempestade, assim como os seus bonecos e
cavalos traduziam bom tempo.
    Pois a mania de Sua Majestade era desenhar durante as reunies do
conselho. Lus XVI no gostava de encarar com os outros;
460                         ALEXANDRE DUMAS

tmido, sentia-se mais seguro com uma pena na mo. Enquanto assim se
entretinha, o orador podia desenvolver os seus argumentos; erguendo um olhar
furtivo, tomava-lhe o rei um pouco do fogo dos seus olhos, o suficiente para
que no lhe esquecesse o homem enquanto pesava a idia.
    Quando le mesmo falava, o que alis fazia muito bem, o desenho lhe tirava
todo e qualquer ar de pretenso ao discurso, pois no lhe permitia fazer
outros gestos; podia interromper-se ou exaltar-se  vontade: o trao no papel
substitua, quando necessrio, os ornatos da palavra.
    O soberano, portanto, tomou da pena, como de costume, e os ministros
encetaram a leitura dos projetos ou das notas diplomticas.
    O rei no disse uma palavra; deixou passar a correspondncia estrangeira
como se no entendesse patavina daquilo tudo.
    Chegou, porm, o momento de pormenorizar as contas do ms; Lus XVI
ergueu a cabea.
    O Sr. de Calonne acabava de abrir um memorial' relativo ao emprstimo
projetado para o ano seguinte.
    Sua Majestade comeou a fazer uns traos furiosos.
    -- Sempre pedindo emprestado, -- disse, le, -- sem saber como se pagar!
    Mas isso  um problema, Sr. de Calonne!
    -- Um emprstimo, Sire,  a sangria feita numa fonte: a gua desaparece
    aqui para surgir acol. Mais,  duplicada pelas aspiraes subterrneas.
    De resto, em lugar de perguntar como pagaremos, devamos perguntar
    como e a quem pediremos emprestado? Pois o problema a que se refere
    Vossa Majestade no : Com que se pagar? seno: Encontrar-se-o
    credores?
    Os rabiscos do rei estavam ficando cada vez mais grossos; mas le no
disse uma palavra: os traos falavam por si.
    Tendo o Sr. de Calonne exposto o seu plano com a aprovao dos colegas,
o monarca pegou no projeto e assinou-o, embora suspirasse.
    --        Agora que temos dinheiro, -- tornou, rindo, o Sr. de Calonne,
 -- gastemo-lo.
    O rei olhou para o ministro com uma careta, e o risco no papel
converteu-se num enorme borro de tinta.
    O Sr. de Calonne passou-lhe s mos um rol de penses, gratificaes,
ajudas de custo, doaes e soldos.
     O trabalho era curto, bem discriminado. O rei virou as pginas e
 examinou o total.
     --       Um milho e cem mil libras por to pouco! Como assim?
     E descansou a pena.
     --Leia, Sire, leia, e digne-se observar que, do milho e cem mil libras,
 s um item  de quinhentas mil.
                         O COLAR DA RAINHA                                   461

    -- Qual deles, Sr. Ministro?
    -- O adiantamento feito a Sua Majestade, a rainha, Sire.
    --  rainha! -- bradou Lus XVI... -- Quinhentas mil libras para a
    rainha! No  possvel!
    -- Perdo, Sire; mas os algarismos so exatos.
    -- Quinhentas mil libras para a rainha! -- repetiu o rei. -- H de haver
    algum erro. Na semana passada... no, h quinze dias, mandei pagar o
    trimestre de Sua Majestade.
    -- Sire, se a rainha teve preciso de dinheiro, e toda a gente sabe como o
    emprega, no  extraordinrio...
    -- No, no! -- exclamou o rei, sentindo a necessidade de falar da prpria
    economia e de conciliar alguns aplausos a Maria Antonieta quando ela
    fosse  pera; -- a rainha no h de querer ta manha soma, Sr. de
    Calonne. Ela j me disse que um navio vale mais do que jias. E
    entende que, se a Frana pede dinheiro emprestado para alimentar os seus
    pobres, ns, os ricos, devemos emprestar dinheiro  Frana.              Por
    conseguinte, se necessita dessa importncia, o seu mrito ser tanto maior
    quanto mais tempo esperar; e eu vos garanto que esperar.
    Os ministros aplaudiram muito o mpeto patritico do rei, que o divino
Horcio no teria chamado Uxorius naquele momento.
    S o Sr. de Calonne, que conhecia as dificuldades da rainha, afoitou-se a
insistir.
    -- Francamente, -- atalhou o rei, -- estais mais interessado por ns do que
    ns mesmos; calma, Sr. de Calonne!
    -- A rainha, Sire, me acusar de haver zelado pouco pelos seus interesses.
    -- Defenderei a vossa causa junto dela.
    -- A rainha, Sire, s pede quando obrigada pela necessidade.
    -- Se a rainha tem necessidades, estas ho de ser menos imperiosas, creio
    eu, do que as dos pobres, e ela ser a primeira a convir com isso.
    -- Sire...
    --Assunto resolvido, -- decidiu o rei.
    E empunhou a pena dos rabiscos.
    --         Vossa Majestade cancela o crdito? -- perguntou o Sr. De
    Calonne, consternado.
    --         Cancelo, -- respondeu majestosamente Lus XVI. -- E parece-me
    ouvir a voz generosa da rainha agradecendo-me por lhe haver to bem
    compreendido o corao.
     O Sr. de Calonne mordeu os lbios; satisfeito com esse herico
sacrifcio pessoal, Lus assinou o resto com cega boa-f.
462                        ALEXANDRE DUMAS

    E desenhou uma linda zebra, cercada de zeros, repetindo:
    -- Ganhei esta noite quinhentas mil libras: um belo dia para um rei,
    Calonne! Vs mesmo dareis a boa notcia  rainha; e vereis, vereis.
    -- Ah! meu Deus! Sire, -- murmurou o ministro, -- eu ficaria desesperado
    se lhe furtasse a alegria dessa confisso. A cada um segundo os seus
    mritos.
    -- Seja, -- replicou o rei. -- Levantemos a sesso.         Quando  bom, o
    trabalho no precisa ser longo. Ah! eis a rainha que volta; vamos ter com
    ela, Calonne?
    -- Peo perdo a Vossa Majestade, mas ainda tenho o que fazer.
    E esquivou-se, ligeiro, pelo corredor.
    Corajosa e alegremente, encaminhou-se o rei ao encontro da esposa, que
estava cantando no vestbulo, de brao dado com o Conde do Artois.
    -- Senhora, -- disse le, -- destes um bom passeio, no  verdade?
    -- Excelente, Sire. E Vossa Majestade fz um bom trabalho, no fz?
    -- Julgai-o pelos resultados: ganhei para vs quinhentas mil libras.
    -- Calonne cumpriu a palavra, -- pensou a rainha.
    -- Imaginai, -- acrescentou Lus XVI, -- que Calonne vos abrira um crdito
    de meio milho.
    -- Oh! -- fz Maria Antonieta, sorrindo.
    -- E eu. . . cancelei-o. So quinhentas mil libras ganhas com uma penada.
    -- Cancelou-o? -- volveu a rainha, empalidecendo.
    -- Totalmente; isso vai fazer-vos um bem enorme. Boa noite, senhora,
    boa noite.
    -- Sire! Sire!
    -- Estou com muita fome. Vou entrar. No mereo uma boa ceia?
    -- Sire! oua!
    Lus XVI saltitou e fugiu, contentssimo com a brincadeira, deixando a
rainha muda e consternada.
    -- Meu irmo, mandai-me buscar o Sr. de Calonne, -- disse ela, por fim, ao
Conde do Artois, -- h nisso alguma brincadeira de mau gosto.
    Precisamente naquele instante lhe traziam o seguinte bilhete do ministro:
         "Vossa Majestade j deve ter sabido que o rei recusou o crdito. 
      incompreensvel, senhora! Deixei o conselho doente e compungido."
                  O COLAR DA RAINHA                              463

-- Lede, -- disse ela, passando o bilhete ao Conde do Artois.
-- E ainda h quem nos acuse de dilapidar as finanas, minha irm! --
bradou o prncipe. -- Isso  procedimento...
-- De marido, -- completou a rainha. -- Adeus, meu irmo.
-- Meus psames, querida irm; eis-me avisado, eu que pretendia pedir
amanh.
-- Mandai-me buscar a Sra. de La Motte, -- disse a rainha a Sra. de
Misery, aps longa meditao; -- onde quer que ela esteja e
imediatamente.
                                      LX
             Maria Antonieta, rainha, Joana de La Motte, mulher

    O CORREIO enviado a Paris,  procura da Sra. de La Motte, encontrou a
condessa, ou melhor, no a encontrou, em casa do Cardeal de Rohan.
    Joana fora visitar Sua Eminncia; l jantara e l estava ceando, deplorando
a malfadada restituio, quando o correio apareceu, perguntando se a
condessa estava.
    O suo, habilmente, respondeu que Sua Eminncia sara e que a Sra. de
La Motte no se encontrava no palcio, mas que nada seria mais fcil do
que dar-lhe o recado da rainha, visto que ela ainda viria provavelmente
quela noite.
    --  para ela ir a Versalhes assim que puder, -- declarou o mensageiro,
que partiu, no sem deixar o mesmo aviso em todas as presumveis
residncias da nmade condessa.
    Mas tanto que partiu o correio, o suo, desempenhando a sua incumbncia
sem ir muito longe, mandou a esposa levar a mensagem a Sra. de La Motte em
casa do Sr. de Rohan, onde os dois associados filosofavam, a gosto, sobre a
instabilidade das grandes fortunas.
    Pelos termos da ordem, compreendeu a condessa que havia urgncia em
partir. Pediu dois bons cavalos ao cardeal, que a instalou pessoalmente numa
berlinda sem brases e, ao passo que le remoia a possvel significao da
embaixada, a condessa corria tanto que, uma hora depois, chegava ao castelo.
    Algum, que a estava esperando, introduziu-a sem demora  presena de
Maria Antonieta.
    A rainha recolhera aos seus aposentos. O servio da noite fora feito: j no
havia mulher alguma no apartamento, exceto a Sra. de Misery, entretida em
ler no toucadorzinho.
    Maria Antonieta estava bordando ou fingindo bordar, com o ouvido
inquieto atento aos rumores de fora, quando Joana se precipitou ao encontro
dela.
    -- Ah! -- bradou a soberana. -- Estais aqui, tanto melhor! Uma
    notcia... condessa.
    -- Boa, senhora?
                     O COLAR DA RAINHA                                   465

-- Julgai-a vs mesma. Sua Majestade recusou as quinhentas mil libras.
-- Ao Sr. de Calonne? '
-- A toda a gente. O rei j no quer dar-me dinheiro. Essas coisas s me
acontecem a mim.
-- Meu Deus! -- murmurou a condessa.
--  inacreditvel, no ?       Recusar, cancelar um crdito j aberto!
Enfim, no adianta falar do que no tem remdio.                    Voltareis
imediatamente a Paris.
-- Sim, senhora.
-- E direis ao cardeal, que to zeloso se mostrou de agradar-me, que
aceito as suas quinhentas mil libras at ao prximo trimestre. Estou
sendo egosta, condessa! mas  preciso... Sei que  um abuso. ..
-- Estamos perdidas, senhora, -- murmurou Joana; -- o Sr. Cardeal no tem
mais dinheiro.
A rainha deu um pulo, como se a tivessem ferido ou insultado.
-- No tem mais... dinheiro. . . -- balbuciou.
-- Uma dvida de que o Sr. de Rohan j se esquecera, foi-lhe cobrada.
Era uma dvida de honra, le teve de pagar.
-- Quinhentas mil libras?
-- Sim, senhora.
-- Mas...
-- Seu ltimo dinheiro... Acabaram-se os recursos.
Deteve-se a rainha como que aturdida por aquele desar.
-- Estou acordada, no estou? -- perguntou. --  a mim mesma que
sucedem esses reveses? Como sabeis, condessa, que o Sr. De Rohan j
no tem dinheiro?
-- Faz uma hora e meia que le me estava contando o desastre, tanto menos
reparvel quanto as quinhentas mil libras constituam o que se costuma
chamar um fundo de gaveta.
Maria Antonieta apoiou o rosto nas mos.
--  preciso tomar uma deciso, -- disse ela.
-- Que vai fazer a rainha? -- pensou Joana.
-- Vede, condessa,  uma lio terrvel, que me servir de castigo por haver
praticado, s escondidas do rei, uma ao de medocre importncia, de
medocre ambio ou de mesquinha casquilhice. Confessai que eu no tinha
preciso alguma do colar.
--  verdade, senhora, mas se uma rainha consultasse apenas as suas
necessidades e os seus gostos...
-- Quero consultar primeiro que tudo a minha tranqilidade, a felicidade
de minha casa. S me faltava essa primeira lstima para mostrar-me a
quantos aborrecimentos eu ia expor-me, o quanto era fecundo em desgraas
o caminho escolhido. Renuncio. Procedamos francamente, procedamos
livremente, procedamos simplesmente.
466                         ALEXANDRE DUMAS

   -- Senhora!
   -- E, para comear, sacrifiquemos a nossa vaidade no altar do dever, como
   diria o Sr. Dorat. -- Logo, com um suspiro: -- Mas era bem bonito o colar!
   -- Ainda o , senhora, e representa dinheiro em caixa.
   -- A partir deste momento, no passa, para mim, de um monte de pedras.
   E faz-se com as pedras, depois de brincar com elas, o que fazem crianas
   aps uma partida de malha: jogam-se fora, esquecem-se.
   -- Que quer dizer a rainha?
   -- A rainha quer dizer, minha querida condessa, que pegareis de novo no
   escrnio trazido... pelo Sr. de Rohan. . . e o devolvereis aos joalheiros
   Boehmer e Bossange.
   -- Devolver?
   -- Precisamente.
   -- Mas Vossa Majestade deu duzentas e cinqenta mil libras de sinal!
   -- So duzentas e cinqenta mil libras que ainda ganho, condessa; eis-me
   agora conforme com as contas do rei.
   -- Senhora! senhora! -- bradou a condessa, -- perder assim um quarto de
   milho! Pois pode acontecer perfeitamente que os joalheiros se recusem a
   restituir o sinal, de que talvez j tenham disposto.
   -- J pensei nisso e deixo-lhes o sinal, com a condio de anularmos o
   negcio. Desde que entrevejo essa soluo, condessa, j me sinto mais
   leve. Com o colar, vieram instalar-se aqui preocupaes, pesares, receios,
   suspeitas. Esses brilhantes nunca teriam calor suficiente para secar todas as
   lgrimas que sinto pesar em nuvens sobre mim. Condessa, levai-me daqui
   imediatamente o colar. Os joalheiros faro um bom negcio. Duzentas e
   cinqenta mil libras de sobrepaga so um lucro respeitvel;  o lucro que
   eles pretendiam, e ainda por cima ficam com o colar. Imagino que no
   se queixaro e que ningum ficar sabendo de nada. O cardeal fez o que
   fz apenas para me dar prazer. Dir-lhe-eis que o meu prazer agora  no
   ter o colar e, se le fr homem de esprito,saber
   compreender-me; se fr bom padre, saber aprovar-me e fortalecer-me no
   sacrifcio.
   Dizendo essas palavras, a rainha estendia a Joana o escrnio fechado.
Esta repeliu-o brandamente.
   -- Senhora, -- sugeriu, -- por que no tenta obter um adiamento?
   -- Pedir... no!
   -- Eu disse obter, Majestade.
   -- Pedir  humilhar-se, condessa; obter  ser humilhada. Eu
   compreenderia talvez que algum se humilhasse por uma pessoa
                        O COLAR DA RAINHA                                  467

amada, para salvar uma criatura viva, ainda que fosse um cachorro; mas para
obter o direito de conservar estas pedras, que queimam como carvo aceso e
no so mais luminosas nem to durveis, condessa, eis o que nenhum conselho
acabar comigo que aceite. Nunca! Levai-me o escrnio, minha cara!
    -- Mas pense, senhora, no barulho que faro os ourives, ao me nos por
    polidez e para lastim-la. A sua recusa ser to comprometedora quanto
    o teria sido a sua aquiescncia.           Toda a gente saber que Vossa
    Majestade teve os brilhantes em seu poder.
    -- Ningum saber coisa alguma.            J no devo mais nada a esses
    joalheiros; no tornarei a receb-los; o mnimo que podem fazer em
    troca das minhas duzentas e cinqenta mil libras  calar a boca; e os meus
    inimigos, em lugar de dizer que ando comprando brilhantes de um milho
    e meio, diro apenas que tenho perdido
    dinheiro no comrcio.  menos desagradvel. Levai, condessa, levai, e
    agradecei ao Sr. de Rohan a gentileza e a boa vontade.
    E, com gesto imperioso, colocou o escrnio nas mos de Joana, que no lhe
sentiu o peso sem alguma comoo.
    -- No podeis perder tempo, -- prosseguiu Maria Antonieta; -- quanto
    menos inquietao sentirem os ourives, tanto mais seguras do sigilo
    estaremos ns; voltai depressa, e ningum veja o escrnio. Passai primeiro
    pela vossa casa, a fim de evitar que uma visita a Boehmer, h esta hora,
    desperte as suspeitas da polcia, que outra coisa no faz seno ocupar-se
    do que se faz em minha casa; depois, quando o vosso regresso houver
    despistado os espias, ide  casa dos lapidrios e trazei-me o recibo deles.
    -- Sim, senhora: assim se far, visto que assim o quer Vossa
    Majestade.
    Joana colocou o escrnio debaixo do mantelete, de modo que nenhum
volume trasse a presena da caixa, e tomou o carro com o zelo reclamado
pela augusta cmplice.
     Em primeiro lugar, para obedecer, fz-se conduzir  sua casa, e mandou
de volta o carro para o palcio do Sr. de Rohan, a fim de no despertar as
desconfianas do cocheiro que a conduzira. Em seguida, despiu-se, para envergar
um trajo menos elegante, mais adequado  noturna incumbncia.
    A camareira vestiu-a rapidamente e surpreendeu-se ao v-la distrada e
pensativa durante a operao, honrada de ordinrio por toda a ateno das
damas da corte.
     Joana, com efeito, no estava pensando na toucagem e deixava-se vestir
 com o esprito fixo numa estranha idia que lhe inspirara a ocasio.
     Perguntava a si mesma se o cardeal no cometeria um grande erro
 deixando a rainha devolver a jia, e se o erro cometido no ocasionaria algum
 prejuzo  fortuna com que sonhava e talvez
468                          ALEXANDRE DUMAS

pudesse obter o Sr. de Rohan, como participante dos segredinhos de Sua
Majestade.
    Cumprir as ordens de Maria Antonieta sem consultar o Sr. de Rohan no
seria faltar s primeiras obrigaes da associao? Ainda que estivesse  mngua
de todos os recursos, no preferiria o cardeal vender-se a deixar privada a
rainha de um objeto que ela cobiara?
    -- No posso fazer outra coisa, -- disse com os seus botes, -- seno
    consult-lo.
    -- Um milho e quatrocentas mil libras! -- ajuntou; -- ele nunca ter
    um milho e quatrocentas mil libras!
    Logo, a sbitas, voltando-se para a camareira:
    -- Vai-te, Rosa, -- ordenou.
    Obedeceu a camareira e a Sra. de La Motte continuou o seu monlogo
interior.
    -- Que soma! Que fortuna! Que vida radiosa! E como toda a felicidade
e todo o brilho que tanto dinheiro proporciona esto bem representados pela
serpentezinha de pedras que flameja neste escrnio!
    Abriu o porta-jias e queimou os olhos ao contacto daquelas chamas
catadupejantes. Tirou o colar do cetim, enrolou-o nos dedos, fechou-o na
palma das mos e murmurou:
    -- Um milho e quatrocentas mil libras encerradas aqui dentro! O colar
vale realmente esse dinheiro e os ourives ainda hoje o comprariam pela
mesma quantia.
    "Estranho destino, que permite  pequena Joana de Valois, mendiga e
obscura, tocar com a mo a mo da primeira rainha do mundo e ter entre as
palmas,  verdade que por uma hora apenas, um milho e quatrocentas mil
libras, soma que nunca anda sozinha neste mundo e sempre se faz escoltar de
guardas armados ou garantias que no podem ser menores em Frana que as
de um cardeal e de uma rainha!
    "Tudo isto entre os meus dedos!... Como pesa e como  leve!
    "Para carregar em ouro, metal precioso, o equivalente deste escrnio, eu
precisaria de dois cavalos; para carreg-lo em notas de banco... e acaso so
sempre resgatadas as notas de banco? no  preciso assinar, verificar? De mais
a mais, nota  papel: podem destru-la o fogo, o ar, a gua. Acrescente-se que
a nota de banco no tem curso em todo o pas; trai a prpria origem, revela o
nome do autor, o nome do portador. Volvido algum tempo, perde parte do
valor ou o valor todo. Os brilhantes ao contrrio, so matria dura, que a tudo
resiste, e que todo homem conhece, aprecia, admira e compra, em Londres,
Berlim, Madri, e at no Brasil. Todos compreendem um brilhante, sobretudo
um brilhante do tamanho e com a gua que tm estes aqui!              Como so
lindos! Como so
                      O COLAR DA RAINHA                                     469

admirveis! Que belo conjunto e que extraordinrias mincias! Cada um,
separadamente, valer talvez mais, guardadas as devidas propores, do que
valem todos juntos.
    "Mas em que estou pensando? -- exclamou, de repente; -- decidamo-nos logo a
procurar o cardeal ou a devolver o colar a Boehmer, como determinou a rainha".
    Levantou-se, conservando na mo os brilhantes, que se aqueciam e
resplandeciam.
    -- Eles voltaro, portanto, para a casa do ourives, que os pesar e polir
com a sua escova, quando poderiam brilhar no colo de Maria Antonieta. ..
Boehmer, a princpio, reclamar, mas ficar quieto ao compreender que ter
um lucro e conservar a mercadoria. Ah! esquecia-me! de que forma farei
redigir o recibo do joalheiro? Isso  grave; sim, h na redao necessidade
de muita diplomacia.       Cumpre que o recibo no nos comprometa, nem a
Boehmer, nem  rainha, nem ao cardeal, nem a mim.
    "Nunca redigirei sozinha um documento desses. Preciso de um conselho.
    "O cardeal... No! Se le me amasse um pouco mais ou, sendo mais
rico, me desse brilhantes..."
    Sentou-se no sof, com os brilhantes enrolados na mo, a cabea ardente,
cheia de pensamentos confusos, que, por vezes, a espavoriam e que ela repelia
com febril energia.
    Sbito, o olhar tornou-se-lhe mais calmo, mais fixo, mais concentrado num
pensamento uniforme; no se advertiu de que os minutos se escoavam, que
tudo assumia nela um aprumo dali por diante inquebrantvel, e que, 
semelhana dos nadadores que enterram o p na vaza dos rios, cada movimento
que fazia para libertar-se a enterrava um pouco mais. Uma hora se passou nessa
muda e profunda contemplao de um alvo misterioso.
    Depois, ergueu-se devagar, plida como a sacerdotiza inspirada, e tocou a
campainha chamando a camareira.
    Eram duas horas da manh.
    -- Vai-me buscar um fiacre, -- ordenou, -- ou uma cadeirinha, se no
houver mais carros.
    A criada encontrou um fiacre, que estava dormindo na velha Rua do
Templo.
    A Sra. de La Motte embarcou s e mandou de volta a camareira.
    Dez minutos depois, detinha-se  porta do panfletrio Retal de Valete.
                                     LXI
             O recibo de Boehmer e o reconhecimento da rainha

    O RESULTADO dessa visita noturna feita ao panfletrio Reteau de
Villette s apareceu no dia seguinte e da seguinte maneira:
    s sete horas da manh, a Sra. de La Motte fz chegar s mos da
rainha uma carta que continha o recibo dos joalheiros. Essa pea importante
dizia deste teor:
         "Ns, abaixo-assinados, reconhecemos haver voltado  posse do
      colar de brilhantes primitivamente vendido  rainha pela soma de
      um milho e seiscentas mil libras, por no terem eles agradado a Sua
      Majestade, que nos indenizou do trabalho e das despesas com a soma
      de duzentos e cinqenta mil libras, entregue em nossas mos.
                          "Assinado: BOEHMER e BOSSANGE."
    Tranqilizada respeito ao negcio que durante tanto tempo a atormentara, a
rainha enfiou o recibo na cmoda e no pensou mais nele.
    Mas, por estranha contradio com esse bilhete, os joalheiros Boehmer e
Bossange receberam, dois dias depois, a visita do Cardeal de Rohan, ainda
preocupado com o pagamento da primeira prestao convencionada entre os
vendedores e Sua Majestade.
    O Sr. de Rohan encontrou Boehmer na casa do cais da Escola. Desde cedo,
por tratar-se do dia em que se vencia o primeiro ttulo, se tivesse havido
demora ou recusa, a casa dos lapidrios deveria estar em polvorosa.
    Muito ao contrrio, porm, em casa de Boehmer se respirava a calma, e o
Sr. de Rohan folgou de encontrar de boa sombra os criados e de rabinho
agitado o co dos joalheiros. Boehmer recebeu o ilustre cliente com rasgada
expresso de contentamento.
    --       E ento? -- comeou o prelado, -- hoje se vence o primeiro
    ttulo. A rainha pagou?
    -- No, Monsenhor, -- respondeu Boehmer. -- Sua Majestade no pde
    dar o dinheiro. Vossa Eminncia sabe que o crdito proposto pelo Sr.
    de Calonne foi recusado pelo rei. No se fala em outra coisa.
                    O COLAR DA RAINHA                                  471

-- Realmente, Boehmer, no se fala em outra coisa, e foi precisamente por
isso que vim aqui.
-- Mas, -- continuou o joalheiro, -- Sua Majestade  excelente e tem
muito boa vontade.       No tendo podido pagar, garantiu a dvida e isso
para ns  mais do que suficiente.
-- Ah! tanto melhor! -- bradou o cardeal. -- Garantiu a dvida? Muito
bem... Mas como?
-- Da maneira mais simples e mais delicada, -- tornou o joalheiro, .-- da
maneira mais real possvel.
-- Por intermdio daquela espirituosa condessa, talvez?
-- No, Monsenhor. A Sra. de Motte nem sequer apareceu e foi isso o
que mais nos lisonjeou, ao Sr. Bossange e a mim.
-- No apareceu!        A condessa no apareceu?. ..        Entretanto, ela
representa um papel importantssimo em tudo isto, Sr. Boehmer! Toda boa
inspirao deve emanar da condessa. Compreendei, alis, que no quero
com isso diminuir a iniciativa de Sua Majestade.
-- Avalie Vossa Eminncia a delicadeza e a bondade de Sua Majestade
para conosco. Espalharam-se rumores sobre a recusa do rei de ordenar o
adiantamento das quinhentas mil libras; escrevemos uma carta a Sra. de
La Motte.
-- Quando?
-- Ontem, Monsenhor.
-- Que respondeu ela?
-- Vossa Eminncia no sabe? -- volveu Boehmer com uma nuana
imperceptvel de respeitosa familiaridade.
-- No, faz trs dias que no tenho a honra de ver a Sra.Condessa, --
replicou o prncipe, principescamente.
-- Pois bem, Monsenhor, a Sra. de La Motte respondeu apenas esta
palavra: Esperai!
-- Por escrito?
-- No, de viva voz. Na carta pedamos a Sra. de La Motte que vos
solicitasse uma audincia e avisasse a rainha de que o dia do vencimento
estava prximo.
-- A palavra esperai era perfeitamente natural, -- observou o cardeal.
-- Esperamos, portanto, Monsenhor, e, ontem  noite, por um correio
muito misterioso, recebemos um escrito da rainha.
-- Um escrito? Para vs, Boehmer?
-- Ou melhor, um reconhecimento de dvida com todos os ff e rr,
Monsenhor.
-- Vejamo-lo! -- pediu o cardeal.
-- Eu o mostraria de bom grado a Vossa Eminncia se no tivssemos
jurado, meu scio e eu, de o no mostrar a ningum.
-- Por qu?
-- Porque a reserva nos foi imposta pela prpria rainha, Monsenhor. Sua
Majestade pede-nos segredo.
472                         ALEXANDRE DUMAS

    -- Ah! isso  outra coisa!      Tendes a felicidade, senhores joalheiros, de
    receber cartas da rainha.
    -- Por um milho, trezentos e cinqenta mil libras, Monsenhor, --
    observou, escarninho, o joalheiro, -- podem-se receber...
    -- Nem dez milhes, nem cem milhes pagam certas coisas, senhor, --
    revidou, severo, o prelado. -- Enfim, estais bem garantidos?
    -- O quanto possvel, Monsenhor.
    -- A rainha reconhece a dvida?
    -- Legal e devidamente.
    -- E compromete-se a pagar...
    -- Dentro em trs meses quinhentas mil libras; o resto, no semestre
    seguinte.
    -- E... os juros?
    -- Oh! Monsenhor, uma palavra de Sua Majestade os garante. "Faamos",
    acrescenta, bondosa, "faamos o negcio entre ns"; entre ns, Vossa
    Excelncia h de compreender a recomendao; "no tereis ocasio de
    arrepender-vos". E assina! Como v, Monsenhor, isso se tornou para
    meu scio e para mim um caso de honra.
    -- Estamos quites, ento, Sr. Boehmer, -- acudiu o cardeal, encantado; --
    logo faremos outro negcio.
    -- Quando Vossa Eminncia houver por bem honrar-nos com a sua
    confiana.
    -- Mas observai ainda nisto a mo da amvel condessa...
    -- Ficamos imensamente reconhecidos a Sra. de La Motte, Monsenhor, e j
    decidimos, o Sr. Bossange e eu, premiar-lhe o interesse quando o colar,
    integralmente pago, nos deixar algum dinheiro em caixa.
    -- Pssiu! pssiu! -- fz o cardeal, -- no compreendestes.
    E voltou ao carro, escoltado pelo respeito de toda a casa.
    Podemos agora erguer a mscara. O vu no ficou sobre a esttua para
ningum. O que Joana de La Motte fz contra a benfeitora, j o
compreenderam todos ao v-la pedir emprestada a pena do panfletrio
Reteau de Villette. Os joalheiros no tinham mais inquietaes, a rainha no
tinha mais escrpulos, o cardeal no tinha mais dvidas. Calcularam-se trs
meses para a perpetrao do roubo e do crime; nesses trs meses, os frutos
sinistros tero madurado suficientemente para que os colha a mo celerada.
    Joana voltou  casa do Sr. de Rohan, que lhe perguntou como se houvera
a rainha para abrandar as exigncias dos lapidrios.
    Respondeu a Sra. de La Motte que a rainha lhes fizera uma confidncia;
recomendara-lhes segredo; uma rainha que paga j tem muita preciso de
esconder-se, mas essa preciso  bem maior quando se v na contingncia de
solicitar crdito.
                        O COLAR DA RAINHA                                    473

    Conveio o cardeal em que ela tinha razo e, ao mesmo tempo, lhe perguntou
se ainda no haviam sido esquecidas as suas boas intenes dele.
    Joana bosquejou um quadro to vivo do reconhecimento da soberana, que o
Sr. de Rohan ficou muito mais eufrico como apaixonado do que como sdito; e
muito mais lisonjeado em seu orgulho do que em seu devotamento.
    Levando por esse caminho a conversao, decidira Joana voltar
tranqilamente para casa, entender-se com o negociante de jias, vender cem
mil escudos de brilhantes e partir para a Inglaterra ou para a Rssia, pases
livres, onde viveria faustosamente com o dinheiro durante uns cinco ou seis
anos, ao cabo dos quais, sem ser incomodada, comearia a vender, com lucro,
aos poucos, o resto das pedras.
    Mas nem tudo correu de acordo com os seus desejos. Diante dos
primeiros brilhantes que mostrou a dois peritos, a surpresa destes ltimos e
dos auxiliares foi tamanha que assustou a vendedora. Um oferecia somas
ridculas, extasiava-se o outro diante das pedras, jurando que nunca as vira
iguais seno no colar de Boehmer.
    Deteve-se Joana. Se desse mais um passo, acabar-se-ia traindo. Compreendeu
que uma imprudncia era a runa, e que a runa era o pelourinho e a priso
perptua. Guardando os brilhantes no mais secreto de seus esconderijos, decidiu
munir-se de armas defensivas to slidas e ofensivas to afiladas que, em caso
de guerra, fosse vencido de antemo quem quer que se apresentasse ao com-
bate.
    Bordejar entre os desejos do cardeal, que buscaria sempre saber, e as
indiscries da rainha, que sempre se gabaria de haver recusado, era um perigo
terrvel. Bastaria uma palavra trocada entre a soberana e o prelado para que
tudo se descobrisse. Reconfortou-se ao pensar que o cardeal, enamorado da
rainha, como todos os apaixonados tinha uma venda nos olhos e, por
conseguinte, cairia em quaisquer ciladas que lhe armasse a astcia com
aparncias de amor.
    Cumpria, porm, que a cilada fosse urdida por mo hbil, a fim de que
nela cassem os dois interessados. Era mister que a rainha, descobrindo o
roubo, no ousasse queixar-se, e o cardeal, descobrindo o logro, se sentisse
perdido. Era preciso tramar um golpe de mestre para lan-lo contra dois
adversrios que, de antemo, tinham por si toda a plateia.
    Joana no recuou. Possua uma dessas naturezas intrpidas, que levam o
mal at ao herosmo, e o bem at ao mal. A partir desse momento, um nico
pensamento a preocupou: impedir uma entrevista entre Lus e Maria Antonieta.
    Enquanto ela, Joana, ficasse entre ambos, nada estaria perdido; mas se,  sua
revelia, eles viessem a trocar uma palavra, bastaria
474                         ALEXANDRE DUMAS

essa palavra para arruinar-lhe  futura fortuna, edificada sobre a inocuidade do
passado.
    -- No se vero mais, -- decidiu. -- Nunca.
    "No entanto, objetava, o cardeal h de querer rever a rainha e tentar faz-
lo.
    "No esperemos que o tente; inspiremos-lhe a idia. Que le queira v-la;
que o pea; que se comprometa ao pedi-lo.
    "Sim, mas e se le fr o nico a comprometer-se?"
    Essa idia produziu-lhe uma dolorosa perplexidade.
    "Se apenas le se comprometesse, a rainha continuaria de posse de todos os
seus recursos; e ela fala to alto! arranca to bem a mscara aos velhacos!
    "Que fazer? Para que Maria Antonieta no pudesse acusar, era preciso
fechar-lhe a boca; e para fechar-lhe a boca nobre e corajosa, urgia embarg-la
com a iniciativa de uma acusao.
    "Diante de um tribunal, no se atreve a acusar o criado de furto quem
pode ser acusado pelo criado de um crime to infamante quanto o roubo. Se o
Sr. de Rohan ficar comprometido em relao  rainha,  quase inevitvel que a
rainha fique comprometida em relao ao Sr. de Rohan.
    "Todavia, era indispensvel que o acaso no aproximasse as duas criaturas
interessadas em desvelar o segredo."
    A princpio, Joana recuou ante a enormidade do rochedo que estava
suspendendo sobre a cabea. Viver assim, ofegante, apavorada, sob a ameaa
de uma queda daquelas!
    Sim, mas como fugir  angstia? Fugindo, exilando-se, transferindo para
um pas estranho os brilhantes do colar da rainha!
    Fugir no seria difcil. Um bom carro o faria em dez horas, ou seja, o
espao de um daqueles bons sonos de Maria Antonieta, o intervalo que pe o
cardeal entre uma ceia de amigos e o despertar do dia seguinte. Surja diante
de Joana a estrada real; oferea ela o seu leito interminvel s patas rdegas
dos cavalos;  o suficiente. Joana estar livre, s e salva em dez horas.
    Mas que escndalo! Que vergonha! Desaparecida, embora livre; segura,
ainda que proscrita; j no  uma dama de qualidade, seno uma ladra, uma
criminosa revel, que a justia no alcana, mas aponta, que o ferro do
carrasco no queima, pois est muito longe, mas que a opinio pblica devora
e tritura.
    No. No fugir. O cmulo da audcia e o cmulo da habilidade so como
os dois cimos do Atlas, que semelham os gmeos da terra. Um leva ao
outro; um vale o outro. Quem v um v o outro.
    Joana decidiu-se pela audcia e ficou. Decidiu-o principalmente depois
de entrever a possibilidade de criar, entre o cardeal e a rainha, uma
solidariedade de terror no dia em que descobrissem que se cometera um roubo
na sua intimidade.
                         O COLAR DA RAINHA                                  475

     Calculara a condessa quanto lhe renderiam, era dois anos, o favor da
rainha e o amor do cardeal; avaliara o rendimento dessas duas venturas numas
quinhentas ou seiscentas mil libras, depois das quais o tdio, o desfavor, o
desamparo a fariam expiar o favor, a voga, a predileo.
     -- Ganho, com o meu plano, seiscentas ou setecentas mil libras, -- estimou
ela.
     Ver-se- de que maneira essa alma profunda abriu a estrada tortuosa que
deveria lev-la  vergonha, arrastando os outros ao desespero.
     -- Fico em Paris, -- resumiu, -- e fao p firme, assistindo ao jogo dos
dois atores; deixo-lhes apenas o papel que convm aos
meus interesses; escolho, entre os bons momentos, um momento favorvel
para a fuga: uma comisso dada pela rainha ou o prprio desvalimento, que
aproveitarei tanto que se esboce.
     "Impeo o cardeal de comunicar-se, de qualquer modo, com Sua
Majestade."
     Nisso residia a maior dificuldade, visto que o Sr. de Rohan estava
apaixonado, era prncipe, tinha o direito de entrar  presena de Maria
Antonieta vrias vezes por ano, e visto que ela, casquilha, vida de homenagens
e, alm do mais, grata ao cardeal, no fugiria de falar-lhe se fosse procurada.
     Mas o meio de separar os dois augustos personagens seria propiciado pelos
prprios acontecimentos. E Joana se incumbiria de ajud-los.
     Nada seria to bom, nem to hbil, do que excitar na rainha o orgulho
que coroa a castidade. No havia dvida alguma de que um passo mais
atrevido do prelado feriria a mulher delicada e susceptvel. As naturezas assim
apreciam as homenagens, mas temem e repelem os ataques.
     Sim,  o meio infalvel. Aconselhando o Sr. de Rohan a declarar-se
livremente, provocarei no esprito da soberana uma reao de repugnncia, de
antipatia, que afastar para todo o sempre, no o prncipe da princesa, seno o
homem da mulher, o macho da fmea. Por esse motivo, as armas se voltaro
contra o cardeal, cujos movimentos ficaro dessarte, paralisados no dia das
hostilidades.
     Seja. Mas ainda assim, tornando o cardeal antiptico  rainha, somente le
ser prejudicado: resplandecer a virtude dela, isto , ficar ela completamente
livre e com a faculdade de linguagem que facilita quaisquer acusaes e lhes
d o peso da autoridade.
     Era de mister uma prova contra o Sr. de Rohan e contra a rainha; uma
espada de dois gumes, que ferisse  direita e  esquerda, que ferisse ao sair da
bainha, que ferisse cortando a prpria bainha.
476                          ALEXANDRE DUMAS

   Era de mister uma acusao que fizesse empalidecer a rainha, que fizesse
corar o cardeal, e, acreditada, isentasse de qualquer suspeita estranha  condessa,
confidente dos dois principais culpados. Era de mister uma combinao que
escudasse Joana e lhe permitisse dizer: "No me acuseis que vos acuso, no
me percais que vos perco. Deixai-me a fortuna, que vos deixarei a honra".
   -- Isso vale a pena de ser procurado, -- pensou a prfida condessa, -- e hei
de procur-lo. O meu tempo vale ouro a partir de hoje.
   Com efeito, a Sra. de La Motte acomodou-se entre boas almofadas,
aproximou-se da janela, acariciada pelo meigo sol, e, em presena de Deus,
empunhando o facho de Deus, comeou a procurar.
                                     LX1I
                                 A prisioneira

    DURANTE essas agitaes da condessa, durante o seu devanear, uma
cena de outra ordem se passava na Rua de So Cludio, defronte da casa
habitada por Joana.
    Como os leitores devem estar lembrados, o Sr. de Cagliostro alojara no
antigo palcio de Blsamo a fugitiva Oliva, perseguida pela polcia do Sr. de
Crosne.
    Muito inquieta, a Srta. Oliva aceitara com alegria a ocasio de fugir, ao
mesmo tempo, da polcia e de Beausire; vivia, portanto, retirada, escondida, a
tremer, na casa misteriosa, que abrigara tantos dramas terrveis, muito mais
terrveis do que a tragicmica aventura da Srta. Nicole Legay.
    Cumulara-a Cagliostro de cuidados e atenes: e ela se comprazia de ser
protegida pelo grande fidalgo, que nada pedia, mas parecia esperar muita coisa.
    Entretanto, que esperava le? Eis o que debalde perguntava a si mesma
a reclusa.
    Para a Srta. Oliva, o Sr. de Cagliostro, o homem que domara Beausire e
triunfara dos agentes de polcia, era um deus salvador. Era tambm um
amante muito apaixonado, porque muito respeitoso.
    Pois o seu amor-prprio no lhe permitia acreditar que Cagliostro no
pretendesse torn-la, um dia, sua1 amante.
     uma virtude, nas mulheres que a no tm, acreditar que possam ser
amadas respeitosamente. H de estar bem murcho, bem rido, bem morto, o
corao que j no espera o amor, nem o respeito que ao amor se segue.
    Oliva, portanto, ps-se a construir castelos em Espanha, no fundo da sua
manso da Rua de So Cludio, quimricos castelos em que o pobre Beausire,
fora  confess-lo, raro encontrava lugar.
    Quando, de manh, cercada de todas as comodidades com que Cagliostro lhe
trastejara os toucadores, fazia s vezes de grande dama e recapitulava as
nuanas do papel de Celimena, s vivia para o momento em que o fidalgo
aparecia, dois dias por semana, a perguntar-lhe se estava suportando facilmente
a vida.
478                          ALEXANDRE DUMAS

     E, no formoso salo, cercada de um luxo real e inteligente, a criaturinha
inebriada confessava a si mesma que tudo em sua vida pregressa fora decepo,
engano, e, ao contrrio do que assevera o moralista: -- A virtude faz a
felicidade, --  a felicidade que faz, infalivelmente, a virtude.
     Desgraadamente, porm, faltava  composio daquela felicidade um
elemento indispensvel  sua durao.
     Oliva era feliz, mas entendiava-se.
     Livros, quadros, instrumentos de msica, no conseguiam distra-la de todo.
Os livros no eram bastante licenciosos, e os que o eram j tinham sido lidos
de um flego. Os quadros so sempre iguais depois de vistos pela primeira
vez, -- o juzo  de Oliva, no  nosso, -- e os instrumentos de msica
desferem apenas um grito, nunca uma voz, para a mo ignorante que os
solicita.
     Cumpre dizer que Oliva no tardou em aborrecer-se cruelmente da sua
felicidade, e mais de uma vez pensou, com uma saudade molhada de lgrimas,
nas boas manhs passadas  janela da Rua Dauphine, quando, magnetizando a
rua com os olhos, obrigava os transeuntes a levantarem a cabea.
     E os belos passeios no bairro de So Germano, quando o casquilho chapim,
erguendo sobre os saltos de duas polegadas um p voluptuosamente
torneado, convertia num triunfo cada um de seus passos e arrancava aos
admiradores um gritinho, de medo, quando ela escorregava, ou de desejo,
quando, aps o p, surgia a perna!
     Nisso pensava Nicole aferrolhada.  verdade que os agentes do Sr. Chefe
de Polcia eram gente temvel,  verdade que o hospital, em que se extinguiam
as mulheres num srdido cativeiro, no se podia comparar com a efmera e
esplndida clausura da Rua de So Cludio. Mas de que serviria ser mulher e
ter o direito do capricho, se no lhe fosse dado insurgir-se, s vezes, contra o
bem, para troc-lo em mal, ao menos em sonho?
     Demais disso, tudo parece negro a quem se aborrece. Nicole sentiu
saudades de Beausire depois de as haver sentido da liberdade. Confessemos
que nada mudou no mundo feminino, desde o tempo em que as filhas de
Jud, na vspera de um casamento de amor, iam chorar a sua virgindade
sobre"*a montanha.
     Chegamos a um dia de luto e exasperao em que Oliva, privada, havia
duas semanas, de toda e qualquer sociedade, de toda e qualquer paisagem,
entrava no mais triste perodo do mal do enfaro.
     Havendo esgotado tudo, no se atrevendo a mostrar-se  janela nem a sair,
comeou a perder o apetite do estmago, embora no perdesse o da imaginao,
que aumentava, pelo contrrio,  proporo que diminua o outro.
                         O COLAR DA RAINHA                                    479

    Foi nesse momento de agitao moral, que recebeu uma visita inesperada de
Cagliostro.
    le entrou, como de costume, pela porta dos fundos, e foi, pelo jardinzinho
recm-traado nos ptios, bater aos postigos do apartamento dela.
    Quatro pancadas, desferidas nos intervalos por ambos convencionados, eram
o sinal previamente combinado para que a jovem abrisse a ferrolho que
entendera dever exigir como medida de segurana contra um visitante
munido de chaves.
    No julgava Oliva inteis as precaues para conservar uma virtude que,
em certas ocasies, lhe pesava.
    Ao sinal dado por Cagliostro, abriu o ferrolho com uma rapidez indicativa
da sua necessidade de conversar com algum.
    Viva como uma costureirinha parisiense, precipitou-se ao encontro do
nobre carcereiro e, com voz irritada, rouca, embargada:
    -- Senhor, -- bradou, -- ficai sabendo que me enfastio.
    Considerou-a Cagliostro com leve movimento de cabea.
   -- Sim? -- disse le, tornando a fechar a porta, -- que pena!  um triste
   mal, minha filha.
   -- No gosto daqui. Sinto-me morrer.
   -- Deveras!
   -- Tenho maus pensamentos.
   -- Ora, essa! -- tornou o conde, acalmando-a, como teria acalmado um
   co, -- se no estais bem em minha casa, no vos zangueis comigo.
   Guardai a vossa clera para o Sr. Chefe de Polcia, que  vosso inimigo.
   -- O vosso sangue frio me exaspera, -- volveu Oliva. -- Prefiro uma boa
   clera a essas douras; sempre encontrais um jeito de acalmar-me e isso
   me deixa louca da vida.
   -- Confessai que sois injusta, -- respondeu Cagliostro, sentando-se longe
   dela, com a afetao de respeito ou indiferena, que lhe dava to bons
   resultados em suas relaes com Oliva.
   -- Para vs  fcil falar, -- disse ela; -- chegais, partis, respirais; a vossa
   vida se compe de uma srie de prazeres que vs mesmo escolheis; mas
   eu vegeto no espao que me limitastes; no respiro, tremo. Previno-vos,
   senhor, de que a vossa proteo me
    intil seno me impede de morrer.
   -- Morrer! vs! -- tornou o conde, a sorrir, -- ora!
   -- Declaro que estais procedendo muito mal comigo, pois esqueceis que
   amo profunda e apaixonadamente algum.
   -- O Sr. Beausire?
   -- Beausire, sim. Repito que o amo. Creio que nunca o escondi de vs.
   No havereis de esperar, com certeza, que eu esquecesse o meu querido
   Beausire?
   -- To pouco o esperei, senhorita, que movi cus e terras para ter notcias
   dele, e aqui as trago.
480                        ALEXANDRE DUMAS

   -- Ah! - fz Oliva.
   -- O Sr. Beausire, -- continuou Caglistro, --  um rapaz encantador.
   -- Pudera! -- voltou Oliva, sem atinar com as intenes do interlocutor.
   -- Moo e bem apessoado.
   -- No  mesmo?
   -- Cheio de imaginao.
   -- De fogo... Um pouco bruto comigo. Mas... quem ama, castiga.
   -- Dizeis muito bem.       Tendes tanto corao quanto esprito e tanto
   esprito quanta beleza: e eu, que o sei, porque me interesso por todos os
   amores deste mundo ( uma mania!), pensei em reaproximar-vos do Sr. de
   Beausire.
   -- No era essa a vossa idia h coisa de um ms, -- sobreveio
   Oliva, sorrindo com ar constrangido.
   -- Escutai, minha querida filha, todo homem galante que v uma moa
   bonita procura agradar-lhe, quando  livre como eu. Entretanto,
   acordareis comigo que, se vos cortejei um pouquinho, a minha corte no
   durou muito.
   --  verdade, -- conveio Oliva no mesmo tom; -- um quarto de hora, se
   tanto.
   -- Era muito natural que eu desistisse, vendo o quanto amais o Sr. de
   Beausire.
   -- Oh! no caoeis de mim.
   -- No estou caoando! Resististes muito bem  minha corte.
   -- Resisti, no resisti? -- exclamou Oliva, encantada por ter sido
   surpreendida em flagrante delito de resistncia. -- Sim, confessai que
   resisti.
   -- Era uma conseqncia do vosso amor, -- tornou, fleumtico, Caglistro.
   -- Mas o vosso, -- revidou Oliva, -- nesse caso, no foi muito tenaz.
   -- No sou to velho, nem to feio, nem to tolo, nem to pobre, que
   me arrisque a sofrer uma recusa ou as possibilidades de uma derrota;
   percebi que a mim tereis preferido sempre o Sr. de Beausire e por isso me
   decidi.
   -- Oh! no, -- acudiu a scia; -- no!        A famosa associao que me
   propusestes, no estais lembrado? o direito de dar-me o brao, de visitar-
   me, de cortejar-me sempre com boas intenes, no era acaso um germe
   de esperana?
   E, dizendo essas palavras, a prfida queimava com os olhos por muito
tempo vadios o visitante, que viera cair-lhe no lao.
   -- Confesso que sois de uma penetrao a que nada resiste, -- respondeu
Caglistro.
                       O COLAR DA RAINHA                                  481

   E fingiu abaixar os olhos para no ser devorado pelo duplo jorro de
chamas que despediam as pupilas de Oliva.
   -- Voltemos a Beausire, -- disse ela, despeitada pela imobilidade do conde;
-- onde est le, que est fazendo o querido amigo?
   E Cagliostro, contemplando-a com uns restos de timidez:
   -- Eu dizia que gostaria de reunir-vos, -- continuou.
   -- No, no dizeis isso, -- murmurou a moa com desdm; -- mas j
   que o dizeis, tomo-o por dito. Continuai. Por que no o trouxestes?
   Fora uma obra de caridade. le est livre...
   -- Porque, -- retrucou Cagliostro, sem se admirar da ironia, -- o Sr. de
   Beausire, que  como vs, que tem muito esprito, tambm anda as
   voltas com a polcia.
   -- Tambm! -- rebradou Oliva, empalidecendo, pois dessa vez sentia o
   som da verdade.
   -- Tambm! -- repetiu, polido, Cagliostro.
   -- Que  que le fz?... -- balbuciou a jovem.
   -- Uma encantadora falcatrua, um passe de mgica infinitamente engenhoso,
   uma brincadeira, na minha opinio; mas essa gente taciturna, como o
   Sr. de Crosne, por exemplo, e sabeis o quanto  pesado o Sr. de Crosne,
   chama-lhe roubo.
   -- Um roubo! -- exclamou Oliva, espavorida; -- santo Deus!
   -- Alis, um lindo roubo; o que prova o muito amor do pobre Beausire s
   boas coisas.
   -- Senhor. .. senhor. .. le foi preso?
   -- No, mas foi denunciado.
   -- Jurais-me que no foi preso, que no est correndo perigo?
   -- Posso jurar-vos que no foi preso; mas, no que concerne ao segundo
   ponto, no tereis a minha palavra. Sabeis perfeitamente, minha querida
   filha, que uma pessoa denunciada  seguida, ou pelo menos procurada;
   ora, com a sua cara, o seu jeito, com todas as suas bem conhecidas
   qualidades, o Sr. de Beausire, se se mostrar, ser imediatamente preado
   pelos sabujos. Pensai um pouco na repercusso desse golpe do Sr. de
   Crosne: prender-vos por intermdio do Sr. de Beausire e prender o Sr. de
   Beausire por vosso intermdio.
   -- Oh! sim, sim, le precisa esconder-se! Pobre rapaz! Vou esconder-me
   tambm. Fazei-me sair de Frana, senhor! Procurai ajudar-me; porque
   aqui, vede, encerrada, abafada, eu no resistiria ao desejo de cometer,
   mais dia menos dia, uma imprudncia.
   -- A que chamais imprudncia, minha querida menina?
   -- U... mostrar-me, tomar um pouco de ar.
   -- No exagereis, minha boa amiga; j estais muito plida e acabareis
   perdendo a vossa bela sade. O Sr. de Beausire deixaria de amar-vos.
   No; tomai todo o ar que quiserdes, regalai-vos vendo passar alguns rostos
   humanos.
-- Muito bem! -- bradou Oliva, -- agora ficastes despeitado e quereis
desamparar-me. Estou-vos incomodando, talvez?
482                         ALEXANDRE DUMAS

    -- Eu? Estais louca? Por que me incomodareis? -- tornou le
    com glacial seriedade.
    -- Porque. .. um homem que gosta de uma mulher, um homem
    importante como vs, um belo fidalgo como vs, tem o direito de
irritar-se, tem at o direito de enfastiar-se, quando repelido por uma louca
como eu! Oh! no me deixeis, no me percais, no fiqueis com raiva de
mim, senhor!
     E to aterrada quanto se mostrara garrida, a jovem passou o brao em
torno do pescoo de Cagliostro.
    -- Pobrezinha! -- disse o conde, depondo-lhe um casto beijo na testa; --
    como ela est com medo!           No faais de mim to m opinio, minha
    filha.    Estveis correndo perigo, eu vos ajudei; eu tinha umas idias a
    vosso respeito: perdi-as, acabou-se. No vos
    tenho dio nem me deveis gratido.         Procedi de acordo com os meus
    interesses, procedestes de acordo com os vossos, estamos quites.
    -- Oh! senhor, quanta bondade! Como sois generoso!
     E Oliva atirou os dois braos, em vez de um, ao pescoo do fidalgo.
     Mas este, olhando para ela com a habitual tranqilidade:
    -- Estais vendo, Oliva? -- disse le; -- agora me oferecereis o vosso amor,
    e eu...
    -- Sim! -- tornou ela, muito vermelha.
    -- Agora me oferecereis a vossa adorvel pessoa e eu a recusaria, pois
    s gosto de inspirar sentimentos verdadeiros, puros e despidos de clculo.
    Julgastes-me interesseiro, castes na minha dependncia. Neste momento
    vos cuidais comprometida; eu vos
    creria mais grata que sensvel, mais assustada que amorosa: fique mos
    como estamos. Cumpro, assim, o vosso desejo e antecipo-me a todas as
    vossas delicadezas.
     Oliva deixou pender os formosos braos e afastou-se corrida, humilhada,
iludida pela generosidade de Cagliostro, com a qual no contara.
    -- Dessa maneira, -- voltou o conde, -- est combinado: considerar-me-eis
    como amigo, tereis a mxima confiana em mim; usareis minha casa,
    minha bolsa, meu crdito, e . . .
    -- E direi a mim mesma, -- atalhou Oliva, -- que h neste mundo
    homens bem superiores a quantos j conheci.
     Pronunciou essas palavras com uma graa e uma dignidade que
impressionaram a alma de bronze, cujo corpo outrora se chamara Blsamo.
    -- Toda mulher  boa, -- pensou le, -- quando a gente consegue tocar-
lhe a corda que corresponde ao corao.
    Logo, abeirando-se de Nicole:
    -- A partir desta noite, habitareis o ltimo andar do palcio.  um
apartamento composto de trs cmodos colocados a modo de
                       O COLAR DA KAINHA                                    483

observatrio sobre o bulevar e a Rua de So Cludio. As janelas do para
Mnilmontant e Belleville. Algumas pessoas podero ver--vos. So vizinhos
pacficos, no os temais. Boa gente sem relaes, que nem sequer desconfia da
vossa possvel identidade. Deixai-vos ver por eles, sem todavia vos expordes e
sobretudo sem nunca vos mostrardes aos transeuntes, pois a Rua de So Cludio
 s vezes explorada pelos agentes do Sr. de Crosne; l, pelo menos, tereis um
pouco de sol.
    Oliva bateu alegremente as mos.
    -- Quereis que eu vos conduza? -- props Cagliostro.
    -- Esta noite?
    -- Claro! esta noite. Isso vos contraria?
    Oliva encarou profundamente nele. Uma vaga esperana tornou a
penetrar-lhe o corao, ou melhor, a v e pervertida cabecinha.
    -- Vamos, -- disse ela.
    O conde pegou uma lanterna na antecmara, abriu diversas portas e,
subindo uma escada, chegou, seguido da rapariga, ao terceiro andar, onde
entrou no apartamento descrito.
    Ela encontrou as dependncias mobiliadas, floridas, habitveis.
    -- At parece que eu estava sendo esperada, -- observou.
    -- Vs, no, -- tornou o conde; -- eu, que gosto da vista desse
    pavilho e muitas vezes aqui me deito.
    O olhar de Oliva assumiu as tintas fulvas e fulgurantes que eriam por
vezes as pupilas dos gatos.
    Uma palavra j lhe nascia nos lbios; deteve-a Cagliostro dizendo:
    -- Nada vos faltar; a camareira vir dentro de um quarto de
hora. Boa noite, senhorita.
    E desapareceu, depois de haver feito uma grande reverncia, mitigada por
um gracioso sorriso.
    A pobre prisioneira deixou-se cair sentada, consternada, aniquilada sobre a
cama, j pronta numa elegante alcova contgua.
    -- No compreendo absolutamente nada do que me est acontecendo, --
murmurou, seguindo com os olhos aquele homem real
mente incompreensvel para ela.
                                     LXIII
                                O observatrio

    LIVA deitou-se depois que saiu a camareira mandada por Cagliostro.
    Dormiu pouco, pois os desvairados pensamentos nascidos da sua entrevista
com o conde s lhe proporcionaram um sonhar acordada, um sonolento
inquietar-se; no dura muito a nossa felicidade quando nos vemos muito ricos ou
muito sossegados depois de nos termos visto muito pobres ou muito agitados.
    Oliva lastimou Beausire, admirou o conde, que no compreendia, pois no
o julgava tmido nem o supunha insensvel. Teve medo de que algum silfo
lhe perturbasse o sono e os mnimos rudos do assoalho lhe provocaram a
agitao conhecida de toda herona de romance, que se deita na Torre do
Norte.
    Com a aurora fugiram os terrores, que no deixavam de ter o seu
encanto... Ns, que no nos tememos de inspirar suspeitas ao Sr. Beausire,
podemos afirmar que Nicole no entreviu a hora da perfeita segurana sem
um restinho de vaidoso despeito. Intraduzvel matiz para qualquer pincel que
no assinasse: Watteau, -- e para qualquer pena que no assinasse: Marivaux
ou Crbillon Filho.
    Durante o dia, dormiu, saboreando a volpia de absorver no quarto florido
os raios purpurinos do sol nascente, de ver correrem os passarinhos sobre a
jardineira da janela, onde as suas asas roavam com rumores deliciosos as folhas
das roseiras e as flores dos jasmineiros de Espanha.
    E foi tarde, bem tarde, que se levantou, depois que duas ou trs horas de
um sono suave lhe descansaram as plpebras, depois que, embalada pelos
rudos da rua e pelos aveludados torpores do repouso, se sentiu suficientemente
forte para buscar o movimento, forte demais para continuar deitada e ociosa.
    Percorreu, ento, todos os cantos do novo apartamento, em que o silfo
incompreensvel e ignorante no pudera descobrir sequer um alapo, para vir
rodear-lhe a cama batendo as asas; e, no entanto, os silfos daquele tempo,
graas ao Conde de Gabalis, nada haviam perdido de sua inocente reputao.
    Surpreendeu as riquezas da nova morada na simplicidade do imprevisto.
Aquele retiro feminino fora, a princpio, um aposento
                         O COLAR DA RAINHA                                 485

de homem. L se encontrava tudo o que nos pode fazer amar a vida, l se
encontravam sobretudo tanta luz e tanto ar que bastariam a converter
masmorras em jardins se, alguma vez, pudessem o ar e a luz penetrar num
aljube.
    Descrever a alegria infantil, isto , perfeita, com que ela se atirou ao
terrao, deitou-se nas ljeas, entre flores e musgos,  semelhana de uma
serpente que deixa o ninho, sem dvida o faramos se no precisssemos
pintar-lhe os espantos sempre que um movimento lhe descobria um espetculo
indito.
    A princpio deitada, como dissemos, a fim de no ser vista pelos que
passassem, contemplou, entre as grades do balco, o cimo das rvores dos
bulevares, as casas do bairro de Popincourt e as chamins, brumoso oceano
cujas vagas desiguais se encapelavam,  sua direita.
    Inundada de sol, o ouvido atento ao estrpito dos carros que rodavam, um
pouco raros  verdade, mas que sempre rodavam pelo bulevar, assim
permaneceu, felicssima, duas horas. Chegou  tomar o chocolate que lhe
serviu a camareira ao almoo e leu uma gazeta sem pensar uma vez sequer em
olhar para a rua.
    Era um prazer perigoso.
    Os sabujos do Sr. de Crosne, ces humanos que viviam com o nariz no ar,
podiam v-la. Que medonho despertar depois de um dormir to suave!
    Mas a posio horizontal no podia eternizar-se, por melhor que fosse.
Soergueu-se Nicole sobre um cotovelo.
    Viu ento as nogueiras de Mnilmontant, as grandes rvores do cemitrio,
as mirades de casas de todas as cores que subiam a encosta do morro desde
Charonne at os outeiros de Chaumont, entre toucas de verdura ou sobre as
manchas argilosas das penedias, revestidas de saras e cardos.
    Aqui e ali, nos caminhos, tnues fitas que ondulavam ao p dos
morrinhos, entre carreiras de vinhedos, nas estradas brancas, desenhavam-se
pequeninos seres vivos, camponeses choutando, crianas inclinadas sobre o
campo ceifado, vinhateiras descobrindo as uvas ao sol. Essa rusticidade
encantou Nicole, que sempre sentira saudades dos formosos campos de
Taverney, depois que os deixara em troca daquela Paris to desejada.
    Acabou-se fartando do campo e, como houvesse tomado uma posio
cmoda e segura entre as flores, como pudesse ver sem se arriscar a ser vista,
abateu os olhos da montanha para o vale, do longnquo horizonte para as casas
fronteiras.
    Em toda  parte, isto , no espao que podem compreender trs casas, s
encontrou janelas fechadas ou pouco convidativas. Aqui, trs andares
habitados por velhos proprietrios, que penduravam as gaiolas na parede ou
davam de comer aos gatos dentro
486                         ALEXANDRE DUMAS

de casa; ali, quatro andares nos quais s se via o filho da Auvergne, superior
habitante, pois os outros locatrios pareciam estar ausentes, tendo viajado
para algum lugar. Enfim, um pouco mais  esquerda, na terceira casa, cortinas
de seda amarela, flores, e, como para acentuar o bem-estar, uma poltrona macia,
 beira da janela, parecia estar  espera do seu sonhador ou da sua sonhadora.
    Oliva cuidou distinguir na sala, cuja obscuridade realava o sol, uma
espcie de sombra ambulante de movimentos regulares.
    Conteve a impacincia, escondeu-se melhor e, chamando a camareira,
entabulou conversao com ela, trocando os prazeres da solido pelos da
sociedade de uma criatura pensante e sobretudo falante.
    A camareira, porm, contra todas as tradies, mostrou-se reservada.
Disposta a explicar a paisagem  ama, Belleville, Charonne e o Pre-
Lachaise, disse o nome das igrejas de Santo Ambrsio e So Loureno, e
indicou a curva do bulevar e a sua inclinao no sentido da margem direita do
Sena; mas quando o assunto descambou para os vizinhos, fechou-se em copas:
ela s conhecia a patroa.
    Por conseguinte, o apartamento claro-escuro, com cortinas de seda amarela,
no foi explicado  Oliva. Nem a sombra ambulante, nem a poltrona.
    Mas se Oliva no teve a satisfao de conseguir informes sobre a vizinha,
pde pelo menos prometer a si mesma tratar relaes com ela por iniciativa
prpria. Mandou embora a discretssima criada para entregar-se, sem
testemunhas,  sua explorao.
    Ensejou-se-lhe pouco depois a ocasio. Os vizinhos comearam a abrir as
portas, para a sesta aps o jantar e para o passeio a Place-Royale e ao Caminho
Verde.
    Oliva contou-os. Eram seis, bem diversos uns dos outros, como convm a
habitantes da Rua de So Cludio.
    Passou parte do dia estudando os seus gestos e os seus hbitos. Passou revista
a todos, exceto  sombra agitada que, sem mostrar o rosto, fora enterrar-se na
poltrona ao p da janela, absorta num imvel cismar.
    Era uma mulher. Entregara a cabea  cabeleireira, que, durante hora e
meia, lhe construra sobre o crnio e as tmporas um desses edifcios
babilnicos nos quais entravam minerais, vegetais, e onde teriam entrado
animais, se nisso se houvesse metido Leonardo e se uma mulher daquela poca
consentisse em fazer da cabea uma arca de No.
    Penteada, empoada, vestida e enfeitada, a mulher voltara a instalar-se na
poltrona, com o pescoo apoiado em durssimos travesseiros, a fim de que aquela
parte bastasse a sustentar o equilbrio do corpo inteiro e permitisse ao
monumento da cabeleira continuar intacto, sem se preocupar com os terremotos
que pudessem agitar--lhe a base.
                         O COLAR DA RAINHA                                   487

    A mulher imvel lembrava os deuses indianos pregados nos seus andores,
e cujos olhos fixos, graas  concentrao do pensamento, so os nicos rgos
capazes de movimento. Conforme as necessidades do corpo ou o capricho do
esprito, sentinelas e bons servidores ativos, faziam sozinhos todo o servio do
dolo.
    Oliva observou como era formosa a dama assim penteada, como era delicado
e espiritual o seu pzinho, pousado sobre o bordo da janela e equilibrado por
uma chinelinha de cetim cor-de-rosa. Admirou-lhe os contornos do brao e do
colo, que repelia o corpinho e o roupo.
    O que mais a impressionou, porm, foi a profundeza do pensamento, sempre
dirigido para um alvo invisvel e vago, e to imperioso que condenava o corpo
 imobilidade, aniquilando-o por obra da vontade.
    Essa mulher, que ns reconhecemos, mas que Oliva no podia reconhecer,
no desconfiava de que pudesse ser vista. Diante das suas janelas, nunca se
abrira janela alguma. O palcio do Sr. de Cagliostro, a despeito das flores que
Nicole encontrara, das aves que vira voar, nunca revelara seus segredos a
ningum, e, salvante os pintores que o tinham restaurado, nenhum ser vivo se
mostrara  janela.
    Para explicar o fenmeno, contrariado pela presena espordica de
Cagliostro no pavilho, bastar uma palavra. Durante  tarde, o conde
mandara preparar o apartamento para Oliva, como teria mandado prepar-lo
para si. le, por assim dizer, mentira a si mesmo, to bem haviam sido
executadas as suas ordens.
    A dama da bela cabeleira permanecia, portanto, mergulhada nos seus
pensamentos e Oliva imaginou que a venosa criatura, sonhando assim, sonhava
com amores contrariados.
    Simpatia na beleza, simpatia na solido, na idade, no tdio, quantos laos
para ligar duas almas que porventura se buscavam, graas s combinaes
misteriosas, irresistveis e intraduzveis do Destino!
    Desde que viu a solitria pensativa, Oliva no pde despregar os olhos
dela.
    Havia uma espcie de pureza moral naquela atrao da mulher para a
mulher. Essas delicadezas so mais comuns do que geralmente se cr entre as
infelizes criaturas cujo corpo  o agente principal das funes da vida.
    Pobres exiladas do paraso espiritual, lamentam os jardins perdidos e os
anjos risonhos escondidos debaixo das msticas folhagens.
    Oliva imaginou encontrar uma irm de sua alma na bela reclusa. Construiu
um romance semelhante ao seu romance, na suposio ingnua de que uma
mulher no podia ser bonita, elegante, e viver perdida na Rua de So Cludio
sem que alguma grave inquietude lhe roesse o corao.
488                         ALEXANDRE DUMAS

    Depois de forjar com bronze e brilhantes a sua fbula romanesca, como
todas as naturezas excepcionais, deixou-se Oliva arrebatar pela prpria criao;
tomou asas para correr, espao a fora,  frente da companheira,  qual, na sua
impacincia, teria desejado emprestar asas iguais s suas.
    Mas a dama do monumento no se mexia: parecia toscanejar na poltrona.
Duas horas se passaram sem que se lhe tivesse podido notar a menor oscilao.
    Desesperava-se Oliva. No teria feito para Adnis nem para Beausire a
quarta parte do que fz para chamar a ateno da desconhecida.
    Cansando-se e passando da ternura ao dio, abriu e fechou dez vezes a
janela; dez vezes espantou os passarinhos entre as folhagens, fazendo gestos
telegrficos de tal modo comprometedores, que o mais obtuso dos
instrumentos do Sr. de Crosne, passando naquele instante pelo bulevar ou pela
esquina da Rua de So Cludio, no teria deixado de observ-los e de
preocupar-se com eles.
    Por fim, chegou a persuadir-se de que a dama das belas tranas vira
perfeitamente todos os seus gestos, compreendera todos os seus sinais, mas
desdenhara-os; devia de ser, portanto, uma vaidosa ou uma idiota. Idiota! com
olhos to finos, to espirituais, com o p to mvel, a mo to inquieta!
Impossvel.
    Vaidosa, sim; vaidosa como podia ser naquela poca uma mulher da alta
nobreza em relao a uma burguesa.
    Descobrindo na fisionomia da mulher todos os caracteres da aristocracia,
concluiu que era orgulhosa e impossvel de comover-se.
    Desistiu.
    Virando as costas com um amuo encantador, voltou a entregar-se ao sol,
que principiava a declinar, volvendo  sociedade das flores, agradveis
companheiras que, nobres tambm, elegantes tambm, tambm empoadas e
castilhas como as grandes damas, no obstante se deixam tocar, respirar, e
retribuem, com perfume, frescor e frementes contactos, o beijo da amizade ou
o beijo do amor.
    No sabia que a pretensa orgulhosa era Joana de Valois, Condessa de La
Motte, que, desde a vspera, procurava uma idia;
    Que essa idia tinha por escopo impedir que se vissem Maria Antonieta e o
Cardeal de Rohan;
    Que um interesse ainda maior exigia que o cardeal, embora deixasse de ver
a rainha em particular, acreditasse firmemente que a via sempre e, por
conseguinte, satisfeito com essa viso, cessasse de reclamar a vista real.
    Idias graves, desculpas muito legtimas para aquela preocupao de uma
 mulher em no mexer a cabea durante duas horas mortais.
                        O COLAR DA RAINHA                                  489

    Se Nicole soubesse de tudo isso, no se teria, colrica, refugiado entre as
flores.
    No teria, ao faz-lo, derrubado do balco um pote de fraxi-nelas, que foi
cair na rua deserta com medonho estardalhao.
    Assustada, procurou verificar a extenso dos estragos que causara.
    A dama preocupada despertou com o barulho, viu o pote na calada e,
passando do efeito  causa, ergueu os olhos da calada para o terrao da casa
fronteira.
    E viu Oliva.
    Ao v-la, soltou um grito selvagem, de terror, um grito que terminou num
movimento rpido de todo o corpo to teso e to frio pouco antes.
    Os olhos de ambas afinal se encontraram, interrogaram, interpenetraram.
    Joana gritou primeiro:
    -- A rainha!
    Logo, de repente, juntando as mos e franzindo o cenho sem ousar mexer-
se, receosa de que lhe fugisse a estranha viso:
    -- Oh! -- murmurou, -- eu estava buscando um meio; encontrei-o!
    Nesse momento, Oliva percebeu um rumor atrs de si e voltou-se, rpida.
    O conde, no quarto, observara a troca de reconhecimentos.
    -- Viram-se! -- murmurou le.
    A rapariga afastou-se bruscamente do balco.
                                    LXIV



                                   Vizinhas

    APARTIR do momento em que as duas mulheres se avistaram, Oliva,
j fascinada pela graa da outra, no mais fingiu desdenh-la; e, voltando-se
com precauo no meio das flores, respondeu com sorrisos aos sorrisos que
recebia.
    Ao visit-la, Cagliostro no deixara de recomendar-lhe a maior das
circunspeces.
    -- Sobretudo, -- dissera, -- no vos entendais com os vizinhos.
    Cara a recomendao como sinistro granizo na cabea da rapariga, para a
qual j representavam doce ocupao os gestos e saudaes da condessa.
    No se entender com os vizinhos era voltar as costas  encantadora mulher,
de olhos to brilhantes e to doces, de to sedutores movimentos, era
descontinuar um comrcio telegrfico sobre a chuva e o bom tempo, era brigar
com uma amiga. Pois, na sua imaginao, Joana j se constitura num objeto
curioso e querido.
    A astuta respondeu ao protetor que no lhe desobedeceria, que no
manteria comrcio nenhum com a vizinhana. Mas tanto que o viu pelas
costas, acomodou-se no balco de modo que absorvesse toda a ateno da
vizinha.
    Esta, como se h de imaginar, no queria outra coisa, pois j aos primeiros
sinais desmanchou-se em saudaes e beijos atirados com a ponta dos dedos.
    Oliva correspondeu da melhor maneira possvel a essas amabilidades;
observou que a desconhecida no saa mais da janela; e que, sempre
atenciosa no mandar um adeus ao sair, ou um bom dia ao chegar, parecia
haver concentrado todas as suas faculdades amativas no balco fronteiro.
    A esse estado de coisas deveria seguir-se prestesmente uma tentativa de
 aproximao.
    Eis o que aconteceu:
    Vindo ver Oliva dois dias depois, queixou-se Cagliostro de uma visita
 que teria sido feita ao palcio por uma desconhecida.
    -- Como assim? -- perguntou a moa, corando um pouco.
    -- Sim, -- esclareceu o conde, -- uma dama muito bonita, jo
    vem, elegante, apresentou-se e falou com um lacaio, atrado pela
                       O COLAR DA RAINHA                                   491

sua insistncia em tocar a campainha, perguntando-lhe por uma jovem que
mora no pavilho do terceiro andar: o vosso apartamento, minha cara! Essa
mulher, seguramente, estava-se referindo a vs. Queria ver-vos. Portanto, vos
conhece; portanto, deseja de vs alguma coisa; portanto, fostes descoberta.
Cuidado! que a polcia tem espias femininos como tem agentes masculinos, e
desde j declaro que no poderei recusar-me a entregar-vos se assim me pedir
o Sr. de Crosne.
    Em vez de assustar-se, Oliva reconheceu a vizinha pela descrio, ficou-lhe
imensamente grata, e, decidida a manifestar o seu agradecimento por todos os
meios possveis, dissimulou.
    -- No estais com medo? -- insistiu Cagliostro.
    -- Ningum me viu, -- replicou Nicole.
    -- Nesse caso, no reis vs a pessoa procurada?
    -- Acho que no.
    -- Mas, para adivinhar que h uma mulher nesse pavilho...
    Cuidado! cuidado!. ..
    -- Ora, Sr. Conde, -- argumentou Oliva, -- como poderei ter
    medo? Se me viram, o que no creio, no tornaro a ver-me; e
    ainda que me tornassem a ver, seria de longe: a casa  impene
    trvel, no ?
    -- Impenetrvel, -- assentiu o conde, -- pois a menos de escalar o muro, o
    que no  fcil, ou de abrir o portozinho com uma chave igual  minha,
    o que  difcil, visto que a no largo nunca...
    E mostrava a chave que lhe servia para entrar pela porta dos fundos.
    -- Ora, -- continuou, -- como no tenho interesse em perder-vos, no a
emprestarei a ningum; e como para vs no haveria vantagem alguma em
cair nas mos do Sr. de Crosne, no permitireis que escalem o vosso muro.
Dessarte, minha querida filha,
estais avisada, arranjai-vos como quiserdes.
     Desfez-se Oliva em protestos de todo o gnero, e deu-se pressa a
despachar o conde, que no teimou em ficar.
     No dia seguinte, desde as seis da manh, estava no balco, aspirando o ar
puro dos pomares vizinhos e espichando um olhar curioso para as janelas
fechadas da sua corts amiga.
    Esta, que nunca se levantava antes das onze, mostrou-se incon-tinenti. Dir-
se-ia que estivesse espreitando, atrs das cortinas, a ocasio para mostrar-se.
     Cortejaram-se e Joana esticou a cabea para fora da janela e olhou em
torno, verificando se algum poderia ouvi-la.
     Ningum apareceu. No somente a rua, mas at as janelas das casas
 estavam desertas.
     Levou as mos  boca a modo de alto-falante e, com a entonao vibrante e
 firme que, sem ser um grito, repercute mais que o estrondo da voz, disse:
492                          ALEXANDRE DUMAS

    -- Eu quis visitar-vos, senhora.
    -- Pssiu! -- fz Oliva, recuando assustada.
    E ps um dedo nos lbios.
    Joana mergulhou tambm atrs das cortinas acreditando na presena de
algum indiscreto; mas reapareceu pouco depois, tranquilizada pelo sorriso de
Nicole.
    -- No posso ver-vos? -- voltou.
    -- Infelizmente no! -- respondeu a outra, com um gesto.
    -- Posso escrever-vos?
    -- Oh! -- bradou Oliva, espavorida.
    Joana refletiu por alguns momentos.
    Para agradecer-lhe a terna solicitude, Oliva mandou-lhe um beijo
encantador. Joana devolveu-o em dobro; depois, fechando as janelas, saiu.
    Oliva cuidou consigo s que a amiga encontrara algum novo recurso, pois
julgara ver-lhe a imaginao transluzir no seu ltimo gesto.
    A condessa voltou, de fato, duas horas depois; o sol estava a pino; a
calada da rua ardia como a areia de Espanha durante o fuego.
    Oliva viu assomar  janela a vizinha com uma balestra. Joana, rindo-se, fz-
lhe sinal que se afastasse.
    Oliva obedeceu, rindo tambm, e refugiou-se atrs do postigo. Visando com
cuidado, Joana atirou uma balinha de chumbo, que, infelizmente, em vez de
transpor o balco, foi bater-lhe numa das barras de ferro e caiu na rua.
    Oliva soltou um grito de desapontamento. A condessa deu de ombros com
raiva, relanceou a vista pela rua,  procura do projtil e desapareceu durante
alguns minutos.
    Oliva, debruada, olhava para baixo do balco; uma espcie de trapeiro
passou, esgarafunhando  direita e  esquerda: viu ou no viu a balinha na
enxurrada? Oliva no ficou sabendo; escondeu-se para no ser vista tambm.
    A segunda tentativa de Joana foi mais feliz.
    A balestra atirou fielmente, adiante do balco, no interior do quarto de
Nicole, uma segunda bala,  volta da qual estava enrolado um bilhete
redigido nestes termos:
          "Interessais-me, bela dama. Acho-vos encantadora e gosto de vs s
       de ver-vos. Estais, acaso, prisioneira? Sabeis que debalde tentei visitar-
       vos? O feiticeiro que vos mantm guardada  vista deixar--me-
       alguma vez, aproximar-me de vs para dizer-vos quanta simpatia me
       inspira uma pobre vtima da tirania dos homens?
          "Como vedes, tenho imaginao suficiente para pr a servio de
       minhas amizades. Quereis ser minha amiga? Parece que no podeis
       sair; mas podeis escrever, sem dvida, e, como saio quando quero,
       esperai a minha passagem debaixo do vosso balco e atirai-me a res-
       posta.
                       O COLAR DA RAINHA                                 493

         "Se acontecer que o processo da balestra se revele perigoso e seja
      descoberto, adotaremos um meio mais fcil de correspondncia. Deixai
      pender do alto do balco,  boca da noite, um novelo de linha; amarrai
      nele o vosso bilhete. Substitui-lo-ei pelo meu e podereis ergu-lo sem
      que ningum vos veja.
         "Lembrai-vos de que, se os vossos olhos no mentem, conto com um
      pouco da amizade que me inspirastes; juntas, venceremos o universo.
                              "Vossa amiga.
         "P. S. Vistes algum apanhar o meu primeiro bilhete?".
    Joana no assinara; chegara at a disfarar a letra.
    Oliva estremeceu de alegria ao receber aquela cartinha. Respondeu-lhe com
esta:
          "Gosto de vs como gostais de mim. Sou, com efeito, vitima da
       maldade dos homens. Mas aquele que aqui me retm  um protetor,
       no  um tirano. Vem visitar-me em secreto uma vez por dia. Explicar-
       vos-ei tudo isso mais tarde.  balestra prefiro o bilhete na ponta da
       linha.
           "Infelizmente no posso sair: estou fechada  chave; mas  para o
       meu bem. Oh! quanta coisa eu teria para dizer-vos se tivesse um dia a
       felicidade de conversar convoscol H tantos pormenores que no se
       podem escreverl
          "O vosso primeiro bilhete no foi apanhado por ningum, seno por
       um miservel trapeiro que estava passando; mas essa gente no sabe
       ler e, para ela, chumbo  chumbo.
                           "Vossa amiga,
                               "OLIVA LEGAY"
    Oliva assinou com todas as foras.
    Fz  condessa o gesto de desenrolar um novelo; depois, esperando que
chegasse a noite, deixou cair a linha at ao meio da rua.
    Debaixo do balco, a condessa agarrou a linha e arrancou-lhe o bilhete,
com movimentos que a correspondente percebeu atravs do fio condutor;
depois, voltou para casa a fim de l-lo.
    Volvida meia hora, amarrava ao bem-aventurado fio outro escrito, em que
se continham estas palavras:
          "A gente faz o que quer. No sois guardada  vista, porque vos vejo
       sempre s. Portanto, deveis ter a mxima liberdade para receber as
       pessoas e at para sair. Como se fecha a vossa casa? A chave? Quem
       fica com ela? O homem que vai visitar-vos? E le guarda essa chave
       com tanto zelo que no podeis furtar-lha nem tomar-lhe a impresso?
       No estareis procedendo mal; estareis apenas procurando obter algumas
       horas de liberdade, de bons passeios pelo brao de uma amiga que vos
       consolar de todos os infortnios e vos dar muito mais do que
       perdestes. Estareis at, se quiserdes, conquistando a vossa completa
       liberdade. Trataremos desse assunto minuciosamente na primeira
       entrevista que tivermos."
494                          ALEXANDRE DUMAS

    Oliva devorou o bilhete. Sentia subir-lhe s faces a febre da independncia,
ao corao a volpia do fruto proibido.
    Observara que o conde, cada vez que entrava no apartamento, trazendo-lhe
um livro ou uma jia, colocava a lanterna surda sobre a cmoda, e a chave
sobre a lanterna.
    Preparou de antemo um pedao de cera, na qual tomou a impresso da
chave na primeira visita de Cagliostro.
    Este no voltou a cabea uma vez sequer; enquanto ela realizava a
operao, contemplava, no balco, as flores recm-desabro-chadas. Oliva, por
conseguinte, pde levar a cabo o seu projeto sem maiores dificuldades.
    Depois que o conde partiu, fz descer numa caixa a impresso da chave,
que Joana recebeu com um bilhetinho.
    E j no dia seguinte, cerca do meio-dia, a balestra, meio extraordinrio e
expedito, que representava para a correspondncia pelo fio o que representa o
telgrafo para o correio a cavalo, atirou-lhe um bilhete que dizia deste teor:
          "Minha querida, esta noite s onze horas, depois que o vosso
       ciumento tiver partido, descereis, abrireis os ferrolhos e estareis nos
       braos daquela que se diz vossa terna amiga."
    A rapariga estremeceu muito mais de alegria do que j lhe sucedera ao
receber os mais ternos bilhetes de Gilberto, na primavera dos primeiros amores
e dos primeiros encontros.
    Desceu s onze horas sem haver observado suspeita alguma da parte do
conde. Em baixo encontrou Joana, que a conchegou terna-mente de si e f-la
subir num carro que estava esperando no bulevar e, aturdida, palpitante,
inebriada, deu com a amiga um passeio de duas horas, durante as quais
segredos, beijos e projetos de futuro se trocaram, sem interrupo, entre as
duas companheiras.
    Foi Joana quem a persuadiu a entrar, para no despertar suspeita alguma no
esprito do protetor. Acabava de saber que esse protetor era Cagliostro. Temia
o gnio daquele homem e s via segurana para os seus planos no mais
profundo mistrio.
    Oliva entregara-se sem reservas; Beausire, a polcia, tudo confessara.
    Joana fizera-se passar por uma moa de qualidade, que vivia com um
amante  revelia da famlia.
    Uma sabia tudo, a outra tudo ignorava; tal era a amizade jurada entre as
duas mulheres.
    A partir desse dia no tiveram elas preciso da balestra nem do novelo
de linha, pois Joana ficara com a chave e fazia descer a rapariga a seu
talante.
                      O COLAR DA RAINHA                                    495

    Uma boa ceia, um passeio furtivo, eram os engodos com que sempre
lograva apanh-la.
    --       O Sr. de Cagliostro ainda no descobriu nada? --
    perguntava, s vezes, inquieta.
    --       Ainda que eu lho contasse le no acreditaria, -- respondia
    Oliva.
    Oito dias de escapadas noturnas acabaram formando um hbito, uma
necessidade e, mais do que isso, um prazer. Ao fim desse tempo, o nome
de Joana se achava nos lbios de Oliva com muito maior frequncia do que
j se tinham achado os de Gilberto e Beausire.
                                      LXV




                                   O encontro

    ASSIM que o Sr. de Charny chegou s suas terras e se trancou em casa,
aps as primeiras visitas, o mdico lhe ordenou que no recebesse mais
ningum e no sasse dos seus aposentos. A ordem foi executada com tamanho
rigor, que nenhum habitante do canto ps os olhos no heri do combate
naval que tanto barulho fizera em Frana, e que todas as moas, sabendo-o
bravo e belo ansiavam por ver.
    Charny, entretanto, no estava to doente quanto se propalava. S lhe
doam o corao e a cabea. Mas como doam, santo Deus! Uma dor aguda,
ininterrupta, implacvel, a dor de uma lembrana adurente, a dor de uma
saudade lacerante.
    O amor no passa de uma nostalgia: o ausente chora um paraso ideal, em
vez de chorar uma ptria material; de resto, no se pode admitir, por mais
que se goste de poesia, que a mulher amada no seja um paraso um pouco
menos ideal que o dos anjos.
    O Sr. de Charny no aguentou trs dias. Furioso ao ver os seus sonhos
derrotados pela impossibilidade, apagados pelo espao, mandou divulgar em
todo o canto a ordem j citada do mdico; em seguida, confiando a guarda de
suas portas a um criado experimentado, partiu  noite de casa, num cavalo
macio e rpido, e chegou, oito horas depois, a Versalhes, onde alugou uma
casinha atrs do parque por intermdio do seu camareiro.
    Abandonada aps a morte trgica de um dos fidalgos montei-ros que nela
se degolara, a casa convinha admiravelmente ao rapaz, desejoso de esconder-se
melhor do que em suas terras.
    Bem mobiliada, tinha duas portas, uma que dava para uma rua deserta,
e a outra para o caminho que circundava o parque; e das janelas do sul,
poderia saltar Charny para as alamedas das Carpas, pois, abrindo os postigos
cercados de vides e de heras, eram as janelas realmente portas  altura de um rs-
do-cho pouco elevado para quem quisesse, num pulo chegar ao parque real.
    Essa vizinhana, j ento bem rara, era o privilgio de um inspetor de
caa, que assim podia, sem sair dos seus cmodos, vigiar os cervos e faises de
Sua Majestade.
    Quem visse as janelas alegremente enquadradas pela basta folhagem,
imaginaria ver o melanclico monteiro, numa tarde de
                          O COLAR DA RAINHA                                      497

outono, debruado na do meio, enquanto as coras, fazendo estalar as pernas
finas sobre as folhas secas, brincavam no fundo das moitas, sob um raio fulvo
de sol poente.
     A solido agradou-lhe acima de todas as outras coisas. Seria, acaso, amor 
paisagem?  o que logo veremos.
     Depois que se instalou, que tudo ficou bem fechado, que o criado
despistou as curiosidades respeitosas da vizinhana, Charny, esquecido e
esquecendo, passou a levar uma vida cuja simples ideia far estremecer quem
quer que, em sua passagem pela terra, tenha amado ou ouvido falar de amor.
    Em menos de quinze dias conheceu todos os hbitos do castelo e dos
'guardas, as horas em que o pssaro vem beber nos charcos, em que passa o
veado espichando a cabea assustada. Conheceu os bons momentos de
silncio, as ocasies dos passeios da rainha ou de suas damas, o horrio das
rondas; numa palavra, viveu de longe com os que viviam em Trianon, templo de
suas insensatas adoraes.
     Como a quadra fosse bela, como as noites suaves e perfumadas dessem maior
liberdade aos seus olhos e lhe inculcassem v^gos devaneios  alma, passava boa
parte do tempo sob os jasmins da janela, espiando os longnquos rumores que
vinham do palcio, e seguindo pelas abertas da folhagem o jogo das luzes
postas em movimento at  hora do recolher.
     Mas em pouco tempo se fartou da janela. Sentia-se afastado demais do
rumor e das luzes. Saltou de sua casa para o gramado, certo de no encontrar,
quela hora, cachorros nem guardas, e buscou a deliciosa, a perigosa volpia
de ir at  beira da mata, no limite que separa a sombra espessa do esplndido
luar, para interrogar de l as silhuetas que se agitavam, plidas e negras, atrs das
cortinas brancas da rainha.
     Desse modo via-a todos os dias sem que ela o suspeitasse.
     Sabia reconhec-la a uma distncia de um quarto de lgua, quando,
acompanhada de suas damas ou de algum fidalgo, Maria Antonieta brincava
com a sombrinha chinesa que lhe abrigava o largo chapu enfeitado de flores.
     Nenhum passo, nenhum gesto podia confundir-se com os dela. Conhecia-lhe
de cor todos os vestidos e adivinhava, no meio das folhas, a grande capa verde
de faixas negras que lhe ondulava ao ritmo castamente sedutor do corpo.
     E quando a viso desaparecia, quando o crepsculo, espantando os
 passeadores, lhe permitia espiar, ao p das esttuas do peristilo, as ltimas
 oscilaes da sombra amada, Charny voltava  janela e ficava olhando de longe,
 por uma fresta que le mesmo abrira no bosque, a luz cintilante nas vidraas da
 rainha, depois o apagar-se dessa luz, e passava a viver da recordao e da
 esperana, como acabava de viver da vigilncia e da admirao.
498                         ALEXANDRE DUMAS

    Uma noite em'que j se havia recolhido, duas horas aps o ltimo adeus 
sombra ausente, no instante em que o orvalho cado das estrelas comeava a
destilar as suas prolas brancas sobre as folhas de hera, Charny j se dispunha
a deitar-se, quando o rudo de uma fechadura lhe chegou timidamente aos
ouvidos; voltou ao posto de observao e continuou escutando.
    A hora ia adiantada, meia-noite acabava de soar nas parquias mais
afastadas de Versalhes. Espantou-se de ouvir um rudo ao qual no estava
acostumado.
    A fechadura rebelde era a de um portozinho do parque, situado a uns vinte
e cinco passos da casa de Oliveiros, que nunca se abria, a no ser nos dias de
caadas importantes para a passagem das cestas em que vinha a caa.
    Observou que os recm-chegados no falavam; tornaram a fechar o porto e
entraram na alameda que passava debaixo das janelas de sua casa.
    Os caniados e pmpanos pendentes dissimulavam suficientemente os
postigos e as paredes para que o no vissem.
    Os' noctmbulos, alis, caminhavam depressa e cabisbaixos. Distinguiu-os
Charny confusamente no escuro. Entretanto, ao rumor das saias, reconheceu
duas mulheres cujos manteletes de seda estremeciam ao contacto das folhas.
    Dobrando a grande alameda diante da janela, as mulheres foram
envolvidas por um raio mais livre da lua e Oliveiros quase soltou um grito de
alegre surpresa reconhecendo o porte e o penteado de Maria Antonieta, como
tambm a parte inferior de seu rosto, apesar da sombra que nele projetava a
aba do chapu. Ela trazia uma bela rosa na mo.
    Com o corao palpitante, deixou-se escorregar do alto da janela at ao
cho. Correu sobre a relva para no fazer barulho, escondendo-se atrs das
rvores mais grossas, e seguindo com a vista as duas damas, cujo passo
afrouxara cada vez mais.
    Que devia fazer? A rainha tinha uma companheira; no estava correndo
perigo algum. Se estivesse sozinha, le arrostaria todas as torturas do mundo
para aproximar-se e dizer-lhe, de joelhos: "Eu vos amo!" Por que no a
ameaaria algum perigo imenso, para que le pudesse, com a vida, salvar
aquela vida preciosa?
    Enquanto pensava em tudo isso, sonhando mil desvairadas ter-nuras, as duas
mulheres estacaram de chofre; uma, a menor, disse qualquer coisa 
companheira e deixou-a.
    A rainha ficou s; a outra dama estugou o passo na direo de um ponto
que Charny ainda no adivinhava. Batendo na areia com o pzinho, a rainha
encostara-se a uma rvore e envolvera-se na capa, cobrindo a cabea com o
capuz que, momentos antes, lhe ondulava em largas pregas sedosas sobre os
ombros.
                        O COLAR DA RAINHA                                   499

     Quando Charny assim a viu, pensativa e s, deu um salto como se quisesse
ir cair-lhe aos ps.
     Mas refletiu que trinta passos pelo menos o separavam dela; que antes de
os haver transposto, ela o veria, e, no o reconhecendo, ficaria com medo;
gritaria ou fugiria; os seus gritos atrairiam primeiro a companheira, depois os
guardas; o parque seria revistado; descobrir-se-ia ao menos o indiscreto, talvez
o seu refgio e, nesse caso, seria o fim do segredo, da felicidade e do amor.
     Soube conter-se e fz bem, pois assim que logrou reprimir aquele mpeto
irresistvel, voltou a companheira da rainha e no voltou s.
     Viu Charny atrs dela, a dois passos, um homem alto, enterrado debaixo
de imenso chapu e perdido entre as dobras de uma capa muito larga.
     O homem, cujo aspecto o fz estremecer de dio e de cime, no se
adiantava como um triunfador. Cambaleante, arrastando o p com hesitao,
parecia tatear no escuro, como se no tivesse por guia seno a companheira
da rainha, e por alvo a prpria rai-' nha, branca e direita debaixo da rvore.
     Assim que avistou Maria Antonieta, o seu tremor aumentou, Descobriu-se e,
por assim dizer, varreu a terra com o chapu. Continuava a aproximar-se.
Charny viu-o penetrar na espessura da sombra, cortejando profundamente e
vrias vezes.
     Entretanto, a surpresa do rapaz se mudara em estupor. E do estupor no
tardaria em passar a outra emoo bem mais dolorosa. Que vinha fazer a
rainha no parque a uma hora to adiantada da noite? Que vinha l fazer
aquele homem? Por que ficara esperando, escondido? Por que o mandara
buscar a rainha em vez de ir pessoalmente ao seu encontro?
     Charny quase perdeu a cabea. Lembrou-se, contudo, de que Maria
Antonieta se ocupava de poltica misteriosa, que a mido entabulava intrigas
com as cortes alems, relaes que provocavam os cimes do rei, que as
proibia terminantemente.
     Talvez o misterioso cavaleiro fosse um emissrio de Schoen-brunn ou de
Berlim, algum fidalgo portador de secreta mensagem, uma dessas figuras
alems como as que Lus XVI j no queria encontrar em Versalhes, desde que
o Imperador Jos II tomara a liberdade de enviar  Frana um curso de
filosofia e de poltica crtica para uso do cunhado, o rei cristianssimo.
     Essa ideia, semelhante  faixa de gelo aplicada pelo mdico a uma testa
 que arde em febre, refrescou o pobre Oliveiros, devolveu-lhe a inteligncia e
 acalmou-lhe o delrio da primeira clera. A rainha, de resto, mantinha-se em
 atitude decente e at digna.
      verdade que a companheira, colocada a trs passos, inquieta, atenta e
 vigilante como as amigas ou as aias das brincadeiras de Watteau, perturbava
 com a sua complacente ansiedade as castas
500                         ALEXANDRE DUMAS

interpretaes do Sr. de Charny. Mas  tambm to perigoso ser surpreendida
numa entrevista poltica quanto  vergonhoso ser surpreendida num encontro de
amor. E nada se parece mais com um apaixonado do que um conspirador.
Ambos trazem a mesma capa, a mesma suscetibilidade auditiva, a mesma
incerteza nas pernas.
     Charny no teve muito tempo para aprofundar-se nessas reflexes; volvidos
alguns instantes, a criada interrompeu o dilogo. O cavaleiro fz meno de
prosternar-se; fora, sem dvida, dispensado aps a audincia.
     Ocultou-se o rapaz atrs de uma rvore. Seguramente, ao separar-se, o grupo
passaria j disperso diante dele. Reter a respirao, pedir aos gnomos e aos
silfos que apagassem todos os ecos, quer da terra, quer do cu, era a nica
coisa que lhe restava fazer.
    Nesse momento julgou ver um objeto claro deslizar ao longo da capa real;
o fidalgo inclinou-se rapidamente para o cho, tornou a erguer-se com um
movimento respeitoso e fugiu, pois seria impossvel qualificar-lhe de outra
maneira a rapidez da partida.  Deteve-o, porm, na corrida a companheira
da rainha, que o chamou com um gritinho; e, quando le estacou, disse-lhe 
meia voz:
     --      Esperai.
     Era um cavaleiro muito obediente, pois sobresteve incontinenti e ficou
 esperando.
     Charny viu ento passarem as duas mulheres, de brao dado, a dois
passos do seu esconderijo; o ar deslocado pelo vestido da rainha fz ondular
as hastes da relva quase debaixo das suas mos.
     Sentiu os perfumes que se avezara a adorar: a verbena misturada com
 resed; dupla embriaguez para os sentidos e para a memria.
     Passaram as mulheres e desapareceram.
     Alguns minutos depois, passou o desconhecido, do qual se esquecera o rapaz
 enquanto acompanhara a rainha, com os olhos, at ao porto; beijava com
 frenesi, com loucura, uma rosa fresca, perfumada, que certamente era aquela
 cuja beleza o impressionara ao ver Maria Antonieta entrando no parque, e
 que, ainda h pouco, vira cair das mos da soberana.
     Uma rosa, um beijo naquela rosa! Seriam isso embaixadas e segredos de
 Estado?
     Charny por pouco no enlouqueceu. Ia precipitar-se sobre o homem,
 arrancar-lhe a flor, quando voltou a companheira da rainha, gritando:
     --      Vinde, Monsenhor!
     Charny acreditou na presena de algum prncipe de sangue e encostou-se 
 rvore, para no cair semimorto no cho.
     O desconhecido dirigiu-se para o lado da voz e desapareceu com a dama.
                                   LXVI

                             A mo da rainha

    QUANDO Charny entrou em casa, arrasado por aquele golpe tremendo, no
encontrou foras para lutar contra a nova desgraa que o afligia.
    A Providncia reconduzira-o a Versalhes, dera-lhe o precioso esconderijo,
unicamente para encium-lo e p-lo na pista de um crime perpetrado pela
rainha com desprezo de toda e qualquer probidade conjugal, de toda e
qualquer dignidade real, de toda e qualquer fidelidade de amor.
    No havia dvida possvel de que o homem assim recebido no parque era
um novo amante. Na febre da noite, no delrio do desespero, Charny tentou
em vo persuadir-se de que o homem que recebera a rosa era um embaixador e
de que a rosa no passava de um secreto penhor convencionado, destinado a
substituir uma carta demasiado comprometedora.
    Mas nada prevaleceu contra a suspeita. S restava ao inditoso Oliveiros
examinar o prprio procedimento e perguntar a si mesmo por que, em presena
de tamanha desgraa, se mantivera to passivo.
    Depois de alguma reflexo, no havia nada mais fcil do que compreender a
causa daquela passividade.
    Nas crises mais violentas da vida, a ao jorra momentaneamente do fundo
da natureza humana, e o instinto propulsor outra coisa no , nos homens bem
organizados, que uma combinao do hbito e da reflexo elevada ao seu mais
alto grau de rapidez e oportunidade. Charny no fizera um gesto porque no
tinha nada com os negcios da soberana; mostrando a sua curiosidade,
mostraria o seu amor; comprometendo a rainha, le mesmo se trairia, e ao p
dos traidores que queremos desmascarar a traio recproca no  o melhor
dos argumentos.
    No se mexera porque, interpelando um homem honrado com a confiana
real, arriscava-se a provocar uma rixa odiosa, de mau gosto, uma espcie de
cilada que a rainha jamais lhe perdoaria.
    Enfim, a palavra Monsenhor, pronunciada pela complacente companheira,
 representava a salutar advertncia, posto que tardia, que o teria salvo
 abrindo-lhe os olhos no auge do furor. Que
502                         ALEXANDRE DUMAS

teria sido dele, se, com a espada na mo, diante daquele homem, ouvisse
algum chamar-lhe Monsenhor? E que tremendo peso no tomaria o seu erro
caindo de to grande altura?
    Tais foram os pensamentos que o absorveram durante toda a noite e a
primeira metade do dia seguinte. Depois que ouviu soar o meio-dia, a vspera
deixou de existir. Restou-lhe apenas a espera febril, devoradora, da noite em
que talvez surgissem novas revelaes.
    Com quanta ansiedade o pobre Charny se postou  janela, transformada na
nica morada, no quadrado intransponvel de sua vida! Quem o visse debaixo
dos pmpanos, atrs dos buracos abertos no postigo, pois no queria que
suspeitassem a casa de estar sendo habitada; quem o visse, dizamos, no
quadriltero de madeira e verdura, lembrar-se-ia forosamente de um daqueles
velhos retratos escondidos debaixo das cortinas, em que a piedosa solicitude das
famlias conserva os antepassados nos velhos solares.
    CaiU a noite, trazendo ao nosso espia ardente sombrios desejos e doidos
pensamentos.
    Os rumores ordinrios lhe pareceram cheios de novas significaes. Avistou
ao longe a rainha atravessando o jardim com alguns archotes  sua frente.
Pareceu-lhe pensativa, incerta, agitada pela agitao da noite.
    A pouco e pouco se apagaram as luzes do palcio; o parque, silencioso,
encheu-se de silncio e de frescor. Dir-se-ia que as rvores e as flores, que se
cansam durante o dia desabrochando para agradar aos olhos e acariciar os que
passam, forcejam por recuperar  noite, quando ningum as v nem toca, o
perfume e o vio.  que, de fato, as plantas e os bosques dormem como ns.
    Charny guardara bem a hora da entrevista. Meia-noite soou.
    O corao do rapaz quase lhe estalou dentro do peito. Apoiou a carne na
balaustrada da janela para sufocar as pulsaes, altas e ruidosas. Dentro em
pouco, dizia consigo mesmo, o porto se abrir e gemero os ferrolhos.
    Nada perturbou a paz do bosque.
    Espantou-se, ento, ao refletir, pela primeira vez, que os mesmos
acontecimentos no ocorrem dois dias seguidos. Que nada era obrigatrio
naquele amor, seno o prprio amor, e que seriam muito imprudentes aqueles
que, adquirindo hbitos to fortes, no pudessem passar dois dias sem se
avistar.
    -- Segredo aventurado, -- pensou, -- quando nele se mete a loucura.
    Sim, era uma verdade inconteste: a rainha no repetiria no dia imediato
a imprudncia da vspera.
    Sbito, gritaram os ferrolhos e o portozinho se abriu.
    Mortal palidez invadiu-lhe as faces ao lobrigar as duas mulheres nos
mesmos trajes da noite precedente.
                       O COLAR DA RAINHA                                  503

    -- Como ela deve estar apaixonada! -- murmurou.
    Repetiram as damas a manobra da vspera e passaram debaixo da janela
apertando o passo.
    Como na vspera, le saltou para o cho assim que elas chegaram a uma
distncia em que no podiam ouvi-lo; e, enquanto procurava caminhar oculto
pelas rvores mais grossas, jurava ser prudente, forte, impassvel, lembrando-
se de que le era o sdito e ela, a rainha; de que le era um homem, isto ,
obrigado ao respeito; e ela, uma mulher, isto , com o direito de exigir
considerao.
    E como no se fiasse do seu temperamento fogoso e explosivo, jogou a
espada atrs de um tufo de malvas que cercava um castanheiro.
    Entretanto, as damas haviam chegado ao mesmo stio da noite anterior.
Como na vspera tambm, Charny reconheceu a rainha, que envolveu a fronte
com o mantelete, ao passo que a oficiosa amiga ia buscar no esconderijo o
desconhecido a quem chamavam Monsenhor.
    Que esconderijo seria aquele? perguntou aos seus botes. Erguia-se,
realmente, na direo tomada pela complacente, a sala dos banhos de Apoio,
defendida pelas altas carpas e pela sombra de seus pilares de mrmore; mas
como poderia esconder-se ali o estranho? Por onde entraria?
    Recordou-se Charny de que naquele lado do parque existia um
portozinho semelhante ao que as damas abriam para ir  entrevista. O
desconhecido teria, com certeza, uma chave desse porto. E, entrado por le,
chegava at aos banhos de Apoio, onde esperava que o fossem buscar.
    Tudo se fixara dessa maneira; depois, pelo mesmo portozinho, Monsenhor
se retiraria, concludo o colquio com a soberana.
    Ao termo de alguns minutos, Charny divisou a capa e o chapu que
distinguira na vspera.
    Desta feita, o desconhecido j no se adiantava com a mesma reserva
respeitosa: caminhava a passos largos, no ousando correr; mas, se andasse um
pouco mais depressa, teria corrido.
    Apoiada  rvore, sentou-se a rainha sobre a capa que o novo Raleigh lhe
estendeu, e, ao passo que a amiga vigilante vigiava, como na vspera, o
amoroso fidalgo, ajoelhado sobre o musgo, comeou a falar com apaixonada
eloquncia.
    A rainha abaixava a cabea, presa de terna melancolia. Charny no entendia
o que dizia o cavaleiro, mas as suas palavras pareciam rescender a poesia e a
amor. Cada uma das entonaes podia traduzir-se por um ardente protesto.
    A rainha no replicava. Entretanto, o desconhecido redobrava a carcia dos
discursos, e s vezes parecia a Charny, ao desgraado
504                         ALEXANDRE DUMAS

Charny, que a palavra, envolta naquele frmito harmonioso, espou-Caria
inteligvel, e le morreria de raiva e de cime. Mas nada, nada. No momento
em que a voz se aclarava, um gesto significativo da companheira, que
continuava  escuta, obrigava o apaixonado orador a abaixar o diapaso de
suas elegias.
     Obstinava-se a rainha num mutismo absoluto.
     Acumulando rogos sobre rogos, o que se adivinhava pela vibrante melodia
das inflexes, obtinha apenas o fidalgo o doce consentimento do silncio, favor
insuficiente para os lbios ardentes que j comearam a beber o amor.
     De improviso, porm, Maria Antonieta deixou escapar algumas palavras.
Pelo menos  o que se deve acreditar. Palavras sufocadas, apagadas, porque s
o desconhecido pde ouvi-las; mas, assim que as ouviu, num transbordamento
de paixo, bradou de modo que tambm pudessem escut-lo:
     -- Obrigado, obrigado! minha doce Majestade! Portanto, at amanh.
     A rainha escondeu inteiramente o rosto, j to bem escondido.
     Charny sentiu um suor gelado, -- o suor da morte! -- descer--lhe
vagarosamente das tmporas em pesadas gotas.
     O desconhecido acabava de ver as mos da soberana estenderem-se para
le. Tomou-as nas suas e nelas deps um beijo to longo e to terno, que
Charny conheceu, enquanto le durou, o sofrimento de todos os suplcios que a
feroz humanidade furtou s barbries infernais.
     Dado o beijo, ergueu-se, rpida, a rainha e pegou no brao da companheira.
     Fugiram as duas passando, como na vspera,  beira de Charny.
     E tendo o desconhecido fugido de seu lado, Charny, que se no pudera
arrancar do cho a que o prendia a prostrao de uma dor indizvel, percebeu
vagamente o rudo simultneo de dois portes que se fechavam.
     No tentaremos descrever a situao em que se encontrou o rapaz depois
do horrvel descobrimento.
    'Passou a noite em furiosas corridas pelo parque, pelas alamedas, cuja
criminosa cumplicidade reprochava com desespero.
     Completamente louco durante algumas horas, s tornou a encontrar a razo
ao dar, na sua corrida cega, com a espada que lanara de si a fim de no ser
tentado a utilizar-se dela.
     A lmina, que lhe embaraou os ps, provocando-lhe a queda, chamou-o de
repente ao sentimento de sua fora e de sua dignidade. Um homem que sente
uma espada na mo, se ainda estiver louco, s pode matar-se com ela ou
matar o ofensor; mas j no tem o direito de ser fraco nem pusilnime.
                        O COLAR DA CAINHA                                  505

    Voltou a ser Charny o que sempre fora, um esprito slido, um corpo
vigoroso. Interrompeu as carreiras insensatas, durante as quais encontrara as
rvores, e ps-se a caminhar direito e mudo pela avenida em que ainda se
distinguiam vestgios dos passos das duas mulheres e do desconhecido.
    Foi visitar o lugar onde a rainha se assentara. Os musgos, amarrotados
ainda, revelavam-lhe a prpria desdita e a ventura de outro! Em lugar de
gemer, em lugar de permitir que as ondas de clera tornassem a subir-lhe 
fronte, entrou a refletir sobre a natureza daquele amor oculto e sobre a
qualidade da pessoa que o inspirava.
    Foi explorar os passos do fidalgo com a fria ateno que teria empregado no
exame dos rastros de um animal selvagem. Reconheceu o porto atrs dos
banhos de Apoio. Escalou o espigo de um muro e viu sinais de patas de
cavalo e parte da grama arrancada.
    --  por aqui que le vem! E no vem de Versalhes, vem de
Paris, -- refletiu. -- Vem s e voltar amanh, visto que lhe disse
ram: "At amanh".
    "At amanh devoremos em silncio, j no as lgrimas que me correm
dos olhos, seno o sangue que me transborda do corao.
    "Amanh ser o ltimo dia de minha vida, se eu no fr um covarde e
nunca tiver amado.
    "Vamos, vamos, -- continuou, batendo docemente no corao, como bate o
cavaleiro no pescoo do cavalo que se precipita -- calma, fora, que a
provao ainda no terminou."
    Dito isso, lanou  sua volta um derradeiro olhar, despregou a vista do
castelo, onde temia ver iluminada a janela da prfida rainha; pois essa luz
teria sido mais uma mentira, uma ndoa a mais.
    Com efeito, janela acesa no significa quarto habitado? E por que h de
mentir assim quem tem o direito da impudiccia e da desonra, quando  to
pequena a distncia entre a vergonha oculta e o pblico escndalo?
    A janela da rainha estava iluminada.
    -- Fazer acreditar que est em seus aposentos, quando anda
pelo parque em companhia de um amante! Francamente, isso 
o que se chama castidade intil, -- murmurou Charny, acentuando
as palavras com amarga ironia.
    " muita bondade dela dissimular assim conosco.  verdade que talvez
receie contrariar o marido. . ."
     E, enterrando as unhas na carne, retomou, a passos medidos, o caminho
 de casa.
    -- Eles disseram: "At amanh", -- acrescentou, depois de haver
transposto o balco. -- Sim, at amanh!... Para todos, que ama
nh seremos quatro nesse encontro, minha senhora!
                                      LXVII
                                 Mulher e rainha

    O DI seguinte trouxe as mesmas peripcias. Abriu-se a porta ao
derradeiro soar da meia-noite. Surgiram as duas mulheres.
    Era, como no conto rabe, a assiduidade dos gnios que obedecem
pontualmente aos talisms.
    Charny estava decidido; naquela noite reconheceria o feliz personagem
favorecido pela rainha.
    Fiel aos seus hbitos, embora no inveterados, caminhou escondendo-se atrs
das moitas; mas, chegado ao lugar onde, havia dois dias, se realizava o
encontro dos amantes, no achou ningum.
    A companheira da rainha arrastava-a para os banhos de Apoio.
    Uma ansiedade horrvel, um novo sofrimento prostrou-o. Em sua inocente
probidade, no imaginara que o crime pudesse chegar at esse ponto.
    Sorrindo e cochichando, encarreirava-se a rainha para o stio em cujo
limiar a esperava, de braos abertos, o fidalgo desconhecido.
    Entrou, estendendo tambm os braos. O porto de ferro fechou-se.
    A cmplice ficou do lado de fora, encostada num cipo desmantelado, rodeado
de folhas.
    Charny no calculara bem as prprias foras, que no poderiam resistir a
tamanho choque. No momento em que, louco de raiva, ia atirar-se 
confidente da rainha para desmascar-la, reconhec-la, injuri-la, esgan-la talvez,
o sangue lhe afluiu torrencialmente s tmporas, ao pescoo, e afogou-o.
    Caiu sobre o muro, despedindo um tnue suspiro, que foi perturbar, por um
segundo, a tranquilidade da sentinela postada  porta dos banhos de Apoio.
    Uma hemorragia interna, causada pelo ferimento que se reabrira, sufocava-
o.
    Recobrou os sentidos despertado pelo frio do orvalho, pela umidade da
terra, pela viva impresso da prpria dor.
    Ergueu-se cambaleante, reconheceu o local em que estava, deu tento da
prpria situao, recordou-se e procurou.
                        O COLAR DA RAINHA                                    507

    Desaparecera a sentinela, no se ouvia rumor algum. Um relgio, dando
duas horas em Versalhes, f-lo compreender que o seu desmaio fora longo.
    A medonha viso, sem dvida alguma, desaparecera. A rainha, o amante e
a companheira tinham tido tempo de fugir. Convenceu-se disso observando,
por cima do muro, os recentes vestgios da partida de um cavaleiro.
    Esses vestgios e alguns galhos quebrados nas vizinhanas do porto dos
banhos de Apoio compunham toda a convico do pobre Charny.
    A noite foi um longo delrio. De manh, ainda no se acalmara.
    Plido como um morto, dez anos mais velho, chamou o camareiro e
ordenou-lhe que o vestisse de veludo negro, como um burgus rico*
    Sombrio, mudo, recalcando todos os sofrimentos, guiou para o castelo de
Trianon no momento em que se acabava de render a guarda, isto , cerca das
dez horas.
    A rainha estava saindo da capela, onde ouvira missa.
     sua passagem, curvavam-se, respeitosas, cabeas e espadas.
    Charny viu algumas mulheres coradas de despeito ante a beleza de Sua
Majestade.
    Bela, realmente, com os formosos cabelos erguidos sobre as tmporas, o
rosto de traos finos, a boca risonha, os olhos fatigados, mas nos quais brilhava
uma suave claridade.
    A sbitas, deu com Charny na extremidade da sebe. Purpu-reou-se e
soltou um grito de surpresa.
     O conde no abaixou a cabea. Continuou olhando para a rainha, que lhe
 adivinhou no olhar uma nova desgraa. Ela aproximou-se.
    -- Eu vos cria em vossas terras, Sr. de Charny, -- disse, severa.
    --Voltei, senhora, -- respondeu le em tom breve e quase impolido.
    Maria Antonieta se deteve, estupefata, pois nunca lhe escapavam tais
nuanas.
    Depois dessa troca de olhares e palavras quase hostis, voltou-se para o lado
das mulheres.
    -- Bom dia, condessa, -- disse amistosamente  Sra. de La Motte.
    E piscou os olhos com familiaridade.
    Charny estremeceu. Observou com mais ateno.
    Preocupada com aquela afetao, Joana virou a cabea.
    Seguiu-a Charny como se estivesse louco, at que ela voltou a mostrar-lhe o
rosto.
    Em seguida, ps-se a rode-la, estudando-lhe o modo de andar.
    Embora cumprimentasse  direita e  esquerda, a rainha acompanhava as
manobras dos dois observadores.
508                         ALEXANDRE DUMAS

    --Ter le perdido a cabea? -- pensou. -- Pobre rapaz.
    E tornou a aproximar-se.
    --Como estais passando, Sr. de Charny? -- perguntou com voz suave.
    --        Muito bem, senhora, mas, graas a Deus, menos bem do que Vossa
    Majestade.
    E cumprimentou de modo que a estarreceu muito mais do que j a
surpreendera.
    --        H qualquer coisa, -- pensou Joana, sempre atenta.
    --        Onde estais morando agora? -- volveu a rainha.
    --        Em Versalhes, senhora, -- retrucou Oliveiros.
    --        H quanto tempo?
    --        H trs noites, -- acudiu le, acentuando as palavras com o
    olhar, o gesto e a voz.
    A rainha no manifestou emoo alguma; Joana estremeceu.
    --No tendes nada para dizer-me? -- perguntou a soberana a Charny com
anglica doura.
    --        Oh! senhora, -- replicou o interpelado, -- eu teria muitas coisas
    que dizer a Vossa Majestade.
    --        Vinde! -- exclamou ela bruscamente.
    --        Vigiemos, -- pensou Joana.
    Com passos largos, encaminhou-se a rainha para os seus aposentos.
Seguiram-na todos, no menos agitados. O que pareceu providencial  Sra. de
La Motte foi que Maria Antonieta, para no dar a impresso de estar
buscando uma entrevista a ss, ordenou a algumas pessoas que a seguissem.
    No meio delas meteu-se a condessa.
    Chegada ao seu apartamento, a rainha dispensou a Sra. de Misery e as
 damas de servio.
    Estava o tempo suave e velado, o sol no atravessava as nuvens, mas o calor
e a luz filtravam-se-lhe atravs das espessuras brancas e azuis.
    A rainha abriu a janela que dava para um terracinho; colocou--se diante da
cmoda cheia de cartas e esperou.
    A pouco e pouco, as pessoas que a tinham seguido compreenderam o seu
 desejo de ficar s e afastaram-se.
    Impaciente, devorado pela clera, Charny amarfanhava o cha-. pu entre
 as mos.
    --        Falai! falai! -- ordenou a rainha; -- pareceis muito perturbado,
    senhor.
    --        Como hei de comear? -- principiou Charny, pensando em voz
    alta; -- como ousarei acusar a honra, acusar a f, acusar a Majestade?
    --        Como? -- bradou Maria Antonieta, voltando-se, rpida e
    flamejante.
                         O COLAR DA RAINHA                                    509

    -- E, no entanto, no direi o que vi! -- continuou le.
    Ergueu-se a rainha.
    -- Senhor, -- tornou, friamente, --  muito cedo para que eu vos julgue
bbedo; e, no entanto, assumistes uma atitude que fica mal a fidalgos em
jejum.
    Ela esperava esmag-lo com a apstrofe desdenhosa; mas le, imvel:
    -- Na verdade, -- disse, -- que  uma rainha? Mulher. E eu, que sou eu?
    Tanto homem quanto sdito.
    -- Senhor I
    -- Senhora, no compliquemos o que tenho para dizer-lhe com uma clera
    que acabaria em loucura. Creio haver-lhe provado que eu respeitava a
    majestade real; receio haver provado tambm que dedicava um amor
    insensato  pessoa da rainha. Assim sendo, esco
    lha: a qual das duas,  rainha ou  mulher, prefere Vossa Majestade que
    este adorador atire uma acusao de oprbrio e deslealdade?
    -- Sr. de Charny, -- bradou a rainha, empalidecendo e caminhando para o
    rapaz, -- se no sairdes daqui, mandarei expulsar-mos pelos meus guardas.
    -- Direi, ento, antes de ser expulso, por que Vossa Majestade  uma
    rainha indigna e uma mulher sem honra! -- gritou Charny, bbedo de
    furor. -- H trs noites que a sigo em seu parque!
     Mas em lugar de v-la saltar, como esperava, sob o golpe terrvel, viu-a
erguer a cabea e acercar-se.
    -- Sr. de Charny, -- disse ela, tomando-lhe a mo, -- estais num estado
    que me d pena; cuidado! os vossos olhos relampejam, tremem as vossas
    mos, tendes o rosto mortalmente plido, todo o sangue vos aflui ao
    corao. Estais passando mal, quereis que eu chame algum?
    -- Eu a vi! eu a vi! -- repetiu le, friamente, -- vi-a com aquele homem,
    quando a senhora lhe deu a rosa; vi quando le lhe beijou as mos; vi
    quando a senhora, em companhia dele, entrou nos banhos de Apoio.
     Maria Antonieta passou a mo pela testa como se quisesse certificar-se de que
 no estava dormindo.
    -- Vamos a ver, -- comeou, -- sentai-vos, pois acabareis caindo
se eu no vos amparar; sentai-vos, estou dizendo.
     Charny, com efeito, deixou-se cair numa poltrona; sentou-se a rainha ao p
 dele, num tamborete; em seguida, segurando-lhe as mos e considerando-o
 at ao fundo da alma:
     --       Acalmai-vos, -- continuou, -- serenai o corao e a cabea,
     e repeti-me o que acabastes de dizer.
     --       Vossa Majestade quer matar-me! -- murmurou o desgraado.
     --Deixai-me interrogar-vos. Desde quando voltastes de vossas terras?
510                          ALEXANDRE DUMAS

      -- H quinze dias.
      -- Onde estais morando?
      -- Na casa do monteiro, que aluguei acinte.
      -- A casa do suicida, nas raias do parque?
      Charny assentiu com o gesto.
      -- Estais falando de algum que tereis visto comigo?
      -- Estou falando primeiro de Vossa Majestade, que eu vi.
      -- Onde?
      -- No parque.
      -- A que horas? Quando?
      --  meia-noite, tra-feira, pela primeira vez.
      -- Vistes-me?

    -- Como a estou vendo; e vi tambm a mulher que a acompanhava.
    -- Algum me acompanhava? Sereis capaz de reconhecer a pessoa?
    -- Ainda h pouco pareceu-me v-la aqui; mas no me atreveria a afirm-lo.
     s o modo de andar que  parecido; quanto ao rosto, sempre o
    escondem os que vo cometer algum crime.
    -- Bem! -- volveu a rainha, calma; -- no reconhecestes a minha
    companheira, mas e u . . .
    -- Oh! Vossa Majestade eu v i . . . Olhe... acaso no a estou
    vendo?
    Ela bateu o p, impaciente.
    -- E... esse companheiro, -- prosseguiu, -- a quem dei uma rosa... pois
    me vistes dar-lhe uma rosa...
    -- Sim: nunca pude alcan-lo.
    -- Conhecei-lo, ao menos?
    -- Chamam-lhe Monsenhor;  tudo o que sei.
    A rainha golpeou a testa com um furor concentrado.
    -- Continuai, -- ordenou; -- tra-feira, dei-lhe uma rosa... e quarta?
    -- Quarta, Vossa Majestade deu-lhe as mos a beijar.
    -- Oh! -- murmurou ela, mordendo as mos... -- E, afinal, quinta-feira,
    ontem?...
    -- Ontem, Vossa Majestade passou hora e meia na gruta de Apoio com
    le, onde a sua companheira os deixou a ss.
    Ergueu-se a rainha impetuosamente.
    -- E... vs... me vistes? -- perguntou, escandindo as slabas.
    Charny ergueu a mo para jurar.
    -- Oh!. . . -- bradou a rainha, arrebatada por seu turno pela fria... -- e
le  capaz de jur-lo!
    Charny repetiu, solene, o gesto acusador.
    -- Eu? eu? -- tornou a rainha, -- vistes-me?
    -- Tra-feira, Vossa Majestade levava o seu vestido verde com listas
    ondeadas de ouro; quarta-feira, o vestido de grandes rama-
                        O COLAR DA RAINHA                                   511

gens azuis e pardas. Ontem, o de seda cr de folha seca, que trajava no dia em
que lhe beijei a mo pela primeira vez! Era Vossa Majestade, era Vossa
Majestade! Morro de dor e de vergonha ao diz-lo: mas juro pela minha vida,
juro pela minha honra, juro por meu Deus! Era Vossa Majestade!
    Maria Antonieta ps-se a caminhar com passos largos pelo terrao, no se
incomodando de revelar a sua estranha agitao aos espectadores que, em baixo,
a devoravam com os olhos.
    -- Se eu fizesse um juramento, -- disse ela... -- se eu jurasse tambm por
meu filho, por meu Deus!... Tenho um Deus como vs!... No! le no
acredita em mim!... le no me acreditaria!
    Charny abaixou a cabea.
    -- Insensato! -- acrescentou a soberana, sacudindo-lhe a mo com energia
    e arrastando-o do terrao para o quarto. -- H de ser uma volpia bem
    rara acusar uma mulher inocente, irreprochvel; h de ser uma honra
    insigne desonrar a rainha... Acreditar-me-s, se eu te disser que no me
    viste? Acreditar-me-s, se eu jurar pelo
    Cristo que, h trs dias, no tenho sado depois das quatro horas da tarde?
    Queres que te faa provar pelas minhas criadas, pelo rei, que me viu aqui,
    que eu no podia estar em outro lugar? No...n  o . . . le no acredita!
    le no acredita!
    -- Eu vi! -- replicou friamente Charny.
    -- Oh! -- bradou, a sbitas, a rainha, -- eu sei, eu sei! Essa calnia atroz
    j no me foi atirada em rosto? Acaso no me viram no baile da pera,
    escandalizando a corte? Acaso no me viram em casa de Mesmer, em
    xtase, escandalizando os curiosos e as pros
    titutas?. .. Bem o sabeis, vs que vos batestes por mim.
    -- Naquele tempo, senhora, eu me bati porque no acreditava. Hoje, me
    bateria porque acredito.
    A rainha ergueu para o cu os braos retesados pelo desespero, e duas
lgrimas ardentes lhe caram das faces no seio.
    -- Meu Deus! -- rogou, -- enviai-me um pensamento que me salve.
No quero que este homem me despreze, Senhor!
    Sentiu-se o rapaz profundamente comovido por aquela prece simples e
vigorosa. Escondeu os olhos entre as mos.
    A rainha permaneceu em silncio por um instante; logo, depois de haver
refletido:
    -- Senhor, -- disse ela, -- deveis-me uma reparao. Eis o que exijo de
vs:       Vistes-me trs noites seguidas no parque, em companhia de um
homem.         No entanto, sabeis que j abusaram da semelhana de algum
comigo; que uma mulher, no sei quem,tem no rosto e no andar qualquer
coisa de comum com esta desgraada rainha; mas visto que preferis acreditar
que era eu quem assim andava durante a noite; visto que direis que sou eu,
voltai
512                            ALEXANDE DUMAS


ao parque  mesma hora; voltai comigo. Se me vistes ontem, hoje forosamente
no me vereis, porque estarei ao vosso lado. Se vistes outra, por que no a
veremos juntos? E se a virmos. .. Ah! senhor, lamentareis tudo o que me fizestes
sofrer?
    Charny, apertando o corao com as mos:
   -- Vossa Majestade faz demais por mim, -- murmurou; -- mereo a morte:
   no me esmague com a sua bondade.
   -- Esmagar-vos-ei com provas, -- retrucou a rainha. -- Nem uma palavra a
   quem quer que seja. Esta noite, s dez, esperai sozinho  porta da casa
   do monteiro o que eu tiver decidido fazer para convencer-vos.            Ide,
   senhor, e no deixai que nada transparea.
    Ajoelhou-se Charny sem dizer uma palavra e saiu.
   Na extremidade do segundo salo, passou involuntariamente sob o olhar
de Joana, que o devorava com a vista, e que, ao primeiro chamado da rainha,
entrou nos aposentos de Sua Majestade com as demais pessoas presentes.
                                    LXVIII
                              Mulher e demnio

    JOANA notara a perturbao de Charny, a solicitude da rainha, a
pressa de ambos de encetar conversao.
    Para uma mulher como ela, isso era mais do que suficiente para faz-la
adivinhar muitas coisas; no temos necessidade de acrescentar o que toda a
gente j compreendeu.
    Aps o encontro preparado por Cagliostro entre a Sra. de La Motte e
Oliva, a comdia das trs ltimas noites pode passar-se sem comentrios.
    Voltando para junto da soberana, Joana escutou e observou, querendo
descobrir no rosto de Maria Antonieta a confirmao de suas suspeitas.
    Mas a rainha estava habituada, fazia j algum tempo, a desconfiar de
todos. No deixou reslumbrar coisa alguma. A condessa ficou reduzida s
suas conjeturas.
    J ordenara a um lacaio que seguisse o Sr. de Charny. O lacaio voltou,
anunciando que o Sr. Conde desaparecera numa casa na extremidade do
parque, ao p das carpas.
    No h dvida, pensou: o homem est apaixonado e viu tudo.
    Ouviu Maria Antonieta dizer  Sra. de Misery:
    -- Sinto-me bem fraca, minha querida Misery, e esta noite me deitarei s
oito.
    E como a dama de honor insistisse:
    -- No receberei ningum, -- acrescentou.
    --  muito claro, -- disse Joana entre si: -- louca seria quem no o
    compreendesse.
    Presa das comoes que lhe produzira a cena com Charny, no tardou a
rainha em dispensar o seu squito. Joana aplaudiu-lhe a deciso pela primeira
vez desde o seu ingresso na corte.
    -- As cartas esto embrulhadas, -- refletiu; -- vamos a Paris; j  tempo de
desfazer o que fiz.
    E partiu.
    Chegando a casa, l encontrou uma soberba baixela de prata, que o
cardeal lhe mandara de presente naquela manh.
    Depois de examinar o presente com indiferena, a despeito do seu valor,
olhou, por trs da cortina, para a casa de Oliva, cujas
514                          ALEXANDRE DUMAS

janelas permaneciam fechadas. Oliva estaria dormindo, cansada sem dvida; o
dia estava muito quente.
    Fz-se conduzir  casa do cardeal, que encontrou radiante, inchado, insolente
de alegria e de orgulho; sentado  sua rica escrivaninha, obra prima de Boule,
rasgava e reescrevia, sem se cansar, uma carta que comeava sempre do mesmo
jeito e nunca tinha fim.
    Ao anncio que fz o camareiro, Monsenhor bradou:
    -- Querida condessa!
    E precipitou-se-lhe ao encontro.
    Joana recebeu os beijos de que o prelado lhe cobriu os braos e as mos.
Instalou-se comodamente para melhor sustentar a conversao.
    Monsenhor principiou com protestos de reconhecimento, aos quais no
faltava certa eloquente sinceridade.
    Interrompeu-o Joana.
    -- Sabeis, -- exclamou, -- que sois um amante delicado e que
    vos agradeo?
    -- Por qu?
    -- No por causa do encantador presente que me mandastes hoje cedo;
    mas pela precauo que tivestes de no mand-lo  casa onde costumamos
    encontrar-nos.  realmente delicado. O vosso corao no se prostitui,
    entrega-se.
    -- A quem se poder falar de delicadeza, seno a vs? -- replicou o
    cardeal.
    -- No sois um homem feliz, -- continuou Joana; -- sois um deus
    triunfante.
    -- Confesso que sim, e a felicidade me assusta; atrapalha-me; torna-me
    insuportvel a vista dos outros homens. Lembro-me daquela fbula pag
    de Jpiter cansado dos prprios raios.
    Sorriu-se a condessa.
    -- Vindes de Versalhes? -- perguntou le, avidamente.
    -- Venho.
    -- Viste-la...?
    -- Acabo de deix-la.
    -- E l a . . . no... no disse nada?
    -- E que quereis que tenha dito?
    -- Perdo; isso j no  curiosidade,  desvario.
    -- No me faais perguntas.
    -- Oh! condessa.
    -- No, repito-o.
    -- Como dizeis uma coisa dessas!        Afirmaria, quem vos visse, que sois
    portadora de ms notcias.
    -- Monsenhor, no me obrigueis a falar.
    -- Condessa! condessa!...
    E o cardeal empalideceu.
                   O COLAR DA RAINHA                                   515

-- Uma felicidade muito grande, -- disse le, --  como o ponto culminante
de uma roda da Fortuna; ao lado do apogeu, est o comeo da queda.
No me poupeis, se aconteceu alguma desgraa; mas no aconteceu. .. no 
verdade?
-- Eu lhe chamaria, pelo contrrio, Monsenhor, uma grande ventura.
-- Ao qu?... ao q u  ? . . . que quereis dizer?... que  uma grande
ventura?
-- O fato de no terdes sido descoberto, -- replicou Joana,
secamente.
-- Oh!. .. -- E le abriu a sorrir. -- Com precaues, com a
inteligncia de dois coraes e de um esprito...
-- Um esprito e dois coraes, Monsenhor, no impedem que outros
olhos vejam por entre as folhagens.
-- Algum viu? -- bradou o Sr. de Rohan, aterrado.
-- Tudo indica que sim.
-- Ento. . . se viu, reconheceu?
-- Quanto a isso, Monsenhor, no creio; se nos tivessem reconhecido,
se o nosso segredo se achasse em poder de algum, Joana de Valois j
estaria no fim do mundo, e vs estareis morto.
--  verdade. Todas essas reticncias, condessa, me queimam a fogo
lento. Algum viu, seja.        Mas esse algum deve ter visto pessoas
passeando num parque. Isso no  permitido?
-- Perguntai ao rei.
-- O rei sabe!
-- Se soubesse, estareis na Bastilha e eu no hospital. Mas como uma
desgraa evitada vale por duas felicidades prometidas, venho rogar-vos
que no tenteis a Deus outra vez.
-- Como? -- exclamou o cardeal; -- que significam as vossas palavras,
querida condessa?
-- No as compreendeis?
-- Tenho medo de compreend-las.
-- Medo terei eu se no me tranquilizardes.
-- E que terei de fazer para isso?

-- No voltar a Versalhes.
O cardeal deu um pulo.
-- De dia? -- perguntou, sorrindo.
-- Nem de dia, nem de noite!
O Sr. de Rohan fremiu e largou a mo da condessa.
-- Impossvel, -- exclamou.
-- Chegou a minha vez de encarar convosco, -- respondeu ela; -- dissestes-
me, se no me engano, que  imposvel. Impossvel porqu?
-- Porque tenho no corao um amor que s findar com a vida.
516                             ALEXANDRE DUMAS

      --  o que estou vendo, -- acudiu Joana, irnica, -- e  para chegar mais
      depressa a esse resultado que persistis em voltar ao parque. Sim, se l
      voltardes, o vosso amor findar com a vossa vida, e ambos ao mesmo
      tempo.
      -- Quantos terrores, condessa! Estveis ontem to corajosa!
      -- Tenho a coragem dos animais. No receio nada, enquanto no h
      perigo.
      -- Pois eu tenho a bravura da minha raa. S me sinto feliz em presena
      do prprio perigo.
      -- Muito bem; permiti, todavia, que eu vos diga...
      -- Nada, condessa, nada, -- bradou o apaixonado prelado; -- o sacrifcio
      est feito, os dados foram lanados; a morte, se o quiserem, mas o amor
      tambm! Voltarei a Versalhes.
      -- Sozinho?
      -- Sereis capaz de abandonar-me? -- perguntou o Sr. de Rohan em tom de
      reproche.
      -- Primeiro a minha segurana.
      -- Mas ela vir ao meu encontro.
      -- Estais enganado, no ir.
      -- Viestes anunci-lo da sua parte? -- tornou, trmulo, o cardeal.
      -- Era o golpe que eu estava buscando atenuar desde o princpio.
      -- Ela no quer mais ver-me?
      -- Nunca mais; e fui eu quem lhe deu esse conselho.
      -- Senhora, -- volveu o prelado, em tom sentido, -- no deveis enterrar a
      faca num corao que sabeis to terno.
      -- Seria muito pior ainda, Monsenhor, se eu deixasse perder-rem-se duas
      loucas criaturas por falta de um bom conselho.             O conselho  este;
      aproveite-o quem quiser.
      -- Prefiro morrer, condessa!
      -- Isso  convosco, e no  difcil.
      -- Morrer por morrer, -- tornou o cardeal, com voz sombria, -- antes o
      fim do rprobo. Bendito seja o inferno, onde tornarei a encontrar a
      minha cmplice.
      -- Santo prelado, estais blasfemando! -- sobreveio Joana; -- sdito,
      destronais a vossa rainha! homem, perdeis uma mulher!
      O cardeal empolgou-lhe a mo e, desvairado:
      -- Confessai que ela no vos disse isso! -- rebradou, -- e no me renegar
      assim!
      -- Estou falando em seu nome.
      --  apenas um adiamento que ela me pede.
      -- Interpretai-o como quiserdes; mas acatai-lhe a ordem.
      -- O parque no  o nico stio em que podemos ver-nos. H mil lugares
      mais seguros. A rainha j esteve em vossa casa!
                        O COLAR DA RAINHA                                  517

   -- Monsenhor, nem mais uma palavra; carrego comigo um peso mortal, o do
   vosso segredo. No me sinto com foras para carreg-lo por muito tempo.
   O que as vossas indiscries, o que o acaso, o que a malevolncia de um
   inimigo no faro, ho de faz-lo os remorsos dela. Sei-a capaz de tudo
   confessar ao rei num momento de desespero.
   -- Santo Deus! ser possvel! -- exclamou o Sr. de Rohan, -- ela faria
   uma coisa dessas?
   -- Se a vsseis, lastim-la-eis.
   Ergueu-se o cardeal precipitadamente.
   -- Que fazer? -- perguntou.
   -- Dai-lhe a consolao do silncio.
   -- Ela acreditar que a esqueci.
   Joana encolheu os ombros.
   -- Tachar-me- de covarde.
   -- Covarde por salv-la? Nunca!
   -- Perdoar uma mulher a algum que se prive da sua presena?
   -- No podeis julg-la como me julgareis a mim.
   -- Julgo-a grande e forte. Amo-a pela valentia e pela nobreza do corao.
   Ela pode, portanto, contar comigo como eu conto com ela. Hei de v-la
   uma ltima vez, dizer-lhe tudo o que penso, e o que ela tiver decidido
   depois de me ouvir, cumprirei como cumpriria um voto sagrado.
   Joana levantou-se.
   -- Como quiserdes, -- disse ela. -- Ide!         Mas ireis sozinho. Atirei a
   chave do parque no Sena, ao voltar de l hoje cedo. Ide, pois,  vontade,
   a Versalhes, e eu partirei para a Sua ou para a Holanda. Quanto mais
   longe estiver da bomba, menos lhe temerei a exploso.
   -- Condessa!         Sereis capaz de deixar-me, de desamparar-me?  meu
   Deus! Com quem falarei sobre ela?
   Nessa altura, Joana lembrou-se das cenas de Molire; nunca um Valrio
mais insensato dera  mais astuta Dorina respostas mais cmodas.
   -- Tendes o parque e os ecos, -- respondeu; -- ensinar-lhes-eis o nome de
   Amarlide.
   -- Condessa, piedade! Estou desesperado, -- volveu o prelado, em tom que
   lhe vinha diretamente do corao.
   -- Pois bem! -- replicou Joana com a energia brutal do cirurgio que se
   determina de amputar um membro; -- se estais desesperado, Sr. de Rohan,
   no faais criancices mais perigosas do que a plvora, a peste, a morte!
   Se tanto quereis a essa mulher, conservai-a, em lugar de perd-la, e se no
   vos faltam de todo o corao e a memria, no vos aventureis a arrastar
   em vossa runa os
518                          ALEXANDRE DUMAS

que por amizade vos serviram. Eu no brinco com o fogo. Jurai--me que no
dareis um passo para ver a rainha. Nem mesmo para v-la, estais entendendo? j
no digo falar-lhe, nos prximos quinze dias. Jurai-lo? Fico e poderei servir-vos
ainda. Mas se estiverdes decidido a tudo desafiar para infringir a nossa
proibio, hei de sab-lo e dez minutos depois terei partido! Nesse caso,
arranjar--vos-eis como puderdes.
    -- E medonho! -- murmurou o cardeal; -- a queda  esmagadora; cair do
    alto de tanta felicidade! Isso me matar!
    -- Ora, essa! -- sussurrou-lhe Joana ao ouvido; -- na realidade amais
    apenas o vosso amor-prprio.
    -- Hoje amo deveras, -- replicou o cardeal.
    -- Pois ento sofrei hoje, -- voltou Joana; --  uma condio do estado.
    Vamos a ver, Monsenhor, decidi-vos: ficarei aqui ou tomarei o caminho de
    Lausanne?
    -- Ficai, condessa, mas achai-me um calmante. Esta ferida di muito.
    -- Jurais obedecer-me?
    --  f de Rohan!
    -- Bom, o vosso calmante j foi encontrado. Probo as entre vistas, mas
    no probo as cartas.
    -- Sim? -- exclamou o insensato, reanimado por essa esperana. -- Poderei
    escrever?
    -- Tentai-o.
    -- E. .. ela me responderia?
    -- Tentarei persuadi-la.
    O cardeal cobriu de beijos a mo de Joana. E chamou-lhe seu anjo
tutelar.
    H de ter rido muito o demnio que habitava no corao da condessa.
                                    LXIX
                                   A noite



    NESSE mesmo dia, s quatro horas da tarde, um homem a cavalo estacou
na orla do parque, atrs dos banhos de
    Apoio.
    A passo, pois estava passeando, pensativo como Hiplito, belo como le, o
cavaleiro deixava cair as rdeas sobre o pescoo do animal.
Deteve-se, como dissemos, no stio em que o Sr. de Rohan, nos ltimos trs
dias, fizera parar a sua montaria. Naquele lugar, estava o solo escarvado pelas
ferraduras, e comidos todos os arbustos  volta do carvalho em cujo tronco
ficara preso o ginete. Apeou o cavaleiro.
    -- Eis aqui um lugar bem devastado, -- observou.
    E abeirou-se do muro.
    -- E aqui h vestgios de escalada; esta porta foi aberta recentemente. Era
o que eu havia pensado.
    No se guerreiam os ndios das savanas sem aprender a interpretar as
marcas deixadas pelos homens ou pelos cavalos. Ora, fazia quinze dias que
voltara o Sr. de Charny; fazia quinze dias que ningum lhe punha os olhos
em cima. L estava a porta que o Sr. de Charny escolhera para entrar em
Versalhes.
    Fazendo essas consideraes, suspirou ruidosamente, como se arrancasse com
o suspiro a prpria alma.
    -- Deixemos ao prximo a sua felicidade, -- murmurou, examinando, um
por um, os traos eloquentes da relva e dos muros. -- O que Deus d a uns,
recusa a outros. No  -toa que le faz homens felizes e homens infelizes;
bendita seja a sua vontade!
    Entretanto, era-lhe necessria uma prova. Por que preo, por que meios a
conseguiria?
    Nada mais simples. Entre as moitas, de noite, um homem no seria
descoberto e, do seu esconderijo, veria tudo o que se passasse. Esta noite,
decidiu, ficarei entre as moitas.
    Apanhou as rdeas do cavalo, tornou a montar lentamente e, sem apertar o
passo do animal, desapareceu na extremidade do muro.
520                          ALEXANDRE DUMAS

    Quanto a Charny, obediente s ordens da rainha, trancara-se em casa,
esperando um recado de sua parte.
    Veio a noite, nada lhe apareceu. Em vez de ficar espiando  janela do
pavilho que dava para o parque, ps-se  espreita, no mesmo quarto,  janela
que dava para a ruazinha. Dissera a rainha:  porta da casa do monteiro; mas a
janela e a porta naquele pavilho se equivaliam, ao rs-do-cho. O principal era
poder ver quem chegasse.
    Interrogava a noite profunda, esperando ouvir, a cada minuto, o galope de
um cavalo ou o passo precipite de um correio.
    Dez horas e meia soaram. Nada. A rainha enganara-o. No primeiro
movimento de surpresa, fizera uma concesso. Envergonhada, prometera o que
no poderia cumprir; e, o que era horrvel de pensar-se, prometera sabendo
que o no cumpriria.
    Com a rpida facilidade de suspeita que caracteriza as pessoas violentamente
apaixonadas, Charny j censurava a prpria credulidade.
    -- Como pude, -- bradava, -- eu, que vi, acreditar em mentiras
e sacrificar a minha convico, a minha certeza, a uma estpida
esperana?
    Remoa com raiva essa ideia funesta, quando o rumor de um punhado de
areia atirado  vidraa da outra janela lhe chamou a ateno e f-lo correr
para o lado do parque.
    Viu ento, envolto em ampla capa preta, sob a folhagem do parque, um
vulto de mulher, erguendo para le o rosto plido e inquieto.
    No pde conter um grito de alegria e de arrependimento. A mulher que o
esperava, que o chamava, era a rainha!
    Num salto, atirou-se pela janela e foi cair aos ps de Maria Antonieta.
    -- Ah! estais aqui, senhor? Ainda bem! -- disse ela, comovida, em voz
    baixa; -- que estveis fazendo?
    -- Majestade!        Majestade!... ser possvel? -- replicou Charny,
    prosternando-se.
    -- Era assim que me esperveis?
    -- Eu estava esperando do lado da rua, senhora.
    -- E eu vira, acaso, pela rua, quando  muito mais simples vir pelo
    parque?
    -- Eu no me atrevia a acalentar essa esperana! -- volveu Charny com
    um acento de apaixonada gratido.
    Ela interrompeu-o:
    -- No fiquemos aqui, est muito claro; trouxestes a espada?
    -- Trouxe.
    -- Bem!... Por onde dizeis que entraram as pessoas que vistes?
    -- Por aquela porta.
                         O COLAR DA RAINHA                                   521

    -- A que horas?
    --  meia-noite.
    -- No h motivo para que no venham hoje tambm. No falastes com
    ningum?
    -- Ningum.
    -- Entremos naquele mato e esperemos.
    -- Oh! Majestade...
    A rainha passou-lhe  frente e, com passo rpido, caminhou um pouco em
sentido contrrio.
    -- Deveis ter compreendido, -- disse, de repente, como se quisesse
antecipar-se ao pensamento dele, -- que no fui contar este caso ao Chefe de
Polcia. Depois que me queixei da primeira vez, o Sr. de Crosne j me
deveria ter feito justia.
    "Se a criatura que me usurpa o nome, depois de me haver usurpado a
semelhana, ainda no foi presa, se todo este mistrio ainda no se esclareceu,
s pode haver dois motivos: a incapacidade do Sr. de Crosne, o que  nada, ou a
sua conivncia com os meus inimigos. Ora, afigura-se-me difcil que em minha
casa, no meu parque, se permita a representao da ignbil comdia que me
referistes, sem que os seus atores estejam certos de um apoio direto ou de uma
tcita cumplicidade. Eis por que me parecem to perigosos os culpados que s
me fio de mim mesma para desmascar-los. No pensais assim tambm?"
    -- Peo licena a Vossa Majestade para no abrir mais a boca. Estou
    desesperado; ainda tenho receios, mas j no tenho suspeitas.
    -- Pelo menos, sois um homem de honra, -- disse vivamente a rainha; --
    sabeis dizer as coisas rosto a rosto;  um mrito que pode s vezes magoar os
    inocentes quando nos enganamos a respeito deles: mas uma ferida cura-se.
    -- Oh! senhora, j so onze horas; estou tremendo.
    -- Certificai-vos primeiro de que aqui no h ningum, -- disse a rainha
    para afastar o companheiro.
    Charny obedeceu. Examinou a mata at os muros.
    --                                          Ningum, -- anunciou, ao voltar.
      ,
    -- Onde se passou a cena que me contastes?
    -- Neste instante, senhora, ao voltar da minha explorao, recebi um golpe
    terrvel no corao.       Vi-a no mesmo stio em que, nas ltimas noites,
    vi. . . a falsa rainha de Frana.
    -- Aqui! -- bradou a soberana, afastando-se com repugnncia do lugar em
    que se achava.
    -- Debaixo deste castanheiro.
    -- Ento, senhor, -- tornou Maria Antonieta, -- afastemo-nos, pois se aqui
    estiveram aqui voltaro.
     Charny seguiu-a por outra alameda. Batia-lhe cora tanta fora o corao
que teve medo de no ouvir o rudo do porto quando se abrisse.
522                        ALEXANDRE DUMAS

    Silenciosa e altiva, esperava ela que se produzisse a prova viva da sua
inocncia.
    Meia-noite soou. A porta no se abriu.
    Passou-se meia hora, durante a qual Maria Antonieta perguntou mais de dez
vezes se os impostores tinham sido pontuais nas entrevistas.
    Os sinos de So Lus de Versalhes deram meia noite e trs quartos.
    A rainha bateu o p com impacincia.
    -- Hoje no viro, -- disse ela; -- essas desgraas s a mim me
acontecem.
    E considerava Charny pronta para brigar se lhe surpreendesse nos olhos o
menor brilho de triunfo ou de ironia.
    Mas le, empalidecendo  proporo que lhe voltavam as suspeitas,
conservava uma postura to grave e melanclica, que o seu rosto devia de
refletir naquele momento a serena pacincia dos mrtires e dos anjos.
    A rainha tomou-lhe do brao e reconduziu-o ao castanheiro onde haviam
parado pela primeira vez.
    -- Dizeis, -- murmurou, -- que aqui os vistes.
    -- Precisamente, senhora.
    -- Aqui, a mulher deu uma rosa ao homem.
    -- Sim, Majestade.
    Ela sentia-se to fraca, to cansada por haver estado tanto tempo naquele
parque mido, que se encostou ao tronco da rvore e inclinou a cabea sobre o
seio.
    Insensivelmente, vergaram-lhe as pernas; e como Charny no lhe desse o
brao, deixou-se antes cair que sentar sobre a relva e os musgos.
    le permanecia imvel e sombrio.
    Ela levou as mos ao rosto, e o rapaz no viu uma lgrima deslisar-lhe por
entre os brancos dedos afilados.
    Sbito, erguendo a cabea:
    -- Senhor, -- disse Maria Antonieta, -- tendes razo; estou condenada. Eu
    prometera provar hoje que me haveis caluniado: Deus no o quer, submeto-
    me.
    -- Senhora. . . -- murmurou Charny.
    -- Fiz, -- continuou ela, -- o que no teria feito mulher alguma em meu
    lugar. J no falo das rainhas. Oh! senhor, que  uma rainha, quando
    no pode sequer reinar sobre um corao? Que  uma rainha quando
    no obtm sequer a estima de um
    homem de bem? Vamos, ajudai-me pelo menos a levantar-me, para que eu
    parta; no me desprezeis a ponto de recusar-me a vossa mo.
    Como um insensato, Charny precipitou-se-lhe aos ps.
                        O COLAR DA RAINHA                                    523

    -- Senhora, -- exclamou, batendo com o rosto no cho, -- se eu no
    fosse um desgraado que a ama, Vossa Majestade me perdoaria, no 
    verdade?
    -- Vs! -- bradou a rainha com um riso amargo; -- vs amais-me e, no
    entanto, me julgais infame!...
    -- Oh!... senhora.
    -- Vs!... vs, que deveis ter memria, acusais-me de haver dado aqui
    uma flor, l um beijo, acol o meu amor a outro homem...                 No
    mintais, senhor: vs no me amais!
    -- Senhora, o fantasma estava l, o fantasma da rainha enamorada. L
    estava tambm o fantasma do amante. Arranque-me o corao, visto que
    essas duas imagens infernais vivem nele e o devoram.
    Ela tomou-lhe a mo e atraiu-o para si com um gesto arrebatado.
    -- Vistes!... ouvistes!...    Era eu mesma, no era? -- volveu com voz
abafada. . . -- Era eu, sim, no busqueis outra explicao.
Pois bem! se neste mesmo lugar, debaixo deste mesmo castanheiro,sentada
como eu estava, estando vs a meus ps como o outro, se vos aperto as mos,
se vos aconchego de mim, abrao e digo: Fiz tudo isso com o outro, disse ao
outro a mesma coisa, e agora vos confesso: Sr. de Charny, nunca amei, no
amo e nunca amarei seno uma pessoa no mundo. . . e essa pessoa sois
vs!... Meu Deus! meu Deus! bastaria isso para convencer-vos de que no
 infame quem tem no corao, com o sangue das imperatrizes, o divino
fogo de um amor como este?
    Charny desferiu um gemido semelhante ao do homem que expira. Ao
falar, a rainha inebriara-o com o seu hlito; sentira-lhe as palavras, a mo dela
queimara-lhe o ombro, o seu colo calcinara--lhe o corao, o seu hlito lhe
crestara os lbios.
    -- Deixe-me agradecer a Deus, -- murmurou. -- Se eu no pensasse em
Deus, pensaria demasiado em si.
    Ergueu-se ela devagar e parou nele dois olhos cujo brilho mal transluzia
atravs das lgrimas.
    -- Quer a minha vida? -- perguntou o conde, transfigurado.
    Ela calou por um momento sem interromper a contemplao.
    -- Dai-me o vosso brao, -- disse, afinal, -- levai-me a todos os lugares
onde estiveram os outros. Primeiro aqui... aqui, onde foi dada a rosa...
    Arrancou do vestido uma rosa ainda quente do fogo que lhe abrasara o seio.
    -- Tomai! -- ofereceu, num sussurro.
    le aspirou o perfume da flor e apertou-a de encontro ao peito.
    -- Aqui, -- volveu ela, -- a outra deu a mo a beijar?
524                          ALEXANDRE DUMAS

    -- As mos! -- emendou Charny, cambaleante e bbedo, no momento
    em que o seu rosto se viu preso entre as palmas enfogadas da rainha.
    -- Eis um lugar purificado, -- tornou Maria Antonieta com um sorriso
    adorvel. -- Depois, foram, aos banhos de Apoio?
    Como se o cu lhe houvesse cado sobre a cabea, Charny se deteve,
semimorto, estupefato.
    --  um stio, -- continuou alegremente a princesa, -- onde s entro de
dia. Vamos ver juntos a porta por onde fugia o tal amante da rainha.
    Jubilosa, leve, suspensa ao brao do homem mais feliz que Deus j
abenoou, transps quase a correr os gramados que separavam as matas do
muro. Chegaram assim  porta atrs da qual se viam marcas de ferraduras.
    --  aqui, -- anunciou Charny.
    -- Eu trouxe as chaves, -- respondeu a rainha. -- Abri, Sr. De Charny;
    instruamo-nos.
    Saram e inclinaram-se para ver: a lua desgarrou-se de uma nuvem como
que para ajud-los a investigar.
    O raio branco, terno, acarinhou o formoso rosto da rainha, que se apoiava
ao brao de Charny, ouvindo e examinando as moitas vizinhas.
    Quando se julgou suficientemente convencida, fz entrar novamente o
fidalgo, atraindo-o para si com suave presso.
    Fechou-se a porta atrs deles.
    Duas horas soaram.
    -- Adeus, -- disse ela. -- Voltai para casa. At amanh.
    Apertou-lhe a mo e, sem mais uma palavra, alongou-se, rpida, por entre as
    carpas, na direo do castelo.
    Adiante da porta que acabavam de fechar, ergueu-se um homem do seio das
moitas e desapareceu nas matas que bordejavam a estrada.
    Esse homem levava, ao partir, o segredo da rainha.
                                     LXX
                                  A despedida

   A RAINHA saiu no dia seguinte sorridente e bela para ir  missa.
   Os guardas receberam ordem de deixar que dela se aproximasse toda a
gente. Era domingo e Sua Majestade dissera, ao despertar:
   -- O dia est lindo! Como  bom viver num dia assim!
   Parecia respirar com maior prazer o perfume das flores predi-letas;
mostrou-se mais esplndida nos favores que concedeu; e deu--se mais pressa
em ir depor a alma aos ps do Criador.
   Ouviu a missa com uno. Jamais curvara tanto a cabea majestosa.
   Ao passo que ela orava com fervor, apinhava-se a multido, como todos os
domingos, na passagem que liga os apartamentos  capela, e at os degraus das
escadas regurgitavam de fidalgos e damas.
   Entre estas ltimas brilhava, modesta mas elegantemente vestida, a Sra. de
La Motte.
   E na dupla ala, formada pelos gentis-homens, via-se  direita o Sr. de
Charny, muito cumprimentado pelo seu restabelecimento, pelo seu regresso e,
sobretudo, pela sua radiante fisionomia.
   O favor  um perfume sutil; subdivide-se com tamanha facilidade no ar que,
muito antes de abrir-se o frasco, o aroma  definido, reconhecido e apreciado
pelos entendidos. Fazia apenas seis horas que Oliveiros era amigo da rainha,
mas toda a gente j se tida, a Sra. de La Motte.
   Ao mesmo passo que recebia as felicitaes com o semblante de um
homem verdadeiramente feliz, e que, para prestar-lhe maiores homenagens e
demonstrar-lhe maior amizade, toda a esquerda da ala passava para a direita,
Oliveiros, obrigado a deixar que os seus olhares se alongassem pelo grupo
espalhado  sua volta, viu s, diante de si, um rosto cuja sombria palidez e cuja
imobilidade o impressionaram.
   Reconheceu Filipe de Taverney apertado no seu uniforme e com a mo
no punho da espada.
526                         ALEXANDRE DUMAS

   Aps as visitas de cortesia feitas por este ltimo  antecmara do
adversrio depois do duelo, aps o sequestro de Charny realizado pelo Dr.
Lus, nenhum outro contacto se estabelecera entre os dois rivais.
    Vendo Filipe consider-lo tranquilamente, sem benevolncia mas sem
ameaa, Charny dirigiu-lhe um cumprimento, que o outro retribuiu, de longe.
    Logo, abrindo com a mo o grupo que o cercava:
    -- Perdo, senhores, -- rogou Oliveiros; -- deixai-me cumprir
um dever de polidez.
    E, atravessando o espao compreendido entre a sebe da direita e a da
esquerda, guiou diretamente para Filipe, que no se mexia.
    -- Sr. de Taverney, -- disse, cortejando-o com mais civilidade que da
primeira vez, -- eu j vos devia ter agradecido o interesse que demonstrastes
pela minha sade, mas acontece que s ontem cheguei.
    Filipe corou, olhou para le e abaixou os olhos.
    -- Terei a honra, senhor, -- continuou Charny, -- de ir visitar mos
    amanh, e espero que no me tenhais guardado rancor.
    -- Nenhum, senhor, -- replicou Filipe.
    Charny ia estender-lhe a mo, quando o tambor anunciou a chegada da
rainha.
    -- Eis a rainha, senhor, -- anunciou, pausado, o Sr. de Taverney, sem
responder ao gesto amistoso do conde.
    E acentuou a frase com uma reverncia menos fria que melanclica.
    Um tanto surpreso, Charny apressou-se em voltar para junto dos amigos
da ala da direita.
    Filipe continuou onde estava, como se fosse uma sentinela.
    Aproximava-se a rainha, sorrindo para diversas pessoas, e recebendo ou
mandando receber as peties, pois de longe avistara Charny e, no
despitando dele os olhos, com a temerria bravura que punha em suas
amizades, e que os inimigos taxavam de im-pudor, pronunciou em voz alta
estas palavras:
    -- Pedi, senhores, pedi, que hoje eu no saberia recusar o que quer que
fosse.
    Charny sentiu-se penetrado at ao fundo do corao pelo tom e pelo
sentido daquelas mgicas palavras. Fremiu de prazer, e foi esse o seu
agradecimento  rainha.
    Inesperadamente, o rumor de um passo e o metal de uma voz estranha
arrancaram Maria Antonieta a sua doce mas perigosa contemplao.
    O passo gritava-lhe  esquerda, sobre as ljeas, e a voz comovida, mas
grave, dizia:
    -- Senhora!...
                         O COLAR DA RAINHA                                      527

    Era Filipe; ela no pde reprimir um primeiro movimento de surpresa ao ver-
se colocada entre os dois homens, que se arguia de amar, um com demasias, o
outro demasiado pouco.
    -- Vs! Sr. de Taverney, -- bradou, recobrando-se; -- quereis pedir-me
    alguma coisa? Falai.
    -- Dez minutos de audincia ao talante de Vossa Majestade, -- disse Filipe,
    inclinando-se, mas sem desarmar a severa palidez da fronte.
    -- Neste instante, senhor, -- acedeu a rainha, dirigindo um olhar furtivo a
    Charny, que involuntariamente temia ver to prximo do antigo adversrio;
    -- segui-me.
    E ps-se a caminhar mais depressa ouvindo o passo de Filipe atrs do seu;
Charny continuou onde estava.
    Sem embargo, prosseguiu ela na colheita de cartas, peties e requerimentos,
deu algumas ordens e voltou aos seus aposentos.
    Um quarto de hora depois, Filipe era introduzido na biblioteca em que Sua
Majestade recebia aos domingos.
    -- Ah! Sr. de Taverney, -- disse ela, assumindo o seu ar satisfeito, -- entrai e
mostrai-me desde logo boa cara. Pois confesso que me sinto inquieta todas as
vezes que um Taverney pede para falar comigo. Os de vossa famlia sois
agoureiros. Tranquilizai-me depressa,
Sr. de Taverney, dizendo-me que no vindes anunciar-me uma desgraa.
    Mais plido ainda depois desse prembulo do que durante a cena com
Charny, contentou-se Filipe de replicar, ao ver quo pouca afeio emprestava a
rainha  sua linguagem:
    -- Senhora, tenho a honra de anunciar a Vossa Majestade que, desta feita,
    lhe trago uma boa notcia.
    --  uma notcia!
    -- Infelizmente, Majestade.
    -- Ah! meu Deus! -- replicou ela, reassumindo a expresso alegre que o
    deixava to infeliz, -- acabastes de dizer infelizmente! Pobre de mim! diria
    um espanhol. O Sr. de Taverney disse infelizmente!
    -- Senhora, -- tornou, grave, Filipe, -- duas palavras bastaro a tranquilizar
    to completamente Vossa Majestade, que no s a sua nobre fronte no se
    velar hoje  aproximao de um Taverney, mas nunca mais se velar por
    culpa de um Taverney-Maison-Rouge.
    A partir de hoje, senhora, o ltimo da famlia a que Vossa Majestade se
    dignou de conceder algum favor, desaparecer para sempre da corte de
    Frana.
    A rainha, largando de repente a expresso alegre que assumira como recurso
contra as presumveis comoes da entrevista:
    -- Partis! -- exclamou.
    -- Sim, Majestade.
528                           ALEXANDRE DUMAS

    -- Vs... tambm!
    Inclinou-se Filipe.
    -- Minha irm, senhora, j teve o desgosto de deix-la; e eu, como lhe
sou muito mais intil, vou-me embora tambm.
    Sentou-se a rainha, perturbadssima ao lembrar-se de que Andreia pedira a
mesma licena eterna logo aps uma entrevista em casa de Lus, onde o Sr. de
Charny recebera as primeiras mostras da simpatia que ela lhe dedicava.
   --  estranho! -- murmurou, pensativa. E no disse mais nada.
   Filipe continuava em p, como uma esttua de mrmore  espera do gesto que
   dispensa.
   A rainha, saindo de golpe da sua letargia:
   -- Aonde ides? -- perguntou.
   -- Pretendo reunir-me ao Sr. de Lapeyrouse.
   -- O Sr. de Lapeyrouse est, neste momento, em Terra Nova.
   -- J tenho tudo pronto para ir ao seu encontro.
   -- Sabeis que lhe predisseram uma morte horrvel?
   -- Horrvel, no sei, -- replicou Filipe; -- mas rpida, sim.
   -- E partis?
    Abriu-se num sorriso o rosto formoso do rapaz, to nobre e to doce.
   --  por isso mesmo que quero juntar-me a Lapeyrouse.
   Recaiu a rainha no seu inquieto silncio.
    Filipe, ainda uma vez, ficou esperando, respeitosamente.
   A natureza to nobre e to corajosa de Maria Antonieta despertou, mais
temerria do que nunca.
    Ergueu-se, aproximou-se do rapaz e disse-lhe, cruzando sobre o peito os
braos alvos:
   -- Por que partis?
    -- Porque tenho muita vontade de viajar, -- respondeu le doce mente.
    -- Mas j destes a volta ao mundo, -- volveu a rainha, momentaneamente
    iludida por aquela calma herica.
    -- Ao Novo Mundo, sim, senhora, -- continuou Filipe, -- mas ao antigo e
    ao novo ao mesmo tempo, no.
    A rainha fz um gesto de despeito e repetiu o que dissera a Andreia.
    -- Raa de ferro, coraes de ao so esses Taverneys. Vossa irm e vs,
gente terrvel, so amigos que a gente acaba odiando. Partis, no para viajar,
que estais farto de viagens, mas para deixar-me. Vossa irm dizia-se chamada
pela religio, mas esconde um
corao de fogo debaixo das cinzas. Enfim, quis partir, partiu. Deus a faa feliz!
E vs, que podereis ser feliz, quereis partir tambm. Eu no disse h pouco
que os Taverneys me so infaustos?
                        O COLAR DA RAINHA                                    529

    -- Poupe-nos, senhora; se Vossa Majestade se dignasse de examinar melhor
    os nossos coraes, neles encontraria apenas um devota-mento sem limites.
    -- Ouvi! -- bradou, colrica, a rainha, -- vs, o quacre, e ela, a filsofa,
    sois duas criaturas impossveis. Para ela, o mundo  um paraso em que a
    gente s entra com a condio de ser santo; para vs, o mundo  um
    inferno, onde s vivem os diabos; e ambos fugistes o mundo: um, por
    encontrar nele o que le no procura; o outro, pelo no encontrar. Tenho
    ou no tenho razo?         Ora, meu caro Sr. de Taverney, deixai que os
    humanos sejam imperfeitos, e no peais s famlias reais seno que sejam
    as menos imperfeitas das famlias humanas; sede tolerante, ou melhor, no
    sejais egosta.
    Ela acentuou essas palavras com apaixonada veemncia. Filipe percebeu a
superioridade da sua posio.
    -- Senhora, -- disse le, -- o egosmo  uma virtude quando dele nos
servimos para realar as nossas adoraes.
    Ela corou. E disse:
    -- S sei de uma coisa: eu gostava de Andreia e ela me deixou. Eu vos
    queria bem e vs me deixais.  humilhante para mim ver duas pessoas to
    perfeitas, digo-o sinceramente, abandonarem minha casa.
    -- Nada pode humilhar uma pessoa augusta como Vossa Majestade, --
    replicou priamente Taverney; -- a vergonha no atinge as frontes elevadas.
    -- Estou procurando com ateno, -- prosseguiu a rainha, -- o que vos
    possa ter magoado.
    -- Nada me magoou, senhora, -- tornou vivamente Filipe.
    -- A vossa patente foi confirmada; a vossa fortuna est em bom andamento;
    eu vos distinguia...
    -- Repito a Vossa Majestade que nada me agrada na corte.
    -- E se eu vos dissesse que ficsseis?... Se vo-lo ordenasse?...
    -- Eu teria a mgoa de recnsar-me a obedecer-lhe.
    A rainha, pela terceira vez, mergulhou na silenciosa reserva que representava
para a sua lgica o que representa para o esgrimista cansado a ao de romper.
    E como saa sempre desse repouso com um repente:
    -- Talvez haja aqui algum que vos desagrade? Sois muito desconfiado, --
    alvitrou, fitando nele o claro olhar.
    -- Ningum me desagrada.
    -- Eu vos supunha de mal... com um fidalgo. . . o Sr. de Charny... que
    feristes em duelo. . . -- volveu ela, animando-se gradativamente. -- E
    como  natural que a gente evite as pessoas de que no gosta, assim que
    vistes voltar o Sr. de Charny, quisestes deixar a corte.
    Filipe no respondeu.
530                         ALEXANDRE DUMAS


    Enganando-se com aquele homem to leal e to bravo, julgou a rainha que
era apenas um ciumento comum. Perseguiu-o sem misericrdia.
    -- S hoje soubestes, -- continuou, -- que o Sr. de Charny est de volta.
Hoje! E hoje me apresentais as vossas despedidas?
    Tornou-se Filipe mais lvido que plido. Assim atacado, assim espezinhado,
reergueu-se cruelmente.
    -- Senhora, -- disse le, -- apenas hoje eu soube do regresso do Sr. de
Charny,  verdade; entretanto, faz um pouco mais de tempo
do que supe Vossa Majestade, pois encontrei-o cerca das duas horas
da madrugada  porta do parque que corresponde aos banhos de
Apoio.
    A rainha empalideceu por sua vez; e, depois de haver considerado com
admirao e terror a perfeita cortesia que em sua clera conservava o fidalgo:
    -- Bem! -- murmurou, com voz apagada; -- ide, senhor, no
vos retenho mais.
    Filipe cortejou pela ltima vez e partiu a passos lentos. A rainha caiu
    fulminada na poltrona, murmurando:
    -- Frana! pas de nobres coraes!
                                     LXXI
                             O cime do Cardeal

    ENTRETANTO, vira o cardeal sucederem-se trs noites bem diferentes
daquelas que a sua imaginao revivia sem cessar. Nenhuma notcia, nenhuma
esperana! O silncio mortal aps o frenesi da paixo era a treva de um
calabouo depois da claridade lacre do sol.
    Acalentara primeiro a esperana de que a amante, mulher antes de ser
rainha, quisesse conhecer a natureza do amor que despertara, e saber se
continuava a agradar, depois da prova, como antes. Sentimento totalmente
masculino, cuja materialidade, convertida em arma de dois gumes, feriu
dolorosamente o prprio apaixonado quando se voltou contra le.
    Com efeito, no vendo vir ningum e ouvindo apenas o silncio, como diz o
Sr. Delille, receou o infeliz que a prova lhe houvesse sido desfavorvel. Da,
uma angstia, um terror, uma inquietao de que no pode fazer ideia quem
no sofreu essas nevralgias gerais que transformam cada fibra ligada ao crebro
numa serpente de fogo, que se contrai ou estende a seu sabor.
    O mal-estar tornou-se-lhe insuportvel; mandou dez correios  casa da Sra.
de La Motte e outros dez a Versalhes no espao de uma manh.
    O ltimo trouxe-lhe finalmente Joana, que, entretida em vigiar Charny e a
rainha, se aplaudia intimamente da impacincia do cardeal,  qual no tardaria
em dever o bom xito do seu cometimento.
    Vendo-a, o prelado estourou.
    -- Como  possvel que vivais nessa tranquilidade! -- bradou le. -- Sabeis-
    me supliciado e vs, que vos dizeis minha amiga, deixais que o meu
    suplcio se prolongue at  morte!
    -- Ora, Monsenhor, -- replicou Joana, -- pacincia, por favor! O que eu
    estava fazendo em Versalhes, longe de vs,  muito mais til do que o que
    estveis fazendo aqui,  minha espera.
    -- No sejais cruel a esse ponto, -- tornou Sua Eminncia, radiante com a
    esperana de obter notcias. -- Vamos a ver, que  o que esto dizendo,
    que  o que esto fazendo l?
    -- A ausncia  sempre um mal doloroso, quer sofrido em Paris, quer sofrido
    em Versalhes.
532                            ALEXANDRE DUMAS

      -- Isso me encanta e eu vo-lo agradeo. Mas...
      -- Mas?
      -- Provas!
      -- Ah! meu Deus! -- exclamou Joana, -- que estais dizendo, Monsenhor!
      Provas! Que significa essa palavra? Provas!...        Estais no vosso juzo
      perfeito? Acaso se pedem a uma mulher provas de seus erros?
      -- No estou pedindo peas para incluir num processo, condessa; estou
      pedindo uma prova de amor.
      -- Parece-me, -- disse ela depois de haver considerado de certo modo Sua
      Eminncia, -- que vos estais tornando muito exigente, para no dizer
      muito esquecido.
      -- Sei o que me direis, sei que eu devia considerar-me satisfeito e honrado;
      mas julgai-me o corao pelo vosso. Aceitareis que vos pusessem de parte
      depois de vos haverem feito saborear as aparncias do favor?
      -- Dissestes aparncias, se no me engano? -- replicou Joana, no
      mesmo tom escarninho.
      -- Podeis bater-me impunemente, condessa;  verdade que nada me autoriza
      a queixar-me; mas eu me queixo...
      -- Nesse caso, Monsenhor, se o vosso descontentamento s tem causas
      frvolas, ou no tem nenhuma, no posso responsabilizar-me por le.
      -- Condessa, estais-me tratando mal.
      -- Repito as vossas palavras, Monsenhor.              Acompanho a vossa
      argumentao.
      -- Inspirai-vos em vs, ao invs de censurar as minhas loucuras; ajudai-me
      em vez de atormentar-me.
      -- No posso ajudar-vos onde no vejo nada que fazer.
      -- No vedes nada que fazer? -- repetiu o cardeal, acentuando cada
      palavra.
      -- Nada.
      -- Pois bem! senhora, -- acudiu, veemente, o Sr. de Rohan, -- nem toda a
      gente diz talvez a mesma coisa.
      -- Infelizmente, Monsenhor, estamos chegando  clera, e j no nos
      compreendemos. Perdoai-me observar-vo-lo.
      --  clera! Sim. . . A vossa m vontade a ela me empurra, condessa.
      -- E no vedes que estais sendo injusto?
      -- No! se no continuais a servir-me  porque no podeis fazer outra coisa,
      bem o vejo.
      -- Nesse caso, por que me acusais?
      -- Porque devereis dizer-me toda a verdade.
      -- A verdade! Eu vos disse a que sabia.
      -- Mas no me dizeis que a rainha  uma prfida, uma scia, que leva a
      gente a ador-la e depois desespera os adoradores.
                     O COLAR DA RAINHA                                   533

Joana considerou-o com ar surpreso.
-- Explicai-vos, -- disse, a tremer, no de medo, seno de alegria.
Efetivamente, acabava de entrever no cime do cardeal uma iada que as
circunstncias talvez no lhe tivessem inspirado para safar-se de to difcil
situao.
-- Confessai-me, -- continuou o cardeal, que s enxergava a sua paixo, --
confessai-me, por misericrdia, que a rainha se recusa a ver-me.
-- No digo isso, Monsenhor.
-- Confessai que se ela no me repele de sua livre e espontnea vontade, o
que ainda espero, evita-me no alarmar outro amante que as minhas
assiduidades tero espertado.
-- Ah! Monsenhor, -- exclamou Joana num tom maravilhosa mente
meloso, que deixava suspeitar muito mais do que simulava disfarar.
-- Escutai-me, -- voltou o Sr. de Rohan, -- na ltima vez que vi Sua
Majestade, creio ter ouvido algum andando no meio do mato.
-- Loucura.
-- E direi quanto suspeito.
-- Nem mais uma palavra, Monsenhor, que estais ofendendo a rainha! De
resto, se  verdade que ela tem a desventura de recear a vigilncia de um
amante, o que no acredito, levareis a injustia a ponto de converter em
crime o passado que ela vos sacrifica?
-- O passado! o passado! Palavra sonora, mas que no tem significao,
condessa, quando esse passado  ainda o presente e deve ser o futuro.
-- Ora, Monsenhor! Estais-me falando como a um corretor acusado de
haver sugerido um mau negcio. As vossas suspeitas so to ofensivas para
a rainha, que o acabam sendo para mim tambm.
-- Ento, condessa, provai-me...
-- Se repetirdes essa palavra, tomarei a injria para mim.
-- Mas, afinal. .. ter-me- ela um pouco de amor?
-- H um meio faclimo, Monsenhor, -- replicou Joana, indicando ao
cardeal a mesa e tudo o que era preciso para escrever.-- Sentai-vos a e
perguntai-lho.
Sua Eminncia arrebatou, exaltado, a mo da condessa.
-- Entregar-lhe-eis o bilhete? -- perguntou.
-- Se eu no lho entregasse, quem o faria?
-- E... prometeis-me uma resposta?
-- Se no tivsseis resposta como sabereis o que ela sente por vs?
-- Ainda bem, assim  que vos quero, condessa.
-- No  mesmo? -- observou ela com o seu fino sorriso.
534                           ALEXANDRE DUMAS

    le sentou-se, tomou da pena e comeou a escrever. O Sr. de Rohan tinha a
pena eloquente e a letra fcil; no entanto, rasgou dez folhas antes de se
confessar satisfeito.
   -- Se continuardes desse jeito, -- observou Joana, -- nunca chegareis ao fim.
   --  que no me fio da minha ternura, condessa; ela transborda a meu
   pesar e talvez fatigue a rainha.
   -- Ah! -- exclamou Joana, irnica, -- se lhe escreverdes como poltico, ela
   vos responder como diplomata. Isso  convosco.
   -- Tendes razo, e sois uma mulher de verdade, tanto pelo corao quanto
   pelo esprito. Afinal, condessa, por que teria eu um segredo para vs, que
   conheceis os meus?
    Ela sorriu.
   -- O fato  que tendes pouca coisa para esconder-me, -- observou.
   -- Lede por cima do meu ombro, lede to depressa quanto eu escrever, se
   fr possvel; pois o meu corao est ardendo e a pena vai devorar o papel.
    Lus, de fato, escreveu; escreveu uma carta to ardente, to doida, to cheia
de reproches amorosos e protestos comprometedores, que, terminada a leitura,
Joana, que lhe seguia o pensamento at ao fim, disse entre si:
   -- le acaba de escrever o que eu no teria ousado ditar-lhe.
   O cardeal releu e perguntou:
   -- Est bem?
    -- Se ela vos ama, -- replicou a traidora, -- v-la-eis amanh; agora,
    descansai.
    -- At amanh, sim.
    -- No peo mais do que isso, Monsenhor.
    Pegou no bilhete lacrado, deixou que Sua Eminncia lhe beijasse os olhos e
voltou,  tarde, para casa.
    E, tendo-se despido e refrescado, entrou a cismar.
   A situao era exatamente a que, desde o princpio, desejara.
    Bastar-lhe-ia dar mais dois passos para alcanar a meta.
    Qual dos dois escolheria por escudo: a rainha ou o cardeal?
   A carta do cardeal colocava-o na impossibilidade de acus-la no dia em
que ela o obrigasse a reembolsar as somas devidas pelo colar.
    E ainda que se vissem e entendessem o cardeal e a rainha, como ousariam
perder a Sra. de La Motte, depositria de to escandaloso segredo?
    A rainha no faria escndalo e acreditaria no dio do cardeal; o cardeal
acreditaria na garridice da rainha; mas os debates, se os houvesse, se travariam a
portas fechadas, e a Sra. de La Motte, da qual se teriam, quando muito,
suspeitas, aproveitaria o pretexto para expatriar-se, levando consigo a bela
soma de um milho e meio.
                        O COLAR DA RAINHA                                   535

    Saberia o cardeal que Joana ficara com os brilhantes, e a rainha o
adivinharia; mas de que lhe serviria fazer barulho em torno de um fato to
estreitamente ligado  histria do parque e dos banhos de Apoio?
    Entretanto, no bastaria uma carta para edificar todo aquele sistema de
defesa. O cardeal tinha boas penas, ainda escreveria umas sete ou oito vezes.
    Quanto  rainha, quem sabe se naquele mesmo instante no estaria
forjando, com o Sr. de Charny, armas para Joana de La Motte?
    Todas essas trapalhadas e complicaes redundariam, na pior das
hipteses, numa fuga, e Joana j lhe prefigurava as diversas fases.
    Primeiro o vencimento do prazo, a denncia dos joalheiros. A rainha dirigir-
se-ia ao Sr. de Rohan.
    Como?
    Por intermdio de Joana, inevitavelmente. Joana avisaria o cardeal e o
convidaria a pagar. Se le se recusasse, amea-lo-ia de publicar as cartas; le
pagaria.
    Feito o pagamento, j no haveria perigo. Quanto ao escndalo pblico, esse
ficaria dependendo da questo da intriga. Nesse ponto, satisfao absoluta. A
honra de uma rainha e de um Prncipe da Igreja por um milho e meio era
at barato; Joana j se via na posse de trs milhes quando bem o entendesse.
    E por que se sentia to segura no tocante  intriga?
    Porque o cardeal estava convencido de ter visto, em trs noites seguidas, a
rainha nos bosques de Versalhes, e nenhum poder no mundo lograria
despersuadi-lo disso. Porque s existia uma prova da fraude, prova viva,
irrecusvel, que Joana faria desaparecer.
    Chegada a esse ponto da meditao, abeirou-se da janela e viu Oliva,
inquieta e curiosa, no balco.
    -- Agora ns, -- pensou, cumprimentando ternamente a ctim-plice.
    E fz-lhe o sinal convencionado para que descesse  noite-
    Muito satisfeita por haver recebido essa comunicao oficial, Oliva tornou
ao seu quarto e Joana s suas meditaes.
    Quebrar o instrumento quando j no pode servir  o hbito de todos os
intrigantes; entretanto, a maioria  mal sucedida, ou porque, ao quebr-lo o
faz de modo que le solte um gemid-o e revele o segredo, ou porque, no
conseguindo inutiliz-lo de todo, permite-lhe que venha a servir a outros.
    Joana refletiu que a pequena Oliva, toda entregue ao gosto de viver, no se
deixaria quebrar como convinha sem soltar um gemido.
    Era necessrio imaginar para ela uma fbula que a decid_isse a fugir; e
outra que a fizesse fugir de muito bom grado.
536                           ALEXANDRE DUMAS

    As dificuldades surgiam a cada passo; mas certos espritos encontram no
resolv-las tanto prazer quanto a outros proporciona o andar sobre rosas.
    Por mais encantada que estivesse com a sociedade da nova amiga, Oliva
estava apenas relativamente encantada, isto , entrevendo essa ligao atravs
das vidraas da sua cadeia, achava-a deliciosa. Mas a sincera Nicole no
dissimulava que teria preferido o ar aberto, os passeios ao sol, todas as realidades
enfim da vida, queles passeios noturnos e quela fictcia realeza.
    As fantasias da vida eram Joana, seus carinhos e sua intimidade; a realidade
da vida eram o dinheiro e Beausire.
    Joana, que havia estudado a fundo essa teoria, prometeu a si mesma aplic-
la na primeira ocasio.
    Numa palavra, decidiu que o tema de sua entrevista com Nicole seria a
necessidade de fazer desaparecer completamente a prova das criminosas fraudes
cometidas no parque de Versalhes.
    Veio a noite, Oliva desceu. Joana estava  sua espera.
    Subindo a Rua de So Cludio at o bulevar deserto, chegaram as duas ao
carro, que, para melhor deix-las conversar, entrou a deslizar a passo pelo
caminho circular de Vincennes.
    Nicole, bem disfarada com um vestido simples e uma ampla calea, e Joana,
arrumada como uma costureirinha, no podiam ser reconhecidas. Para isso, alis,
seria preciso enfiar o nariz na carruagem, e s a polcia tinha esse direito. Mas
nada ainda lhe chamara a ateno.
    De mais a mais, a carruagem, em vez de ser um veculo simples, ostentava nas
almofadas das portinholas as armas dos Valois, respeitveis sentinelas que
nenhum agente ousaria violentar.
    Oliva comeou cobrindo Joana de beijos; esta retribuiu-os com usura.
    -- Oh! Como me aborreci, -- exclamou a primeira; -- eu vos procurava,
    invocava...!
    -- Era impossvel, minha amiga, ver-vos naquela ocasio. Eu teria corrido
    e vos faria correr um grandssimo perigo.
    -- Como assim? -- indagou Nicole, espantada.
    -- Um perigo terrvel, minha querida, cuja simples ideia me arrepia.
    -- Contai-me isso depressa!
    -- Aqui vos aborreceis a valer.
    -- Infelizmente  verdade!
    -- Para distrair-vos, desejastes sair.
    -- No que, alis, muito me ajudastes.
    -- Falei-vos daquele oficial de artilharia, meio louco, mas muito amvel, que
    est apaixonado pela rainha, com a qual vos pareceis um pouco.
                        O COLAR DA RAINHA                                   537

   -- Eu sei.
   -- Tive a fraqueza de propor-vos uma brincadeira inocente, que consistia em
   divertir-nos com o pobre rapaz e mistific-lo, fazendo-o acreditar num
   capricho de Sua Majestade por le.
   --  verdade! -- suspirou Oliva.
   -- No recordarei os dois primeiros passeios que demos  noite, no jardim de
   Versalhes, em companhia do pobre rapaz.
   Oliva tornou a suspirar.
   -- As duas noites em que representastes to bem o vosso papelzinho, que o
   nosso apaixonado levou a coisa a srio.
   -- Acho que fizemos mal, -- comentou Oliva, baixinho; -- pois, de fato, o
   enganamos e le no o merece;  um cavaleiro encantador.
   -- No  mesmo?
   -- , sim.
   -- Mas esperai, que o mal ainda no reside nisso. Ter-lhe dado uma rosa,
   ter-vos deixado chamar Majestade, ter-lhe permitido beijar-vos as mos tudo
   isso so traquinadas. . . Mas. . . minha pequena Oliva, parece que isso no 
   tudo.
   Oliva corou de tal maneira que, no fosse a escurido da noite, Joana o teria
percebido.  verdade que ela, inteligentemente, estava olhando para o caminho e
no para a companheira.
   -- Como... ? -- balbuciou Nicole. -- No  tudo... como?
   -- Houve uma terceira entrevista.
   -- Houve, -- conveio Oliva, hesitando; -- e sabei-lo muito bem porque
   tambm l estveis.
   -- Perdo, minha querida amiga, eu estava, como sempre,  distncia,
   vigiando ou fingindo vigiar, para dar maior autenticidade ao vosso papel.
   Por conseguinte, no vi nem ouvi o que se passou na gruta. Sei apenas o
   que me contastes. , Ora, contastes-me, ao voltar, que haveis passeado, que
   haveis conversado, que continuara a troca de rosas e de beijos. Eu acredito
   em tudo o que me dizem, minha querida!
   -- Pois sim!... mas. . . -- tornou Oliva, a tremer.
   -- Pois sim! minha linda, mas parece que o nosso doido anda dizendo que
   obteve mais do que lhe concedeu a pretena rainha.
   -- O qu?
   -- Parece que, aturdido, desvairado, gabou-se de haver alcanado da rainha
   uma prova irrecusvel de amor. O pobre diabo est decididamente louco.
   -- Meu Deus! meu Deus! -- murmurou Oliva.
   -- Est louco porque est mentindo, no  verdade? -- insistiu Joana.
   -- De certo. . . -- balbuciou Oliva.
538                          ALEXANDRE DUMAS

    -- No vos tereis, minha querida pequena, exposto a tamanho perigo sem
me avisar.
    Oliva estremeceu da cabea aos ps.
    -- No  provvel, -- continuou a terrvel amiga, -- que vs, que amais o Sr.
    Beausire e me tendes por companheira; que sois cortejada pelo Sr. Conde de
    Cagliostro e lhe repelis as atenes, tenhais dado, por capricho, a esse
    louco, o direito... de... dizer?...    No, le perdeu a cabea, no posso
    acreditar numa coisa dessas.
    -- Mas afinal, -- bradou Nicole, -- onde est o perigo? Vamos a ver!
    -- Ei-lo. Estamos tratando com um louco, isto , um homem que no
    teme nada e nada poupa. Enquanto tudo se resumia na ddiva de uma
    rosa, num beijo na mo, no havia o que dizer; uma rainha tem rosas em
    seu parque, tem mos  disposio de seus sditos; mas se  verdade que
    na terceira entrevista... Ah! Minha querida filha, perdi a vontade de rir
    depois que essa ideia me ocorreu...
    Sentiu Oliva que se lhe apertavam os dentes de medo.
    -- Que acontecer, ento, minha boa amiga? -- perguntou.
    -- Acontecer primeiro que no sois a rainha, pelo menos que eu saiba.
    -- No.
    -- E que, tendo usurpado a qualidade de Sua Majestade para cometer
    uma... leviandade desse gnero...
    -- Sim...?
    -- Isso se chama lesa-majestade... Levam-se as pessoas muito longe com
    essa palavra.
    Oliva escondeu o rosto entre as mos.
    -- Afinal de contas, -- continuou Joana, -- como no fizestes o de que le
    se gaba, ficareis quite provando-o. As duas leviandades precedentes sero
    punidas com dois ou quatro anos de priso e com o exlio.
    -- Priso! exlio! -- gritou Oliva, espavorida.
    -- O caso no  irreparvel; mas, de qualquer maneira, vou tomar as minhas
    precaues e pr-me a salvo.
    -- Sereis inquietada tambm?
    -- Pudera! Acaso no me denunciar imediatamente o insensato? Ah!
    minha pobre Oliva! caro nos custar a mistificao!
    A rapariga desatou a chorar.
    -- E eu, eu, -- disse ela, -- que no consigo ficar sossegada por um
momento! Oh! esprito do diabo! oh! demnio! Estou possessa. Tenho a
certeza de que, depois desta desgraa, acabarei provocando outra.
                       O COLAR DA RAINHA                                  539

   -- No vos desespereis, buscai apenas evitar o escndalo.
   -- Vou trancar-me em casa do meu protetor. E se eu lhe contasse tudo?
   -- Bonita ideia!         Um homem que vos trata a vela de libra,
   dissimulando o seu amor; um homem que s espera de vs uma palavra
   para adorar-vos!       E ainda quereis confessar-lhe que cometestes essa
   imprudncia com outro!       Observai que digo apenas imprudncia; sem
   contar o que le poder suspeitar.
   -- Meu Deus! tendes razo.
   -- H mais: o escndalo vai espalhar-se, a busca dos magistrados despertar
   os escrpulos do vosso protetor. Quem sabe se le para ficar bem na
   corte, no querer entregar-vos?
   -- Oh!
   -- Admitamos que vos enxote pura e simplesmente: que ser de vs?
   -- Estou perdida...
   -- E o Sr. de Beausire, quando souber disso! -- articulou Joana lentamente,
   estudando o efeito do ltimo golpe.
   Oliva deu um pulo. Num gesto violento destruiu todo o edifcio do seu
penteado.
   -- le me matar. No, -- murmurou, -- eu mesma me matarei.
   Logo, voltando-se para Joana:
   -- No podeis salvar-me, -- disse, com desespero, -- porque estais perdida
   tambm.
   -- Tenho, -- replicou Joana, -- no fundo da Picardia, um pedacinho de
   terra, um stio.     Se pudssemos, sem que nos vissem, chegar a esse
   refgio antes do escndalo, talvez nos restasse uma oportunidade...
   -- Mas esse louco vos conhece e saber encontrar-vos.
   -- Depois que houverdes partido, quando estiverdes escondida e no
   fordes encontrvel, j no terei medo do louco.        Dir-Ihe-ei bem alto:
   Sois um insensato afirmando essas coisas; provai-as. E como no lhe ser
   possvel prov-las, acrescentarei baixinho: Sois um covarde!
   -- Partirei quando e como vos aprouver, -- prometeu Oliva.
   -- Creio que  prudente, -- replicou Joana.
   -- Devo partir j?
   -- No, esperai que eu prepare todas as coisas para a viagem. Escondei-
   vos, no vos mostreis, nem mesmo a mim. Disfarai-vos at ao mirar-vos
   no espelho.
   -- Sim, sim, contai comigo, querida amiga.
   -- E, para comear, voltemos; j no temos o que dizer-nos.
   -- Voltemos. De quanto tempo precisais para os preparativos?
540ALEXANDRE DUMAS

    -- No sei; mas prestai ateno: de hoje at ao dia da partida,nem eu sairei
     janela.     Se alguma vez me virdes assomar a ela, entendei que a fuga
    ser para esse dia, e aprontai-vos.
    -- Sim, obrigada, minha boa amiga.
    Voltaram ambas devagarinho para a Rua de So Cludio. Oliva j no se
atrevia a falar, e Joana refletia to profundamente que no se lembrava de faz-
lo.
    Ao chegarem, beijaram-se; Oliva pediu humildemente perdo  amiga por
todas as desgraas que lhe acarretara a sua irreflexo.
    -- Sou mulher, -- retrucou a Sra. de La Motte, parodiando o poeta latino,
-- e todas as fraquezas femininas me so familiares.
                                    LXXII


                                    A fuga



    O QUE Oliva prometeu, cumpriu.
    O que Joana prometeu, fz.
    A partir do dia seguinte, Nicole dissimulou de tal maneira a sua existncia
a todo o mundo, que ningum poderia desconfiar de que ela morasse na casa
e na Rua de So Cludio.
    Escondida sempre atrs de uma cortina ou de um paravento, estava sempre
calafetando a janela, a despeito dos raios de sol que vinham, alegres, mord-la.
    Joana, de seu lado, aprestava tudo; sabendo que no dia imediato se
venceria a primeira prestao de quinhentas mil libras, arranjava-se de modo
que no deixasse atrs de si nenhum ponto vulnervel para o momento em que
estourasse a bomba.
    Esse momento terrvel era a meta ltima de suas observaes.
    Calculara, prudente, a alternativa de uma fuga; mas, embora fcil, essa fuga
seria a mais positiva das acusaes.
    Ficar, ficar imvel como o duelista sob o golpe do adversrio; ficar com a
possibilidade de cair, mas tambm com a possibilidade de matar o inimigo, tal
foi a determinao que tomou.
    Eis porque, j no dia seguinte  entrevista com Oliva, se mostrou, cerca das
duas horas,  janela, indicando  falsa rainha que chegara o momento de
aprontar-se para abalar  noite.
    Fora impossvel descrever a alegria e o terror da rapariga. A necessidade de
fugir significava perigo; mas a possibilidade de fugir significava salvao.
    Mandou um beijo eloquente a Joana e, logo depois, iniciou os preparativos,
enfiando na maletinha alguns dos preciosos objetos do protetor.
    Dado o sinal, Joana saiu de casa  procura do carro a que seria entregue
o importante destino da Srta. Nicole.
    Depois, mais nada: o mais curioso observador no teria podido observar
outra coisa entre os ndices ordinariamente significativos da inteligncia das
duas amigas.
    Cortinas cerradas, janela fechada, luz tardiamente errante. Depois, um ruge-
ruge, uns rumores misteriosos, uma agitao; depois, a sombra e o silncio.
542                         ALEXANDRE DUMAS

    Onze horas da noite soavam na Igreja de So Paulo, e o vento do rio lhe
trazia os sons lugubremente espaados at  Rua de So Cludio, quando Joana
chegou  Rua de So Lus com um carro de posta puxado por trs vigorosos
cavalos.
    Na boleia, um homem encapotado indicava o endereo ao postilo.
    Joana puxou-lhe da ponta da capa e f-lo parar na esquina da Rua do Rei
Dourado.
    O homem desceu para falar-lhe.
    -- O carro ficar aqui, meu caro Sr. Reteau, -- disse Joana, -- cerca de
    meia hora.      Voltarei com algum que fareis conduzir, pagando mudas
    dobradas, at  minha casinha de Amiens.
    -- Sim, Sra. Condessa.
    -- L, entregareis a pessoa ao meu rendeiro Fontaines, que sabe o que tem
    de fazer.
    -- Sim, senhora.
    -- Ah! ia-me esquecendo... estais armado, meu caro Reteau?
    -- Estou, sim, senhora.
    -- Essa dama tem sido ameaada por um louco... pode ser que queiram
    det-la no meio do caminho...
    -- Nesse caso, que farei?
    -- Atirareis a quem quer que se atreva a interromper-vos a marcha.
    -- Sim, senhora.
    -- Pedistes-me vinte luses de gratificao pelo que sabeis; darei cem e
    pagarei a vossa viagem a Londres, onde estarei em menos de trs meses.
    -- Sim, senhora.
    -- Aqui esto os cem luses. Provavelmente no vos tonarei a ver, pois
    seria prudente que fsseis a Saint-Valery e vos embarcsseis imediatamente
    para a Inglaterra.
    -- Contai comigo.
    --  do vosso interesse.
    -- Do nosso, -- emendou o Sr. Reteau, beijando-lhe a mo. Ficarei 
    espera.
    -- E eu vou mandar-vos a dama.
    Reteau ocupou no carro o lugar de Joana, que, ligeira, chegou  Rua de
So Cludio e entrou em casa.
    Tudo estava dormindo no bairro inocente. A condessa acendeu a vela que,
erguida acima do balco, era o sinal para Oliva descer.
    --A moa  precavida, -- observou, vendo a janela escura.
    Ergueu e abaixou trs vezes a vela.
    Nada. Mas pareceu-lhe ouvir como que um gemido ou um sim, atirado
imperceptivelmente ao ar, debaixo da folhagem.
    -- Ela descer no escuro, -- pensou; -- e far bem.
    E desceu tambm  rua.
                       O COLAR DA RAINHA                                  543

    A porta no se abria. Oliva devia estar atrapalhada com alguns pacotes
pesados ou incmodos.
    -- Tola! -- praguejou a condessa; -- quanto tempo perdido por causa de
uns trapos!
    No vinha ningum. Joana atravessou a rua.
    Nada. Ps-se  escuta, encostando o ouvido aos pregos de ferro da porta
fronteira.
    Quinze minutos se passaram; deu meia hora depois das onze.
   Joana afastou-se at ao bulevar para ver de longe se havia luz nas janelas.
    Teve a impresso de que uma suave claridade passeava pelo vazio das
folhas sob as cortinas duplas.
    -- Que  que ela est fazendo?        Misericrdia!   Que estar fazendo a
desgraadinha?      Pode ser que no tenha visto o sinal. Vamos! Coragem,
tornemos a subir.
    E, de feito, voltou para casa, onde fz funcionar de novo o telgrafo das
velas.
    Nenhum sinal respondeu aos seus.
    -- Com certeza, -- pensou, amarfanhando com raiva os punhos de rendas,
-- a idiota est doente e no pode levantar-se. Mas no importa! Viva ou
morta, partir esta noite.
    Tornou a descer a escada com a precipitao de uma leoa perseguida. Tinha
na mo a chave que tantas vezes propiciara a Oliva a liberdade noturna.
    No momento de enfi-la na fechadura, deteve-se.
    -- E se estiver algum com ela l em cima? -- refletiu. -- Impossvel! Eu
ouviria vozes, e sempre teria tempo de descer. E se encontrasse algum na
escada. .. Oh!
   A perigosa suposio quase a fz recuar.
    Mas o estrpito das ferraduras dos seus cavalos sobre as pedras sonoras da
rua decidiu-a.
    -- Sem perigo, -- murmurou, -- no h nada de grande! Com audcia,
nunca h perigo!
   Fz girar a chave na fechadura e a porta se abriu.
   Conhecia a casa; a sua inteligncia lhe teria revelado todas as
particularidades dela se no houvesse reparado nelas quando ia,  noite,
esperar Oliva. E como a escada ficava  esquerda, entrou a galg-la.
   Nenhum rudo, nenhuma luz, ningum.
   Chegou assim ao patamar do apartamento de Nicole.
   Debaixo da porta, lobrigou uma rstea de luz; atrs da porta, ouviu o
rumor de um passo agitado.
    Ofegante, mas abafando a respirao, escutou. No distinguiu vozes. Oliva,
 portanto, devia estar sozinha, andando, arrumando as suas coisas. No estava
 doente; apenas se atrasara.
    Joana arranhou devagarinho a madeira da porta.
544                          ALEXANDRE DUMAS

    -- Oliva! Oliva! -- sussurrou; -- minha amiga, minha amiguinha!...
    s passos aproximaram-se.
    -- Abri! abri! -- ordenou precipitadamente.
    A porta se abriu e um dilvio de luz inundou a condessa, que se viu diante
de um homem com um archote de trs braos. Ela soltou um grito terrvel
escondendo o rosto.
    -- Oliva! -- disse o homem, -- sois vs?
    E ergueu delicadamente a capa da condessa.
    -- Sra. Condessa de La Motte, -- bradou, por seu turno, num tom de
    surpresa admiravelmente natural.
    -- Sr. Cagliostro! -- murmurou Joana, cambaleando, e prestes a desfalecer.
    Entre todos os perigos que pudera imaginar, aquele jamais lhe ocorrera. No
se apresentava muito aterrador  primeira vista, mas depois de refletir um pouco,
observando o ar sombrio e a profunda dissimulao daquele homem estranho,
pareceu-lhe formidvel.
    Sentiu que ia perder a cabea, recuou, teve mpetos de se atirar pela escada
abaixo.
    Cagliostro estendeu-lhe polidamente a mo, convidando-a a sentar-se.
    -- A que devo a honra da vossa visita, senhora? -- perguntou com voz
    firme.
    -- Senhor... -- balbuciou a intrigante, que no conseguia des
    fitar os olhos dos olhos do conde, -- eu vinha... eu estava procurando
    ...
    -- Permiti que eu toque a campainha para mandar castigar os meus
    criados que tiveram o desazo, a grosseria de deixar que se apresentasse
    sozinha uma mulher da vossa qualidade.
    Joana estremeceu. Deteve a mo do conde.
    -- Deve ter sido, -- continuou le, imperturbvel, -- aquele patife do alemo
    que  meu suo, e que costuma embriagar-se. No vos ter reconhecido.
    Com certeza abriu a porta sem dizer nada, sem fazer nada; e ferrou no
    sono depois de abri-la.
    -- No o castigueis, por favor, -- articulou mais livremente Joana, sem
    suspeitar da armadilha.
    -- Foi le mesmo quem abriu, no foi?
    -- Creio que sim... Mas prometestes no lhe fazer nada.
    -- E cumprirei minha palavra, -- volveu o conde, sorrindo. -- Entretanto,
    minha senhora, tende a bondade de explicar-vos.
    Vendo que no suspeitavam de que houvesse aberto a porta sozinha,
entendeu Joana que podia mentir sobre o motivo da sua visita. No deixou
de faz-lo.
    -- Eu vinha, -- disse depressa, -- consultar-vos, Sr. Conde, sobre certos
    rumores que esto correndo.
    -- Que rumores, minha senhora?
                         O COLAR DA RAINHA                                   545

    --           No aperteis comigo, por favor, -- continuou ela, com
    afetao; -- a minha visita  delicada...
    --           Procura! procura! -- pensava Cagliostro; -- procura tu que eu
    j encontrei.
    --           Sois amigo de Sua Eminncia, Monsenhor Cardeal de Rohan,--
                 disse Joana.
    --           Ah! ah! no est mal, -- pensou Cagliostro. -- Vai at ao fim do
    fio que estou segurando; mas no vs mais adiante.
    --           Mantenho, realmente, muito boas relaes com Sua Emi
    nncia, -- conveio le.
    --           E eu vinha, -- prosseguiu Joana, -- pedir-vos uma informao
    sobre...
    --           Sobre. . . -- repetiu Cagliostro, com uma nuana de ironia.
    --           J vos declarei que a minha posio  delicada, no abuseis
    dela. No deveis ignorar que o Sr. de Rohan me demonstra certa afeio,
    e eu quisera saber at que ponto posso contar. .. Enfim, senhor, dizem
    que ledes nas mais espessas trevas dos espritos e dos coraes.
    --           Um pouco mais de luz, minha senhora, -- atalhou o conde,--
                 para que eu possa ler melhor nas trevas do vosso corao e
    do vosso esprito.
    -- Dizem que Sua Eminncia gosta de outra; dizem que Sua Eminncia
coloca muito alto o corao... Dizem at...
    A essa altura Cagliostro fitou em Joana, que quase caiu para trs, um
olhar carregado de raios.
    -- Senhora, -- disse le, -- leio com efeito nas trevas; mas, para ler bem,
preciso de que me ajudem. Tende a bondade de responder a estas perguntas:
Como viestes procurar-me aqui? No  aqui que eu moro.
    Joana estremeceu.
    -- Como entrastes aqui? No h suo bbedo, nem criados nesta parte do
palcio. E se no era eu o objeto da vossa visita, quem procurveis? No
respondeis? -- prosseguiu, encarando com a tremula condessa; -- pois vou
ajudar-vos a inteligncia. Entrastes com uma chave que estou percebendo a,, na
vossa algibeira. Viestes procurar uma moa que, por mera bondade, eu estava
escondendo em minha casa.
    Joana cambaleou como uma rvore arrancada do cho.
    --           E... ainda que tudo isso fosse verdade? -- respondeu com voz
    muito baixa, -- que crime terei cometido? No  permitido a uma mulher
    visitar outra mulher? Chamai-a, que ela vos dir se a nossa amizade tem
    alguma coisa de inconfessvel...
    --           Senhora, -- interrompeu Cagliostro, -- dizeis-me tudo isso por
    que sabeis perfeitamente que ela j no est aqui.
    -- J no est aqui!. . . -- bradou Joana, espavorida. -- Oliva no est mais
aqui?
546                            ALEXANDRE DUMAS

      -- Oh! -- volveu Cagliostro, -- ignorais talvez que ela partiu, vs, que lhe
      facilitastes o rapto?
      -- O rapto! eu! eu! -- bradou Joana, sentindo renascer-lhe a esperana.
      -- Raptaram-na e vs me acusais?
      -- Fao mais: conveno-vos.
      -- Provai-o! -- exclamou, impudente, a condessa.
      Cagliostro pegou num papel que estava sobre uma mesa e mostrou-o:
            "Meu senhor e generoso protetor, -- dizia o bilhete dirigido a le,
         -- perdoai-me se vos deixo; mas amo acima de tudo o Sr. de Beausire;
         le vir buscar-me e eu o seguirei. Aceitai a expresso do meu
         reconhecimento."
      -- Beausire!... -- murmurou Joana, petrificada, -- Beausire...le no
      sabia o endereo de Oliva!
      -- Sabia, sim, senhora, -- retorquiu Cagliostro, mostrando-lhe outro
      papel, que tirou do bolso; -- vede, encontrei este papel na escada ao
      chegar para a minha visita cotidiana. Deve ter cado do bolso do Sr.
      Beausire.
      Leu a condessa, estremecendo:
            "O Sr. de Beausire encontrar a Srta. Oliva na Rua de So
         Cludio, na esquina do bulevar; encontr-la- e a levar incontinenti.
          o conselho de uma amiga bem sincera. O tempo urge."
   -- Oh! -- fz a condessa, amarrotando o papel.
   -- E le levou-a, -- observou friamente Cagliostro.
   -- Quem escreveu este bilhete?
   -- Aparentemente, vs, a amiga sincera de Oliva.
   -- Mas como foi que le entrou aqui? -- rebradou Joana, considerando,
   irada, o impassvel interlocutor.
   -- Acaso no se entra com a vossa chave?
   -- Se ela est comigo, no podia estar com o Sr. Beausire.
   -- Quem tem uma chave pode ter duas, -- replicou Cagliostro, encarando
   nela.
   -- Tendes a peas bem convincentes, -- respondeu lentamente a condessa,
   -- ao passo que eu s tenho suspeitas.
   -- Tambm as tenho, -- revidou Cagliostro, -- e as minhas no valem
   menos do que as vossas, minha senhora.
    E, dizendo essas palavras, despediu-a com um gesto imperceptvel.
   Joana comeou a descer; mas ao longo da escada deserta e sombria que
subira, encontrou vinte candelabros e vinte lacaios, diante dos quais o dono
da casa a chamou em voz alta e por dez vezes: Sra. Condessa de La Motte.
   Saiu, soprando furor e vingana, como o basilisco sopra fogo e veneno.
                                   LXXIII




                              A carta e o recibo

    DIA seguinte correspondia ao ltimo prazo fixado pela prpria rainha
aos ourives Boehmer e Bossange.
    A missiva de Sua Majestade recomendava-lhes circunspeco; esperaram,
portanto, que as quinhentas mil libras lhes chegassem s mos.
    E, como sucede a todos os comerciantes, por mais ricos que sejam, que o
recebimento de quinhentas mil libras  sempre um assunto grave, prepararam
um recibo com a mais imponente das letras.
    Mas o recibo quedou intil; ningum veio troc-lo pelas quinhentas mil
libras.
    Passou-se a noite muito cruelmente para os lapidrios,  espera de um
mensageiro quase inverossmil. Entretanto, refletiram, a rainha tinha ideias
extraordinrias; precisava esconder-se; o seu correio talvez s chegasse depois
da meia-noite.
    A aurora do dia seguinte deu em terra com as suas quimeras. Tomando
finalmente uma resoluo, Bossange largou para Versalhes num carro em
cujo interior j o esperava o scio.
    Pediu para ser levado  presena da rainha. Responderam-lhe que, se no
tivesse carta de audincia, no entraria.
    Surpreso, inquieto, insistiu. Conhecendo a sociedade, tivera o talento de
espalhar, pelas antecmaras, umas pedrinhas de refugo, que nessa ocasio lhe
valeram, colocando-o no caminho de Sua Majestade quando ela regressasse do
passeio a Trianon.
    De feito, fremente ainda da entrevista com Charny, voltava Maria
Antoneta, corao alegre e esprito radiante, quando deu com o rosto um
tanto contrito e profundamente respeitoso de Boehmer.
    Dirigiu-lhe um sorriso, que le interpretou da maneira mais favorvel,
arriscando-se a pedir uma audincia; prometeu-lha a rainha para as duas horas,
isto , para depois do seu jantar. E Boehmer foi levar a excelente notcia a
Bossange, que ficara esperando no carro, e, muito resfriado, no quisera
mostrar  soberana um semblante desgracioso.
548                         ALEXANDRE DOMAS

    -- No h dvida, -- concluram ambos, depois de analisar os menores
gestos, as mnimas palavras de Maria Antonieta, -- no h dvida de que
Sua Majestade tem na gaveta a soma que ontem talvez no tivesse; e marcou
a entrevista para as duas porque, a essa hora, estar sozinha.
    Chegaram a perguntar a si mesmos, como os companheiros da fbula, se
levariam a soma em notas, em ouro ou em prata.
    Quando soaram duas horas, o joalheiro estava em seu posto; levaram-no ao
toucador de Sua Majestade.
    -- Mais alguma novidade, Boehmer? -- perguntou a rainha, assim que o
avistou, ao longe; -- quereis falar-me de jias outra vez? Estais sem sorte.
    Cuidou Boehmer que algum estivesse escondido, que a rainha receasse ser
ouvida. Assumiu, pois, um ar de inteligncia para responder enquanto
relanceava os olhos em torno:
    -- Sim, senhora.
    -- Procurais alguma coisa? -- perguntou ela, espantada. -- Tendes algum
    segredo?
    le no respondeu, meio abafado por aquela dissimulao.
    -- O mesmo segredo de antes: uma jia para vender, -- continuou a
    rainha, -- alguma pea incomparvel? No vos assusteis assim: no h
    aqui ningum que possa ouvir-nos.
    -- Nesse caso. . . -- murmurou Boehmer.
    -- Nesse caso, o qu?...
    -- Posso dizer a Vossa Majestade...
    -- Mas dizei-o depressa, meu caro Boehmer.
    Aproximou-se o joalheiro com um sorriso gracioso.
    -- Posso dizer-lhe que Vossa Majestade ontem nos esqueceu, -- concluiu,
    mostrando os dentes um tanto amarelados, mas sempre benevolentes.
    -- Eu vos esqueci! Como? -- atalhou, surpresa, Maria Antonieta.
    --  que ontem... era o vencimento...
    -- O vencimento!... Que vencimento?
    -- Perdo, Majestade, se me atrevo... Sei perfeitamente que estou sendo
    indiscreto. Vossa Majestade talvez no esteja preparada.        Seria uma
    grande desgraa: mas, enfim...
    -- Ora, essa! Boehmer, -- exclamou a rainha, -- no estou entendendo
    patavina do que me dizeis. Explicai-vos melhor, meu caro.
    -- Vossa Majestade deve ter perdido a memria.  muito natural, no
    meio de tantas preocupaes.
    -- A memria do qu? H de ser outro golpe.
    -- Ontem se venceu a primeira prestao do colar, -- arriscou Boehmer,
    timidamente.
                       O COLAR DA RAINHA                                    549

    --        Vendestes o colar?
    --        Mas... -- balbuciou le, considerando-a estupefato, -- parece-
    me que sim.
    --        Es os compradores no vos pagaram, meu pobre Boehmer?
    Tanto pior. Essa gente deveria ter feito o que fiz; no podendo comprar
    o colar, devia devolv-lo, deixando-vos o dinheiro do sinal.
    --         Como?. .. -- balbuciou o ourives, cambaleando como o viajor
    imprudente que se expe  insolao em terras de Espanha.
    -- Que foi o que Vossa Majestade me fz a honra de dizer?
    --         Digo, meu pobre Boehmer, que, se dez compradores vos de
    volvessem o colar, como eu, deixando-vos cada qual duzentas e
    cinquenta mil libras de sinal, ganhareis dois milhes e ainda ficareis com
    a jia.
    --         Vossa Majestade... -- exclamou o joalheiro, empapado de suor,
    -- diz que me devolveu o colar?
    --         Est claro que o digo, -- replicou tranquilamente a rainha.--
    Que tendes?
    --         Como! -- continuou o lapidrio, -- Vossa Majestade nega
    que me comprou o colar?
    --        Homessa!       Que comdia estamos representando? -- tornou,
    severa, a rainha. -- Porventura estar sempre destinado esse maldito colar a
    fazer girar a cabea de algum?
    --        Mas, -- voltou Boehmer, cujos membros todos tremiam, --
    pareceu-me ter ouvido da prpria boca de Vossa Majestade... que Vossa
    Majestade me havia devolvido, devolvido o colar de brilhantes.
    A rainha considerou-o cruzando os braos.
    --        Felizmente, -- disse ela, -- tenho aqui o com que vos refrescar a
memria, pois sois um homem bem desmemoriado, Sr. Boehmer, para
no dizer coisa mais desagradvel.
    Encaminhou-se diretamente para a cmoda, de onde tirou um papel, que
abriu, percorreu com a vista e estendeu lentamente ao desgraado ourives.
    -- Parece-me que o estilo  suficientemente claro, -- disse ela. E sentou-se
para melhor observ-lo durante a leitura.
    O rosto do joalheiro exprimiu a mais completa incredulidade, depois,
gradativamente, o mais terrvel pavor.
    --        E ento? -- acudiu a rainha. -- Reconheceis ou no este
    recibo, que atesta de to boa forma a devoluo do colar? E, a menos
    que vos tenhais esquecido tambm de que o vosso nome  Boehmer.
    --        Senhora, -- exclamou Boehmer, sufocado de ira e de terror ao
    mesmo tempo, -- no fui eu quem assinou este recibo.
    A rainha deu um passo para trs, fulminando o hpmem com os olhos
coruscantes.
    -- Negai-lo!
550                         ALEXANDRE DUMAS

    -- Absolutamente... Ainda que eu devesse deixar aqui a liberdade, a vida,
    repito que no recebi o colar; repito que no assinei o recibo. Estivesse
    aqui o cepo, estivesse l o carrasco, eu tornaria a dizer: no, Majestade,
    esse recibo no  meu.
    -- Nesse caso, senhor, -- articulou a rainha, empalidecendo levemente,
    -- roubei-vos; estou com o colar?
    Boehmer vasculhou a sua pasta e dela tirou uma carta que estendeu, por
seu turno, a Maria Antonieta...
    -- No creio, senhora, -- respondeu com voz respeitosa, mas alterada pela
    emoo, -- no creio que, se Vossa Majestade tivesse querido devolver o
    colar, escrevesse esta confisso.
    -- Mas que papel  este? -- bradou a rainha, -- nunca escrevi o que est
    a! Acaso  essa a minha letra?
    -- Est assinado, -- tornou Boehmer, pulverizado.
    -- Maria Antonieta de Frana...       Estais louco!     Porventura sou de
    Frana? Acaso no sou arquiduquesa d'ustria? Ento no  absurdo que
    eu tenha escrito uma coisa dessas! Ora, Sr. Boehmer, a cilada  grosseira
    demais; ide diz-lo aos vossos falsrios.
    -- Aos meus falsrios... -- balbuciou o joalheiro, que quase desmaiou
    ouvindo essas palavras. -- Vossa Majestade desconfia de mim, Boehmer?
    -- E vs no desconfiais de mim, Maria Antonieta? -- volveu a rainha
    com altivez.
    -- Mas esta carta, -- objetou le ainda, mostrando o papel que estava nas
    mos dela.
    -- E este recibo, -- replicou ela, mostrando o papel que le continuava
    segurando.
    Boehmer foi obrigado a apoiar-se numa poltrona; a seus ps, o soalho
girava. Aspirava o ar em grandes haustos, e a cr purpurina da apoplexia lhe
substitua no rosto a lvida palidez do desmaio.
    -- Devolvei-me o recibo, -- disse a rainha, -- que o tenho por bom, e ficai
com a vossa carta assinada por Antonieta de Frana; o primeiro procurador
vos dir o que vale a assinatura.
    E, tendo-lhe atirado o bilhete, depois de lhe haver arrancado o recibo das
mos, voltou-lhe as costas e passou a uma pea vizinha, deixando entregue a si
mesmo o desgraado, que j no tinha ideia alguma, e, contra todas as regras da
etiqueta, se deixou cair numa poltrona.
    Entretanto, volvidos alguns minutos, que lhe serviram para recompor-se,
precipitou-se, aturdido, para fora do apartamento e foi ter com Bossange, ao
qual referiu a aventura de modo que se fizesse fortemente suspeitado pelo
scio.
    Mas repetiu to bem e tantas vezes a histria, que Bossange comeou a
arrancar a peruca, ao passo que Boehmer arrancava os
                        O COLAR DA RAINHA                                  551

cabelos, o que constituiu, para as pessoas que passavam e cujos olhos se
enfiavam pelo interior do carro, o mais doloroso e mais cmico dos espetculos
ao mesmo tempo.
    Todavia, como ningum pode passar um dia inteiro dentro de um carro;
como, depois de haver arrancado a peruca ou os cabelos a gente encontra o
crnio, e, debaixo desse crnio se encontram ou devem encontrar-se ideias, os
dois ourives encontraram a de se reunirem para forar, se possvel, a porta da
rainha e obter o que quer que semelhasse uma explicao.
    Enderearam-se, pois, ao castelo, num lamentvel estado, quando foram
encontrados por um dos oficiais de Sua Majestade, encarregado de procur-los.
Figure-se a alegria e o zelo com que se apressaram a obedecer ao chamado.
    Foram introduzidos sem demora.
                                     LXXIV


                Roi Ne Puis, Prince Ne Daigne, Rohan Je Suis.'


    A RAINHA parecia esperar com impacincia; por isso mesmo tanto que
avistou os joalheiros:
     -- Ah! Aqui est o Sr. Bossange, -- disse, vivamente; -- fostes buscar
reforo, Boehmer, tanto melhor!
    Boehmer no tinha o que dizer; estava pensando muito. O melhor que
se pode fazer em casos semelhantes,  gesticular; o ourives atirou-se aos ps de
Maria Antonieta.
    O gesto era expressivo.
    Bossange imitou-o.
    -- Senhores, -- disse a rainha, -- agora estou calma e no tornarei a irritar-
    me. Ocorreu-me, alis, uma ideia que modifica os meus sentimentos em
    relao a vs. No h dvida nenhuma de que em todo este negcio
    estamos sendo, vs e eu, vtimas de um misteriozinho. . . que j no 
    mistrio para mim.
    -- Ah! Senhora! -- exclamou Boehmer, entusiasmado por essas palavras,
    -- isso quer dizer que Vossa Majestade j no desconfia de que eu...
    fiz...    Oh! Como  horrvel de pronunciar-se a palavra falsrio!
    -- Se para vs  duro pronunci-la, para mim no o  menos ouvi-la, --
    disse a rainha. -- No, j no desconfio de vs.
    -- Nesse caso, Vossa Majestade desconfia de algum?
    -- Respondei s minhas perguntas.          Afirmais que j no tendes os
    brilhantes?
    -- J no os temos, -- responderam ao mesmo tempo os dois joalheiros.
    -- Pouco vos importa saber a quem eu os havia confiado para que vo-los
    entregasse. Isso  comigo. Acaso no vistes... a Sra. Condessa de La
    Motte?
    -- Perdo, senhora, vimo-la...
    -- E ela no vos deu nada... de minha parte?
    -- No, senhora. A Sra. Condessa nos disse apenas: Esperai.

   1. Divisa dos Rohans: "No posso ser rei, no quero ser prncipe, basta-
me o ser Rohan". Eis a uma tentativa de verso de uma frase difcil de
traduzir-se. (N. do T.).
                          O COLAR DA RAINHA                                 553

    --          Mas quem vos entregou a carta?
    --          Esta carta? -- repetiu Boehmer; -- a que Vossa Majestade
    teve em mos, esta aqui, um mensageiro desconhecido levou-a  nossa
    casa durante a noite.
    E mostrava a carta falsa.
    --Ah! Ah! -- fz a rainha; -- como vedes, ela no partiu
diretamente de mim.
    Tocou a sineta e um lacaio apareceu.
    --          Mandai chamar a Sra. Condessa de La Motte, -- ordenou,
    tranquilamente.
    --          E, -- continuou, com a mesma calma, -- no vistes ningum, no
    vistes o Sr. de Rohan?
    --          O Sr. de Rohan veio visitar-nos e informar-se...
    --          Muito bem! -- replicou a rainha; -- no vamos mais longe;
    desde que o Sr.Cardeal de Rohan est metido no negcio, no deveis
    desesperar-vos. J adivinhei: Ao dizer-vos a palavra Esperai, a Sra. de La
    Motte ter querido... No, no adivinho nada, nem quero adivinhar...
    Ide apenas procurar o Sr. Cardeal, e contai-lhe o que acabais de dizer-me;
    no percais tempo e acrescentai que estou a par de tudo.
    Reanimados por essa chamazinha de esperana, entreolharam--se os
joalheiros com semblante menos aterrado.
    Mas Bossange, que tambm queria dizer alguma coisa, arriscou, baixinho:
    --No entanto, Vossa Majestade tem em mos o recibo falso,
e toda falsificao  crime.
    Maria Antonieta franziu o cenho.
    --           verdade, -- conveio, -- que, se no recebestes o colar, este
    recibo constitui uma falsificao. Mas para verific-la,  indispensvel que
    eu vos acareie com a pessoa que encarreguei de entregar-vos os brilhantes.
    --          Quando quiser Vossa Majestade, -- bradou Bossange; -- os
    comerciantes honestos no tm medo da luz.
     --Pois ide buscar luz junto do Sr. Cardeal, o nico que pode esclarecer-
nos em tudo isto.
     --E Vossa Majestade nos permitir trazer-lhe a resposta? -- perguntou
Boehmer.
     --Fic-la-ei conhecendo antes de vs; sou eu quem resolver as vossas
dificuldades. Ide.
    Dispensou-os e, depois que partiram, entregando-se  sua inquietao,
mandou um correio atrs do outro  procura da Sra. de La Motte.
    No a seguiremos nas buscas e suspeitas; deix-la-emos, pelo contrrio, para
melhor correr com os joalheiros ao encontro da to desejada verdade.
554                          ALEXANDRE DUMAS

    O cardeal estava em casa, lendo, com raiva indescritvel, uma cartinha que a
Sra. de La Motte acabava de mandar-lhe de Versalhes, segundo ela mesma
dizia. A carta era dura, tirava ao cardeal toda e qualquer esperana,
aconselhando-o a no pensar mais no assunto, proibindo-o de reaparecer
familiarmente em Versalhes e apelando para a sua lealdade no sentido de que
no tentasse reatar relaes que se haviam tornado impossveis.
    Relendo estas palavras, o prncipe fremia; examinava letra por letra; parecia
pedir contas ao papel das durezas que lhe escrevia a mo cruel.
    -- Scia, caprichosa, prfida, -- bradava, no seu desespero; --
oh! hei de vingar-me.
    E acumulava todas as trivialidades que aliviam os coraes fracos em seus
padecimentos de amor, mas que os no curam do prprio amor.
    -- Eis aqui, -- dizia, -- quatro cartas que ela me escreve, cada
qual mais injusta e mais tirnica do que a outra.        Quis-me por capricho!
 uma humilhao que eu dificilmente lhe perdoaria, se ela no me
sacrificasse a um capricho novo.
    E o desditoso iludido relia com o furor da esperana todas as cartas, cujo
rigor obedecia a uma arte implacvel de proporo.
    A ltima era uma obra-prima de barbrie, que havia literalmente
traspassado o corao do pobre cardeal; e le, contudo, amava a tal ponto, que,
por esprito de contradio, se comprazia em ler, reler e tresler as frias
durezas mandadas de Versalhes, no dizer da Sra. de La Motte.
    Foi nesse momento que se apresentaram os joalheiros em sua casa.
    Surpreendeu-o a insistncia deles em querer ser recebidos. Escorraou trs
vezes o lacaio, que voltou  carga pela quarta vez, para repetir a declarao de
Boehmer e Bossange de que s se retirariam obrigados pela fora.
    -- Que significa isso? -- pensou o prelado. -- Faze-os entrar.
    Entraram. Os seus rostos transtornados eram indcio do rude combate que
tinham precisado manter moral e fisicamente. Se haviam conseguido sair
vencedores de um desses combates, tinham sido derrotados em outro. Nunca
dois crebros mais desarranjados se viram na contingncia de funcionar diante
de um prncipe da Igreja.
    -- Em primeiro lugar, -- bradou ao v-los o cardeal, -- que brutalidade 
essa, senhores joalheiros? Acaso vos devem aqui alguma coisa?
    O tom do intrito gelou de terror os dois associados.
    -- Dar-se- que as cenas de l vo repetir-se aqui? -- perguntou Boehmer
com o canto dos olhos ao scio.
                        O COLAR DA RAINHA                                   555

    -- No! no! -- respondeu este ltimo, arrumando a peruca com um
movimento belicoso, -- em quanto a mim, estou decidido a resistir a todos os
assaltos.
    E deu um passo quase ameaador, enquanto Boehmer, mais prudente,
ficava para trs.
    O cardeal achou que os dois estavam loucos e disse-lhos claramente.
    -- Monsenhor, -- bradou o desesperado Boehmer, intercalando cada slaba
    com um suspiro, -- justia! misericrdia! poupai-nos a raiva e no nos
    obrigueis a faltar com o respeito ao maior, ao mais ilustre dos prncipes.
    -- Senhores, ou no estais loucos, e sereis atirados pela janela, -- atalhou
    o cardeal, -- ou estais loucos, e sereis postos simplesmente no olho da
    rua. Escolhei.
    -- Monsenhor, no estamos loucos: estamos roubados.
    -- E que tenho eu com isso? -- volveu o Sr. de Rohan; -- no sou Chefe
    de Polcia.
    -- Mas tivestes o colar entre as mos, Monsenhor, -- soluou Boehmer;
    -- ireis depor em juzo, Monsenhor, ireis...
    -- Tive o colar? -- repetiu o prncipe... -- Foi ento o ..colar que
    roubaram?
    -- Sim, Monsenhor.
    -- Pois bem! e que disse a rainha? -- bradou o cardeal, fazendo um gesto
    interessado.
    -- Mandou que vos procurssemos, Monsenhor.
    -- Sua Majestade  muito amvel. Mas que posso fazer?
    -- Tudo, Monsenhor: podeis dizer o que foi feito do colar.
    -- Eu?
    -- Sem dvida.
    -- Meu caro Sr. Boehmer, podereis falar-me nesses termos se eu
    pertencesse ao bando de ladres que roubaram o colar da rainha.
    -- No foi dela que o roubaram.
     -- De quem foi, ento, meu Deus?
     -- A rainha nega que tenha ficado com le.
     -- Nega? Como! -- exclamou o cardeal, depois de hesitar; --no tendes
     um recibo assinado por ela?
     -- Sua Majestade afirma que o recibo  falso.
     -- Homessa! -- rebradou o cardeal, -- estais perdendo a cabea, senhores!
     --  verdade, -- disse Boehmer a Bossange, que respondeu com um triplo
     assentimento.
     -- A rainha ter negado, -- tornou o cardeal, -- porque havia algum
     junto dela quando lhe falastes.
     -- No havia ningum, Monsenhor. Mas isso ainda no  ludo.
     -- H mais?
556                          ALEXANDRE DUMAS

   -- A rainha no somente negou, no somente afirmou que a confisso era
   falsa, como tambm nos mostrou um recibo provando que havia devolvido o
   colar.
   -- Um recibo vosso? -- voltou o cardeal. -- E esse recibo?
   --  falso, como o outro, Sr. Cardeal. Sabei-lo muito bem.
   -- Falso... Duas falsificaes... E dizeis que sei muito bem?
   -- Naturalmente, visto que fstes  nossa casa para confirmar o que nos
   dissera a Sra. de La Motte; pois sabeis perfeitamente que tnhamos vendido o
   colar e que le estava em poder da rainha.
   -- Vamos a ver, -- disse o cardeal, passando a mo pela testa.
--     Tudo isso me parece muito grave.          Entendamo-nos.       Recapitulemos
primeiro as minhas transaes convosco.
   -- Sim, Monsenhor.
   -- Em primeiro lugar, a compra que fiz, para Sua Majestade, de um colar, por
   conta do qual vos entreguei duzentas e cinqenta mil libras.
   --  verdade, Monsenhor.
   -- Em seguida, a venda subscrita diretamente pela rainha, segundo me
   dissestes, com prazos fixados por ela e sob a responsabilidade da sua
   assinatura.
   -- Da sua assinatura...  esta a assinatura da rainha, Monsenhor?
   -- Mostrai-ma.
   -- Ei-la.
    Os joalheiros tiraram a carta da pasta. O cardeal passou-a pelos olhos.
   -- Sois umas perfeitas crianas!... -- bradou. -- Maria Antonieta de Frana...
   Por ventura a rainha no  filha da casa de ustria? Fstes roubados: a letra e
   a assinatura so falsas!
    -- Mas ento, -- gritaram os ourives no auge da exasperao, --       a Sra. de
    La Motte deve conhecer o falsrio e o ladro!
    A procedncia da afirmativa impressionou o cardeal.
   -- Chamemos a Sra. de La Motte, -- exclamou perturbadssimo.
    E tocou a sinta, como a rainha.
    Os seus criados precipitaram-se ao encalo de Joana, cujo carro ainda no
podia estar muito longe.
    Entrementes, Boehmer e Bossange, alapardando-se, como lebres no covil, nas
promessas da rainha, repetiam:
    --       Onde est o colar? Onde est o colar?
    --       Assim me acabareis deixando surdo, -- observou o cardeal mal-
    humorado. -- Como vou saber onde est o colar? A nica coisa que sei  que
    eu mesmo o entreguei  rainha.
    --       Se no recebermos o dinheiro queremos o colar! -- repetiam os
negociantes.
                         O COLAR DA RAINHA                                   557


   -- Isso no  comigo, senhores, -- repetia o cardeal, fora de si, pronto para
   jogar na rua os dois credores.
   -- A Sra. de La Motte! A Sra. Condssa! -- clamaram Boehmer e
   Bossange, roucos de desespero, -- foi ela quem nos perdeu!
   -- No permito que suspeiteis da probidade da Sra. de La Motte, sob pena
   de serdes justiados em minha prpria casa.
   -- Mas, afinal, h de haver um culpado, -- acudiu Boehmer em tom
   lamentvel. -- Essas duas falsificaes foram feitas por algum!
   -- Por mim, talvez? -- tornou, sobranceiro, o Sr. de Rohan.
   -- Longe de ns essa idia, Monsenhor.
   -- E ento?
   -- Ento, Monsenhor, pedimos uma explicao, pelo amor de Deus!
   -- Esperai que eu mesmo receba alguma.
   -- Mas que responderemos  rainha, Monsenhor? Sua Majestade tambm
   est gritando contra ns.
   -- E que diz ela?
   -- Que o colar est convosco ou com a Sra. de La Motte; com ela  que
   no est.
   -- Pois bem! -- bradou o cardeal, plido de vergonha e de clera, -- dizei
    rainha que. .. No, no lhe digais coisa alguma. Chega de escndalos. Mas
   amanh... amanh, estais ouvindo? oficiarei na capela de Versalhes; ide
   tambm e me vereis procurar Sua Majestade, falar-lhe, perguntar-lhe se no
   tem o colar, e ouvir--lhe-eis a resposta; se, diante de mim ela negar. . .
   ento, senhores, sou Rohan: pagarei!
   E, pronunciadas essas palavras com uma altaneira de que a simples prosa
no pode dar idia, dispensou os dois associados, que partiram as arrecuas,
tocando-se com o cotovelo.
   -- At amanh, ento, -- balbuciou Boehmer. -- No , Monsenhor?
At amanh, as onze, na capela de Versalhes, -- respondeu o cardeal.
                                     LXXV


                             Esgrima e diplomacia

    NO DIA seguinte entrava em Versalhes, cerca das dez horas, um carro
com as armas do Sr. de Breteuil.
    Os leitores deste livro, que se lembram da histria de Blsamo e de Gilberto,
no devem ter esquecido que o Sr. de Breteuil, rival e inimigo pessoal do Sr.
de Rohan, aguardava, havia muito, a primeira ocasio para desferir um
golpe mortal no inimigo.
   A diplomacia leva a palma  esgrima nisto: na ltima cincia, uma resposta,
boa ou m, precisa ser dada num segundo, ao passo que os diplomatas tm
quinze anos, ou mais se fr necessrio, para pensar no golpe que desferem e
aperfeio-lo quanto possvel.
   Uma hora antes, o Sr. de Breteuil pedira audincia ao rei e encontrara Sua
Majestade vestindo-se para ir  missa.
   -- Lindo tempo! -- disse Lus XVI muito alegre, assim que o diplomata
   lhe entrou no gabinete; -- um verdadeiro dia de Assuno; vede, no h
   uma nuvem no cu.
   -- Pois lamento muito, Sire, trazer uma nuvem para a sua
   tranquilidade, -- respondeu o ministro.
   -- Pronto! -- exclamou o rei, careteando, -- comea mal o dia; que
   aconteceu?
   -- Sinto-me profundamente embaraado, Sire, para contar-lhe, tanto mais
   que,  primeira vista, o assunto no  da alada do meu ministrio. 
   uma espcie de roubo, e devia dizer respeito ao Chefe de Polcia.
   -- Um roubo! -- tornou o rei. -- Sois o Ministro da Justia, e os ladres
   acabam sempre encontrando a justia. Isso diz respeito ao Sr. Ministro da
   Justia; falai.
   -- Pois bem, Sire, eis o de que se trata. Vossa Majestade no ouviu falar
   num colar de brilhantes?
   -- O colar do Sr. Boehmer?
   -- Exatamente.
   -- O que a rainha recusou?
   -- Precisamente.
   -- Recusa que me valeu um belo navio: o Suffren, -- observou o rei,
   esfregando as mos.
                                O COLAR DA RAINHA                             559

    -- Pois bem, Sire! -- continuou o Baro de Breteuil, insensvel ao mal que
ia causar, -- o colar foi roubado.
     --        Ah! tanto pior, tanto pior, -- voltou o rei. -- Era caro; mas os
brilhantes so reconhecveis.        Cort-los seria perder o fruto do roubo.
Ficaro inteiros e a polcia tornar a encontr-los.
    -- Sre, -- atalhou o Baro de Breteuil, -- no se trata de um roubo
    comum. H uns rumores no meio da histria.
    -- Rumores! que quereis dizer?
    -- Dizem, Sire, que a rainha ficou com o colar.
    -- Ficou, como? Em minha presena o recusou, sem querer sequer olhar
    para le! Loucuras, absurdezas, baro; a rainha no ficou com o colar.
    -- Sire, no me servi da palavra adequada; as calnias so sempre to
    cegas em relao aos soberanos que a expresso  demasiado contundente
    para ouvidos reais. A palavra ficou...
    -- Ora, essa! Sr. de Breteuil, -- sobreveio o rei, com um sorriso, -- no
    diro, com certeza, que a rainha furtou o colar de brilhantes.
    -- Sire, -- acudiu vivamente o Sr. de Breteuil, -- esto dizendo que a rainha
    reencetou em secreto o negcio desfeito por ela diante de Vossa Majestade;
    esto dizendo, e creio no me ser preciso repetir a Vossa Majestade que o
    meu respeito e o meu devotamento desprezam totalmente essas infames
    suposies; esto dizendo que os joalheiros possuem, do prprio punho
    de Sua Majestade, um recibo atestando que ela est com o colar.
    Empalideceu o rei.
    -- Esto dizendo isso! -- repetiu. -- Mas que  o que no dizem? Em todo o
caso, a histria me surpreende, pois ainda que a rainha houvesse comprado
particularmente o colar, eu no lho recriminaria.  mulher e o colar  uma
jia rara e maravilhosa. Graas a Deus, ela pode gastar, se quiser, um milho e
meio para enfeitar-se, que no a censurarei.          Neste caso, ter cometido
apenas um erro, o de ocultar-me o seu desejo. Mas no cabe ao rei meter-se
nesse negcio; cabe ao marido. O marido ralhar a mulher se quiser, ou
puder: no reconheo a ningum o direito de intervir, nem mesmo com uma
maledicncia.
    Inclinou-se o baro diante destas palavras to nobres e vigorosas. Lus
XVI, todavia, tinha apenas a aparncia da firmeza. Um momento depois de
hav-la manifestado, voltava mostrar-se indeciso, inquieto.
    -- Alm disso, -- prosseguiu, -- por que falastes em roubo?...Parece-me
    que usastes a palavra... Se tivesse havido roubo, o colar no estaria nas
    mos da rainha. Sejamos lgicos.
    -- Vossa Majestade gelou-me com a sua clera, -- disse o baro, -- e no
    pude concluir.
560                         ALEXANDRE DUMAS

   -- Oh! a minha clera!...         Eu, encolerizado!...        Quanto a isso,
baro... baro...
   E o bom do rei abriu a rir estrepitosamente.
   -- Continuai, e dizei-me tudo; dizei-me at que a rainha vendeu o colar a
   judeus. Pobre mulher, precisa muitas vezes de dinheiro e nem sempre
   lho dou.
   -- Eis precisamente o que eu ia ter a honra de dizer a Vossa Majestade.
   A rainha havia mandado pedir, h dois meses, quinhentas mil libras por
   intermdio do Sr. de Calonne, e Vossa Majestade recusou-se a assinar.
   --  verdade.
   -- Pois bem!       Sire, esse dinheiro, dizem, serviria de pagar a primeira
   prestao do colar. No recebendo o dinheiro, a rainha no quis pagar.
   -- E ento? -- perguntou o rei, que a pouco e pouco se ia interessando,
   como acontece quando  dvida sucede um princpio de verossimilhana.
   -- Ento, Sire, a principia a histria que o zelo me obriga a relatar a
   Vossa Majestade.
   -- Como! a histria principia a! Mas que ter acontecido, Santo Deus!
   -- exclamou o monarca, revelando dessarte a sua perplexidade aos olhos
   do baro, que, a partir desse momento, conservou a vantagem obtida.
   -- Sire, esto dizendo que a rainha procurou algum para obter o dinheiro.
   -- Quem? Algum judeu?
   -- No, Sire, um judeu, no.
   -- Oh! meu Deus! estais-me dizendo isso com um ar estranho, Breteuil.
   Mas j adivinhei; uma intriga estrangeira: a rainha pediu o dinheiro ao
   irmo,  famlia. H nisso o dedo austraco.
   Por a se v o quanto era susceptvel o rei tocante  corte de Viena.
   -- Melhor fora que o tivesse feito, -- replicou o Sr. de Breteuil.
   -- Como!        Melhor fora!      Mas a quem ter podido a rainha pedir
   dinheiro emprestado?
   -- Sire, no me atrevo...
   -- Estais-me surpreendendo, senhor, -- atalhou o rei reerguendo a cabea e
   reassumindo o tom real: -- Falai imediatamente, por favor, e nomeai-me
   esse emprestador de dinheiro.
   -- O Sr. de Rohan, Sire.
   -- Homessa! e no vos correis de citar-me o Sr. de Rohan, o homem mais
   arruinado deste reino!
   -- Sire... -- tornou o Sr. de Breteuil, abaixando os olhos.
                      O COLAR DA RAINHA                                 561

-- Eis a um ar que me desagrada, -- ajuntou Sua Majestade; -- e vs vos
explicareis daqui a pouco, Sr. Ministro da Justia.
-- No, Sire; por nada deste mundo, pois nada no mundo me foraria a
deixar cair dos lbios uma palavra capaz de comprometer a honra do meu
rei e a da minha soberana.
Lus XVI franziu o cenho.
-- Estamos descendo muito baixo, Sr. de Breteuil, -- volveu le; -- esse
relatrio policial acha-se todo impregnado dos vapores da sentina de que
saiu.
-- Toda calnia exala miasmas mortais, Sire, e  por isso que os reis
precisam purificar-se, e por grandes meios, se no quiserem que a sua honra
seja sufocada por esses venenos, at sobre o trono.
-- O Sr. de Rohan! -- murmurou o rei; -- mas que verossimilhana?...
O cardeal permite que se diga?...
-- Vossa Majestade se convencer de que o Sr. de Rohan andou em tratativas
com os joalheiros Boehmer e Bossange; que o negcio da venda foi acertado
por le; que foi le quem estipulou e aceitou
as condies de pagamento.
-- Francamente! -- bradou o rei, perturbado pelo cime e pela clera.
--  um fato que poder ser provado pelo mais simples interrogatrio.
Comprometo-me com Vossa Majestade a faz-lo.
-- Comprometeis-vos a prov-lo?
-- Cabalmente e sob a minha responsabilidade, Sire.
O soberano entrou a caminhar rapidamente no seu gabinete.
-- Coisas terrveis, -- repetia; -- no obstante, ainda no vejo o roubo
de que falastes.
-- Sire, os joalheiros tm um recibo assinado, segundo dizem, pela rainha,
e entendem que a rainha deve ter o colar.
-- Ah! -- bradou o rei, com uma exploso de esperana; -- mas ela
nega! Vs mesmos dissestes que ela nega, Breteuil.
-- Ora, Sire! acaso deixei alguma vez supor Vossa Majestade que no
estou persuadido da inocncia da rainha? Serei, acaso, to lamentvel
criatura para que Vossa Majestade no tenha visto o respeito, o amor que
trago no corao pela mais pura das mulheres?
-- Nesse caso, estais acusando apenas o Sr. de Rohan...
-- Sire, as aparncias...
 --       Grave acusao, baro.
-- Que redundar talvez numa investigao; mas a investigao 
indispensvel.      Imagine, Sire, que a rainha afirma no ter o colar; que
os joalheiros afirmam t-lo vendido  rainha; que o colar no se encontra,
e que a palavra roubo j foi pronunciada pelo povo, entre o nome do Sr.
de Rohan e o nome sagrado da rainha.
562                           ALEXANDRE DUMAS

    --  verdade,  verdade, -- conveio o rei, completamente trans
    tornado; -- tendes razo, Breteuil; cumpre que o negcio seja escla
    recido.
    -- Completamente, Sire.
    -- Meu Deus! quem est passando l em baixo, na galeria?
    No  o Sr. de Rohan que se dirige para a capela?
    -- Ainda no, Sire; o Sr. de Rohan no pode ir agora para
    a capela. No so onze horas e, de mais a mais, o Sr. de Rohan,
    que hoje vai oficiar, estaria revestido de suas vestes pontifcias. No
     le quem est passando. Vossa Majestade dispe ainda de meia hora.
    -- Que fazer ento? falar-lhe? mand-lo chamar?
    -- No, Sire; permita Vossa Majestade que eu lhe d um con
    selho; no deixe que o caso transpire antes de haver conversado
    com Sua Majestade a rainha.
    -- Sim, -- assentiu o rei, -- ela me dir a verdade.
    -- No tenhamos dvida, Sire.
    -- Vamos a ver, baro, colocai-vos a e, sem reservas, sem ate
    nuaes, contai-me todos os fatos, todos os comentrios.
    -- Tenho tudo pormenorizado nesta pasta, com as respectivas
    provas.
    -- Ento, mos  obra! Esperai apenas que eu mande fechar
    a porta do gabinete; eu tinha duas audincias hoje cedo: sero
    adiadas.
    O monarca deu as suas ordens e, tornando a sentar-se, dirigiu um ltimo
olhar pela janela.
    -- Desta vez, -- disse le, --  o cardeal mesmo; olhai.
    Breteuil levantou-se, aproximou-se da janela e, por trs da cortina, avistou o
Sr. de Rohan, que, com as vestes de cardeal e arcebispo, se encaminhava para
os aposentos que lhe reservavam sempre que vinha oficiar solenemente em
Versalhes.
    -- Ei-lo enfim chegado, -- exclamou o rei, levantando-se.
    -- Tanto melhor, -- acudiu o Sr. de Breteuil, -- a explicao no sofrer
    delongas.
    E entrou a fornecer ao rei todas as informaes que pode reunir o zelo de
ura homem empenhado na runa de outro.
    Uma arte infernal juntara-lhe na pasta quanto pudesse arrazar o cardeal.
Via o rei acumularem-se, umas sobre as outras, todas as provas da culpabilidade
do Sr. de Rohan, mas desesperava-se de no ver chegarem com suficiente
rapidez as provas da inocncia da rainha.
    Fazia um quarto de hora que estava sofrendo, impaciente, esse suplcio,
quando, de repente, se ouviram gritos na galeria vizinha.
                        O COLAR DA RAINHA                               563

   O rei fitou os ouvidos, Breteuil interrompeu a leitura. Um oficial veio
bater  porta do gabinete.
   -- Que foi? -- perguntou o soberano, que tinha os nervos  flor da pele,
desde que o Sr. de Breteuil iniciara as suas revelaes.
   Apresentou-se o oficial.
   -- Sire, Sua Majestade a rainha pede-lhe que faa o obsquio de passar
   pelos aposentos dela.
   -- Temos novidade, -- observou o monarca, empalidecendo.
   -- Talvez, -- murmurou Breteuil.
   -- Vou ao apartamento da rainha, -- anunciou o rei. -- Esperai-nos
   aqui, Sr. de Breteuil.
   -- Estamos chegando ao desenlace, -- disse entre si o Ministro da
   Justia.
                                  LXXVI


                         Fidalgo, Cardeal e Rainha

    NO MOMENTO em que o Sr. de Breteuil entrava  presena de el-
rei, o Sr. de Charny, plido, agitado, pedira audincia  rainha.
    Maria Antonieta estava-se vestindo; viu, pela janela do toucador que dava
para o terrao, Charny, que insistia em ser introduzido.
    Ordenou que o fizessem entrar, antes at que le houvesse concludo o
pedido.
    Cedia  necessidade do corao; dizia consigo mesma, com nobre altivez,
que um amor puro e imaterial, como o seu, tem o direito de entrar a
qualquer hora at no palcio das rainhas.
    Charny entrou, tocou, trmulo, a mo que lhe estendia Maria Antonieta e,
com voz sufocada:
    -- Ah! senhora, -- disse le, -- que desgraa!
    -- Que tendes? -- exclamou ela, empalidecendo ao ver to plido o seu
    amigo.
    -- Senhora, sabe o que acabo de saber?         Sabe o que esto dizendo?
    Sabe o que o rei talvez j saiba, ou saber amanh?
    Ela estremeceu, pensando na noite de castas delcias, em que talvez um
olhar enciumado, inimigo, a tivesse surpreendido no parque de Versalhes em
companhia de Charny.
    -- Dizei tudo, sou forte, -- respondeu, levando a mo ao corao.
    -- Dizem, senhora, que Vossa Majestade comprou um colar de Boehmer e
    Bossange.
    -- J o devolvi, -- replicou ela, vivamente;
    -- Oua: dizem que Vossa Majestade simulou devolv-lo, esperando poder
    pag-lo, mas que o rei a impediu de faz-lo recusando-se a assinar uma
    ordem de pagamento apresentada pelo Sr. De Calonne; e que, ento,
    Vossa Majestade se dirigiu a algum para conseguir o dinheiro, e essa
    pessoa ... seu amante.
    -- Vs! -- exclamou a rainha com um gesto de sublime confiana. --
    Vs! senhor! deixai falar os que dizem isso. O ttulo de amante no 
    para eles injria to grata a lanar quanto  grata verdade, doravante
    consagrada entre ns, o ttulo de amigo.
                         O COLAR DA RAINHA                                  565

    Deteve-se Charny, confundido por aquela mscula e fecunda eloquncia, que
exala o verdadeiro amor, como o perfume essencial do corao de toda mulher
generosa.
    Mas o tempo que levou para responder duplicou a inquietude da
rainha. Bradou ela:
    -- De que pretendeis falar, Sr. de Charny?            A calnia usa uma
    linguagem que jamais consigo compreender.                   Porventura a
    compreendestes?
    -- Senhora, digne-se ouvir com ateno, que a circunstncia  grave.
    Ontem, fui em companhia de meu tio, o Sr. de Suffren,  casa dos
    joalheiros da coroa, Boehmer e Bossange. Meu tio trouxe brilhantes da
    ndia.    Queria mand-los avaliar.   Falou-se de tudo e de todos.     Os
    ourives referiram ao Sr. Bailio uma histria horrvel comentada pelos
    inimigos de Vossa Majestade.      Estou desesperado; se Vossa Majestade
    comprou o colar, diga-mo; se o no pagou, diga-mo tambm. Mas no
    me deixe acreditar que o Sr. de Rohan o pagou pela rainha.
    -- O Sr. de Rohan! -- bradou Maria Antonieta.
    -- Sim, o Sr. de Rohan, tido por amante da rainha; o homem a quem a
    rainha pede dinheiro emprestado; o homem que um desgraado que se
    chama Charny viu no parque de Versalhes, sorrindo para a rainha,
    ajoelhando-se diante dela, beijando-lhe as mos; o homem...
    -- Senhor, -- exclamou Maria Antonieta, -- se acreditais nessas coisas na
    minha ausncia,  porque no me amais quando estou presente.
    -- Oh! -- replicou o rapaz, -- h um perigo iminente; no venho pedir-
    lhe franqueza nem coragem, venho suplicar-lhe que me faa um favor.
    -- Em primeiro lugar, fazei-me o obsquio de dizer que perigo  esse.
    -- Que perigo?          S um insensato, senhora,        no o adivinha.
    Responsabilizando-se pela rainha, pagando pela rainha, o cardeal perde a
    rainha. No lhe falo aqui do mortal desagrado que pode causar ao Sr. de
    Charny a confiana que lhe inspira o Sr. de Rohan. No. Dessas dores
    morremos, mas no nos queixamos.
    -- Estais louco! -- volveu Maria Antonieta encolerizada.
     --       No estou louco, senhora, mas Vossa Majestade est desgraada,
est perdida. Vi-a no parque. . . E digo-lhe que no me enganara. Hoje
explodiu a horrvel, a mortal verdade... O Sr. de Rohan gaba-se talvez...
     A rainha agarrou o brao de Charny.
     --       Louco! louco! -- repetiu, com inexprimvel angstia, -- acreditai
no dio, acreditai em sombras, acreditai no impossvel; mas, pelo amor de
Deus! depois do que eu vos disse, no me acrediteis
566                         ALEXANDRE DUMAS


culpada... Culpada! essa palavra me faria jogar-me num braseiro ardente...
Culpada... com... Eu que nunca pensei em vs sem pedir a Deus que me
perdoasse esse pensamento, que me parecia um crime! Oh! Sr. de Charny, se
no me quiserdes ver hoje perdida, morta amanh, no torneis a dizer que
suspeitais de mim ou ento fugi para to longe que no possais ouvir sequer
o rudo da minha queda no momento da minha morte. Oliveiros retorcia as
mos com angstia.
   -- Oua-me, Majestade, -- rogou, -- se quer que eu lhe preste um servio
   eficaz.
   -- Um servio de vs! -- bradou a rainha, -- de vs, mais cruel do que os
   meus inimigos... pois eles apenas me acusam, ao passo que vs suspeitais
   de mim!       Um servio do homem que me despreza? Nunca... senhor,
   nunca!
   Aproximou-se Oliveiros e tomou-lhe as mos.
   -- Vossa Majestade ver, -- disse le, -- que no sou homem que geme
   ou chora; os momentos so preciosos: hoje  noite j seria tarde demais
   para fazermos o que temos de fazer. Quer sal var-me do desespero e
   salvar-se, ao mesmo tempo, do oprbrio?...
   -- Senhor!...
   -- No medirei palavras em face da morte. Se Vossa Majestade no me
   ouvir, garanto-lhe que esta noite estaremos ambos mortos, a senhora de
   vergonha e eu de t-la visto morrer. Vamos direto ao inimigo, como nas
   nossas batalhas! Direto ao perigo! Direto  morte! Vamos juntos, eu,
   como o soldado obscuro, no meu lugar, mas corajoso, como o ver; Vossa
   Majestade, com a majestade, com a fora, para o mais aceso da luta. Se
   sucumbir, no sucumbir s. Veja, senhora, veja em mim um irmo...
   Precisa... de dinheiro para... pagar o colar?...
   -- Eu?
   -- No o negue.
   -- Digo...
   -- No diga que no tem o colar.
   -- Juro...
   -- No jure se quer que eu a ame ainda.
   -- Oliveiros!
   -- Resta-lhe um meio de salvar, ao mesmo tempo, a sua honra e o meu
   amor. O colar vale um milho e seiscentas mil libras; a senhora j pagou
   duzentas e cinquenta mil. Aqui est um milho e meio, aceite-o.
   -- Que  isso?
   -- No olhe; aceite e pague.
   -- Vossos bens vendidos!           Vossas terras vendidas!       Oliveiros!
   Sacrificastes-vos por mim!        Sois um bom e nobre corao e no
   regatearei confisses diante de tamanho amor. Eu vos amo, Oliveiros!
                        O COtAR DA RAINHA                                567

   Aceite.
   -- No; mas eu vos amo!
   -- , ento, o Sr. de Rohan quem vai pagar? Pense nisso, senhora, j
   no seria de sua parte uma generosidade, seno uma crueldade que me
   mata... Vossa Majestade aceita do cardeal?...
   -- Ora, essa, Sr. de Charny! Sou a rainha, e se dou aos meus sditos amor
   ou fortuna, no costumo aceitar.
   -- Que vai fazer ento?
   -- Dir-me-eis o que devo fazer. Que estar pensando o Sr. De Rohan?
   -- Est pensando que a senhora  sua amante.
   -- Sois duro, Oliveiros...
   -- Falo como se fala diante da morte.
   -- Que estaro pensando os joalheiros?
   -- Que a rainha no podendo pagar, pagar por ela o Sr. de Rohan.
   -- Que pensar o povo sobre o colar?
   -- Que Vossa Majestade o tem consigo, guardou-o, e s o confessar
   quando le estiver pago, seja pelo cardeal, por amor a senhora, seja pelo
   rei, por medo do escndalo.
   -- E vs, Charny?       Estou-vos olhando nos olhos e pergunto: Que
   pensais das cenas que vistes no parque de Versalhes?
   -- Creio, senhora, que Vossa Majestade precisa provar-me a sua
   inocncia, -- replicou energicamente o digno fidalgo.
   A rainha enxugou o suor que lhe escorria da fronte.
   -- O Prncipe Lus, Cardeal de Rohan, Esmoler-mor de Frana! -- gritou
   no corredor uma voz de porteiro.
   -- le! -- murmurou Charny.
   -- Eis-vos servido, -- disse a rainha.
   -- Vossa Majestade vai receb-lo?
   -- Eu ia mandar cham-lo.
   -- Mas, eu. . .
   -- Entrai no meu toucador e deixai a porta aberta para ou virdes.
   -- Senhora!
   -- Depressa, que a vem o cardeal.
   Ela empurrou-o para o quarto que lhe indicara, deixou a porta
entreaberta e mandou entrar o cardeal.
   O Sr. de Rohan assomou ao limiar da sala, resplandecente nas suas
vestimentas de oficiante. Atrs dele mantinha-se,  distncia, um squito
numeroso, cujos hbitos brilhavam como o do amo.
   Entre as pessoas inclinadas, podiam avistar-se Boehmer e Bos-sange,
mais ou menos atrapalhados nos trajos de cerimnia.
   A rainha dirigiu-se ao encontro do cardeal, tentando esboar um
sorriso, que pronto lhe morreu nos lbios.
568                          ALEXANDRE DUMAS

    Lus de Rohan estava srio, triste mesmo. Tinha a calma do homem
corajoso que vai para o combate, a imperceptvel ameaa do sacerdote que
talvez tenha de perdoar.
    A soberana indicou um tamborete; o prelado permaneceu em p.
    -- Senhora, -- disse le, depois de se haver inclinado, visivelmente
    trmulo, -- eu tinha vrias coisas importantes para comunicar a Vossa
    Majestade, que faz timbre de evitar a minha presena.
    -- Eu, -- atalhou a rainha, -- to pouco vos evito, Sr. Cardeal, que ia
    mandar chamar-vos.
    O prncipe relanceou os olhos pelo toucador.
    -- Estou s com Vossa Majestade? -- tornou, em voz baixa; -- tenho o
    direito de falar com toda a liberdade?
    -- Com toda a liberdade, Sr. Cardeal; no vos constranjais, que estamos
    ss.
    E a sua voz firme parecia arremessar as palavras ao fidalgo escondido no
quarto vizinho. Ela saboreava com orgulho a prpria coragem e a confiana que
sentiria, desde o. princpio, o Sr. de Charny, sem dvida atento.
    Decidiu-se o cardeal. Aproximou o tamborete da poltrona da rainha, de
modo que ficasse o mais longe possvel da porta.
    -- Quantos prembulos! -- disse ela, simulando jovialidade.
    --  que. . . -- principiou o cardeal.
    --  que?... -- repetiu a rainha.
    -- O rei no vir? -- perguntou o Sr. de Rohan.
    -- No tenhais medo do rei nem de ningum, -- replicou vivamente Maria
    Antonieta.
    --  de Vossa Majestade que tenho medo, -- acudiu, com voz comovida, o
    prelado.
    -- Mais uma razo, pois no sou muito temvel; dizei o que quereis dizer
    em poucas palavras, dizei-o em voz alta e inteligvel; gosto de franqueza e,
    se no fordes franco, cuidarei que no sois homem de honra. Oh! nada
    de gestos por enquanto; disseram-me que tnheis motivos de queixa contra
    mini. Falai: amo a guerra, sou de um sangue que no se assusta! Vs
    tambm, sei-o muito bem. Que  o que me censurais?
    O cardeal despediu um suspiro e levantou-se como se quisesse aspirar mais
livremente o ar da sala. Afinal, senhor de si mesmo, comeou nestes termos:
                                  LXXVII


                                 Explicaes

    COMO dissemos, encontravam-se finalmente, face a face, a rainha e o
cardeal.     No gabinete, Charny ouvia tudo, at a menor palavra dos
interlocutores, e as explicaes, esperadas com tanta impacincia pelas duas
partes, iam dar-se afinal.
    -- Senhora, -- comeou o cardeal, inclinando-se, -- sabe o que se passa a
    respeito do nosso colar?
    -- No, senhor, no sei, e gostaria de sab-lo de vs.
    -- Por que me obriga Vossa Majestade, h tanto tempo, a s me
    comunicar consigo atravs de um intermedirio? Por que, se tem algum
    motivo para odiar-me, no mo declara pessoalmente?
    -- No sei o que quereis dizer, Sr. Cardeal, e no tenho motivo algum para
    odiar-vos; creio, porm, que no  esse o objeto da nossa entrevista.
    Fazei-me, pois, o obsquio de dar sobre o desgraado colar uma
    informao positiva. Em primeiro lugar, onde est a Sra. de La Motte?
    -- Era o que eu ia perguntar a Vossa Majestade.
    -- Perdo, mas se algum pode saber onde est a Sra. de La Motte, sois
    vs, penso eu.
    -- Eu, senhora? A ttulo de qu?
    -- No estou aqui para ouvir as vossas confisses, Sr. Cardeal; tive
    necessidade de falar com a Sra. de La Motte, mandei-a chamar, procuraram-
    na dez vezes em casa dela e ela no apareceu. Convireis em que esse
    desaparecimento  estranho.
    --. A mim tambm, senhora, me espanta, pois mandei pedir  Sra. de La
Motte que fosse ver-me, e ela no me respondeu como no respondeu a Vossa
Majestade.
    -- Nesse caso, deixemos a condessa e falemos de ns.
    -- Oh! no, falemos dela primeiro, pois certas palavras de Vossa Majestade
    me despertaram uma dolorosa suspeita; pareceu-me que Vossa Majestade
    reprochava as minhas assiduidades junto da condessa.
    -- No vos reprochei coisa alguma, senhor; mas, pacincia...
    -- Oh! senhora,  que uma suspeita semelhante me aclararia todas as
    susceptibilidades da sua alma e me faria compreender,
570                         ALEXANDRE DUMAS

embora me desesperasse, o rigor at agora inexplicvel com que Vossa
Majestade me tem tratado.
   --  neste ponto que deixamos de compreender-nos, -- acudiu a rainha; --
   sois de uma obscuridade impenetrvel, e no  para nos confundirmos
   ainda mais que vos pedi explicaes. Vamos aos fatos! aos fatos!
   -- Senhora, -- bradou o cardeal juntando as mos e acercando-se da
   rainha,. -- fazei-me a merc de no mudar de assunto: mais duas
   palavras sobre o tema que tratvamos h pouco e nos teramos
   compreendido perfeitamente.
   -- Francamente, senhor, estais falando uma lngua que no entendo;
   voltemos ao francs, por favor. Onde est o colar que devolvi aos joalheiros?
   -- O colar que Vossa Majestade devolveu! -- exclamou o Sr. de Rohan.
   -- Sim, que fizestes dele?
   -- Eu! eu no sei, senhora!
   -- Vamos a ver, a coisa  muito simples: a Sra. de La Motte levou o
   colar e devolveu-o em meu nome; os joalheiros afirmam que o no
   receberam de volta. Tenho em mos um recibo que prova o contrrio;
   dizem os joalheiros que o recibo  falso. Com uma palavra, a Sra. de La
   Motte poderia elucidar tudo isso...Mas, como ningum a encontra,
   explicarei com suposies os fatos obscuros.       A Sra. de La Motte quis
   devolver o colar. Vs, cuja mania, generosa sem dvida, foi sempre a de
   me fazer compr-lo, vs, que mo trouxestes oferecendo-vos para pag-lo
   por mim, ofere cimento esse...
   -- Que Vossa Majestade recusou bem duramente, -- atalhou o cardeal com
   um suspiro.
   -- Pois sim! mas perseverastes na ideia fixa de querer que eu continuasse
   de posse do colar, e no o devolvestes aos ourives para obrigar-me a aceit-
   lo numa ocasio qualquer. A Sra. de La Motte que conhecia as minhas
   repugnncias, a impossibilidade em que eu me achava de pagar, a minha
   imutvel resoluo de no ficar com o colar sem ter dinheiro, fraquejou,
   conspirou convosco, e hoje, receando a minha clera, no quer aparecer.
    isso mesmo? Dizei-me se consegui reconstituir os fatos no meio das
   trevas. Deixai-me censurar-vos a leviandade, a desobedincia s minhas
   ordens for mais; levareis uma repreenso e estar tudo acabado. Digo
   mais, prometo-vos o perdo da Sra. de La Motte, que poder deixar a
   sua penitncia. Mas, por misericrdia! clareza, clareza, senhor, no quero
   que paire neste momento uma nica sombra sobre a minha vida; no
   quero, ouvistes?
    A rainha pronunciara essas palavras com tamanha vivacidade, acentuara-as
com tanto vigor, que o cardeal no ousara nem pudera interromp-la.        Mas,
assim que ela terminou:
                   O COLAR DA RAINHA               571

   -- Senhora, -- exclamou, sufocando um suspiro, -- vou responder a todas
   as suas suposies.     No, no perseverei na ideia de querer que Vossa
   Majestade ficasse com o colar, pois estava persuadido de que le
   continuava em suas mos. No, no conspirei
   com a- Sra. de La Motte a respeito do colar. No, no est comigo como
   no est com os joalheiros, como no est consigo, rio dizer de Vossa
   Majestade.
   -- No  possvel! -- bradou a rainha, estuporada; -- no tendes o colar?
   -- No, senhora.
   -- No aconselhastes  Sra. de La Motte que se alheasse de tudo isso?
   -- No, senhora.
   -- No sois vs que a estais escondendo?
   -- No, senhora.
   -- No sabeis o que foi feito dela?
   -- Sei-o tanto quanto Vossa Majestade.
   -- Mas, ento, como explicais o que est acontecendo?
   -- Senhora, vejo-me obrigado a confessar que no o explico. De mais a
   mais, no  esta a primeira vez que me queixo  rainha de no ser
   compreendido por ela.
   -- Quando foi isso, senhor? No me lembro.
   -- Seja boa, senhora, -- tornou o cardeal, -- e releia mental mente as
   minhas cartas.
   -- As vossas cartas! -- sobreveio Maria Antonieta, surpresa. -- Vs me
   escrevestes?
   -- Muito pouco, alis, em face de tudo o que eu tinha no corao.
   Levantou-se a rainha.
   -- Parece-me, -- disse ela, -- que nos estamos enganando um ao outro;
acabemos logo com esta brincadeira. A que cartas estais aludindo? E que
tendes sobre o corao ou no corao, pois j nem sei direito como
acabastes de falar?
   -- Meu Deus! senhora, eu talvez tenha dito alto demais o segredo de
   minha alma.
   -- Que segredo? Estais em vosso juzo perfeito, Sr. Cardeal?
   -- Senhora!
   -- No tergiversemos; falais como um homem que quisesse armar-me
   uma cilada, ou pretendesse enlear-me diante de testemunhas.
   -- Juro-lhe, senhora, que no disse nada. ..          H, realmente, algum
   escutando?
   -- No, senhor, mil vezes no, no h ningum.        Explicai-vos, pois, mas
   completamente e se ainda estais de posse da vossa razo, provai-o.
572                         ALEXANDRE DUMAS

   -- Oh! senhora, por que no estar aqui 'a Sra. de La Motte? Ela, a nossa
   amiga, me ajudaria a despertar, seno o afeto, pelo menos a memria de
   Vossa Majestade.
   -- Nossa amiga? o meu afeto? a minha memria? Estou caindo das nuvens.
   -- Peo-lhe, -- acudiu o cardeal, revoltado pelo tom acre da rainha, --
   que me poupe. Se j no me ama, pelo menos no me ofenda.
   -- Ah! meu Deus! -- exclamou a rainha, empalidecendo, -- ah! meu
   Deus!... que est dizendo esse homem?
   -- Muito bem! -- continuou o Sr. de Rohan, animando-se  proporo
   que se encolerizava e lhe refervia o sangue, -- muito bem! Creio haver
   sido suficientemente discreto e reservado para no ser maltratado; de
   resto, s tenho motivos frvolos de queixa contra si. Incorro no erro de
   repetir-me. Eu j devia saber que quando uma rainha diz: No quero
   mais, exprime uma lei to imperiosa como quando diz uma mulher: Eu
   quero!
   A rainha soltou um grito selvagem e agarrou o cardeal pelas rendas do
punho.
   -- Dizei depressa, senhor, -- gritou, com voz trmula. -- Eu disse: No
   quero mais, e disse: Eu quero! A quem foi que eu disse uma e outra
   coisa?
   -- A mim, ambas.
   -- A vs?
   -- Esquea que me disse uma, que no me esqueo de que lhe ouvi a
   outra.
   -- Sois um miservel, Sr. de Rohan! Um mentiroso!
   -- Eu!
   -- Um covarde! Estais caluniando uma mulher!
   -- Eu!
   -- Um traidor! Estais insultando a rainha!
   -- E Vossa Majestade  uma mulher sem corao, uma rainha sem f.
   -- Desgraado!
   -- Levou-me, gradativamente, a sentir por isso um amor desesperado.
   Deixou que eu me alimentasse de esperanas.
   -- Esperanas!      Misericrdia!    Estarei louca?     Esse homem  um
   celerado!
   -- Acaso fui eu quem ousou pedir-lhe as audincias noturnas que me
   concedeu?
   A rainha despediu um urro de raiva, ao qual respondeu um longo
suspiro no toucador.
   --        Acaso teria eu, -- prosseguiu o Sr. de Rohan, -- ousado vir s ao
parque de Versalhes se a senhora no me tivesse mandado a Sra. de La
Motte?
                        O COLAR DA RAINHA                                   573

   -- Meu Deus!
   -- Acaso me teria atrevido a roubar a chave que abre a porta da casa do
   monteiro?
   -- Meu Deus!
   ---Acaso me teria aventurado a pedir-lhe que levasse esta rosa? Rosa
adorada! rosa maldita! secada, queimada sob os meus beijos!...
   -- Meu Deus!
   -- Acaso a obriguei a descer no dia seguinte e a dar-me as suas mos, cujo
   perfume me devora o crebro e me ensandece?                   Tem razo de
   reprochar-me a falta de juzo.
   -- Oh! basta! basta!
   -- Acaso, enfim, teria eu, no meu orgulho mais furioso, ousado sonhar
   alguma vez com a terceira noite de alvo cu, de doces silncios, de
   prfidos amores?
   -- Senhor! senhor! -- clamou a rainha, recuando diante do cardeal, -- estais
   blasfemando!
   -- Meu Deus! -- replicou o cardeal, erguendo os olhos para o cu, --
   sabes que, para continuar a ser amado por essa mulher enganadora, eu
   teria dado meus bens, minha liberdade, minha vida!
   -- Sr. de Rohan, se quereis conservar tudo isso, declararei agora mesmo
   que estais querendo perder-me; que inventastes todos esses horrores; que
   no viestes a Versalhes  noite...
   -- Vim, -- atalhou nobremente o cardeal.
   -- Morrereis se sustentardes essa linguagem.
   -- Um Rohan no mente. Eu vim.
   -- Sr.*de Rohan, Sr. de Rohan, em nome do cu, dizei que no me
   vistes no parque...
   -- Morrerei se fr preciso, como Vossa Majestade me ameaou ainda h
   pouco, mas s vi a senhora no parque de Versalhes, aonde me conduziu a
   Sra. de La Motte.
   -- Ainda uma vez! -- bramiu a rainha, lvida e trmula, -- no vos re
   tratais?
   -- No!
   -- Pela segunda vez, no confessais que tramastes contra mim essa
   infmia?
   -- No!
   -- Pela ltima vez, Sr. de Rohan, no confessais que pudestes ter-vos
   enganado, que tudo isso foi uma calnia, um sonho, o impossvel, nem sei
   o qu? No confessais que estou inocente, que posso estar inocente?
    --       No!
    Levantou-se a rainha, terrvel e solene.
    --Sereis ento levado, -- disse ela, --  justia do rei, visto que recusais
a justia de Deus.
    Inclinou-se o cardeal sem dizer uma palavra.
574                       ALEXANDRE DUMAS

    Maria Antonieta tocou to violentamente a campainha que vrias criadas
entraram ao mesmo tempo.
    -- Mandai dizer a Sua Majestade, -- ordenou, enxugando os lbios, --
que me faa a honra e o favor de passar por aqui.
    Partiu um oficial para executar a ordem. Decidido a tudo, o cardeal
permaneceu, intrpido, num canto da sala.
    Maria Antonieta foi umas dez vezes at  porta do toucador mas no
entrou, como se, dez vezes, tendo perdido a razo, tornasse a encontr-la
naquele stio.
    Dez minutos no se haviam escoado, quando o rei interrompeu a cena
terrvel surgindo  entrada da sala, com a mo nos folhos de rendas.
    -- Viam-se sempre, no mais recuado do grupo, as fisionomias assustadas
de Boehmer e Bossange, que farejavam a tempestade.
                                   LXXVIII


                                    A priso


    ASSIM que o rei assomou  porta, interpelou-o a rainha com
extraordinria volubilidade.
     -- Sire, -- disse ela, -- aqui est o Sr. Cardeal de Rohan, que acaba de
dizer coisas inacreditveis; tenha, pois, a bondade de pedir-lhe que as
repita.
    A essas palavras inesperadas,  sbita apstrofe, o cardeal empalideceu. Com
efeito, to estranha era a situao, que o prelado j no compreendia mais
nada. Poderia, porventura, o pretenso amante repetir ao rei, poderia o sdito
respeitoso enumerar ao marido todos os direitos que julgava ter sobre a
rainha e sobre a mulher?
    Mas o rei, voltando-se para o cardeal, absorto nas suas reflexes:
    -- A propsito de certo colar, no  verdade, senhor, -- disse ele, --
tendes coisas incrveis para dizer-me e tenho coisas incrveis para ouvir? Falai,
que estou escutando.
    O Sr. de Rohan tomou imediatamente a sua deciso: das duas dificuldades,
escolheria a menor; dos dois ataques, sofreria o mais honroso para o rei e para a
rainha; e se, imprudentemente, o atiravam no segundo perigo, dele sairia
como um homem corajoso e como um cavalheiro.
    -- A propsito do colar, Sire, -- murmurou.
    -- Mas, senhor, -- tornou o rei, -- comprastes o colar?
    -- Sire...
    -- Sim ou no?
    O cardeal olhou para a rainha e no respondeu.
    -- Sim ou no? -- repetiu ela. -- A verdade, senhor, a verdade; no se
pede outra coisa.
    O Sr. de Rohan virou a cabea e no replicou.
    -- Visto que o Sr. de Rohan no quer responder, responda a senhora, --
disse o rei; -- deve saber alguma coisa sobre isso. Comprou ou no comprou
o colar?
    -- No! -- negou a rainha, com fora.
    Estremeceu o Sr. de Rohan.
576                         ALEXANDRE DUMAS

    -- Eis a uma palavra de rainha! -- bradou o rei com solenidade; --
tomai cuidado, Sr. Cardeal.
    O Sr. de Rohan deixou que lhe aflorasse aos lbios um desdenhoso sorriso.
    -- No dizeis nada? -- tornou o monarca.
    -- De que me acusam, Sire?
    -- Afirmam os joalheiros ter vendido um colar, a vs ou  rainha. E
    exibem um recibo de Sua Majestade.
    -- O recibo  falso! -- sobreveio Maria Antonieta.
    -- Os joalheiros -- continuou o rei, -- dizem que,  falta da rainha,
    esto garantidos por compromissos que assumistes, Sr. Cardeal.
    -- No me recuso a pagar, Sire, -- disse o Sr. de Rohan. -- Deve ser a
    verdade, visto que a rainha permite que o digam.
    E segundo olhar, mais desdenhoso do que o primeiro, lhe concluiu  frase e
o pensamento.
    A rainha estremeceu. O desprezo do cardeal no era um insulto para ela,
visto que o no merecia, mas devia de ser a vingana de um homem honrado:
assustou-se.
    -- Sr. Cardeal, -- tornou o rei, -- no obstante, existe nesse negcio
    uma falsificao que comprometeu a assinatura da rainha de Frana.
    -- E outra falsificao, -- bradou a rainha, -- que talvez possa ser
    imputada a um fidalgo, pretende que os joalheiros receberam de volta o
    colar.
    -- A rainha tem plena liberdade, -- articulou o Sr. de Rohan no mesmo
    tom, -- de me atribuir ambas as falsificaes; quem faz uma pode fazer
    duas,  a mesma coisa.
    A rainha quase explodiu de indignao; conteve-a o rei com um gesto.
    -- Tomai tento, -- disse le ainda ao cardeal, -- estais agravando a vossa
situao. Eu vos digo: justificai-vos, e pareceis querer acusar!
    O Cardeal refletiu um momento; depois, como sucumbisse sob o peso
daquela misteriosa calnia que lhe oprimia a honra:
    -- No posso justificar-me! -- respondeu.
    -- Senhor, h pessoas que se queixam de que lhes foi roubado um colar;
    consentindo em pag-lo, confessais a vossa culpa.
    -- Quem o crer? -- retrucou o cardeal com soberbo desdm.
    -- Nesse caso, senhor, se no imaginais que o creiam, crero que...
    E um frmito de clera transtornou o semblante de ordinrio to plcido
do rei...
    -- Sire, no sei o que esto dizendo, -- voltou o cardeal, -- nem sei o
que esto fazendo; s posso afirmar que no estou com o colar; s posso
afirmar que os brilhantes esto em poder de
                        O COLAR DA RAINHA                                   577

algum que deveria nomear-se, mas que o no faz, e assim me obriga a
repetir a frase da Escritura: O mal recai sobre a cabea daquele que o
praticou.
    A essas palavras, a rainha fz meno de pegar no brao do rei, que lhe
disse:
    -- O debate  entre a senhora e le. Pela ltima vez: o colar est consigo?
    -- No! pela honra de minha me, pela vida de meu filho!
    -- respondeu Maria Antonieta.
    Cheio de alegria, voltou-se o rei para o cardeal:
-- Ento,  um caso entre a justia e vs, senhor, -- disse le;-- a menos
que prefirais recorrer  minha clemncia.
    -- A clemncia dos reis  feita para os culpados, Sire, -- retorquiu o
    cardeal; -- prefiro-lhe a justia dos homens.
    -- No quereis confessar?
    -- No tenho nada que dizer.
    -- Mas, afinal, senhor, -- bradou a rainha, -- o vosso silncio pe em
    dvida a minha honra!
    Calou-se o cardeal.
    -- Pois eu no me calarei, -- continuou a rainha; -- esse silncio me
queima, traduz uma generosidade que repudio. Saiba, Sire, que o crime do
Sr. Cardeal no se refere  venda nem ao roubo do colar.
    O Sr. de Rohan ergueu a cabea e empalideceu.
    -- Que significa isso? -- perguntou o rei, inquieto.
    -- Senhora!. . . -- murmurou o cardeal, estarrecido.
    -- Nenhum argumento, nenhum receio, nenhuma fraqueza me fechar a
    boca; tenho aqui, no corao, motivos que me levariam a gritar minha
    inocncia em praa pblica.
    -- A sua inocncia! -- acudiu o rei. -- Quem seria to temerrio ou to
    covarde que obrigasse Vossa Majestade a pronunciar essa palavra?
    -- Suplico-lhe, senhora, -- rogou o cardeal.
    -- Ah! comeais a tremer!          Eu havia, ento, adivinhado: as vossas
    conjuras s medram na sombra! Pois eu gosto do dia claro! Sire, ordene ao
    Sr. Cardeal que lhe repita o que acabou de dizer-me h pouco, aqui, neste
    mesmssimo lugar.
    -- Senhora! senhora! -- advertiu o Sr. de Rohan, -- tome cuidado; Vossa
    Majestade est-se excedendo.
    -- Como? -- acudiu o rei, altaneiro. -- Quem est falando  rainha
    nestes termos? Parece-me que no sou eu!
    -- Justamente, Sire, -- tornou Maria Antonieta. -- O Sr. Cardeal fala nestes
    termos  rainha porque afirma ter o direito de faz-lo.
    -- Vs, senhor! -- murmurou o rei, lvido.
    -- le! -- bradou a rainha com desdm, -- lel
578                         ALEXANDRE DUMAS

   -- O Sr. Cardeal tem provas? -- volveu o monarca dando um passo na
   direo do prncipe.
   -- O Sr. de Rohan diz que tem cartas! -- atalhou a rainha.
   -- Vamos a ver, senhor! -- insistiu o rei.
   -- As cartas! -- rebradou a rainha, arrebatada, -- as cartas!
   O cardeal pa.ssou a mo pela testa gelada de suor, e pareceu perguntar a
   Deus como pudera dar  mesma criatura tanta audcia e tanta perfdia.
   Mas no disse uma palavra.
   -- E no  tudo, -- prosseguiu a rainha, que se animava a pouco e
   pouco, sob a influncia da prpria generosidade, -- o Sr. Cardeal obteve
   entrevistas.
   -- Senhora! por piedade! -- rogou o rei.
   -- Por pudor! -- sobreveio o cardeal.
   -- Enfim, senhor! -- voltou a rainha, -- se no sois o ltimo dos
   homens, se alguma coisa vos  sagrada neste mundo, exibi as vossas
   provas!
   O Sr. de Rohan ergueu lentamente a cabea e replicou:
   -- No as tenho, senhora.
   -- No acrescentareis este crime aos outros, -- continuou a rainha, -- no
   acumulareis sobre mim oprbrio sobre oprbrio. Tendes uma auxiliar,
   uma cmplice, uma testemunha em tudo isto: nomeai-o, ou nomeai-a.
   -- Quem? -- perguntou o rei.
   -- A Sra. de La Motte, Sire, -- declarou a rainha.
   -- Ah! -- exclamou o rei, triunfante ao ver finalmente justificadas as suas
   prevenes contra Joana; -- muito bem! tragam aqui essa mulher,
   interroguem-na.
   -- Pois sim! -- bradou a rainha. -- Ela desapareceu. Pergunte Vossa
   Majestade a este senhor o que fz dela. Era muito do seu interesse evitar
   que ela surgisse em cena.
   -- Outros a tero feito desaparecer, -- replicou o cardeal, -- outros, cujo
   interesse sobrelevava ao meu. Por isso no ser encontrada.
   -- Se estais inocente, -- gritou a rainha, furiosa, -- ajudai-nos a encontrar
   os culpados.
   Mas o Cardeal de Rohan, depois de lhe haver dirigido um derradeiro
olhar, voltou as costas e cruzou os braos.
   -- Senhor! -- disse o rei ofendido, -- ireis daqui para a Bastilha.
   Inclinou-se o cardeal; em seguida, em tom seguro:
   -- Assim vestido? -- perguntou. -- Com as minhas vestes pontifcias?
   Diante de toda a corte?       Reflita, Sire, o escndalo ser imenso e mais
   pesado ainda para a cabea sobre a qual recair.
   -- Assim o quero, -- declarou o rei, agitadssimo.
   --  um sofrimento injusto que Vossa Majestade inflige prematuramente
   a um sacerdote, Sire, e a tortura antes da acusao no  legal.
                        O COLAR DA RAINHA                                   579

    -- Cumpre que assim seja, -- respondeu o rei, abrindo a porta da sala e
procurando com os olhos algum a quem pudesse transmitir a ordem.
    Estava l o Sr. de Breteuil, cujos olhos devoradores tinham adivinhado, pela
exaltao da rainha, pela agitao do rei e pela atitude do cardeal, a runa do
inimigo.
    O rei no acabara ainda de falar-lhe em voz baixa, quando o Ministro
da Justia, usurpando as funes do Capito dos Guardas, gritou com voz
retumbante, que ressoou at no fundo das galerias:
    -- Prendei o Sr. Cardeal!
    O Sr. de Rohan estremeceu. Os murmrios que ouviu sob as abbadas, a
agitao dos cortesos, a sbita chegada dos guardas, emprestavam  cena um
carter de sinistro augrio.
    Passou o cardeal diante da rainha sem cortej-la, o que fz ferver o
sangue da soberba princesa. Inclinou-se muito humildemente ao passar pelo
rei, e assumiu, diante do Sr. de Breteuil, uma expresso de piedade to
habilmente matizada, que deve ter levado o baro a acreditar que ainda no
se vingara bastante.
    Um tenente dos guardas abeirou-se timidamente e pareceu pedir ao prprio
cardeal a confirmao da ordem que acabava de ouvir.
    -- Sim, senhor, -- disse-lhe o Sr. de Rohan; -- sim, sou eu mesmo
    quem est preso.
    -- Conduzireis este senhor aos seus aposentos, enquanto se aguardar o
    que eu tiver decidido durante a missa, -- articulou o rei, no meio de um
    silncio de morte.
    O soberano ficou s no apartamento da rainha, com as portas abertas, ao
passo que o cardeal se alongava lentamente pela galeria, precedido do tenente
dos guardas, com o chapu na mo.
    -- Senhora, -- disse Lus XVI ofegante, porque a muito custo se
    contivera, -- sabeis que tudo isto redundar num julgamento pblico,
    isto , num escndalo, sob o qual cair a honra dos cul pados?
    -- Obrigada! -- exclamou a rainha, apertando efusivamente as mos do
    marido, -- Vossa Majestade escolheu o nico meio possvel para justificar-
    me.
    -- A senhora me agradece?
    -- Com toda a minha alma. Vossa Majestade procedeu como um rei! Eu,
    como uma rainha! No  verdade?
    -- Est bem, -- respondeu o rei, jubiloso, -- acabaremos vencendo, afinal,
    todas essas baixezas. Quando a serpente houver sido, definitivamente,
    esmagada pela senhora e por mim, espero que possamos viver tranquilos.
    Beijou-a na testa e recolheu aos seus aposentos.
580                          ALEXANDRE DUMAS

    Entretanto, na extremidade da galeria, o Sr. de Rohan encontrava Boehmer
e Bossange meio desmaiados, um nos braos do outro.
    Depois, alguns passos adiante, avistou o seu estribeiro, que, aterrado pelo
desastre, suplicava um olhar do amo.
    -- Senhor, -- disse o prncipe Lus ao oficial que o conduzia, -- passando
    aqui o dia todo, deixarei muita gente preocupada; no posso mandar
    anunciar em minha casa que fui preso?
    -- Oh! Monsenhor, contanto que ningum vos veja, -- respondeu o jovem
    tenente.
    Agradeceu o cardeal; logo, falando em alemo ao estribeiro, rabiscou
algumas palavras numa pgina do seu missal, que rasgou.
    E, por trs do oficial, que ficara vigiando para no ser surpreendido,
enrolou a folha de papel e deixou-a cair.
    -- Estou s vossas ordens, senhor, -- disse ao tenente dos guardas.
    Desapareceram ambos.
    O estribeiro atirou-se ao papel, como um abutre  presa, arremessou-se para
fora do castelo, saltou sobre o seu cavalo e arrancou na direo de Paris.
    O cardeal pde v-lo  desfilada na campina, por uma das janelas da escada
que descia com o seu condutor.
    -- Ela me perde, -- murmurou; -- e eu salvo-a!  por vs, meu rei, que
ajo;  por vs, meu Deus! que ordenais o perdo das injrias; por vs, perdoo
aos outros... Perdoai-me!
                                  LXXIX
                                Os relatrios

    ENQUANTO o rei, voltando feliz ao seu apartamento, assinava a
ordem para conduzir o Sr. de Rohan  Bastilha, entrou no gabinete o Sr.
Conde da Provena, e fz ao Sr. de Breteuil uns sinais que este, apesar de
todo o seu respeito e boa vontade, no pde compreender.
    Mas no era ao Ministro da Justia que se dirigiam os sinais; o prncipe
multiplicava-os assim com o intuito de chamar a ateno do soberano, que
estava olhando num espelho enquanto redigia a ordem.
    Aquela gesticulao surtiu efeito: o rei viu os sinais e, depois de haver
dispensado o Sr. de Breteuil:
   -- Por que estveis fazendo sinal a Breteuil? -- perguntou ao irmo.
   --        Oh! Sire...
   -- Essa vivacidade de gestos, esse ar preocupado, significam alguma
   coisa?
   -- Sem dvida, mas...
   -- Se no quiserdes*- no precisais falar, meu irmo, -- disse Lus XVI
   com ar de enfado.
   -- Sire, acabo de saber da priso do Sr. Cardeal de Rohan.
   -- Pois sim, mas por que essa notcia, meu irmo, pode causarmos tamanho
   alvoroo?     No vos parece culpado o Sr. de Rohan? Acaso fao mal
   abatendo tambm os poderosos?
   -- Mal? no, meu irmo. Vossa Majestade no faz mal. No  isso o que
   eu quero dizer.
   -- Eu ficaria muito surpreso, Sr. Conde da Provena, se dsseis ganho de
   causa, contra a rainha, ao homem que busca desonr-la. Acabo de ver a
   rainha, meu irmo, e uma palavra dela bastou...
   -- Oh! Sire, Deus me livre de acusar a rainha! Sua Majesta de. .. minha
   irm, no tem amigo mais dedicado do que eu. Quantas vezes no me foi
   dado defend-la, pelo contrrio, e digo-o sem inteno de censura, at
   contra Vossa Majestade?
   -- Em realidade, meu irmo, ela  acusada muitas vezes?
582                           ALEXANDRE DUMAS

      -- No tenho sorte, Sire; Vossa Majestade ataca-me a cada palavra que
      pronuncio. . . eu queria dizer que a prpria rainha no me levaria a srio
      se eu parecesse duvidar da sua inocncia.
      -- Nesse caso, vs vos congratulais comigo pela humilhao que impus
      ao cardeal, pelo processo que da resultar, pelo escndalo que por termo
      a todas as calnias que ningum se atreveria a lanar contra uma simples
      dama da corte, mas de que todos se fazem eco, pretextando que a rainha
      est acima dessas misrias?
      -- Sim, Sire, aprovo de todo em todo o procedimento de Vossa Majestade,
      e digo mais: no poderia haver melhor soluo para o caso do colar.
      -- Por Deus! meu irmo, -- disse le, -- nada mais claro. No se v aqui o
      Sr. de Rohan gloriando-se da familiar amizade da rainha, concluindo, em
      nome dela, a compra de uns brilhantes qu ela recusou, e deixando que se
      diga que esses brilhantes foram fur tados por ela ou nos aposentos dela? 
      monstruoso, e, como dizia Sua Majestade: Que julgariam os outros se eu
      tivesse por compadre o Sr. de Rohan nesse escuso negcio?
      -- Sire...
      -- De resto, no ignorais, meu irmo, que uma calnia nunca se detm a
      meio do caminho; ora, a leviandade do Sr. de Rohan compromete a
      rainha, mas o relato dessa leviandade a desonra.
      -- Repito que Vossa Majestade agiu muito bem no tocante ao caso do
      colar.
      -- U! -- atalhou o rei, surpreso, -- haver outro caso?
      -- Mas, Sire. . . a rainha deve ter-lhe dito...
      -- Dito. . . o qu?
      -- Sire, Vossa Majestade quer embaraar-me.  impossvel que a rainha
      no lhe tenha dito...
      -- O que, senhor? O qu?
      -- Sire...
      -- Ah! as fanfarronadas do Sr. de Rohan, as suas reticncias, as suas
      pretensas correspondncias?
      -- No, Sire, no.
      -- Ento, o qu? As entrevistas que a rainha teria concedido ao Sr. de
      Rohan para tratarem do negcio do colar. ..
      -- No, Sire, no  isso.
      -- A nica coisa que sei, -- volveu o rei, --  que tenho na rainha uma
      confiana absoluta, que ela merece pela nobreza do seu carter. Seria
      muito fcil para Sua Majestade calar o que est acontecendo. Ser-lhe-ia
      faclimo pagar ou deixar que outros pagassem, pagar ou deixar que
      falassem; pondo um paradeiro a esses mistrios que ameaam converter-se
      em escndalos, provou-me que apela para mim antes de apelar para o
      pblico.       Foi a mim que ela mandou chamar, a mim me cometeu a
      incumbncia de vingar-
                       O COLAR DA RAINHA                                   583

-lhe a honra. Tomou-me por confessor, por juiz, e contou-me tudo.
    -- Pois bem! -- replicou o Conde da Provena, menos enleado do que
    devia estar, porque sentia a convico do rei menos slida do que este
    queria aparent-la, -- Vossa Majestade volta a duvidar da minha amizade,
    do meu respeito  rainha, minha irm.            Se comigo se h com tanta
    susceptibilidade, no lhe direi nada, receando sempre, eu que a defendo,
    passar por inimigo ou acusador. E, todavia, veja como isso no tem
    lgica. As confisses da rainha j o levaram a encontrar uma verdade
    que a justifica. Por que
    no h de querer Vossa Majestade que se produzam aos seus olhos outras
    clarezas, mais indicadas ainda para revelar toda a inocncia da nossa
    soberana?
    --  que. . . -- disse o rei constrangido, -- sempre comeais, meu irmo,
    por circunlquios em que me perco.
    -- Precaues oratrias, Sire, ausncia de calor.       Peo perdo a Vossa
    Majestade, mas esse  o meu vcio de educao. Ccero me estragou.
    -- Meu irmo, Ccero s se mostra obscuro quando defende uma causa
    m; tendes uma boa nas mos: sede claro, pelo amor de Deus!
    -- Criticar o meu modo de falar  impor-me silncio.
    -- Pronto! agora  o irritabile genus rhetorum que se alvorota, --
    exclamou o rei, deixando-se embair pela astcia do Conde,da Provena.
    -- Aos fatos, advogado, aos fatos! Que sabeis alm do que me disse a
    rainha?
    --                            Meu Deus! Sire, nada e tudo. Precisemos
    primeiro o que lhe disse a rainha.
    -- A rainha me disse que no est com o colar.
    -- Bom.
    -- Disse-me que no assinou o recibo dos joalheiros.
    -- Bem!
    -- Disse-me que tudo o que se referia a um cambalacho com o Sr. de
    Rohan era uma falsidade inventada pelos seus inimigos.
    -- Muito bem! Sire.
    -- Disse-me, enfim, que nunca deu ao Sr. de Rohan o direito de acreditar
    que le fosse, para ela, mais do que um sdito, um indiferente, um
    desconhecido.
    -- Ah!. . . ela disse isso...
     --        E num tom que no admitia rplica, pois o cardeal no
     replicou.
     --        Ento, Sire, se no replicou, o cardeal confessa-se mentiroso e,
     com essa retratao, d razo aos outros rumores que correm sobre
     certas preferncias demonstradas pela rainha a certas pessoas.
     --        Oh! meu Deus! mais novidades? -- acudiu o rei, desalentado.
584                          ALEXANDRE DUMAS

   -- Nada, seno coisas muito absurdas, como ver.          Desde o momento
   em que se demonstrou que o Sr. de Rohan no passeou com a rainha...
   -- Como! -- bradou o rei, -- dizia-se que o Sr. de Rohan havia passeado
   com a rainha?
   -- Foi exatamente o quf ficou desmentido pelas declaraes da rainha e
   pela retratao do Sr. de Rohan; mas, afinal, desde que isso se
   comprovou, Vossa Majestade h de compreender que devem ter
   procurado indagar, pois a maldade humana no se absteria de faz-lo, por
   que a rainha passeava  noite no parque de Versalhes.
   --  noite, no parque de Versalhes! A rainha!...
   -- E com quem passeava, -- continuou friamente o Conde da Provena.
   -- Com quem?. . . -- murmurou o rei.
   -- Sem dvida!... porventura se despregam os olhos do que faz uma
   rainha?     E esses olhos, que nem o brilho da luz nem o brilho da
   majestade logram ofuscar, no se tornam mais clarividentes ainda
   quando se trata de enxergar  noite?
   -- Meu irmo, estais dizendo coisas infames! Cuidado!
   -- Estou repetindo, Sire, e repetindo com tamanha indignao, que levarei
   Vossa Majestade a descobrir a verdade.
   -- Como! Dizem que a rainha andou passeando,  noite, acompanhada...
   no parque de Versalhes!
   -- Acompanhada, no, Sire, mas em companhia de uma pessoa s. . .           Se
   dissesem acompanhada, a coisa no valeria a pena de que lhe dssemos
   ateno.
   O rei, explodindo de repente:
   -- Provar-me-eis que estais repetindo, -- bradou; -- provai, por tanto, que se
   falou nisso.
   -- Muito facilmente, -- respondeu o Sr. da Provena. -- H quatro
   testemunhas: a primeira  o meu capito de caa, que viu a rainha dois
   dias seguidos, ou melhor, duas noites seguidas, deixando o parque de
   Versalhes pela porta da montaria. Aqui est o documento, assinado por
   le. Leia.
   O rei pegou a tremer na folha de papel, leu-a e devolveu-a ao irmo.
   -- Mas h outro depoimento, Sire, ainda mais curioso: o do guarda
noturno de Trianon. Declara le que a noite estava bonita, que um tiro foi
dado, sem dvida por caadores clandestinos, no bosque de Satory; que, no
tocante aos parques, estes no apresentaram novidade alguma, salvo no dia
em que Sua Majestade a rainha foi neles passear pelo brao de um fidalgo.
Veja, o depoimento  explcito.
    O rei tornou a ler, estremeceu e deixou cair os braos ao longo do corpo.
                       O COLAR DA RAINHA                                   585

   -- A terceira testemunha, -- continuou, imperturbvel, o Sr. Conde da
   Provena, --  o suo da porta de Leste. Esse homem viu e reconheceu
   a rainha no momento em que ela saa pela porta da montaria.
   Descreve-lhe o vesturio; veja, Sire; diz tambm,que, de longe, no pde
   reconhecer o fidalgo que Sua Majestade deixava; est escrito; mas que,
   pelo jeito, lhe pareceu um oficial. O relatrio est assinado. E acrescenta
   uma coisa curiosa, a saber, que a presena da rainha no pode ser posta
   em dvida, porque Sua Majestade estava acompanhada da Sra. de La
   Motte, sua amiga.
   -- Amiga da rainha! -- gritou o rei, furioso. -- Sim, est escrito: Amiga da
   rainha!
   -- No queira mal a esse honrado servidor, Sire, que s pode ser culpado
   de um excesso de zelo. Incumbido de guardar, guarda; de vigiar, vigia. O
   ltimo, -- continuou o Conde da Provena, -- me parece o mais claro de
   todos.  o mestre serralheiro, encarregado de verificar se todas as portas
   esto fechadas depois do toque de recolher. Esse homem, que Vossa
   Majestade conhece, atesta que viu entrar a rainha com um fidalgo nos
   banhos de Apoio.
   Plido, sufocando o ressentimento, el-rei arrancou o papel das mos do
conde e leu-o.
   No obstante, durante a leitura, o Sr. da Provena continuou falando:
   --  verdade que a Sra. de La Motte estava fora, a uns vinte passos de
   distncia, e que a rainha no ficou mais de uma hora naquela sala.
   -- Mas o nome do fidalgo? -- bradou o rei.
   -- Sire, no  no depoimento que se lhe encontra o nome; para isso
   cumpre que Vossa Majestade se d ao trabalho de percorrer este ltimo
   relatrio, de um guarda florestal que se achava escondido atrs do muro,
   cerca dos banhos.
   -- Datado do dia seguinte, -- observou o rei.
   -- Exatamente, Sire, e que viu a rainha sair do parque pelo portozinho
   e espiar para fora: ela estava de brao com o Sr. De Charny!
   --        O Sr. de Charny!. . . -- rebradou o rei, meio louco de clera e de
vergonha; -- bem... bem...         Esperai-me aqui, conde, que vamos afinal
saber a verdade.
   E atirou-se para fora do gabinete.
                                    LXXX

                              A ltima acysaco

    NO MOMENTO em que o rei sara do apartamento da rainha esta
correra para o toucador, de onde o Sr. de Charny pudera ouvir tudo. Abriu a
porta e voltou para fechar, pessoalmente, a do apartamento; depois, deixando-
se cair sobre uma poltrona, como se estivesse demasiado fraca para resistir a
tantos choques, esperou em silncio o que sobre ela decidiria o Sr. de Charny,
seu juiz mais temvel.
    Mas no esperou por muito tempo; o conde saiu do toucador mais triste e
mais plido que nunca.
    -- E ento? -- perguntou ela.
    -- Senhora, -- replicou o moo, -- como v, tudo se ope a que sejamos
    amigos.     Se no  a minha convico que a fere, sero, doravante, os
    rumores pblicos; depois do escndalo que hoje estourou, j no h
    repouso para mim, nem trguas para si.              Os inimigos, mais
    encarniados ainda aps a primeira ferida que lhe causaram, caram
    sobre a senhora para beber-lhe o sangue, como fazem as moscas sobre a
    gazela ferida...
    -- Procurais h muito tempo, -- atalhou, melanclica, a rainha, -- uma
    palavra natural para dizer, e no a encontrais.
    -- Creio que nunca dei motivo a Vossa Majestade para suspeitar da
    minha franqueza, -- retrucou Charny; -- se ela, por vezes, explodiu, f-lo,
    ao contrrio, com excessiva dureza; peo-lhe perdo.
    -- Ento, -- voltou a rainha, muito comovida, -- este barulho, esta
    perigosa agresso contra um dos maiores fidalgos do reino, a minha
    declarada hostilidade contra a Igreja, a minha reputao exposta s
    paixes dos parlamentos, nada disso vos basta? J no falo da confiana,
    abalada para sempre, do rei; isso nem sequer vos preocupa, no 
    mesmo?. . . O rei! que  o rei. . . um marido!
    E sorriu com to doloroso azedume que de seus olhos jorraram lgrimas.
    -- Oh! -- bradou Charny, -- a senhora  a mais nobre, a mais generosa
das mulheres. Se no lhe respondo de pronto, como me
                       O COLAR DA RAINHA                                   587

pede o corao,  porque me sinto inferior a tudo, e no me atrevo a profanar-
lhe o sublime corao pedindo nele um lugar.
    -- Sr. de Charny, julgais-me culpada.
    -- Senhora!...
    -- Sr. de Charny, destes crdito s palavras do cardeal.
    -- Senhora!...
    -- Sr. de Charny, dizei-me: que impresso vos causou a atitude do Sr. de
    Rohan?
    -- Devo confessar-lhe, senhora, que o Sr. de Rohan no foi nem um
    insensato, como a senhora lho reprochou, nem um fraco, como se poderia
    acreditar;  um homem convicto do que diz, um homem que a amava, que
    a ama e que, neste momento, est sendo vtima de um erro que o
    conduzir, a le,  runa, e  senhora...
    -- A mim?
    --  senhora, a uma desonra inevitvel.
    -- Santo Deus!
    -- Ergue-se diante de mim um espectro ameaador, essa mulher odiosa, a
    Sra. de La Motte, desaparecida quando o seu testemunho podia restituir-
    nos a todos o repouso, a honra e a segurana para o futuro. Essa mulher
     o gnio mau de Vossa Majestade, o flagelo da realeza; essa mulher, que a
    senhora imprudentemente admitiu  participao dos seus segredos e,
    talvez, infelizmente, da sua intimidade. ..
    -- Dos meus segredos, da minha intimidade! Ah! senhor, por favor! --
    revidou a rainha.
    -- Senhora, disse-lhe claramente o cardeal, e claramente o provou, que
    Vossa Majestade havia concertado com le a compra do colar.
    -- Ah!... voltais ao assunto, Sr. de Charny! -- acudiu a rainha, corando.
    -- Perdo, perdo, bem v que tenho o corao menos generoso do que o
    seu, bem v que sou indigno de ser chamado a conhecer-Ihe os
    pensamentos. Procuro suavizar e irrito.
    -- Vede, senhor, -- tornou a rainha, voltando a uma sobranceria
    impregnada de clera, -- o que o rei acredita toda a gente pode
    acreditar; no serei mais fcil para os meus amigos do que para meu
    marido. Parece-me que um homem no pode gostar de ver uma mulher
    quando no a estima. No me refiro a vs, -- prosseguiu, vivamente;
    -- no sou uma mulher, sou uma rainha; no sois um homem, sois um
    juiz para mim.
    Charny fz uma reverncia to profunda, que a rainha deve ter achado
suficientes a reparao e a humildade daquele sdito fiel.
    -- Eu vos havia aconselhado, -- disse ela, de repente, -- a ficar em vossas
terras; era uma atitude prudente. Longe da corte, que
588                          ALEXANDRE DUMAS

repugna aos vossos costumes,  vossa retido, e, seja-me permitido diz-lo 
vossa inexperincia; longe, repito, da corte, tereis apreciado melhor os
personagens que desempenham o seu papel neste teatro.  preciso manter a
iluso de tica, Sr. de Charny,  preciso conservar o carmim e os saltos altos
diante da multido. Rainha demasiado propensa  condescendncia, deixei de
entreter, entre os que me amavam, o prestgio fulgurante da realeza. Ah! Sr.
de Charny, a aurola que desenha uma coroa na fronte das rainhas dispensa-as
da castidade, da doura, do esprito, dispensa-as sobretudo do corao. A rainha,
senhor, domina: de que lhe serve fazer-se amar?
    --       Eu no saberia dizer, senhora, -- respondeu Charny, muito
    comovido, -- o quanto me faz mal a severidade de Vossa Majestade. Pode
    ser que me tepha esquecido de que  minha rainha; mas, faa-me essa
    justia: nunca me esqueci de que  a primeira das mulheres dignas do
    meu respeito e d a . . .
    -- No termineis, que no estou mendigando.           Sim, eu j disse que a
    ausncia vos  necessria. Alguma coisa me palpita que o vosso nome
    acabar sendo pronunciado em tudo isto.
    -- Impossvel, senhora!
    -- Impossvel? Pensai um pouco na fora que tm aqueles que, h seis
    meses, brincam com a minha reputao e a minha vida; no dizeis que
    o Sr. Cardeal est convencido de que s agiu em razo de um erro a que
    foi levado? Aqueles que operam convices semelhantes, Sr. Conde,
    aqueles que causam erros semelhantes, tero fora suficiente para provar
    que sois um sdito desleal para o rei e, para mim, um vergonhoso amigo.
    Os que inventam com tamanha felicidade o falso, descobrem muito
    facilmente
    o verdadeiro!       No percais tempo,  grave o perigo; recolhei-vos s
    vossas terras, fugi ao escndalo que resultar de todo este processo: no
    quero que o meu destino vos arraste, no quero que se perca a vossa
    carreira. Eu que, graas a Deus! possuo a inocncia e a fora, que no
    tenho uma nica mancha em minha vida, que estou resolvida a abrir, se
    preciso fr, o peito para mostrar aos meus inimigos a pureza de meu
    corao, eu resistirei.        Para vs, no entanto, s haveria runa,
    difamao, priso talvez; levai de
    volta esse dinheiro to nobremente oferecido, levai a certeza de que
    nenhum dos generosos movimentos de vossa alma me escapou, nenhuma de
    vossas dvidas me feriu, nenhum de vossos sofrimentos me deixou
    indiferente; parti, sou eu quem vo-lo diz, parti e buscai alhures o que j
    no vos pode dar a rainha de Frana: a f, a esperana, a felicidade.
    De hoje a que Paris saiba da priso do cardeal, a que se convoque o
    parlamento, a que se produzam teste munhas, calculo uns quinze dias.
    Parti! vosso tio tem dois navios aprestados em Cherburgo e em Nantes:
    escolhei um deles, mas afastai-vos de mim. Eu trago m sorte; afastai-
    vos de mim. S
                        O COLAR DA RAINHA                                   589

me interessava uma coisa neste mundo, e j que ela me falta, sinto-me
perdida.
    Pronunciando estas palavras, ergueu-se bruscamente a rainha e pareceu
dar por concluda a audincia.
    Charny aproximou-se dela com o mesmo respeito, porm mais rpido.
    -- Vossa Majestade, -- disse, com voz alterada, -- acaba de ditar-me o
meu dever. No  em minhas terras, no  fora de Frana que est o
perigo,  em Versalhes, onde suspeitam da senhora,  em Paris, onde a
senhora ser julgada.       Impende que se desfaam todas as suspeitas, que
todas as prises se justifiquem, e, como Vossa Majestade no poderia ter
testemunha mais real nem apoio mais decidido, fico. Os que sabem tantas
coisas, senhora, no as calaro.       Mas, pelo menos, teremos a ventura,
inestimvel para as pessoas de bem, de encontrar, cara a cara, os nossos
inimigos. Tremam eles diante da majestade de uma rainha inocente e diante
da coragem de um homem melhor.          Fico, senhora, e, pode cr-lo, Vossa
Majestade no precisa esconder-me por mais tempo o seu pensamento; sabem
todos que no fujo; a senhora sabe que nada temo; e sabe tambm que,
para no tornar a ver-me, no precisa exilar-me. Oh! de longe os coraes
se entendem, as aspiraes de longe so mais ardentes! Quer que eu parta,
por sua causa e no pela minha; nada receie; embora me conserve 
distncia de poder socorrer-lhe, de poder defend-la, j no estarei  distncia
cie poder ofend-la ou prejudic-la; Vossa Majestade no me viu, no 
verdade? nos oito dias em que morei a cem toesas do seu apartamento,
espiando cada um de seus gestos, contando-lhe os passos, vivendo a sua vida?.
..     Pois bem! o mesmo suceder desta feita, pois no posso executar-lhe a
vontade, no posso partir! De resto, que lhe importa!. .. Acaso pensar em
mim?
    Ela fz um gesto que a afastava.
    -- Como quiserdes, -- replicou, -- mas... j me compreendestes:  mister
    que nunca vos enganeis sobre as minhas palavras; no sou uma scia, Sr.
    de Charny; o privilgio de uma verdadeira rainha  dizer o que pensa e
    pensar o que diz: assim sou eu. Um dia, senhor, vos escolhi entre todos.
    No sei o que me arrastava o corao para o vosso lado.         Eu ansiava
    uma amizade forte e pura; tivestes muitas ocasies de v-lo, no 
    verdade? O mesmo no acontece hoje, e j no penso o que pensava.
    A vossa alma
    deixou de ser irm da minha.        E por isso vos digo com a mesma
    franqueza: poupemo-nos um ao outro.
    -- Est bem, senhora, -- atalhou Charny, -- nunca acreditei que me tivesse
    escolhido...   Mas no resisto  ideia de perd-la. Sinto-me bbedo de
    cime e de terror. No sofrerei que a senhor me retome o seu corao;
    deu-mo, pertence-me, ningum mo tirar
590                          ALEXANDRE DUMAS

seno tirando-me a vida. Seja mulher, seja boa, no abuse de minha
fraqueza, pois ainda h pouco me censurava as dvidas, e agora me esmaga
com as suas!
    -- Corao de criana, corao de mulher, -- disse ela... -- E ainda
    quereis que eu conte convosco!...        Belos defensores so mos um do
    outro! Fraco! sim, fraco, e eu tambm, infelizmente, no sou mais forte
    do que vs!
    -- Eu no a amaria, -- murmurava le -- se fosse diferente do que .
    -- Como! -- bradou Maria Antonieta em tom apaixonado, -- esta rainha
    maldita, perdida, esta mulher que um parlamento vai julgar, a opinio,
    condenar, o marido, seu rei, expulsar talvez, esta mulher encontra um
    corao que a ama!
    -- Um servidor que a venera e lhe oferece todo o sangue de seu corao
    em troca de uma lgrima que a viu chorar.
    -- Esta mulher, -- rebradou a rainha, --  bendita,  orgulhosa,  a primeira
    das mulheres, a mais feliz de todas! Esta mulher  feliz demais, Sr. de
    Charny! No sei como pde queixar-se; perdoai-lho!
    O rapaz caiu aos ps de Maria Antonieta e beijou-os, num transporte de
amor religioso.
    Nesse momento se abriu a porta do corredor secreto, e o rei se deteve,
trmulo e como que fulminado no limiar.
    Acabava de surpreender aos ps da rainha o homem acusado pelo Sr. da
Provena.
                                    LXXXI


                            O pedido de casamento

    A RAINHA e Charny trocaram um olhar to cheio de terror que o
seu mais cruel inimigo os teria compadecido naquele momento.
    Ergueu-se lentamente o rapaz e saudou o rei com profundo respeito.
    Via-se o corao de Lus XVI pulsar com violncia debaixo dos bofes de
rendas.
    -- Ah! -- disse le com voz surda... -- o Sr. de Charny!
    O conde respondeu apenas por nova saudao.
    Sentiu a rainha que no podia falar e que estava perdida. Mas o rei
    continuou, com incrvel compostura:
    -- Sr. de Charny,  pouco honroso para um fidalgo ser surpreendido em
    flagrante delito de roubo.
    -- De roubo! -- murmurou o moo.
    -- De roubo! -- repetiu a rainha, que cuidava ainda ouvir sibilarem as
    horrveis acusaes tocantes ao colar, e supunha v-las salpicando tambm
    o conde.
    -- Sim, -- prosseguiu o rei, -- ajoelhar-se diante da mulher de outro
    homem  um roubo; e quando essa mulher  uma rainha, senhor, chama-
    se ao crime lesa-majestade. Farei que vos diga isso, Sr. de Charny, o meu
    Ministro da Justia.
    O conde ia falar; ia protestar inocncia, quando a rainha, impaciente na sua
generosidade, no quis permitir que taxassem de indigno o homem que ela
amava; acudiu-lhe.
    -- Sire, -- obtemperou, vivamente, -- Vossa Majestade, segundo me parece,
est no caminho das ms suspeitas e das suposies desfavorveis; essas
suspeitas e essas prevenes no tm lugar aqui. Vejo que o respeito tolhe a
lngua do conde; mas eu, que lhe conheo o fundo do corao, no deixarei
que o acusem sem defend-lo.
    A essa altura se deteve, esgotada pela emoo, aterrada pela mentira que
seria obrigada a encontrar e desesperada porque a no encontrava.
    Mas essa hesitao, que parecia odiosa ao seu altivo esprito de rainha,
era, pura e simplesmente, a salvao da mulher. Nos
592                          ALEXANDRE DUMAS

horrveis embates, em que no raro se jogam a honra e a vida da mulher
surpreendida, um minuto ganho basta a salvar, como um segundo perdido
bastara a perder.
    Instintivamente, a rainha aproveitara a ocasio da demora e atalhara as
suspeitas do rei; confundir-lhe o esprito, ao mesmo tempo que reafirmara o do
conde. Esses minutos decisivos tm asas rpidas, que levam to longe a
convico de um ciumento, que quase nunca torna a encontrar-se, a no ser
que o demnio protetor dos invejosos de amor a traga de volta nas suas.
    -- Dir-me-, porventura, -- respondeu Lus XVI, passando do papel de rei
    ao de marido inquieto, -- que no vi o Sr. de Charny ajoelhado a seus
    ps?     Ora, para que se ajoelhe algum sem que o tornem a levantar, 
    preciso. ..
    --  preciso, Sire, -- reconveio, severa, a rainha, -- que um sdito da
    rainha de Frana tenha uma graa que lhe pedir... Se no me engano,
    trata-se de um caso muito frequente na corte.
    -- Uma graa que lhe pedir! -- bradou Lus XVI.
    -- E uma graa que eu no podia conceder, -- prosseguiu ela. -- No fora
    isso, e o Sr. de Charny no teria insistido, juro-lho, e eu teria tido a
    alegria de satisfazer o pedido de um fidalgo que me merece particular
    estima.
    Respirou Charny. O olhar do rei tornara-se indeciso, a sua fronte
desarmava-se gradativamente da inslita ameaa que nela pusera a surpresa.
    Entrementes, Maria Antonieta procurava, desesperada por ser obrigada a
mentir, aflita por nada encontrar que lhe parecesse verossmil.
    Confessando-se incapaz de conceder ao conde a graa solicitada, acreditara
ter cativado a curiosidade do rei e esperava que nisso se cifrasse o
interrogatrio. Enganava-se, porm: qualquer outra mulher teria sido mais
hbil mostrando-se menos dura; mas, para ela, era um suplcio atroz mentir
diante do homem amado. Desvelar-se  luz falsa e miservel da hipocrisia das
comdias equivalia a rematar todas as falsidades, todas as astcias, todos os ma-
nejos da intriga do parque com um desfecho conforme  sua infmia; era
quase revelar-se culpada: era pior do que a morte.
    Hesitou ainda. Teria dado a vida para que Charny encontrasse a mentira;
mas le, fidalgo leal, no podia faz-lo, nem sequer pensava nisso. Receava at,
na sua delicadeza, parecer pressuroso em defender a honra da rainha.
    O que aqui escrevemos em muitas linhas, em demasiadas linhas talvez,
embora a situao fosse fecunda, meio minuto bastou para que o sentissem e
exprimissem os trs atores.
    Maria Antonieta esperava, suspensa dos lbios do rei, a pergunta que
afinal estourou.
                         COLAR DA RAINHA                                     593

    -- Vamos a ver, senhora, diga-me qual  a graa que, solicitada em vo pelo
Sr. de Charny, o levou a ajoelhar-se a seus ps?
    E, como se quisesse atenuar a dureza da pergunta suspeitosa, ajuntou:
    -- Serei talvez mais feliz do que a senhora, e o Sr. de Charny no
    precisar ajoelhar-se aos meus.
    -- Sire, eu j lhe disse que o Sr. de Charny me pedia uma coisa
    impossvel.
    -- Mas que coisa?
    -- Que  o que se pode pedir de joelhos?. .. -- dizia a rainha entre si; --
    que  o que se pode implorar de mim e que me seja impossvel
    conceder?... Vejamos! vejamos!
    -- Estou esperando, -- insistiu o rei.
    -- Sire,  que... o pedido do Sr. de Charny  um segredo de famlia.
    -- No h segredos para o rei, que  senhor em seu reino e pai de famlia
    interessado na honra, na segurana de todos os seus sditos, seus filhos; at,
    -- acrescentou Lus XVI com temvel dignidade, -- at quando esses filhos
    desnaturados atacam a honra e a segurana do pai.
    A rainha deu um pulo ouvindo essa ltima ameaa do perigo.
    -- O Sr. de Charny, -- exclamou, com esprito conturbado e mo
    trmula, -- o Sr. de Charny pretendia obter de mim...
    -- O que, senhora?
    -- Permisso para casar.
    -- Deveras! -- bradou o monarca, a princpio tranquilizado. Logo,
    remergulhando no seu inquieto cime:
    -- Muito bem! -- continuou, sem notar o quanto sofria a pobre mulher por
    haver pronunciado aquelas palavras, nem a impressionante palidez de
    Charny vendo o sofrimento da rainha; -- mas por que no  possvel casar
    o Sr. de Charny? Acaso no pertence le  boa nobreza? No fz uma
    bela fortuna? No  corajoso e bem apessoado?             Em verdade, para
    recusar-lhe o acesso a uma famlia, ou para que o repila uma mulher, ela
    ter de ser princesa de sangue ou casada; a meu ver, somente essas duas
    razes poderiam representar uma impossibilidade. Portanto, senhora, diga-
    me o nome da mulher que o Sr. de Charny pretende desposar, e, se no
    estiver includa em nenhum desses dois casos, garanto-lhe que eliminarei
    as dificuldades. .. para agradar-lhe.
    Arrastada pelo perigo sempre crescente, levada pelas prprias
consequncias da primeira mentira, tornou a rainha com energia:
    -- No, senhor, no; h dificuldades que Vossa Majestade no pode
    vencer. A que nos preocupa  uma delas.
    -- Mais uma razo para que eu saiba o que  impossvel ao rei, --
    atalhou Lus XVI com surda clera.
594                            ALEXANDRE DUMAS

    Charny considerou a rainha, que parecia prestes a cair. Deu um passo na
sua direo; deteve-o, porm, a prpria imobilidade do rei. Com que direito
le, que no era nada para ela, teria oferecido a mo ou o brao  mulher que
o rei e o marido desamparava?
    -- Qual ser, -- perguntava Maria Antonieta a si mesma, -- o poder
contra o qual o rei no tem ao?        Mais uma ideia, mais uma ajuda, meu
Deus!
    A sbitas, um claro atravessou-lhe o esprito.
    -- Ah!  o prprio Deus quem me manda este auxlio! -- murmurou. -- As
que pertencem a Deus no lhe podem ser tomadas, nem mesmo pelo rei.
    Logo, erguendo a cabea:
    -- Senhor, -- disse, finalmente, -- a mulher que o Sr. de Charny deseja
    esposar est num convento.
    -- Ah! -- bradou o rei, -- eis uma razo; com efeito,  muito difcil
    arrancar a Deus o que lhe pertence para d-lo aos homens. Mas  estranho
    que o Sr. de Charny se haja apaixonado to subitamente: nunca ningum
    me falou nisso, nem sequer o tio dele, que pode alcanar tudo de mim.
    Quem  a mulher que amais, Sr. de Charny? Dizei-mo, por favor.
    Sentiu a rainha uma dor pungente. Ia ouvir um nome pronunciado pela
boca de Oliveiros; ia sofrer a tortura daquela mentira. E talvez Charny
revelasse, ou um nome outrora amado, uma lembrana ainda sangrenta do
passado, ou um nome, germe de amor, vaga esperana de futuro. Para no
receber o golpe terrvel, adiantou-se; e exclamou de repente:
    -- Vossa Majestade conhece a pessoa que o Sr. de Charny est pedindo em
casamento; ... a Srta. Andreia de Taverney. Charny despediu um grito e
escondeu o rosto entre as mos. A rainha levou a mo ao corao e foi cair,
quase desfalecida, na poltrona.
    -- A Srta. de Taverney! -- repetiu o rei, -- a Srta. de Taverney, que foi para
    o convento de So Dinis?
    -- Sim, Sire, -- articulou fracamente a rainha.
    -- Mas ela no professou, que eu saiba.
    -- Mas deve professar.
    -- Impor-lhe-emos uma condio, -- prometeu o rei, que ajuntou,
    entretanto, com um derradeiro toque de desconfiana, -- e por que haveria
    de professar?
    -- Porque  pobre, -- respondeu Maria Antonieta; -- Vossa Majestade no
    lhe enriqueceu o pai, -- acrescentou, duramente.
    -- Est a um erro que hei de reparar, senhora; o Sr. de Charny ama-a...
    A rainha estremeceu e lanou ao rapaz um olhar vido, como a suplicar-
lhe que o negasse.
                       O COLAR DA RAINHA                                     595

    Charny considerou-a fixamente e no disse nada.
    -- Bem! -- voltou o rei, que lhe interpretou o silncio como um
respeitoso assentimento; -- e, sem dvida, a Srta. de Taverney ama o Sr. de
Charny? Dar-lhe-ei por dote as quinhentas mil libras que precisei recusar no
outro dia, para a senhora, ao Sr. de Calonne.        Agradecei  rainha, Sr. de
Charny, o haver ela decidido contar-me esse caso, assegurando assim a vossa
felicidade.
    Charny deu um passo para a frente e inclinou-se como uma plida esttua a
quem Deus, por um milagre, houvesse momentaneamente dado vida.
    -- Isso no vale a pena de vos ajoelhardes outra vez, -- tornou o rei, com a
leve nuana de zombaria vulgar que no raro tem perava nele a tradicional
nobreza dos antepassados.
    A rainha estremeceu e estendeu, num movimento espontneo, as mos ao
rapaz. le se ps genuflexo diante dela e nas formosas mos geladas deps-lhe
um beijo em que rogava a Deus que lhe permitisse exalar a alma.
    -- Vamos, -- disse o rei, -- deixemos agora a Sua Majestade o cuidado de
vossos negcios; vinde, senhor, vinde.
    E to depressa se afastou que Charny, no limiar da porta, pde voltar-se
e ver o inefvel sofrimento daquele eterno adeus que lhe enviava os olhos da
rainha.
     Fechou-se entre eles a porta, como uma barreira a partir de ento
intransponvel para os seus inocentes amores.
                                  LXXXII


                                 So Dinis

    A RAINHA ficou s e desesperada. Tantos golpes a afligiam ao mesmo
tempo, que j no sabia de que lado lhe vinha a dor mais viva.
    Depois de ficar mais de uma hora naquele estado de dvida e
abatimento, cuidou consigo s que j era tempo de buscar uma sada. O
perigo aumentava. Ufano de uma vitria obtida sobre as aparncias, o rei
se daria pressa de propag-la. E podia acontecer que a notcia fosse recebida
de tal maneira l fora, que se perdesse todo o proveito da fraude cometida.
    Aquela fraude, como a reprochava a si mesma a rainha, como teria querido
reter ainda a palavra que j voara, como teria querido arrancar, at de
Andreia, a quimrica felicidade que ela talvez recusasse!
    Nesse ponto, com efeito, surgia outra dificuldade. O nome de Andreia
salvara tudo diante do rei. Mas qual seria a reao daquele esprito
caprichoso, independente, voluntarioso, que se chamava Srta. de Taverney?
Quem poderia fiar-se de que a soberba criatura consentisse em alienar a
liberdade e o futuro em benefcio de uma rainha que, poucos dias antes,
deixara como inimiga?
    Que sucederia ento? Se Andreia recusasse, o que era muito possvel,
abaixo viria todo o edifcio da mentira. A rainha passaria por uma intrigante
medocre, Charny por um medocre chi-(hisbu, um mentiroso, e a calnia,
transformada em acusao, assumiria as propores de um adultrio
incontestvel.
    Sentiu Maria Antonieta fugir-lhe a razo diante dessas reflexes; por
pouco no cedeu  possibilidade delas; mergulhou entre as mos a cabea
ardente, e esperou.
    De quem se fiar? Quem era, afinal, amiga da rainha? A Sra. de
Lamballe? Oh! a razo pura, a fria e inflexvel razo! Por que tentar aquela
imaginao virginal, que, de resto, no quereriam compreender as damas de
honor, servis aduladoras da prosperidade, trmulas ao sopro do desfavor,
dispostas talvez a dar-lhe uma lio quando ela mais necessitasse de socorro?
    Restava apenas a prpria Srta. de Taverney, corao de diamante, cujas
arestas podiam cortar o vidro, mas cuja invencvel
                         O COLAR DA RAINHA                                    597

solidez, cuja pureza profunda, eram as nicas capazes de simpatizar com as
grandes dores de uma rainha.
    Maria Antonieta iria, portanto, procur-la. Expor-lhe-ia a sua desgraa,
suplicar-lhe-ia que se imolasse. Andreia, sem dvida, recusaria, porque no era
das que aceitam imposies de uma vontade alheia; mas, pouco a pouco,
abrandada pelos seus rogos, acabaria consentindo. Alis, quem sabe se, a essa
altura, no seria possvel obter um adiamento? Se, passado o primeiro fogo, o
rei, satisfeito com o consentimento aparente dos dois noivos, no acabaria
esquecendo?... Uma viagem, ento, resolveria tudo. Ausentando-se por algum
tempo, Andreia e Charny, at que a hidra da calnia saciasse a fome, poderiam
deixar dizer que haviam desfeito, amigavelmente, o compromisso, e ningum
suspeitaria sequer de que o projeto de casamento no passara de um logro.
    Dessarte, a liberdade da Srta. de Taverney no se teria comprometido; a de
Charny tambm no se alienaria. Desapareceria para a rainha o remorso
horrvel de haver sacrificado duas existncias ao egosmo da sua honra; essa
mesma honra, que compreendia tambm a do marido e a dos filhos, no seria
manchada, e ela poderia transmiti-la, sem mcula,  futura rainha de Frana.
    Tais eram as suas reflexes.
    Assim cria haver tudo conciliado de antemo, convenincias e interesses
privados. Mas era mister raciocinar com firmeza lgica em face de to
medonho perigo. Era mister armar-se de todas as armas diante de um
adversrio difcil como a Srta. de Taverney, quando escutava o orgulho e o
corao.
    Tendo-se preparado, decidiu-se a partir. Bem quisera avisar Charny de que
no desse nenhum passo em falso, mas nisso foi impedida pela ideia de que
estava sendo, sem dvida, vigiada por espias; que de sua parte tudo seria mal
interpretado num momento como aquele; e que farte conhecia a retido, o
devotamento e a determinao de Oliveiros para convencer-se de que le
ratificaria quanto ela entendesse conveniente fazer.
    Trs horas soaram; o jantar de grande cerimnia, as apresentaes, as
visitas. A rainha recebeu toda a gente com o rosto sereno e uma afabilidade
que nada lhe quitava ao reconhecido orgulho. Chegou mesmo a afetar em
presena dos que supunha inimigos uma firmeza que, de ordinrio, no se
adequa aos culpados.
     Nunca fora to grande a afluncia ao pao; a curiosidade nunca
vasculhara to profundamente os mais mnimos traos de uma rainha em
perigo. Maria Antonieta tudo afrontou, consternou os inimigos e inebriou os
amigos; fz dos indiferentes, zelosos, dos zelosos, entusiastas; e a todos pareceu
to bela e to grande que o rei lhe dirigiu publicamente as suas felicitaes.
     E seguida, terminada a recepo, depois que ela desafivelou do rosto os
sorrisos de encomenda, depois que voltou a encontrar-
598                             ALEXANDRE DUMAS

-se com as suas recordaes, isto , com as suas dores, e se viu s, inteiramente s,
trocou de roupa, ps um chapu cinzento de fitas e flores azuis, um vestido
de seda cr de cinza, tomou o carro e, sem guardas, acompanhada apenas de
uma dama, fz-se conduzir a So Dinis.
    Era a hora em que as religiosas, recolhidas s celas, passavam do modesto
rumor do refeitrio para o silncio das meditaes que precedem a ltima
orao do dia.
    A rainha mandou chamar ao locutrio a Srta. Andreia de Ta-verney.
    Esta, ajoelhada, envolta no roupo de alva l, contemplava pela janela a
lua que se erguia atrs das grandes tlias, e, na poesia da noite que comea,
encontrava o tema de todas as preces ardentes, apaixonadas, que mandava a
Deus para alvio de sua alma.
    Bebia em longos sorvos a dor irremedivel da ausncia voluntria. Esse
suplcio s o conhecem as almas fortes; , a um tempo, tortura e prazer.
Assemelha-se, pelas angstias, s dores vulgares. Mas traz aps si uma volpia
que s podem sentir os que sabem imolar a felicidade ao orgulho.
    Andreia deixkva voluntariamente a corte, volutriamente rompera com tudo
aquilo que lhe pudesse alimentar o amor. Orgulhosa como Clepatra, no
pudera suportar sequer a ideia de que o Sr. de Charny pensasse em outra
mulher, ainda que essa mulher fosse a rainha.
    No tinha prova nenhuma desse amor ardente a outra, pois teria, em caso
contrrio, extrado dessa prova toda a convico que pode fazer sangrar um
corao. Mas no vira Charny passar indiferente ao seu lado? No suspeitara de
que a rainha guardava, inocentemente sem dvida, mas guardava as homenagens
e a preferncia de Charny?
    De que lhe servia, assim, continuar em Versalhes? Para mendigar
cumprimentos? Para solicitar sorrisos? Para obter, de tempos a tempos, o
consolo de um brao oferecido, de um aperto de mo, quando, nos seus
passeios, a rainha lhe emprestasse as cortesias de Charny por no poder
recolh-las no momento?
    No, nada de covardes fraquezas, nada de transaes para aquela alma
estica. A vida com o amor e a preferncia, o claustro com o amor e o
orgulho ferido.
    -- Nunca! nunca! -- repetia entre si a altiva; -- aquele que amo na
sombra, aquele que  para mim apenas uma nuvem, um retrato, uma
lembrana, esse nunca me ofende, sempre me sorri, e sorri apenas para mim!
    Eis por que passara tantas noites dolorosas, mas livres; eis por que, feliz por
chorar quando se sentia fraca, por amaldioar quando se exaltava, preferia a
ausncia voluntria, que lhe permitia a inte-
                         O COLAR DA RAINHA                                    599

gridade do seu amor e da sua dignidade,  faculdade de rever um homem que
detestava por ser obrigada a am-lo.
    E, de resto, essas mudas contemplaes do amor puro, esses divinos
xtases do sonho solitrio, representavam muito mais a vida para a selvagem
Andreia do que as festas luminosas em Versalhes, e a necessidade de curvar-se
diante das rivais, e o terror de deixar que lhe escapasse um dia, diante de todos,
o segredo encerrado no corao.
    Dissemos que na noite do dia de So Lus a rainha foi procurar Andreia
em So Dinis e a encontrou meditativa em sua cela.
    Foram avis-la, com efeito, de que a rainha acabava de chegar, que estava
sendo recebida no locutrio grande, e que Sua Majestade, logo aps os
primeiros cumprimentos, perguntara se podia falar com a Srta. de Taverney.
    Coisa estranha! tanto bastou para que Andreia, corao amolecido pelo
amor, saltasse ao encontro daquele perfume que lhe chegava de Versalhes,
perfume maldito ainda na vspera, e tanto mais precioso quanto mais se
afastava, precioso como tudo o que se evapora, como tudo o que se esquece,
precioso como o amor!
    -- A rainha! -- murmurou. -- A rainha em So Dinis! A rainha est-me
    chamando!
    -- Depressa, depressa! -- responderam-lhe.
    Apressou-se, com efeito: atirou sobre os ombros o longo manto das
religiosas, apertou o cinto de l em torno do vestido flutuante e, sem dirigir
sequer um olhar ao seu espelhinho, seguiu a rodeira, que fora cham-la.
    Mal dera, porm, cem passos e sentiu-se humilhada por haver ficado to
alegre.
    -- Por que, -- cuidou consigo s, -- estremeceu meu corao? Por que
haver de interessar a Andreia de Taverney que a rainha de Frana visite o
mosteiro de So Dinis? Ser orgulho o que estou sentindo?            A rainha no
veio por minha causa.        Ser felicidade? J no gosto da rainha.     Vamos!
calma, tbia religiosa, que no pertences a Deus nem ao mundo; procura, ao
menos, pertencer-te a ti mesma.
    Assim se repreendia ao descer a escada e, senhora de sua vontade, apagou
das faces o fugitivo rubor da precipitao e temperou a rapidez dos
movimentos. Mas, para consegui-lo, levou mais tempo descendo os seis ltimos
degraus do que levara para transpor os trinta primeiros.
    Quando chegou atrs do coro, no parlatrio de cerimnia, onde o fulgor
dos lustres e dos crios aumentava sob as mos urgentes de algumas irms
conversas, estava plida e fria.
    Quando ouviu o prprio nome pronunciado pela rodeira que a conduzia,
quando avistou Maria Antonieta sentada na poltrona
600                          ALEXANDRE DUMAS

abacial, ao passo que  sua roda se inclinavam, zelosas, as cabeas mais nobres
do captulo, sentiu-se tomada de palpitaes, que lhe suspenderam a marcha
por vrios segundos.
    -- Aproximai-vos, parai que eu possa falar convosco, senhorita, -- disse a
rainha sorrindo a medo.
    Abeirou-se Andreia e curvou a cabea.
    -- Com licena, senhora? -- pediu Maria Antonieta, voltando-se para a
superiora.
    Esta respondeu com uma reverncia e deixou o locutrio, seguida de todas
as religiosas.
    A rainha ficou s, em companhia de Andreia, cujo corao batia com
tanta fora que teria sido possvel ouvi-lo no fosse o rumor mais lento do
pndulo do velho relgio.
                                 LXXXIII


                             Um corao morto

   COMO era de praxe, foi a rainha quem iniciou a entrevista. -- Com
que, ento, aqui estais, senhorita! -- comeou, com um fino sorriso; --
sabeis que me produzis singular impresso vestida de religiosa?
   Andreia no respondeu.
   -- Ver uma antiga companheira, -- prosseguiu a soberana, -- j perdida
   para o mundo em que continuamos a viver,  como um severo conselho
   que nos d o tmulo. No sois do meu parecer?
   -- Senhora, -- replicou Andreia, -- quem se afoitaria a dar conselhos a
   Vossa Majestade? A prpria morte no a avisar no dia em que vier
   busc-la. E nem poder fazer de outra maneira.
   -- Por qu?
   -- Porque, senhora, pela natureza de sua elevao, uma rainha s est
   destinada a sofrer neste mundo as necessidades inevitveis. Possui quanto
   pode melhorar-lhe a existncia; e toma dos outros quanto pode, neles,
   ajud-la a enfeitar a sua carreira.
   A rainha fz um movimento de surpresa.
   -- E  um direito que lhe assiste, -- apressou-se em dizer Andreia. -- Os
   outros, para uma rainha, so uma coleo de sditos cujos bens, cuja
   honra e cuja vida pertencem aos soberanos. A vida, a honra e os bens,
   morais ou materiais, so, portanto, propriedade sua.
   -- Essas doutrinas me espantam, -- acudiu lentamente Maria Antonieta.
   -- Fazeis de uma soberana, neste pas, no sei que bruxa de conto de
   fadas, que engole a fortuna e a felicidade dos simples cidados. Acaso
   serei eu uma mulher assim? Tereis, porventura, tido motivos srios de
   queixa contra mim quando estveis na corte?
   -- Vossa Majestade teve a bondade de fazer-me idntica pergunta quando
   a deixei, -- replicou Andreia; -- e respondi como respondo agora: No,
   senhora.
   -- Frequentemente, todavia, -- tornou a rainha, -- nos sentimos
   ofendidas por um motivo no pessoal.          Acaso prejudiquei alguns dos
   vossos e, por conseguinte, mereci as palavras duras que
602                         ALEXANDRE DUMAS

acabastes de dirigir-me? O retiro que escolhestes, Andreia  asilo contra
as ms paixes do inundo. Nele nos ensina Deus a doura, a moderao, o
esquecimento das injurias, virtudes cujo modelo mais puro  le mesmo.
Devo encontrar, vindo aqui para ver uma irm em Jesus Cristo, sobrecenno e
fel? Devo encontrar, vindo como amiga, as censuras ou a animosidade velada
de uma inimiga irreconcilivel?
    Andreia ergueu os olhos, pasmada daquela placidez a que Maria
Antonieta no habituara os seus servidores, pois era altiva e rude em face das
resistncias.
    O ter ouvido sem irritao as palavras que a jovem pronunciara representava
um esforo de pacincia e de amizade que tocou sensivelmente a selvagem
solitria.
    -- Vossa Majestade sabe perfeitamente, -- respondeu, com voz mais baixa,
    -- que os Taverneys no podem ser seus inimigos.
    -- Compreendo, redarguiu a rainha; -- no me perdoais o haver-me eu
    mostrado fria para com vosso irmo, e le mesmo talvez me acoime de
    leviana e at de caprichosa?
    -- Meu irmo, como sdito,  respeitoso demais para acusar a rainha, --
    tornou Andreia, forcejando por conservar a rigidez.
    Compreendeu Sua Majestade que se tornaria suspeita aumentando a dose de
mel destinada a adoar os lbios do crbero. De-teve-se.
    -- O fato, -- disse ela, --  que, vindo a So Dinis para falar com
Madame, eu quis ver-vos e repetir-vos que, de perto como de longe, continuo
vossa amiga.
    Andreia percebeu a nuana; receava, por seu lado, haver ofendido uma
criatura que a acariciava; e receava muito mais ter descoberto a sua chaga
dolorosa aos olhos sempre clarividentes de uma mulher.
    -- Vossa Majestade cumula-me de honra e de alegria, -- disse, tristemente.
    -- No fales assim, Andreia, -- replicou a rainha, apertando-lhe a mo; --
    despedaas-me o corao. No se dir que uma desgraada rainha no
    possa ter uma amiga, no possa dispor de uma alma, no possa repousar
    confiante os olhos em olhos encantadores como os teus, sem receio de
    encontrar-lhes no fundo interesse ou ressentimento!      Sim, sim, Andreia,
    podes invejar essas rainhas, essas senhoras dos bens, da honra e da vida de
    todos. So rainhas, sim, possuem o ouro e o sangue de seus povos; mas o
    corao, nunca!
    nunca! No podem tom-lo,  preciso que lhos dem.
    -- Asseguro a Vossa Majestade, -- voltou Andreia, abalada pela calorosa
    alocuo, -- que lhe quis como nunca hei de querer a ningum neste
    mundo.
    E, dizendo essas palavras, acarminou-se e abaixou a cabea.
                         O COLAR DA RAINHA                                     603

   -- T u . . . t u . . . me quisestes! -- bradou Maria Antonieta, pegando no ar as
   palavras; -- portanto, j no me queres?
   -- Oh! senhora!
   -- No te pergunto nada, Andreia...            Maldito seja o claustro que assim
   apaga to depressa a memria em certos coraes.
   -- No acuse meu corao, -- atalhou vivamente a jovem, --
   le est morto.
   -- Teu corao est morto!              Tu, Andreia, jovem, bela, dizes que est
   morto o tu corao! Ah! no brinques com palavras fnebres.                No
   pode estar morto o corao de quem conserva este sorriso, esta beleza!
   No digas isso, Andreia.
   -- Repito-lhe, senhora, que nada na corte e nada no mundo existe ainda
   para mini. Vivo aqui como a relva e a planta; tenho alegrias que s eu
   entendo; eis por que, ao rev-la h pouco, esplndida e soberana, eu, a
   tmida e obscura religiosa, no compreendi
   de pronto; fecharam-se-me os olhos, deslumbrados pelo brilho de Vossa
   Majestade; suplico-lhe que me perdoe: no  assim to grande crime este
   olvido das gloriosas vaidades do mundo; por le me felicita todos os dias
   o meu confessor; suplico-lhe, senhora, no se mostre mais severa do que
   le!
   -- Como! porventura te coprazes no convento? -- perguntou Maria
   Antonieta.
   -- Abrao venturosa a vida solitria.
   -- Nada mais te recomenda as alegrias do mundo?
   -- Nada.
   -- Meu Deus! -- pensou, inquieta, a rainha; -- dar-se- que se fruste o meu
   intento?
    E um frmito mortal lhe percorreu as veias.
   -- Experimentemos tent-la, -- disse a ss consigo; -- se me falhar esse
meio, recorrerei s splicas. Oh! suplicar-lhe uma coisa dessas, suplicar-lhe
que aceite o Sr. de Charny! Misericrdia! como sou infeliz!
    --          Andreia, -- volveu, dominando a emoo, -- acabas de exprimir
    a tua satisfao em termos que me tiram a esperana que eu havia
    acalentado.
    --          Que esperana, senhora?
    --          Nem falemos nisso, se ests decidida como pareces... Ai de mim!
    era-me uma sombra de prazer, que me fugiu! Tudo se me resume em
    sombras! No pensemos mais nisso.
    --          Mas afinal, senhora, j que Vossa Majestade deve tirar da uma
    satisfao, explique-me. ..
    --          Para qu? Retiraste-te do mundo, no  verdade?
    --          Sim, senhora.
    --          De bom grado?
    --          De minha livre e espontnea vontade.
--   E tu te aplaudes pelo que fizeste?
604                        ALEXANDRE DUMAS

    -- Mais do que nunca.
    -- Como vs,  intil falar. Deus  testemunha, contudo, de que, por um
    momento, julgei poder fazer-te feliz.
    -- A mim?
    -- Sim, a ti, ingrata que me acusavas. Hoje, porm, conheceste outras
    alegrias, sabes melhor do que eu quais so os teus gostos e a tua
    vocao. Renuncio...
    -- Mas, afinal, senhora, faa-me a honra de esclarecer-me.
    --  muito simples: eu pretendia levar-te de volta para a corte.
    -- Oh! -- exclamou Andreia com um sorriso cheio de azedume, -- eu,
    voltar  corte?... meu Deus!... No! no! senhora, nunca!. . . posto que
    muito me custe desobedecer a Vossa Majestade.
    A rainha estremeceu. Encheu-se-lhe o corao de uma dor inexprimvel.
Naufragava, possante navio, num tomo de granito.
    -- Recusas? -- murmurou.
    E para esconder a perturbao, encerrou o rosto entre as mos.
    Julgando-a acabrunhada, aproximou-se Andreia e ajoelhou-se, como se
quisesse adoar pelo respeito a ferida que acabava de causar  amizade ou ao
orgulho.
    -- Vejamos, -- disse, -- que teria feito de mim Vossa Majestade na corte,
    de mim que sou triste, nula, pobre, de mim que sou maldita, que
    afugento toda a gente porque nem sequer soube inspirar, miservel, s
    mulheres a vulgar inquietao das rivalidades, aos homens a vulgar
    simpatia da diferena dos sexos?...      Ah! senhora e querida ama, deixe
    em paz esta religiosa: nem foi aceita de Deus, que a considera ainda
    muito cheia de defeitos, le que acolhe os enfermos do corpo e os do
    corao. Deixe-me na minha
    misria, no meu isolamento; deixe-me!
    -- Ah! -- exclamou a rainha, erguendo os olhos, -- o estado
    que eu vinha propor-te  um desmentido a todas as humilhaes
    de que te queixas! Trata-se de um casamento que faria de ti uma das
    maiores damas de Frana.
    -- Um... casamento? -- balbuciou Andreia, estupefata.
    -- Recusas? -- insistiu a rainha, cada vez mais descorooada.
    -- Recuso!
    -- Andreia. . . -- tornou ela.
    -- Recuso, senhora, recuso!
    Nesse momento, preparou-se Maria Antonieta, com medonho aperto no
corao, para recorrer s splicas. Andreia atalhou-lhe o movimento quando
a viu levantar-se, indecisa, trmula, desvairada, sem encontrar sequer a
primeira palavra do discurso.
    -- Pelo menos, senhora, -- rogou a moa, retendo-a pelo vestido, pois
cria v-la partir, -- faa-me a graa insigne de dizer o nome do homem que
me aceitaria por companheira; j sofri tantas humilhaes, que o nome desse
homem generoso...
                        O COLAR DA RAINHA                                  605

    E sorriu com pungente ironia.
    -- Ser, -- completou, -- o blsamo que aplicarei, doravante, a todas as
feridas do orgulho.
    A rainha hesitou; mas tinha necessidade de ir at ao fim.
    -- O Sr. de Charny, -- respondeu em tom triste, indiferente.
    -- O Sr. de Charny! -- repetiu Andreia, numa exploso assustadora; -- o
    Sr. Oliveiras de Charny!
    -- O Sr. Oliveiras, sim, -- confirmou a rainha, considerando-a com
    espanto.
    -- O sobrinho do Sr. de Suffren? -- continuou a moa cujas faces se
    purpurearam, cujos olhos resplandeceram como estrelas.
    -- O sobrinho do Sr. de Suffren, -- replicou Maria Antonieta, cada vez
    mais impressionada com a transformao operada nos traos da reclusa.
    --  com o Sr. Oliveiras que quer casar-me?
    -- Com le mesmo.
    -- E . . . le consente?...
    -- le te pede em casamento.
    -- Oh! aceito, aceito, -- bradou Andreia, louca e transportada.
    --  a mim, ento, que le ama!. . . a mim que le ama como eu o amava!
    Maria Antonieta recuou, lvida e trmula, despedindo um gemido surdo; foi
cair aniquilada numa poltrona, ao passo que a insensata lhe beijava os joelhos,
o vestido, molhando-lhe de lgrimas as mos e mordendo-as de beijos
ardentes.
    -- Quando partimos? -- perguntou, por fim, quando a palavra pde
    suceder aos gritos abafados e aos suspiros.
    -- Vem, -- murmurou a rainha, que sentia fugir-lhe a vida e queria salvar
    a prpria honra antes de morrer.
    Levantou-se, apoiou-se em Andreia, cujos lbios ardentes lhe buscavam as
faces geladas; e, enquanto a jovem se preparava:
    -- E ento, meu Deus!. .. no bastam tantos sofrimentos para um s
    corao? -- murmurou, com um soluo, a infortunada soberana, que
    possua a vida e a honra de trinta milhes de sditos.
    -- E, no entanto, cumpre ainda que eu vos agradea! -- acrescentou; --
    pois salvais meus filhos do oprbrio e dais-me o direito de morrer debaixo
    do manto real!
                                   LXXXIV


               Em que se explica por que engordava o baro

    AO PASSO que a rainha decidia, em So Dinis, a sorte da Srta. de
Taverney, Filipe, com o corao ulcerado por tudo o que soubera, por tudo o
que acabara de descobrir, apressava os aprestos da sua partida.
   Um soldado avezado a correr mundo no leva muito tempo para fazer as
malas e envergar a capa de viagem. Mas Filipe tinha motivos mais fortes ainda
para alongar-se rapidamente de Versalhes: 'no queria ser testemunha da
desonra provvel e iminente da rainha, sua nica paixo.
   Por isso mesmo viram-no, com mais ardor do que nunca, mandar arrear os
cavalos, carregar as armas, enfiar na mala o que possua de mais familiar para a
vida de todos os dias; e quando terminou tudo isso, mandou avisar o Sr. de
Taverney de que precisava falar-lhe.
   O velhinho estava regressando de Versalhes, sacudindo da melhor maneira
possvel as pernas finas, que suportavam uma barriga o seu tanto avantajada.
Fazia uns trs ou quatro meses que o baro comeara a engordar, o que lhe
proporcionava um orgulho fcil de compreender-se, se se atentar para o fato
de que o cmulo da obesidade devia ser nele o sinal de um perfeito
contentamento.
    Ora, o perfeito contentamento do Sr. de Taverney  uma expresso que
encerra muitos sentidos.
    Voltara, pois, o baro muito prazenteiro do passeio ao castelo. Soubera
tambm, com pormenores, do escndalo do dia. Sorrira ao Sr. de Breteuil
contra o Sr. de Rohan; aos Srs. de Soubise e de Gumene contra o Sr. de
Breteuil; ao Sr. da Provena contra a rainha; ao Sr. do Artois contra o Sr. da
Provena; a cem pessoas contra cem outras pessoas; a ningum a favor de
algum. Tinha le as suas provises de maldades, de infmiazinhas. Em suma,
voltava feliz para casa.
    Quando soube pelo criado que o filho desejava falar-lhe, em vez de
esperar, foi le quem atravessou um corredor inteiro para ir ter com o
viajante.
    Entrou sem se fazer anunciar, no quarto cheio da desordem que precede
uma partida.
                        O COLAR DA RAINHA                                   607

    Filipe no contava com grandes exploses de sensibilidade, quando o pai
viesse a saber da sua resoluo, mas tambm no esperava muita indiferena.
De feito, Andreia j deixara a casa paterna, era uma existncia a menos para
atormentar; o velho baro devia estar comeando a sentir uma espcie de
vcuo e, quando esse vcuo fosse completado pela ausncia do derradeiro
mrtir, como as crianas de que se tomam o co e o passarinho le bem
poderia choramingar um pouco, nem que fosse por egosmo.
    Mas Filipe ficou espantadssimo quando o ouviu exclamar, entre frouxos
de riso jubiloso:
    -- Ah! meu Deus! le vai-se embora, le vai-se embora...
    Deteve-se e olhou, estuporado, para o pai.
    -- Eu tinha certeza, -- continuou o baro; -- eu seria at capaz de apostar.
    Bem representado, Filipe, bem representado.
    -- Como, senhor? -- tornou o rapaz; -- dizei-me, por favor, o que  que
    foi bem representado?
    O velho comeou a cantarolar saltitando sobre uma perna s e segurando
com as mos o ventre incipiente.
    E, ao mesmo tempo, no parava de piscar os olhos para o filho, intimando-o
assim a dispensar o camareiro.
    Filipe compreendeu-o e obedeceu. O baro empurrou Cham-pagne para
fora do quarto e fechou a porta. Em seguida:
    -- Admirvel, -- disse em voz baixa, -- admirvel!
    -- Estais-me fazendo muitos elogios, senhor, -- respondeu Filipe friamente,
    -- sem que eu saiba o que fiz por merec-los...
    -- Ah! ah! ah! -- continuou o velho, bambaleando.
    -- A menos que essa hilaridade toda seja causada pela minha partida, que
    vos livra de mim.
    -- Oh! oh! oh!. . . -- tornou, rindo em outro tom, o baro. -- No te
    constranjas em minha presena, que no vale a pena; sabes perfeitamente
    que no me enganas... Ah! ah! ah!
    Filipe cruzou os braos, perguntando a si mesmo se aquele velho no
estaria comeando a ensandecer.
    -- Enganar-vos com o qu? -- perguntou.
    -- Com a tua partida, homessa! Ou imaginas, porventura, que acredito
    nela?
    -- No acreditais?
    -- Champagne no est mais aqui; repito-o: no te constranjas. Alis,
    reconheo que no podias tomar outra resoluo; fizestes muito bem.
    -- Senhor, estais-me surpreendendo infinitamente!...
    -- Sim,  de fato surpreendente que eu o tenha adivinhado; mas que
    queres, Filipe, no h homem mais curioso do que eu e, quando estou
    curioso, procuro; no h homem mais feliz do que eu para descobrir o que
    procuro; ora, descobri que finges partir e por isso te felicito.
608                        ALEXANDRE DUMAS

   -- Finjo partir? -- bradou Filipe, intrigado.
   O velho aproximou-se, tocou no peito do rapaz com os longos dedos
ossudos de esqueleto e, cada vez mais confidencial:
   -- Palavra de honra, -- sussurrou, -- sem esse expediente, tenho certeza de
   que tudo seria descoberto. Tomas a tempo a tua resoluo. Amanh, j
   seria muito tarde. Vai depressa, meu filho, vai depressa.
   -- Senhor, -- volveu Filipe em tom de gelo, -- asseguro-vos que no estou
   compreendendo uma palavra, uma nica palavra, de tudo o que me
   fazeis a honra de dizer.
   -- Onde esconders os teus cavalos? -- continuou o velho, sem responder
   diretamente; -- tens uma gua facilmente reconhecvel; toma cuidado para
   que a no vejam por aqui quando te julgarem e m . . . A propsito, aonde
   finges que vais?
   -- Vou para Taverney-Maison-Rouge, senhor.
   -- Bem... muito bem... finges ir para Maison-Rouge... Ningum
   tentar verific-lo... Est bem, muito bem... Entretanto, s prudente;
   h muitos olhos que no se desfitam dos dois.
   -- Dos dois!... Que dois?
   -- Ela  impetuosa, -- continuou o velho, -- ela tem repentes capazes de
   pr tudo a perder. Toma tento! s mais sensato do que ela. . .
   --      Francamente! -- bradou Filipe com uma clera surda, -- a mim
   me parece, senhor, que vos estais divertindo  minha custa, e isso no 
   caritativo, nem prudente, pois assim me expondes, aborrecido e irritado
   como estou, a faltar com o respeito que vos devo.
   -- Ah! pois sim, o respeito!     Dispenso-te dele; j tens idade suficiente
   para levar a cabo os nossos negcios, e to bem os levas que s tu que me
   inspiras respeito. s o Geronte, eu sou o Estouvado. Vamos a ver,
   deixa-me o endereo em que eu possa fazer chegar-te um aviso no caso
   de ocorrer alguma coisa urgente.
   -- Em Taverney, senhor, -- respondeu Filipe, acreditando que o velho
   voltava por fim a raciocinar com sensatez.
   -- Ests querendo brincar comigo?. ..      Em Taverney, a oitenta lguas
   daqui! Imaginas que, se eu tiver um conselho importante, urgente, para
   dar-te vou divertir-me matando correios na estrada de Taverney s para
   fazer de conta?  boa! No te digo que meds o endereo da tua casa
   do parque, porque os meus emissrios poderiam ser seguidos, as minhas
   librs reconhecidas; mas escolhe um terceiro endereo, que no diste
   daqui mais de um quarto de hora; tens imaginao, que diabo! S faz
   pelos seus amores o que
   acabas de fazer um homem de recursos, com seiscentos diabos!
   -- A casa do parque, amores, imaginao! Estamos brincando de palavras
   cruzadas, senhor, mas guardais todos os dados.
                        O COLAR DA RAINHA                                   609

   -- No conheo animal mais puro nem mais discreto do que tu! --
   bradou o pai, despeitado. -- No conheo outro cuja reserva seja mais
   ofensiva. At parece que tens medo de que eu venha a trair-te! Seria
   engraado!
   -- Senhor! -- bradou Filipe, exasperado.
   -- Est bem! est bem! guarda para ti os teus segredos; guarda o segredo
   da tua casa alugada na antiga montaria.
   -- Eu aluguei a montaria?
   -- Guarda o segredo dos passeios noturnqs que deste entre duas
   adorveis amigas.
   -- Eu!. . . eu andei passeando, -- murmurou Filipe, empalide cendo.
   -- Guarda o segredo dos beijos trocados debaixo das flores e do orvalho.
   -- Senhor! -- rugiu o oficial, bbedo de cime furioso; -- senhor! calai-
   vos!
   -- Est bem, repito que sei tudo o que fizeste. Duvidavas de que eu o
   soubesse? Com mil demnios! isso devia inspirar-te confiana. A tua
   intimidade com a rainha, os teus empreendimentos favorecidos, as tuas
   excurses aos banhos de Apoio, meu Deus! Tudo isso  a nossa vida,  a
   fortuna de todos ns. No te arreceies de mim, Filipe... confia em mim.
   -- Causais-me horror, senhor! -- bradou  moo, escondendo o rosto entre
   as mos.
    E, com efeito, era realmente horror que sentia o inditoso Filipe pelo
homem que lhe desnudava as chagas e, no contente de desnud-las,
acrescentava-as, rasgando-as com uma espcie de raiva. Era realmente horror
que lhe inspirava o homem que lhe atribua toda a felicidade de outro e,
cuidando lisonje-lo, flagelava-o com a ventura de um rival.
    Tudo o que o pai soubera, tudo o que adivinhara, tudo o que os
maldizentes atribuam ao Sr. de Rohan e os mais bem informados ao Sr. de
Charny, o baro atribua ao filho. Para le, era Filipe que a rainha amava e
erguia, a pouco e pouco, na sombra, aos mais altos degraus do favoritismo. Eis
a causa do perfeito contentamento que, havia algumas semanas, aumentava a
barriga do Sr. de Taverney.
    Quando Filipe descobriu esse novo atascadeiro de infmia, estremeceu ao
ver-se mergulhado nele pela nica criatura que deveria ser eu aliado na causa
da honra; mas o golpe fora to violento, que ficou aturdido, mudo, ao passo
que o baro tagarelava com mais chiste do que nunca.
    --V, -- dizia-lhe, -- fizeste uma obra-prima, despistaste toda a gente; esta
noite cinquenta pares de olhos me disseram:  Rohan. Cem me disseram: 
Charny. Duzentos me disseram:           Rohan e Charny! Mas nenhum me
disse:  Taverney. Repito que com-
610                            ALEXANDRE DUMAS

puseste uma obra-prima e o menos que posso fazer  comprimen-tar-te... De
resto, a ti como a ela, isso s pode honrar, meu caro. A ela, porque te
quis; a ti, porque a tens segura.
    No momento em que Filipe, enfurecido pelo ltimo dardo, fulminava com
olhar terrvel o velho implacvel, um olhar que preludiava tempestades, o
estrpito de um carro ressoou no ptio e certos rumores, certas idas e vindas de
um carter estranho, desviaram a ateno do rapaz.
    Ouviu-se Champagne gritar:
    -- A senhorita!  a senhorita!
    E vrias vozes repetiram:
    -- A senhorita!...
    -- A senhorita, como? -- disse Taverney. -- Que senhorita?

      --  minha irm! -- murmurou Filipe, espantadssimo ao reconhecer
      Andreia, que descia do carro, iluminada pelo archote do suo.
      -- Tua irm! -- repetiu o velho... -- Andreia?... Ser possvel?
      E Champagne surgiu, para confirmar:
      -- Senhor, -- disse ao rapaz, -- a senhorita vossa irm est no toucador,
      ao lado do salo,  vossa espera.
      -- Vamos ao encontra dela, -- exclamou o baro.
      --  comigo que ela quer falar, -- atalhou Filipe, cumprimentando o
      velho; -- irei primeiro. Com licena...
      No mesmo instante, outro carro entrou ruidosamente no ptio.
      -- Quem diabo ser? -- murmurou o baro. . . -- Esta  a noite das
      aventuras.
      -- O Sr. Conde Oliveiras de Charny! -- gritou a voz do suo aos lacaios.
      -- Conduze o Sr. Conde ao salo, -- ordenou Filipe a Champagne, -- que
      o Sr. Baro o receber. Vou ao toucador falar com minha irm.
      Os d6is homens desceram lentamente a escada.
      -- Que vem aqui fazer o conde? -- perguntava a si mesmo Filipe.
      -- Que veio Andreia fazer aqui? -- pensava o baro.
                                   LXXXV


                               O pai e a noiva

    O SALO da casa estava situado no primeiro andar.  sua esquerda
ficava o toucador, com uma sada para a escada, que conduzia ao
apartamento de Andreia.  direita, havia outra saleta, que dava acesso ao
salo. Filipe chegou primeiro ao toucador em que o esperava a irm. Ao
passar pelo vestbulo, apertava o passo a fim de se ver mais cedo entre os
braos da querida companheira.
    Assim que abriu a porta dupla do toucador, Andreia precipitou-se-lhe ao
pescoo e beijou-o com um semblante radioso a que j no estava habituado,
havia muito, o apaixonado infeliz, o inditoso irmo.
    -- Santo Deus! que aconteceu? -- perguntou o rapaz.
    -- Uma coisa feliz, muito feliz, meu irmo!
    -- E voltas para anunciar-ma?
    -- Volto para ficar! -- bradou Andreia, num transporte de felicidade,
    qvie lhe converteu a exclamao num grito retumbante.
    -- Mais baixo, maninha, mais baixo, -- aconselhou Filipe; -- as paredes
    desta casa j no esto acostumadas  alegria; de mais a mais, h, no
    salo ao lado, algum que poderia ouvir-te.
    -- Algum? -- repetiu Andreia; -- quem?
    -- Escuta, -- volveu Filipe.
    - O Sr. Conde de Charny! -- anunciou o lacaio, introduzindo Oliveiros no
salo, atravs da saleta.
    -- le! le! -- bradou Andreia, multiplicando as carcias ao irmo. --
    Oh! sei perfeitamente o que vem fazer aqui.
    -- Sabes?
    -- Sei to bem que percebo o desalinho de meus trajos e, como prevejo o
    momento em que deverei, por meu turno, entrar no salo para ouvir
    tambm o que veio dizer o Sr. de Charny...
    -- Ests falando srio, minha querida Andreia?
    -- Escuta, escuta, Filipe, e deixa-me subir.     A rainha trouxe-me um
    pouco depressa, vou trocar estas roupas de convento por um vestido. . . de
    noiva.
612                          ALEXANDRE DUMAS

    E, dita essa palavra, que ela articulou baixinho ao ouvido do irmo
acompanhando-a de um beijo lacre, Andreia, ligeira e arrebatada, desapareceu
pela escada que conduzia ao seu apartamento.
    Ficando s, Filipe aplicou o rosto  porta que ligava o toucador ao salo e
ps-se  escuta.
    Entrara o Conde de Charny e percorria lentamente o amplo recinto,
parecendo antes meditar que esperar.
    Entrou por sua vez o Sr. de Taverney e foi cumprimentar o conde com
uma polidez rebuscada, posto que constrangida.
   -- A que devo, afinal, -- disse le, -- a honra desta visita imprevista,
   Sr. Conde? Como quer que seja, crede que ela me enche de alegria.
   -- Vim, senhor, cerimoniosamente, como estais vendo, e peo que me
   escuseis por no haver trazido meu tio, o Sr. Bailio de Suffren, como o
   devera ter feito.
   -- Est claro que vos escuso, meu caro Sr. de Charny, -- balbuciou o
   baro.
   -- Seria mais conveniente para o pedido que desejo apresentar-vos.
   -- Um pedido?
   -- Tenho a honra, -- prosseguiu Charny com voz embargada de
   comoo, -- de pedir-vos a mo da Srta. Andreia de Taverney, vossa filha.
    O baro deu um pulo na poltrona. Arregalou os olhos cintilantes, que
pareciam devorar cada uma das palavras pronunciadas pelo conde.
   -- Minha filha!... -- murmurou, -- estais-me pedindo Andreia em
   casamento!
   -- Sim, Sr. Baro; a menos que a Srta. de Taverney sinta alguma
   repugnncia por tal unio.
   -- Ora, essa! -- pensou o velho, -- j ser, porventura, to brilhante o
   favor de Filipe que um de seus rivais queira aproveitar-se dele desposando-
   lhe a irm? Francamente! Isso tambm no est mal representado, Sr. de
   Charny.
   E, em voz alta, com um sorriso:
   -- O pedido  to honroso para nossa casa, Sr. Conde, -- declarou, -- que
   gostosamente lhe dou o meu consentimento; e como fao empenho em
   que leveis daqui um assentimento completo, mandarei prevenir minha
   filha.
   -- Senhor, -- atalhou o conde com frieza, -- essa precauo, no meu
   entender,  intil.     A rainha j houve por bem consultar a Srta. de
   Taverney e a resposta da senhorita vossa filha me foi favorvel.
   -- Ah! -- sobreveio o baro, cada vez mais maravilhado, -- foi a rainha...
                       O COLAR DA RAINHA                                  613

    -- Quem se deu ao trabalho de transportar-se a So Dinis. Foi, sim,
senhor.
    Ergueu-se o baro.
    -- Nesse caso, s me resta inteirar-vos, Sr. Conde, -- disse le, -- da
    situao da Srta. de Taverney. Tenho l em cima os ttulos de fortuna de
    sua me. No casareis com moa rica, Sr. Conde, e, antes de concluir o
    que quer que seja...
    --  intil, Sr. Baro, -- interrompeu, secamente, Charny. -- Sou rico por
    dois, e a Srta. de Taverney no  mulher que se regateie. Mas a questo
    que pretendeis tocar por vossa.conta, preciso tocar pela minha.
    Mal acabara de articular essas palavras, quando a porta do toucador se
abriu e, plido, desfeito, com uma das mos na jaqueta e a outra
convulsivamente cerrada, surgiu Filipe.
    Charny cumprimentou-o, cerimonioso, e recebeu um cumprimento no
mesmo tom.
    -- Senhor, -- disse Filipe, -- meu pai tinha razo de propor-vos uma
conversa sobre as contas da famlia; temos ambos esclareci mentos para dar-
vos. Enquanto o Sr. Baro vai ao quarto procurar os papis de que h pouco
vos falou, terei a honra de tratar a questo convosco mais
circunstanciadamente.
    E, com um olhar carregado de irrecusvel autoridade, Filipe dispensou o
baro, que saiu constrangido, prevendo algum desazo.
    O filho acompanhou o pai at  porta da saleta, para certificar-se de que a
pea estava vazia. Examinou, da mesma forma, o toucador e, seguro de que
no seria ouvido por ningum, seno pela pessoa a que se dirigia:
    -- Sr. de Charny, -- perguntou, cruzando os braos em face do conde, --
como se d que ouseis vir aqui pedir minha irm em casamento?
    Oliveiros recuou e corou.
    -- Ser, -- continuou Filipe, -- para melhor esconder os vossos amores com
    a mulher que perseguis, com a mulher que vos ama? Ser para que, ao
    ver-vos casado, no se possa dizer que tendes amante?
    -- Francamente, senhor... -- balbuciou Charny, cambaleando, aterrado.
    -- Ser, -- ajuntou Filipe, -- para que, esposando uma mulher que estar
    com vossa amante a todo momento, vos seja mais fcil v-la e.falar-lhe?
    -- Senhor, estais ultrapassando os limites!
    --  talvez, e prefiro acreditar nisso, -- continuou o oficial,
    aproximando-se de Charny, --  sem dvida para que, tornando-me eu
    vosso cunhado, no revele o que sei de vossos passados amores.
614                          ALEXANDRE DUMAS

    -- O que sabeis! -- bradou Charny, espavorido. -- Tomais cuidado, tomai
    cuidado!
    -- Sim, -- volveu Filipe animando-se, -- a casa do monteiro, alugada por
    vs; os passeios misteriosos no parque de Versalhes...  n o i t e . . .  os
    apertos de mo, os suspiros e, sobretudo, a terna troca de olhares no
    portozinho do parque. ..
    -- Senhor, em nome do cu! No sabeis nada! Dizei que no sabeis
    nada!...
    -- No sei nada! -- bradou Filipe com pungente ironia. -- Como no
    haveria de saber, se estava escondido entre a folhagem, atrs do porto dos
    banhos de Apoio, quando de l saste dando o brao  rainha.
    Charny deu dois passos, como um homem fulminado que busca um apoio 
sua volta.
    Filipe considerou-o no meio de um silncio selvagem. Deixava-o sofrer,
deixava-o expiar, por aquele tormento passageiro, as horas de inefveis
delcias que acabava de verberar-lhe.
    Charny recobrou-se.
    -- Pois bem! senhor, -- respondeu, -- mesmo depois do que acabais de
    dizer, peo-vos, a vs, a mo da Srta. de Taverney. Se eu fosse apenas um
    calculista covarde, como h pouco supnheis, se to-smente me casasse
    visando ao meu interesse, seria um miservel e teria medo do homem que
    conhece o meu segredo e o segredo da rainha. Mas  preciso salvar a
    rainha, senhor,  preciso!
    -- E acaso estar perdida a rainha, -- tornou Filipe, -- porque o Sr. de
    Taverney a viu apertar o brao do Sr. de Charny e levantar para o cu os
    olhos midos de felicidade? Acaso estar perdida porque sei que vos
    ama?      Isso no  razo para sacrificar minha irm, senhor, e no
    permitirei que ela se sacrifique.
    -- Senhor, -- retrucou Oliveiros, -- sabeis por que estar perdida a rainha
    se se no realizar esse casamento? Porque, na manh de hoje, enquanto
    prendiam o Sr. de Rohan, o rei me surpreendeu a seus ps.
    -- Santo Deus!
    -- E a rainha, interrogada pelo marido enciumado, respondeu que eu l
    estava para pedir-lhe a mo de vossa irm. Eis porque, senhor, se eu no
    desposar a Srta. de Taverney, a rainha estar perdida. Compreendestes,
    agora?
    Duplo rudo cortou a frase de Oliveiros: um grito e um suspiro.          Um
partia do toucador, o outro da saleta.
    Oliveiros correu na direo do suspiro e encontrou no toucador Andreia de
Taverney, vestida de branco como uma noiva; acabava de desmaiar.
    Correu Filipe na direo do grito e entrou na saleta. Avistou o corpo do
Baro de Taverney, que,  revelao do amor da rainha
                        O COLAR DA RAINHA                                     615

a Charny, cara fulminado ao p da runa de todas as suas esperanas.
    Numa crise de apoplexia, o baro exalara o ltimo suspiro.
    Cumpria-se a predio de Cagliostro.
    Filipe, que tudo compreendia, at a vergonha daquela morte, abandonou
silenciosamente o cadver e voltou ao salo, para junto de Charny, que
contemplava, ti"mulo, sem ousar toc-la a formosa jovem, inanimada e fria.
    As duas portas abertas mostravam os dois corpos paralela, sime-
tricamente colocados, por assim dizer, no lugar em que os atingira o golpe
da revelao.
    Com os olhos inchados, o corao a ferver, Filipe ainda teve a
coragem de tomar a palavra para dizer:
    -- O Sr. Baro de Taverney acaba de morrer. Com a sua
morte, passo a ser o chefe de minha famlia. Se a Srta. de Taver
ney sobreviver, permitirei que se receba convosco.
    Charny considerou o cadver do baro com horror, o corpo de Andreia
com desespero. Arrancando os cabelos com as mos, Filipe atirou para o cu
uma exclamao que deve ter comovido o corao de Deus em seu trono
eterno.
    -- Conde de Charny, -- disse le, depois de acalmada a tem
pestade ntima, -- assumo este compromisso em nome de minha
irm, que no pode ouvir-me: ela dar a sua felicidade a uma rai
nha, e eu, um dia, talvez tenha a ventura de dar-lhe a vida. Adeus,
Sr. de Charny; adeus, meu cunhado.
    E, cumprimentando Oliveiros que no sabia como sair sem passar 
beira de uma de suas vtimas, Filipe ergueu Andreia, aqueceu-a nos braos
e, assim, deu passagem ao conde, que desapareceu pelo toucador.
                                   LXXXVI


                          Depois do drago, a vbora


    J  TEMPO de voltarmos aos personagens da nossa his- tria, que tanto
a necessidade e a intriga quanto a verdade histrica relegaram ao segundo
plano.
    Oliva preparava-se para fugir, sob a inspirao de Joana, quando
Beausire, que no cessara de procur-la, prevenido por um aviso annimo, se
viu conduzido aos braos dela e tirou-a da casa de Cagliostro, ao mesmo passo
que o Sr. Reteau de Villette esperava debalde na esquina da Rua do Rei
Dourado.
    Para descobrir os felizes amantes, que o Sr. de Crosne tanto se
empenhava em achar, a Sra. de La Motte, percebendo-se lograda, ps a campo
todas as pessoas de confiana de que podia dispor.
    Concebe-se que preferisse tomar conta pessoalmente do seu segredo a
deixar que outros se imiscussem nele, e, para a boa gesto do negcio que
estava preparando, era indispensvel que Nicole no fosse encontrada.
    Fora impossvel pintar as angstias que sofreu quando cada um dos
emissrios lhe representou, regressando, a inutilidade de todas as buscas.
    Simultaneamente, recebia, escondida, ordens sobre ordens para apresentar-se
 rainha, a fim de explicar o seu procedimento no caso do colar.
    Pela calada da noite, velada, partiu para Bas-sur-Aube, onde possua uma
propriedadezinha e, l chegando por caminhos travessos, sem ter sido
reconhecida, pde examinar a prpria situao  sua verdadeira luz.
    Ganhara assim dois ou trs dias de solido consigo mesma e, ganhando
tempo, ganhava, com o tempo, fora para sustentar, por uma slida
fortificao interior, o edifcio de suas calnias.
    Dois dias de solido para aquela alma profunda representavam a luta ao
cabo da qual seriam domindos o corpo e o esprito, depois da qual a
conscincia obediente no se revoltaria, instrumento perigoso, contra a culpada,
aps a qual o sangue se teria avezado a circular livremente em torno do corao
sem subir ao rosto, onde revelasse a vergonha ou a surpresa.
                          O COLAR DA RAINHA                                617

    A rainha, o rei, que a tinham mandado procurar, s souberam de sua
instalao em Bas-sur-Aube no momento em que ela j estava preparada para
enfrentar a guerra. Mandaram um emissrio busc-la.           Foi ento que ela
soube da priso do cardeal.
    Qualquer outra pessoa se teria sentido arrazada por to vigorosa ofensiva,
mas Joana j no tinha o que perder. Que era uma simples questo de liberdade
na balana, em face .das questes de vida ou morte que todos os dias se
acumulavam  sua frente?
    Ao saber da priso do cardeal e do escndalo que fizera Maria Antonieta:
    -- A rainha j no pode recuar, -- calculou, friamente; -- ser-lhe-
doravante impossvel tornar ao passado. Recusando-se a transigir com o cardeal
e a pagar os joalheiros, arrisca tudo.       Isso prova que no est contando
comigo e nem sequer suspeita das foras
que tenho  minha disposio.
    Eis a as peas de que era feita a armadura de Joana, quando um homem,
espcie de aguazil e mensageiro, apresentou-se de repente e anunciou-lhe que
estava encarregado de lev-la de volta  corte.
    O mensageiro queria conduzi-la diretamente  presena do rei; mas Joana,
com a habilidade que lhe conhecemos:
    -- Amais a rainha, senhor, no  verdade? -- perguntou.
    -- Porventura duvidais, Sra. Condessa? -- redarguiu o mensageiro.
    -- Pois bem! em nome desse amor leal e do respeito que votais  rainha,
    suplico-vos que me leveis primeiro  presena dela.
    O aguazil quis opor objees.
    -- Conheceis, de certo, melhor do que eu o assunto de que se trata, --
voltou a condessa. -- Eis porque compreendereis que  indispensvel uma
entrevista secreta entre ns duas.
    Sob a influncia das ideias caluniosas que, de vrios meses quela parte,
empestavam o ar de Versalhes, o mensageiro acreditou realmente prestar um
servio  sua soberana levando-lhe a Sra. de La Motte antes de conduzi-la 
presena do rei.
    Imagine-se a sobranceria, o orgulho, a altiva conscincia da rainha posta
em face do demnio que ela ainda no conhecia, mas de cuja prfida
influncia sobre os seus negcios j suspeitava.
    Figure-se Maria Antonieta, viva ainda inconsolada de um amor que
sucumbira ao escndalo, esmagada pela injria de uma acusao que no podia
refutar, imagine-se a rainha, depois de tantos sofrimentos, dispondo-se a
calcar aos ps a cabea da serpe que a mordera!
     O supremo desdm, a clera mal contida, o dio, o sentimento de uma
 superioridade incomparvel de posio, eram as armas de uma das adversrias.
 A rainha comeou fazendo entrar, como testemunhas, duas criadas, de olhos
 baixos, lbios cerrados, com rev-
618                          ALEXANDRE DUMAS

rncias lentas e solenes; um corao cheio de mistrios, um esprito cheio de
ideias, o desespero como ltimo motor, representavam o segundo campeo. A
Sra. de La Motte, assim que as avistou:
    -- Bom! -- murmurou, -- a esto duas testemunhas que dentro em pouco
    sero dispensadas.
    -- Ah! estais a finalmente! -- exclamou a rainha; -- afinal fostes
    encontrada!
    Inclinou-se Joana pela segunda vez.
    -- Estveis escondida? -- tornou Maria Antonieta, impaciente.
    -- Escondida! no, senhora, -- replicou Joana com voz doce e quase sem
    timbre, como se a comoo produzida pela majestade real lhe bastasse a
    alterar a sonoridade ordinria; -- eu no estava escondida, pois se quisesse
    esconder-me ningum me encontraria.
    -- Entretanto, fugistes? Chamemos-lhe como quiserdes.
    -- De fato, sa de Paris.
    -- Sem minha permisso?
    -- Eu receava que Vossa Majestade no me concedesse a licenazinha de
    que eu necessitava para arranjar meus negcios em Bas-sur-Aube, onde
    j me encontarva havia seis dias, quando recebi a intimao de Vossa
    Majestade. De resto, devo confessar que no me julgava to necessria a
    Vossa Majestade que me impusesse a obrigao de preveni-la quando
    precisasse ausentar-me por oito dias.
    -- E tendes razo; por que receastes que eu recusasse a licena? Que licena
    deveis pedir-me? Que licena devo conceder-vos? Ocupais aqui algum
    cargo?
    Havia demasiado desdm nas ltimas palavras. Ferida, mas contendo o
sangue, como os tigres picados pela flecha, Joana respondeu, humilde:
    -- Senhora,  verdade que no ocupo cargo na corte; mas Vossa Majestade
me honrava com uma confiana to preciosa que eu me considerava muito
mais obrigada para consigo pela gratido do que outros se julgam pelo
dever.
    Joana procurara longamente, mas encontrara a palavra confiana e a
acentuava-a.
    -- Sobre essa confiana, -- volveu a rainha, com um desprezo
ainda mais esmagador do que na primeira apstrofe, -- falaremos daqui a
pouco. Vistes o rei?
    -- No, senhora.
    -- V-lo-eis.
    Joana inclinou-se.
    -- Ser uma grande honra para mim, -- exclamou.
    A rainha procurou reunir um pouco de calma para iniciar com
vantagem o interrogatrio.
    Aproveitou-se a condessa da pausa para dizer:
                       O COLAR DA RAINHA                                 619

   -- Santo Deus!       Vossa Majestade mostra-se to severa para comigo!
   Estou toda trmula.
   -- Ainda no chegamos ao fim, -- atalhou, brusca, a rainha; -- sabeis
   que o Sr. de Rohan est na Bastilha?
   -- J mo disseram, Majestade.
   -- E no adivinhais por qu?
   Joana considerou fixamente a rainha e, voltando-se para as mulheres
cuja presena parecia constrang-la, respondeu:
   -- No, senhora.
   -- Sabeis, entretanto, que me falaste num colar.
   -- Num colar de brilhantes; sim, senhora.
   -- E que me propusestes, da parte do cardeal, um arranjo para pag-lo.
   --  verdade, senhora.
   -- Aceitei ou recusei o arranjo?
   -- Vossa Majestade recusou-o.
   -- Ah! -- fz a rainha, entre surpresa e satisfeita.
   -- Vossa Majestade chegou a dar um sinal de duzentas mil libras, --
   acrescentou Joana.
   -- Bom... e depois?
   -- Depois, no podendo pagar, porque o Sr. de Calonne lhe havia
   'recusado o dinheiro, Vossa Majestade devolveu o escrnio aos joalheiros
   Boehmer e Bossange.
   -- Por intermdio de quem?
   -- Por meu intermdio.
   -- E vs, que fizestes?
   -- Eu, -- disse lentamente Joana, sentindo todo o peso das palavras que ia
   pronunciar; -- dei os brilhantes ao Sr. Cardeal.
   -- Ao Sr. Cardeal! -- bradou a rainha; -- por qu?             Por que os
   entregastes ao cardeal em vez de devolv-los aos ourives?
   -- Porque, havendo o Sr. de Rohan demonstrado muito interesse no
   negcio, que era do agrado de Vossa Majestade, eu o teria magoado se no
   lhe fornecesse ocasio de conclu-lo pessoalmente.
   -- Mas como se d que tenhais conseguido um recibo dos joalheiros?
   -- Foi o Sr. de Rohan quem mo entregou.
   -- E a carta que, segundo dizem, destes aos joalheiros como de minha
   parte?
   -- Foi o Sr. de Rohan quem me pediu que lhe levasse.
   -- Ento, em tudo e sempre, foi o Sr. de Rohan quem se meteu no negcio!
   -- bradou a rainha.

   --       No sei o que Vossa Majestade quer dizer, -- replicou Joana com
   ar distrado, -- nem em que se meteu o Sr. de Rohan.
   --       Digo que o recibo dos joalheiros  falso!
   --       Falso! -- repetiu Joana, candidamente; -- oh! senhoral
620                           ALEXANDRE DUMAS

      -- Digo que a pretensa carta de aceitao do colar, assinada, segundo
      afirmam, por mim,  falsa!
      -- Oh! -- bradou Joana, ainda mais espantada.
      -- Digo, enfim, -- prosseguiu a rainha, -- que precisais ser acareada
      com o Sr. de Rohan para esclarecer-nos todo esse negcio.
      -- Acareada! -- repetiu Joana. -- Mas, senhora, onde est a necessidade
      da minha acareao com o Sr. Cardeal?
      -- le mesmo a requereu.
      -- le?
      -- Procurou-vos por toda a parte.
      --  impossvel, senhora.
      -- Queria provar que o enganastes.
      -- Oh! se  assim, quem exige a acareao sou eu.
      -- Ser feita, senhora, tranquilizai-vos. Por conseguinte, negais saber onde
      est o colar?
      -- Como haveria eu de sab-lo?
      -- Negais haver ajudado o Sr. Cardeal em certas intrigas?...
      -- Vossa Majestade tem o direito de desgraar-me; no tem, porm, o de
      ofender-me. Sou uma Valois, senhora!
      -- O Sr. Cardeal sustentou em presena do rei calnias que espera
      escorar em bases slidas.
      -- No compreendo.
      -- O Cardeal afirma que me escreveu.
      Joana encarou na rainha e no disse nada.
      -- Estais-me ouvindo? -- insistiu Maria Antonieta.
      -- Estou ouvindo, Majestade.
      -- E que respondeis?

   -- Responderei quando me tiverem confrontando com o Sr. Cardeal.
   -- E at l, se souberdes a verdade, ajudar-nos-eis?
   -- A verdade, senhora,  que Vossa Majestade me ataca sem motivo e me
   maltrata sem razo.
   -- Isso no  resposta.
   -- Aqui no darei outra, senhora.
   E Joana olhou ainda uma vez para as duas mulheres.
   A rainha compreendeu, mas no cedeu. A curiosidade, nela, no
conseguiu vencer o respeito humano. Nas reticncias de Joana, na sua postura a
um tempo humilde e insolente percebia-se a segurana que resulta da posse de
um segredo. E esse segredo talvez o tivesse comprado a rainha com a doura.
   Mas repeliu o meio por indigno de si.
   -- O Sr. de Rohan foi mandado para a Bastilha por haver querido falar
demais, -- advertiu Maria Antonieta; -- tomai cuidado, para que no vos
acontea o mesmo por quererdes falar de menos.
                       O COLAR DA RAINHA                                    621

   Joana enterrou as unhas nas mos, mas conseguiu sorrir.
   -- A uma conscincia pura, -- redarguiu, -- no importa a perseguio;
poder a Bastilha convencer-me de um crime que no cometi?
   A rainha olhou-a com sobrecenho.
   -- Falareis? -- perguntou.
   -- No tenho nada que dizer, seno  senhora.
   -- A mim? Pois no  comigo que estais falando?
   -- No  apenas consigo.
   -- Ah! ento  isso? -- bradou a rainha; -- quereis falar a portas fechadas!
   Receais o escndalo da confisso pblica depois de me haverdes infligido o
   escndalo da suspeita pblica?
   Joana empertigou-se.
   -- No falemos mais nisso, -- props; -- o que eu estava fazendo, fazia-o
   por Vossa Majestade.
   -- Que insolncia!
   -- Sofro respeitosamente as injrias de minha rainha, -- disse Joana
   sem mudar de cr.
   -- Dormireis esta noite na Bastilha, Sra. de La Motte.
   -- Seja, senhora. Mas antes de dormir, como de hbito, pedirei a Deus que
   conserve a honra e a alegria de Vossa Majestade, -- replicou a acusada.
   Ergueu-se, furiosa, a rainha e passou ao quarto contguo, abrindo as
portas com violncia.
   -- Depois de haver vencido o drago, -- bradou, -- saberei esmagar
   a vbora!
   -- Sei de cor o jogo dela, -- pensou Joana, -- e creio que, desta vez,
   ganhei.
                                  LXXXVII


   Como foi que o Sr. de Beausire, cuidando caar uma lebre, foi caado pelos
                           agentes do Sr. de Crosne.

    A SRA. DE LA MOTTE foi encarcerada consoante o desejo da rainha.
    Nenhuma compensao pareceu mais agradvel ao rei, que odiava
instintivamente aquela mulher. Instruiu-se o processo sobre o caso do colar
com a fria que podem imprimir-lhe comerciantes arruinados que esperam
salvar-se da runa, acusados que desejam livrar-se da acusao, e juizes
populares que tm nas mos a honra e a vida de uma rainha, sem contar o
amor-prprio ou o esprito partidrio.
Um grito s ressoou por toda a Frana. Pelos matizes desse grito pde a
rainha reconhecer e contar os adeptos e os inimigos. Desde que fora preso, o
Sr. de Rohan insistia em pedir uma acareao com a Sra. de La Motte. Essa
satisfao foi-lhe concedida. Vivia o prncipe na Bastilha como um grande
fidalgo, numa casa que alugara. Tirante a liberdade, tudo lhe era
proporcionado. O processo assumira, desde o princpio, propores mesquinhas,
em ateno  qualidade das pessoas incriminadas. Era motivo de espanto para
todos que um Rohan fosse acusado de roubo. Por isso mesmo, os oficiais e
o governador da Bastilha testemunhavam ao cardeal todo o respeito e toda a
deferncia que inspira a desgraa. Para eles, no se tratava de uma acusao,
seno de um homem que perdera o valimento.
     A coisa mudou muito ainda de figura quando se disse,  boca pequena, que
 o Sr. de Rohan cara vtima das intrigas da corte. A simpatia que rodeava o
 prncipe converteu-se em entusiasmo.
     E o Sr. de Rohan, um dos primeiros nobres do reino, no compreendia que
 o amor do povo ]he vinha unicamente de estar sendo perseguido por algum
 mais nobre do que le. ltima vtima do despotismo, era o Sr. de Rohan, na
 verdade, um dos primeiros revolucionrios de Frana.
     A sua entrevista com a Sra. de La Motte foi assinalada por notvel
 incidente. A condessa, a quem se permitia falar baixo todas as vezes que se
 tratava da rainha, conseguiu dizer ao cardeal:
                         COLAR DA RAINHA                                   623

    -- Afastai toda a gente, e fornecer-vos-ei os esclarecimentos que pedirdes.
    O Sr. de Rohan manifestou o desejo de estar s e interrog-la em voz
baixa.
    O pedido foi-lhe recusado; permitiram, porm, que o seu advogado
conversasse com a condessa.
    No tocante ao colar, Joana respondeu ignorar o que fora feito dele,
ajuntando que bem poderiam dar-lho de presente.
    E como o advogado protestasse, embasbacado diante de tamanha audcia,
ela perguntou-lhe se o servio que prestara  rainha e ao cardeal no valia
um milho?
    O advogado repetiu estas palavras ao cardeal, que, ouvindo-as, empalideceu,
abaixou a cabea e adivinhou que cara na armadilha da infernal embusteira.
    Mas se j estava pensando em abafar o rumor do caso, que acarretaria a
perdio da rainha, os inimigos dela e os amigos dele instigavam-no a no
descontinuar as hostilidades.
    Objetavam-lhe que estava em jogo a sua honra; que se tratava de um
roubo; que, sem uma deciso do parlamento, a sua inocncia no ficaria
provada.
    Ora, para provar essa inocncia era indispensvel provar as relaes entre o
cardeal e a rainha e, por consequncia, provar o crime de Sua Majestade.
    A essa reflexo, Joana replicou que jamais acusaria a rainha nem o cardeal;
mas que, se perseverassem em responsabiliz-la pelo colar, acabaria fazendo o
que no queria fazer, isto , provaria que a rainha e o cardeal tinham interesse
em tach-la de mentirosa.
    Quando tais concluses foram comunicadas ao prelado, o prncipe mostrou
todo o seu desprezo pela criatura que assim falava em sacrific-lo. Ajuntou
que compreendia at certo ponto o procedimento de Joana, mas que no
compreendia absolutamente o da rainha.
    Repetidas a Maria Antonieta, comentadas, essas palavras a irritavam e
exacerbavam. Ela ordenou que se fizesse um interrogatrio particular sobre os
pontos misteriosos do processo. Surgiu ento o grande gravame das entrevistas
noturnas, desenvolvido  sua luz mais ampla pelos caluniadores e
mexeriqueiros.
    Foi quando se viu ameaada a malfadada rainha. Joana afirmava no saber
o que estavam falando, sempre que se encontrava perante os adeptos da
soberana; mas, em presena dos partidrios do cardeal, j se mostrava menos
discreta e no se cansava de repetir:
    -- Deixem-me sossegada que, do contrrio, falarei.
    Essas reticncias, essas modstias, lhe emprestavam um ar de herona, e to
bem embaralhavam o processo que os mais estrnuos esquadrinhadores de feitos
fremiam ao consultar-lhe as peas e ne-
624                             A LEXANDRE DU MAS

nhum juiz de instruo se abalanava a prosseguir nos interrogatrios da
condessa.
    Ter sido o cardeal mais fraco, mais franco? Ter confessado a algum
amigo o que chamava o seu segredo de amor? No se sabe; nem  crvel, pois o
corao do prncipe era um nobre e dedicado corao. Mas por mais leal que
tivesse sido o seu silncio, espalhou-se o rumor dos colquios com a rainha.
Tudo o que dissera o Conde da Provena, tudo o que Charny e Filipe tinham
visto ou sabido, todos aqueles arcanos ininteligveis para quem quer que no
fosse um pretendente, como o irmo do rei, ou rivais de amor, como Charny
e Filipe, todo o mistrio daqueles amores to caluniados e to castos se evaporou
como um perfume e, fundindo-se na atmosfera vulgar, perdeu o aroma ilustre
de sua origem.
    Est visto que a rainha encontrou calorosos defensores, e o Sr. de Rohan
zelosos paladinos.
    A questo j no era saber se a rainha roubara ou no um colar de
brilhantes, questo, de resto, assaz desonrosa; mas isso j no bastava. Urgia
saber se a rainha deixara que roubasse o colar algum que lhe penetrara o
segredo dos amores adlteros.
    Eis como a Sra. de La Motte alcanara contornar a dificuldade. Eis como se
via Maria Antonieta metida num caminho cuja nica sada era a desonra.
    No se deixando abater, resolveu lutar; o rei apoiou-a.
    Apoiou-a tambm o ministrio, com todas as foras. A rainha se lembrou
de que o Sr. de Rohan era um homem honrado, incapaz de visar  perdio de
uma mulher. Lembrou-se da sua firmeza ao jurar que havia sido admitido s
entrevistas de Versalhes.
    Disso concluiu que o cardeal no era seu inimigo direto e que, como
ela, s tinha um interesse de honra na questo.
    A partir de ento, todos os esforos do processo foram dirigidos no sentido
da condessa e ativamente se buscaram vestgios do colar perdido.
    Aceitando o debate sobre a acusao de fraqueza adltera, a rainha atirava
sobre Joana a fulminante acusao do roubo fraudulento.
    Tudo depunha contra ela: os seus antecedentes, a sua primitiva misria, a
sua estranha elevao; a nobreza no aceitava aquela princesa do acaso e o povo
no podia reivindic-la, pois odeia, por instinto, os aventureiros e no lhes
perdoa sequer os triunfos.
    Joana percebeu que tomara o caminho errado e que a rainha, sofrendo a
acusao e no cedendo ao medo do escndalo, incitava o cardeal a imit-la;
que as duas lealdades acabariam por entender-se e encontrar a luz, e, ainda
que sucumbissem, a queda seria to horrvel que esmagaria tambm a pobre
Valoizinha, princesa de um milho roubado, que j nem tinha com que
subornar os juizes.
                         O COLAR DA RAINHA                                    625

    Estavam as coisas nesse p quando novo episdio se produziu, modificando-
lhes o aspecto.
    O Sr. de Beausire e a Srta. Oliva viviam felizes e ricos no fundo de uma
casa de campo, quando, um belo dia, o cavalheiro, que deixara a senhora em
casa e sara  caa, se viu em companhia de dois dos agentes que o Sr. de
Crosne espalhara pela Frana inteira na esperana de encontrar o desfecho
da intriga.
    Ignoravam os dois amantes quanto se passava em Paris; pensavam apenas
em si mesmos.
    A Srta. Oliva engordava como doninha em celeiro e o Sr. Beausire, com a
felicidade, perdera a inquieta curiosidade que caracteriza assim as aves de rapina
como os homens de presa, caracterstico que a prpria natureza deu a uns e
outros para a sua conservao.
    Beausire, dizamos, sara aquele dia  caa das lebres. Levantou uma perdiz
que o fz atravessar uma estrada. E, dessarte, procurando outra, o que no
devia procurar, acabou achando o que no procurava.
    Os agentes tambm procuravam a Srta. Oliva e acharam Beausire.            Tais
so os caprichos comuns da caa.
    Um dos sabujos era inteligente. Depois de reconhecer Beausire, em vez de
prend-lo brutalmente, o que no lhe teria dado resultado algum, combinou
com o companheiro o seguinte projeto:
    -- Beausire est caando; por conseguinte, deve estar livre e rico; ter,
talvez, cinco ou seis luses no bolso, mas  possvel que tenha duzentos ou
trezentos em casa. Deixemo-lo voltar ao seu domiclio: entremos com le e
ponhamo-lo em leilo. Conduzido a Paris, no nos render mais do que cem
luses, como qualquer priso comum; e ainda por cima seremos repreendidos
por atulhar a cadeia com um personagem to pouco import?nte. Faamos dele
uma especulao pessoal.
    Puseram-se a caar perdizes como o Sr. Beausire, lebres como o Sr.
Beausire, e, acompanhando os ces quando surgia uma lebre ou batendo o
mato quando adivinhavam uma perdiz, no perderam vista da presa.
    Vendo que os estranhos se intrometiam na sua caada, Beausire ficou,
primeiro, muito espantado e, depois, muito zangado. Passara a ter cimes da
sua caa, como todo bom gentil-homem; mas era tambm muito desconfiado
no travar novas relaes. Em vez de interrogar pessoalmente os aclitos que
lhe proporcionava o acaso, guiou para um guarda que lobrigou na plancie e
encarregou-o de ir perguntar aos cavalheiros por que estavam caando
naquela propriedade.
     O guarda replicou que no os conhecia: portanto, no deviam ser do lugar.
 E acrescentou que o seu desejo era interromper-lhes a caada, o que fz. Mas
 os dois estranhos retrucaram que estavam caando com um amigo, aquele
 senhor l adiante.
626                         ALEXANDRE DUMAS

    E apontavam para Beausire. O guarda conduziu-os a le, a despeito do
enfado que causava a confrontao ao gentil-homem caador.
    -- Sr. de Linville, -- declarou, -- estes senhores afirmam que esto
    caando convosco.
    -- Comigo! -- exclamou Beausire, irritado. -- Homessa!
    -- U! -- disse-lhe baixinho um dos agentes, -- voc tambm se chama
    Linville, meu caro Beausire?
    Beausire, que ocultava to bem a sua identidade naquela regio,
estremeceu.
    Olhou para o agente, depois para o companheiro, com ar assustado, julgou
reconhec-los vagamente, e, a fim de no envenenar as coisas, dispensou o
guarda, responsabilizando-se pela caa dos novos conhecidos.
    -- Conhecei-los, ento? -- inquiriu o guarda.
    -- Acabamos de nos reconhecer, -- explicou um dos agentes.
     Viu-se, ento, Beausire em presena dos dois caadores, sem saber o que
dizer para no se comprometer.
    -- Convide-nos para almoar, Beausire, -- sugeriu o mais hbil dos agentes,
    -- em sua casa.
    -- Em minha casa! mas... -- bradou Beausire.
    -- Voc no nos far essa grosseria, Beausire!
    Beausire perdera a cabea; e deixou-se conduzir muito mais do que
conduzia.
    Assim que avistaram a casa de campo, os agentes gabaram-lhe a elegncia,
a situao, as rvores e a perspectiva, como pessoas de bom gosto, pois, em
realidade, Beausire escolhera um stio encantador para nele depor o ninho de
seus amores.
    Era um vale cheio de rvores, cortado por um ribeiro. Erguia--se a casa
numa vertente que olhava para oeste. Uma guarita, espcie de campanrio
sem campanas, servia de observatrio ao inquilino para examinar os
arredores, nos dias de tdio, quando se lhe desbotavam as ideias cr-de-rosa e
le via aguazis em cada lavrador inclinado sobre a charrua.
    A casa s era visvel e risonha de um lado; dos outros, sumia--se entre
rvores e irregularidades do terreno.
    -- Como a gente fica bem escondido a dentro! -- observou um dos
policiais, com admirao.
Beausire estremeceu ouvindo a pilhria e entrou na frente dos outros,
provocando o ladrido dos ces do ptio. Os agentes seguiram-no, muito
cerimoniosos.
                                  LXXXVIII


                           Engaiolam-se os pombinhos

    AO ENTRAR pela porta do ptio, Beausire tinha uma ideia: fazer
bastante barulho para prevenir Oliva e p-la de sobreaviso. Sem saber coisa
alguma sobre o caso do colar, sabia uma poro de coisas sobre o caso do
baile da pera e da selha de Mesmer e tinha medo de apresentar a
companheira a desconhecidos.
    Procedeu com prudncia; pois a jovem, que se entretinha lendo romances
frvolos deitada no sof da saleta, ouviu latir os ces, olhou para o ptio e viu
Beausire acompanhado; e no se precipitou ao seu encontro, como de
costume.
    Infortunadamente, porm, nem assim se livraram os pombinhos das garras
dos abutres. Foi preciso encomendar o almoo e um criado desastrado -- os
camponeses no so Frontins -- perguntou por duas vezes se devia ir receber
as ordens da patroa.
    Essa palavra fz que se erguessem as orelhas dos abutres. Zombaram
agradavelmente de Beausire sobre a dama escondida, cuja companhia, para um
ermito, era o complemento de todas as felicidades que proporcionam o
dinheiro e a solido.
    Beausire deixou-os zombar; mas no apresentou Oliva.
    Serviu-se farta refeio, a que os agentes fizeram honra. Os comensais
beberam muito e muitas vezes brindaram  sade da dama ausente.
     sobremesa, estando esquentadas as cabeas, os senhores da polcia
entenderam que seria desumano prolongar o suplcio do anfitrio. Conduziram
habilmente a conversa para o tema do prazer que sentem os bons coraes ao
topar com velhos conhecidos.
    Desarrolhando um frasco de licor das ilhas, Beausire perguntou-lhes onde e
quando pudera t-los encontrado.
    --ramos, -- disse um deles, -- amigos de um dos seus associados. Voc
no se recorda de um negocinho que fz de parceria com outros, na embaixada
portuguesa?
    Beausire empalideceu. Teve a impresso de estar sentindo uma ponta de
corda entre as dobras da gravata.
    -- Ah! realmente, -- balbuciou, trmulo de enleio, -- e viestes pedir-me
pelo vosso amigo...
628                          ALEXANDRE DUMAS

    -- De fato,  uma ideia, -- disse o aguazil ao camarada, -- a introduo
    fica melhor assim. Pedir uma restituio em nome de um amigo ausente 
    at moral.
    -- De mais a mais, isso nos reserva todos os direitos sobre o resto, --
    replicou o amigo do moralista com um sorriso agridoce que fz
    estremecer o dono da casa da cabea aos ps.
    -- Portanto?. . . -- tornou le.
    -- Portanto, meu caro Sr. Beausire, ser-nos-ia agradvel receber a parte do
    nosso amigo. Uma dezena de milhares de libras, creio eu.
    -- Pelo menos, sem falar dos juros, -- tornou o outro, positivo.
    -- Senhores, -- replicou Beausire sufocado pela firmeza do pedido, --
    ningum tem dez mil libras em casa, no campo.
    -- Compreende-se, meu caro, e s exigimos o possvel. Quanto nos pode
    dar imediatamente?
    -- Uns cinquenta ou sessenta luses, no mximo.
    -- Comearemos por aceit-los e agradeceremos a cortesia.
    -- Ah! -- pensou Beausire, encantado com a facilidade dos hspedes, -- so
    de boa paz. Dar-se-, acaso, que tenham tanto medo de mim quanto eu
    deles? Experimentemos.
    E entrou a refletir que aqueles senhores, se comeassem a reclamar muito
alto, conseguiriam apenas demonstrar que eram seus cmplices, o que, para as
autoridades da provncia, no seria grande recomendao. Concluiu, portanto,
que ficariam satisfeitos e guardariam um silncio absoluto.
    Na sua imprudente confiana, chegou a arrepender-se de no ter oferecido
trinta em vez de sessenta; mas prometeu a si mesmo livrar-se prontamente
deles assim que lhes entregasse a soma.
    No estava, porm, contando com os hspedes; estes ltimos se sentiam
muito bem em sua casa; saboreavam a beata satisfao que proporciona uma
digesto agradvel; mostravam-se bons naquela ocasio porque os cansaria
mostrarem-se maus.
    -- Beausire  um amigo encantador, -- disse o Positivo ao
    companheiro. -- Os sessenta luses que nos d sero recebidos com muito
    prazer.
    -- Vou d-los imediatamente, -- prometeu o hospedeiro, assustando-se ao
    v-los romperem em bquicas familiaridades.
    -- No h pressa, -- disseram os dois amigos.
    -- Eu sei, eu sei, mas s ficarei com a conscincia tranquila depois de
    haver pago. Ou somos delicados ou no.
    E quis deix-los para ir buscar o dinheiro.
    Mas eles tinham hbitos de beleguins, hbitos enraigados que dificilmente
se perdem depois de adquiridos. No sabiam soltar a presa aps hav-la
agarrado. Da mesma forma, o bom co de caa no larga a perdiz ferida
seno para entreg-la ao caador.
    O bom beleguim  aquele que, efetuada a priso, no deixa o preso,
nem com a mo nem com a vista. Sabe perfeitamente
                        O COLAR DA RAINHA                                  629

como  caprichoso o destino para os caadores e o quanto se alonga o que se
larga.
    Por isso mesmo, com admirvel harmonia, embora j estivessem
razoavelmente altos, puseram-se a gritar:
    -- Sr. Beausire! meu caro Beausire!
    E a agarr-lo pelas abas da casaca verde.
    -- Que foi? -- perguntou Beausire.
    -- No nos abandone, por favor, -- disseram, obrigando-o
    galantemente a sentar-se.
    -- Mas como quereis que eu vos d o dinheiro, se no me deixais subir?
    -- Acompanh-lo-emos, -- prontificou-se o Positivo com estarrecedora
    ternura.
    -- Mas . ..  o quarto de minha mulher, -- replicou Beausire. Essa
palavra, que le supunha eficaz para livrar-se dos dois, foi para os esbirros a
centellha que incendiou a plvora.
    O seu latente descontentamento, pois um beleguim est sempre
descontente com alguma coisa, assumiu forma, corpo, razo de ser.
    -- Realmente! -- gritou o primeiro dos agentes, -- por que nos esconde sua
    mulher?
    --  isso mesmo.      Porventura no somos apresentveis? -- se cundou o
    outro.
    -- Se soubesse o que fizemos por voc, seria mais gentil, --
    tornou o primeiro.
    -- E nos daria tudo o que pedimos, -- ajuntou, temerrio, o segundo.
    -- Ora essa!     Parece-me que estais falando um pouco alto de mais! --
    revidou Beausire.
    -- Queremos ver sua mulher, -- insistiu o esbirro Positivo.
    -- E eu vos declaro que vou atirar no olho da rua, -- gritou Beausire,
    aproveitando-se da bebedeira deles.
    A resposta foi uma gargalhada que devera infundir-lhe alguma prudncia.
Mas, sem fazer caso disso, le obstinou-se.
    -- Agora, ameaou, -- no tereis o dinheiro que eu havia prometido e
saireis daqui.
    Eles se esgargalharam ainda mais formidavelmente. E Beausire, trmulo
    de raiva:
    -- Compreendo, -- disse, com voz sufocada, -- fareis barulho e falareis;
mas, se falardes, estareis perdido como eu.
     Os dois policiais tomavam barrigadas de riso; a brincadeira parecia-lhes
 excelente. No deram outra resposta.
     Beausire julgou espant-los com uma demonstrao de fora, no mais
 como o homem que vai buscar alguns luses, seno como o furioso que vai
 procurar uma arma. Ergueram-se da mesa os
630                          ALEXANDRE DUMAS

esbirros e, fiis ao seu princpio, correram atrs dele, deitando--lhe as
manoplas.
    Beausire gritou, abriu-se uma porta, e, transtornada, assustada, no limiar de
um dos quartos do primeiro andar, surgiu uma mulher.
    Ao v-la, os homens largaram Beausire e soltaram um grito tambm, mas
de alegria, de triunfo, de selvagem exaltao.
    Acabavam de reconhecer a criatura que tanto se parecia com a rainha de
Frana.
    Por um momento, Beausire julgou-os desarmados pelo aparecimento de uma
mulher, mas logo se desiludiu cruelmente.
    O Positivo aproximou-se da Srta. Oliva e, em tom muito pouco polido em
face da semelhana, disse-lhe:
    -- Ah! ah! ah! Estais presa.
    -- Presa! -- gritou Beausire; -- por qu?...
    -- Porque o Sr. de Crosne nos deu ordem para prend-la, -- esclareceu o
    outro agente, -- e ns estamos a servio do Sr. De Crosne.
    Se um raio tivesse cado entre os dois amantes no os teria apavorado tanto
quanto aquela declarao.
    -- Eis em que deu, -- disse o Positivo a Beausire, -- a sua falta de
delicadeza.
    O agente fugia  lgica e o companheiro observou-lho, dizendo:
    -- No tens razo, Legrigneux, pois se Beausire tivesse sido delicado, ter-
nos-ia apresentado  senhora e, de qualquer maneira, ns a teramos prendido.
    Beausire apoiara nas mos a cabea escaldante. Nem sequer se advertia de
que os dois criados, o homem e a mulher, estavam escutando em baixo da
escada a cena estranha que se passava entre os degraus. Teve uma ideia que
lhe sorriu e de pronto o refrescou.
    -- Viestes para prender-me, no viestes? -- perguntou.
    -- No. Foi tudo obra do acaso, -- responderam eles ingenuamente.
    -- No importa. Podeis prender-me e, por sessenta luses, me deixareis
    em liberdade.
    -- Tambm no; a nossa inteno era pedir mais sessenta.
    -- E temos uma palavra s, -- continuou o outro; -- assim, por cento e
    vinte luses, deix-lo-emos em liberdade.
    -- Mas... e a senhora? -- volveu Beausire, trmulo.
    -- Com ela o caso  diferente, -- acudiu o Positivo.
    -- A senhora vale duzentos luses, no vale? -- apressou-se a dizer
    Beausire.
    Os agentes recomearam as terrveis gargalhadas, que, desta feita, Beausire
compreendeu.
                        O COLAR DA RAINHA                                  631

    -- Trezentos, -- ofereceu le, -- quatrocentos... mil luzes! Mas ela
ficar em liberdade.
    Cintilavam-lhe os olhos enquanto falava:
    -- No respondeis, -- continuou; -- sabeis que tenho dinheiro e quereis
    que eu pague.  muito justo. Dar-vos-ei dois mil luses, quarenta e oito
    mil libras, uma fortuna, mas deixai-a em liberdade.
    -- Voc gosta tanto assim dessa mulher? -- perguntou o Positivo.
    Foi a vez de Beausire gargalhar, um gargalhar irnico e assustador, retrato
to fiel do amor desesperado que lhe devorava o corao, que os dois esbirros
ficaram com medo e decidiram tomar precaues para evitar a exploso do
desespero que se lia no seu olhar transtornado.
    Cada qual tirou duas pistolas do bolso e, encostando-as ao peito de
Beausire:
    -- Por cem mil escudos, -- disse um deles, -- ns lhe devolveramos esta
mulher. O Sr. de Rohan nos dar por ela quinhentas mil libras e a rainha, um
milho.
    Beausire ergueu os olhos para o cu com uma expresso que teria
enternecido qualquer outro animal feroz que no fosse um aguazil.
    -- Vamos embora, -- atalhou o Positivo. -- Voc h de ter aqui um
    carro, qualquer coisa que rode; mande-o aparelhar para a senhora,  um
    obsquio que lhe deve.
    -- E como somos boa gente, -- tornou o outro, -- no abusaremos. Ir
    conosco tambm, mas por mera formalidade; no caminho, viraremos os
    olhos, voc saltar do carro e s daremos pela coisa quando o virmos a
    mil passos de distncia. ,No est bem assim?
    Beausire respondeu apenas:
    -- Aonde ela fr, irei. Nunca a deixarei nesta vida.
    -- Nem na outral -- acrescentou Oliva, gelada de terror.
    -- Tanto melhor, -- observou o Positivo, -- quanto maior  o nmero de
    prisioneiros que levamos ao Sr. de Crosne, tanto mais le se diverte.
    Um quarto de hora depois, saa da casa o carro de Beausire com os dois
amantes cativos e seus respectivos guardas.
                                  LXXXIX


                            A biblioteca da rainha

    E FCIL imaginar o efeito que produziu aquela captura no Sr. de
Crosne.
    Os agentes provavelmente no receberam o milho que estavam
esperando, mas  muito de crer que tivessem ficado satisfeitos.
    Em quanto ao Chefe de Polcia, depois de haver esfregado longamente as
mos em sinal de regosijo, dirigiu-se num carro a Versalhes, acompanhado de
outro, hermeticamente fechado e aferrolhado.
    Era o dia seguinte quele em que o Positivo e seu amigo haviam
entregue Nicole entre as mos do Chefe de Polcia.
    O Sr. de Crosne fz entrar os dois veculos em Trianon, desceu do seu e
deixou o outro guardado pelo primeiro secretrio.
    Em seguida, entrou  presena da rainha,  qual, na vspera, mandara
solicitar uma audincia.
    Maria Antonieta, que, de um ms quela parte, recebia com suma ateno
quanto lhe viesse da polcia, acedeu incontinenti ao requerimento do ministro;
foi, logo cedo, para a sua casa favorita, e muito pouco acompanhada, para o
caso de ser necessrio o segredo.
    Assim que o Sr. de Crosne foi trazido  sua presena, imaginou, pela
expresso radiante no recm-chegado, que as notcias eram boas.
    Pobre mulher! fazia j muito tempo que s via em torno de si rostos
sombrios e reservados.
    Um bater alegre, o primeiro depois de trinta dias mortais, agitou-lhe o
corao, ferido por tantas e to dolorosas comoes.
    O magistrado, depois de lhe haver beijado a mo:
    -- Senhora, -- perguntou, -- ter Vossa Majestade em Trianon uma sala
    em que, sem ser vista, possa ver o que se passa?
    -- Tenho a biblioteca, -- respondeu a rainha; -- mandei que deixassem
    umas frestas ao nvel das estantes que do para o meu gabinete, e, s
    vezes, enquanto merendava, divertia-me com a Sra. de Lamballe ou com a
    Srta. de Taverney, quando a tinha, vendo as caretas engraadas do Padre
    Vermond, sempre que lhe acontecia dar com um panfleto em que se
    falava dele.
                        O COLAR DA RAINHA                                   633

    -- Muito bem, senhora, -- respondeu o Sr. de Crosne. -- Agora, est l em
    baixo um carro que eu quisera fazer entrar no castelo sem que o seu
    contedo fosse visto de ningum, seno de Vossa Majestade.
    -- Nada mais fcil, -- replicou a rainha; -- onde est o carro?
    -- No primeiro ptio, Majestade.
    A rainha tocou a sineta e logo surgiu algum para receber-lhe as ordens.
    -- Fazei entrar o carro que o Sr. de Crosne vos indicar, -- ordenou, --
no vestbulo grande, e fechai as duas portas de tal maneira que se escurea
completamente o recinto, para que ningum possa ver antes de mim as
curiosidades que le me traz.
    A ordem executou-se. Eram muito mais respeitados os caprichos do que as
determinaes da rainha. O carro entrou no vestbulo abobadado, ao p da casa
dos guardas, e despejou o seu contedo no escuro corredor.
    -- Agora, senhora, -- props o Sr. de Crosne, -- tenha a bondade de ir
comigo para o seu gabinete e ordene que deixem entrar na biblioteca o meu
secretrio e o que le trouxer.
    Dez minutos de"pois, a rainha, espiava, palpitante, atravs das estantes.
    Viu entrar na biblioteca uma forma velada, que o secretrio desvelou, e que,
reconhecida, lhe arrancou um grito de pavor. Era Oliva, pompeando um dos
trajos prediletos de Maria Antonieta.
    Trazia o vestido verde de listas ondeadas pretas, o toucado alto preferido
por Sua Majestade, anis semelhantes aos dela, sapatos de cetim verde e saltos
enormes: era a prpria Maria Antonieta, menos o sangue dos Csares,
substitudo pelo fluido plebeu, mvel de todas as volpias do Sr. Beausire.
    A rainha julgou ver-se num espelho; devorou com a vista a apario.
    -- Que diz Vossa Majestade da semelhana? -- perguntou o Sr. de
    Crosne, triunfante com o efeito produzido.
    -- Digo... digo... senhor, -- balbuciou a rainha, desnorteada, enquanto
    pensava: -- Ah!! Oliveiros, por que no ests aqui?
    -- Que quer Vossa Majestade?
    -- Nada, senhor, nada, seno que o rei saiba...
    -- E que o Sr. da Provena veja, no  isso?
    -- Obrigada, Sr. de Crosne, obrigada! Mas que se far com essa mulher?
    -- A ela porventura se atribui tudo o que aconteceu? -- tornou o Sr. de
    Crosne.
    -- Tendes os fios da trama?
    -- Mais ou menos.
    -- E o Sr. de Rohan?
    -- Ainda no sabe de nada.
634                         ALEXANDRE DUMAS

   -- Oh! -- volveu a rainha, escondendo a cabea entre as mos, -- agora
   vejo, senhor, que essa mulher foi a causa do engano do cardeal!
   -- Seja, senhora; mas o engano do Sr. de Rohan  o crime de outrem!
   -- Procurai bem: tendes nas mos a honra da casa de Frana.
   -- E creia, senhora, que est em boas mos, -- respondeu o Sr. de
   Crosne.
   -- O processo? -- indagou a rainha.
   -- Caminha. Todos negam tudo; mas espero apenas o momento azado
   para exibir o documento que a est na biblioteca.
   -- E a Sra. de La Motte?
   -- No sabe que encontrei a rapariga, e acusa o Sr. de Cagliostro de haver
   enchido tanto a cabea do cardeal que este perdeu o juzo.
   -- E o Sr. de Cagliostro?
   -- O Sr. de Cagliostro, que mandei interrogar, prometeu virver-me ainda
   hoje.
   --  um homem perigoso.
   -- Ser um homem til. Picado por uma vbora como a Sra. de La Motte,
   absorver o veneno e nos fornecer o contraveneno.
   -- Esperais revelaes?
   -- Tenho a certeza de que sero feitas.
   -- Como? Oh! dizei-me tudo o que possa tranqilizar-me.
   -- Eis aqui as minhas razes, senhora: a Sra. de La Motte morava na Rua
   de So Cludio...
   -- Eu sei, eu sei, -- atalhou a rainha, acarminando-se.
   -- Sim, Vossa Majestade fz-lhe a honra de trat-la caritativa mente.
   -- E ela pagou-me muito bem, no  verdade? Mas voltemos ao caso: ela
   morava, portanto, na Rua de So Cludio.
   -- O Sr. de Cagliostro mora defronte.
   -- E supondes?...
   -- Que, se houve algum segredo entre os dois vizinhos, o segredo deve
   pertencer a ambos. Mas, perdo, senhora, est chegando a hora em que
   espero, em Paris, o Sr. de Cagliostro, e por nada deste mundo eu quisera
   retardar-lhe as explicaes...
   -- Ide, senhor, ide, e mais uma vez ficai certo do meu reconhecimento.
   -- Eis a, -- bradou, em prantos, depois que partiu o Sr. De Crosne, --
   eis a a justificao que comea. Lerei o meu triunfo em todos os rostos.
   Mas o rosto do nico amigo a quem eu teria empenho de provar a minha
   inocncia, esse no o verei!
   Entrementes, o Sr. de Crosne voava na direo de Paris e voltava para
casa, onde estava  sua espera o Sr. de Cagliostro.
                         O COLAR DA RAINHA                                    635

    Cagliostro sabia de tudo desde a vspera. Endereava-se ao refgio de
Beausire, que conhecia, para acabar com le que sasse de Frana, quando, na
estrada,' entre os dois agent.es, o avistou no interior do carro. Oliva estava
escondida no fundo, corrida e lacrimosa.
    Beausire viu passar o conde em sua sege de posta; reconheceu-o. A
lembrana de que aquele senhor misterioso e poderoso lhe poderia ser til
modificou-lhe todas as ideias sobre a inconvenincia de deixar Oliva.
    Recordou aos agentes a proposta que lhes ouvira respeito  sua evaso.
Os beleguins aceitaram cem luses que o preso trazia consigo e deixaram-no
escapar-se, apesar das lgrimas de Nicole.
    Entretanto, beijando-a, sussurrou-lhe Beausire ao ouvido:
    -- Espera; vou trabalhar por salvar-te.
    E entrou a caminhar a passos largos na direo seguida por Cagliostro.
    Este se detivera; j no tinha necessidade de ir  casa de Beausire, visto que
Beausire estava de volta. Era-lhe mais conveniente esper-lo do que correr no
seu encalo.
    Cagliostro esperava, portanto, havia seguramente meia hora numa curva da
estrada, quando viu chegar, plido, espavorido, semimorto, o desgraado
amante de Oliva.
  .  vista do carro parado, Beausire desferiu o grito de alegria do nufrago
que encontra uma tbua. '
    -- Que aconteceu, meu filho? -- perguntou o conde, ajudando-o a subir.
    Beausire referiu toda a sua lamentvel histria, que Cagliostro ouviu em
silncio.
    -- Ela est perdida, -- observou, em seguida.
    -- Como assim?
O conde contou-lhe o que le no sabia, a intriga da Rua de So Cludio e a
de Versalhes. Beausire quase desmaiou.
    -- Salvai-a, salvai-a, -- implorou, caindo de joelhos no interior do carro, --
    e eu vo-la darei, se ainda a amais.
    -- Meu amigo, -- replicou Cagliostro, -- estais enganado, nunca amei a
    Srta. Oliva; a minha nica inteno era arranc-la  vida de devassides
    que ela levava convosco.
    -- Ma s... -- balbuciou Beausire, surpreso.
    -- Isso vos admira? Pois ficai sabendo que sou sndico de uma sociedade
    de reforma moral, cuja finalidade  furtar ao vcio todo aquele que
    manifesta possibilidades de cura. Eu teria curado Oliva se conseguisse
    arranc-la de vs, e a est porque a arranquei. Perguntai-lhe se alguma
    vez ouviu de minha boca um galanteio; perguntai-lhe se os meus servios
    no foram sempre desinteressados!
636                         ALEXANDRE DUMAS

    -- Mais uma razo, senhor; salvai-a! salvai-a.
    -- Estou disposto a tent-lo; mas isso depender de vs, Beausire.
    -- Pedi-me a vida.
    -- No pedirei tanto.       Voltai comigo a Paris e, se seguirdes  risca as
    minhas instrues, talvez logremos salvar a vossa amante. Imponho apenas
    uma condio.
    -- Qual, senhor?
    -- Di-la-ei quando chegarmos  minha casa.
    -- Aceito-a antecipadamente; mas quero rev-la, rev-la!
    -- Pois  justamente o que estou planejando; dentro em duas horas
    tornareis a v-la.
    -- E poderei beij-la?
    -- Espero que sim; fareis mais, repetir-lhe-eis o que vou dizer-vos.
    Cagliostro retomou, em companhia de Beausire, a estrada de Paris.
    Duas horas depois, ao cair da tarde, alcanara o carro dos guardas.
    E, volvida uma hora, Beausire comprava aos agentes por cinquenta luses, o
direito de beijar Nicole e de transmitir-lhe as recomendaes do conde.
    Os aguazis admiraram-se daquele amor apaixonado e contavam ganhar
assim cinquenta luses em cada posta.
    Mas Beausire no tornou a aparecer e a sege de Cagliostro levou-o, clebre,
na direo de Paris, onde tantos sucessos se preparavam.
    Eis o que era necessrio contar ao leitor antes de mostrar-lhe o Sr.
Cagliostro conversando com o Sr. de Crosne.
    Agora podemos introduzi-lo no gabinete do Chefe de Polcia.
                                       XC
                         O gabinete do chefe de polcia

    O SR. DE CROSNE sabia a respeito de Cagliostro tudo o que um
hbil Chefe de Polcia pode saber sobre um habitante da Frana, o que no
 pouco. Conhecia-lhe todos os nomes passados, todos os segredos de
alquimista, de magneti-zador e de adivinho; conhecia as suas pretenses 
ubiquidade,  regenerao perptua: tinha-o na conta de um fidalgo charlato.
    Esse Sr. de Crosne era um esprito forte, senhor de todos os recursos do seu
cargo; benquisto na corte, mostrava-se indiferente ao valimento e no
transigia com o orgulho; era, enfim, um homem que se no deixava dominar
por qualquer um.
    A le, como ao Sr. de Rohan, Cagliostro no podia oferecer luses ainda
quentes do forno hermtico; a le, Cagliostro no teria apresentado o cano de
uma pistola, como Blsamo apresentara ao Sr. de Sartines; a le, Blsamo j
no tinha Lourena para reclamar, mas Cagliostro tinha contas que prestar.
    Eis porque o conde, em vez de esperar os acontecimentos, achara melhor
pedir audincia ao magistrado.
    O Sr. de Crosne sentia a vantagem da sua posio e preparava--se para
aproveit-la. Cagliostro sentia a dificuldade da sua e preparava-se para venc-la.
    Essa partida de xadrez, jogada a descoberto, escondia uma parada que um
dos jogadores no esperava, e esse, fora  confess-lo, no era o Sr. de Crosne.
    O Chefe de Polcia s conhecia de Cagliostro, como dissemos, o charlato;
ignorava completamente o adepto. Muita gente tropeou nas pedras semeadas
pela filosofia no caminho da monarquia apenas por no as ter visto.
    O Sr. de Crosne esperava de Cagliostro revelaes sobre o colar, sobre os
negcios escusos da Sra. de La Motte. Era a sua desvantagem. Assistia-lhe,
porm, o direito de interrogar e encarcerar. Era a sua superioridade.
    Recebeu o conde como um homem cnscio da prpria importncia, mas que
no quer ser descorts com ningum, nem sequer com um fenmeno.
638                         ALEXANDRE DUMAS

    Precatou-se Cagliostro. Queria mostrar-se apenas grande fidalgo, a nica
fraqueza que julgava dever permitir que se desvelasse.
    -- Senhor, -- disse-lhe o Chefe de Polcia, -- pedistes-me uma audincia.
    Estou chegando de Versalhes exclusivamente para ou vir-vos.
    -- Senhor, cuidei que tereis algum interesse em interrogar-me sobre o que
    est acontecendo e, conhecendo o vosso mrito e a importncia de
    vossas funes, apresentei-me. Aqui estou.
    -- Interrogar-vos? -- acudiu o magistrado, simulando surpresa; -- mas a
    troco de qu?
    -- Senhor, -- replicou Cagliostro sem hesitar, -- estais atualmente muito
    ocupado com a Sra. de La Motte e com o desaparecimento do colar.
    -- Te-lo-eis, acaso, encontrado? -- perguntou o Sr. de Crosne, quase
    zombeteiro.
    -- No, -- respondeu gravemente o conde. -- Mas, se no encontrei o
    colar, sei pelo menos que a Sra. de La Motte morava na Rua de So
    Cludio.
    -- Defronte da vossa casa; eu tambm sabia, -- conveio o magistrado.
    -- Ento, senhor, sabeis o que fazia a Sra. de La Motte... No falemos
    mais nisso.
    -- Pelo contrrio, -- volveu o Sr. de Crosne com ar indiferente, --
    falemos.
    -- Isso s poderia ter algum interesse a propsito de Oliva, -- tornou
    Cagliotro; -- mas visto que sabeis tudo sobre a Sra. de La Motte, j no
    tenho nada que vos revelar.
    Ao nome de Oliva, o Sr. de Crosne estremeceu.
    -- Que estais dizendo de Oliva? -- perguntou. -- Quem  Oliva?
    -- No sabeis? Ah! senhor, era uma curiosidade que me surpreenderia
    revelar-vos.     Imaginai uma rapariga muito bonita, um corpo... olhos
    azuis, oval do rosto perfeito; a propsito, um gnero de beleza que
    lembra um pouco o de Sua Majestade a rainha.
    -- Ah! ah! -- exclamou o Sr. de Crosne, -- e da?
    -- Da, a rapariga vivia mal e deu-me pena; ela serviu, antigamente, a
    um velho amigo meu, o Sr. de Taverney...
    -- O baro que morreu outro dia?
    -- Precisamente. Alm disso, pertenceu a um sbio que no conheceis,
    Sr. Chefe de Polcia, e que...     Mas estou falando de mais e vejo que
    principio a entendiar-vos.
    -- Tende a bondade de continuar. Dizeis que essa Oliva?...
    -- Vivia mal.     Levava uma existncia de quase misria com um troca-
    tintas, seu amante, que a roubava e lhe batia: uma de vossas presas mais
    ordinrias, senhor, um espertalho que no deveis conhecer...
                        O COLAR DA RAINHA                                  639

  -- Ura tal Beausire, talvez? -- sobreveio o magistrado, satisfeito de parecer
  bem informado.
  -- Ah! conhecei-lo?  surpreendente, -- acudiu_ Cagliostro com admirao.
  -- Muito bem! sois ainda melhor adivinho do que eu. Ora, um dia em que
  Beausire a espancara e roubara mais que de costume, ela veio refugiar-se
  ao p de mim e pediu-me proteo.
  Sou bom, dei-lhe no sei que canto de pavilho numa de minhas casas...
  -- Em vossa casa!. . . Ela estava em vossa casa? -- bradou, surpreso, o
  magistrado.
  -- Sem dvida, -- retorquiu Cagliostro, simulando espantar-se por seu
  turno. -- Por que no haveria eu de abrig-la, sendo solteiro? -
  E abriu a rir com tanta bonomia que o Sr. de Crosne se deixou
embair completamente.
  -- Em vossa casa! -- repetiu; -- ento foi por isso que os meus agentes
  tiveram de procur-la tanto!
  -- Como!      Procuraram-na? -- volveu Cagliostro. -- Essa moa estava
  sendo procurada? Ter feito alguma coisa, que eu no saiba?. ..
  -- No, senhor, no; continuai, por favor.
  -- Oh! meu Deus! j terminei. Abriguei-a em minha casa;  tudo.
  -- No, no! Sr. Conde, no  tudo, visto que pareceis, ainda h pouco,
  associar o nome de Oliva ao da Sra. de La Motte.
  -- Por causa da vizinhana...
  -- H outra coisa, Sr. Conde. . . No me dissestes -toa que a Sra. de La
  Motte e a Srta. Oliva eram vizinhas.
  -- Mas isso se refere a uma circunstncia que fora ocioso contar-vos.
  No  ao primeiro magistrado do reino que se devem relatar mexericos
  de provncia.
  -- Estais-me interessando, senhor, e muito mais do que supondes; pois essa
  Oliva que dizeis ter hospedado em vossa casa, encontrei-a na provncia.
  -- Vs a encontrastes!...
  -- Com o Sr. de Beausire...
  -- Eu j andava desconfiado, -- acudiu Cagliostro. -- Ela estava com
  Beausire? Ah! muito bem! muito bem! Reparao seja feita  Sra. de La
  Motte.
  -- Como! Que quereis dizer? -- voltou o Sr. de Crosne.
  -- Quero dizer que, depois de haver momentaneamente suspeitado da
  Sra. de La Motte, aqui lhe fao plena e inteira reparao.
  -- Suspeitado! De qu?
  -- Misericrdia! Tendes, ento, pacincia para ouvir todos os mexericos?
  Pois bem! quando eu j alimentava esperanas de cor-
640                         ALEXANDRE DUMAS

rigir essa Oliva, de faz-la voltar ao trabalho e  honestidade (pois ocupo-me
de moral, senhor), algum apareceu e ma arrebatou.
    -- Arrebatou-a! De vossa casa?
    -- De minha casa.
    --  estranho!
    -- No ?       E eu teria jurado que havia sido a Sra. de La Motte.
    Como so precrios os juzos deste mundo!
    O Sr. de Crosne aproximou-se de Cagliostro.
    -- Tende a bondade de precisar, -- disse le.
    -- Oh! senhor, agora que encontrastes Oliva em companhia de Beausire,
    nada mais me far pensar na Sra. de La Motte, nem nas suas assiduidades,
    nem nos seus sinais, nem nas suas correspondncias.
    -- Com Oliva?
    -- Exatamente.
    -- A Sra. de La Motte e Oliva se entendiam?
    -- Perfeitamente.
    -- Viam-se?
    -- A Sra. de La Motte encontrara um meio de faz-la sair todas as-
    noites.
    -- Todas as noites! Tendes certeza?
    -- Tanta quanta pode ter um homem do que viu e ouviu.
    -- Estais-me dizendo coisas que eu pagaria  razo de mil libras por
    palavra. Ainda bem que sois fabricante de ouro.
    -- J o no fabrico; saa-me muito caro.
    -- No sois amigo do Sr. de Rohan?
    -- Creio que sim.
    -- Deveis saber, ento, que papel essa intrigante, que se chama Sra. de La
    Motte, representa no seu escandaloso caso?
    -- No; quero ignor-lo.
    -- Mas calculais talvez as consequncias dos passeios de Oliva e da Sra. de
    La Motte?
    -- Senhor, h coisas que um homem prudente deve sempre procurar
    ignorar, -- replicou, sentencioso, Cagliostro.
    -- Terei a honra de perguntar-vos apenas mais um coisa, -- disse
    vivamente o Sr. de Crosne, -- tendes provas de que a Sra. De La Motte se
    haja correspondido com Oliva?
    -- Cem.
    -- Quais?
    -- Bilhetes que a Sra. de La Motte arremessava no quarto de Oliva com a
    ajuda de uma balestra, que, sem dvida, se encontrar em sua casa.
    Muitos desses bilhetes, enrolados num pedao de chumbo, no atingiam o
    alvo. Caam na rua e diversos foram apanhados por mim e pelos meus
    criados.
    -- Estareis disposto a fornec-los  justia?
                      O COLAR DA RAINHA                                  641

    --       Oh! senhor, so to inocentes que eu no escrupulizaria de faz-
    lo, nem julgaria por isso merecer uma censura da Sra. de La Motte.
    --       E. .. as provas das conivncias, dos encontros?
    --       Mil.
    --       Uma s, por favor.
    --       A melhor.         Parece que a Sra. de La Motte entrava com
    facilidade em minha casa para ver Oliva, pois eu mesmo l a
    encontrei no dia em que desapareceu a rapariga.
    --       No mesmo dia?
    --       Todos os meus criados a viram como eu.
    --       Ah!. . . e que estava ela fazendo l, se Oliva tinha sumido? ...
    --       Foi o que perguntei a mim mesmo a princpio, sem poder
    explic-lo.      Eu vira a Sra. de La Motte descer de um carro de posta
    parado na Rua do^Rei Dourado. Os meus criados j tinham visto o carro
    estacionado durante muito tempo, e confesso que che
    guei a pensar que a Sra. de La Motte pretendia tomar a seu cargo a
    rapariga.
    --       E consenteis nisso?
    --       Por que no? Essa Sra. de La Motte  uma senhora caridosa e
    favorecida pela fortuna.  recebida na corte. Por que haveria eu de
    obstar a que me livrasse de Oliva? E, como vedes, faria mal, porque
    outro ma arrebatou para tornar a perd-la.
    --       Ah! -- murmurou o Sr. de Crosne, meditando profundamente,
    -- a Srta. Oliva estava hospedada em vossa casa?
    --       Estava, sim, senhor.
    --       A Srta. Oliva e a Sra. de La Motte se conheciam, viam-se, saam
    juntas?
    --       Sim, senhor.
    --       A Sra. de La Motte foi vista em vossa casa, no dia do
    sequestro de Oliva?
    --       Foi, sim, senhor.
    --       E pensveis que a Sra. Condessa queria ficar com ela?
    --       Que outra coisa se poderia pensar?
    --       Mas que disse a Sra. de La Motte quando no encontrou Oliva
    em vossa casa?
     -- Pareceu-me perturbada.
    --       Imaginais que tenha sido Beausire o seqiiestrador?
    --       Suponho-o to-smente porque me dizeis que le realmente a
    sequestrou; do contrrio, no suporia coisa alguma.         Esse homem
    desconhecia o paradeiro de Oliva. Quem pode haver-lho revelado?
    --       A prpria Oliva.
     --      No creio, pois em vez de se fazer raptar por le em minha casa,
ela teria fugido de minha Gasa para encontr-lo, e podeis acre-
642                        ALEXANDRE DUMAS

ditar que le no teria entrado se a Sra. de La Motte no lhe tivesse dado
uma chave.
   -- Ela possua uma chave de vossa casa?
   -- Nem h dvida.
   -- Em que dia a sequestraram? -- perguntou o Sr. de Crosne, subitamente
   iluminado pelo facho que to habilmente lhe estendia Cagliostro.
   -- Oh! senhor, no h engano possvel: foi exatamente na vspera do dia
   de So Lus.
   --  isso mesmo! -- bradou o Chefe de Polcia, --  isso mesmo!
   Acabastes de prestar assinalado servio ao Estado.
   -- Folgo muitssimo, senhor.
   -- E sereis convenientemente recompensado.
    -- Primeiro pela minha conscincia, -- disse o conde.
    O Sr. de Crosne cumprimentou-o.
    -- Posso contar com a consignao das provas de que falamos?--
    perguntou.
    -- Estou pronto, senhor, a obedecer em tudo  justia.
    -- Aceitarei a vossa palavra; terei a honra de rever-vos.
    E dispensou Cagliostro, que disse, ao sair:
   -- Ah! condessa, ah! vbora, quiseste acusar-me; mas creio que mordeste a
lima; cuidado com os dentes!
                                     XCI


                               Os interrogatrios

     ENQUANTO o Sr. de Crosne assim conversava com Cagliostro, o Sr. de
Breteuil se dirigia  Bastilha, da parte do rei, para interrogar o Sr. de Rohan.
    Entre os dois inimigos a entrevista poderia ser tempestuosa. O Sr. de
Breteuil conhecia a altivez do Sr. de Rohan: tomara dele uma vingana to
terrvel que se poderia ater, daquele momento em diante, s normas de
polidez. Foi mais do que polido. O Sr. de Rohan recusou-se a responder.
    O ministro insistiu mas o cardeal declarou que se conformava com as
medidas que tomassem o parlamento e seus juizes.
    O Sr. de Breteuil teve de retirar-se em face da inquebrantvel determinao
do acusado.
    Mandou chamar  sua presena a Sra. de La Motte, ocupada
em redigir memrias; ela obedeceu, solcita.          ,
    O Sr. de Breteuil explicou-lhe claramente a situao, que ela conhecia
melhor do que ningum. Joana respondeu que possua provas da sua inocncia
e as exibiria quando preciso fosse. Observou-lhe o Sr. de Breteuil que nada
poderia ser mais urgente.
    A condessa recitou toda a fbula que havia engendrado; eram sempre as
mesmas insinuaes contra toda a gente, a mesma afirmao de que as
falsificaes arguidas procediam de uma fonte que ela desconhecia.
    Declarou tambm que, estando o parlamento encarregado do caso, s diria
coisas absolutamente verdadeiras em presena do Sr. Cardeal e de conformidade
com as acusaes que le lhe dirigisse.
    Respondeu-lhe o Sr. de Breteuil que o cardeal a acusava de tudo.
    -- De tudo? -- recalcitrou Joana, -- at do roubo?
    -- At do roubo.
    -- Fazei-me a fineza de avisar ao Sr. Cardeal, -- atalhou friamente Joana,
    -- que no se obstine por mais tempo num mau sistema de defesa.
    E foi tudo. Mas o Sr. de Breteuil no estava satisfeito. Queria pormenores
ntimos. Era-lhe necessrio, para a sua lgica, o conhe-
644                         ALEXANDRE DUMAS

cimento das causas que haviam levado o cardeal a mostrar-se to temerrio em
relao  rainha, e a rainha to irada contra o cardeal.
    Era-lhe necessria a explicao de todos os relatrios recolhidos pelo Sr.
Conde da Provena e convertidos em rumores pblicos.
    Homem inteligente, o Ministro da Justia sabia agir sobre o esprito de
uma mulher; prometeu tudo  Sra. de La Motte, se ela acusasse claramente
algum.
    -- Cuidado! -- advertiu, -- ficando quieta, acusais a rainha; e se
    persistirdes nisso, sereis condenada por crime de lesa-majestade: ser a
    vergonha, ser o barao!
    -- No acuso a rainha, -- respondeu Joana; -- mas por que me acusam?
    -- Nesse caso, acusai algum, -- tornou o inflexvel Breteuil; -- no
    tendes outro meio de defesa.
    Ela fechou-se num mutismo prudente, e a primeira entrevista entre a
acusada e o ministro no surtiu efeito algum.
    Entretanto, espalhava-se o rumor de que haviam surgido provas, de que os
brilhantes tinham sido vendidos na Inglaterra, onde o Sr. de Villette fora
preso pelos agentes do Sr. de Vergennes.
    O primeiro assalto que Joana precisou sustentar foi terrvel. Acareada com
o Reteau, que supunha seu aliado at  morte, ouviu-o, aterrada, confessar
humildemente que era um falsrio, que forjara o recibo dos brilhantes e a carta
da rainha, falsificando, ao mesmo tempo, as assinaturas dos joalheiros e de
Sua Majestade.
    Perguntado por que motivo perpetrara esses crimes, respondeu que o fizera
a pedido da Sra. de La Motte.
    Desvairada, furiosa, ela negou, defendeu-se como uma leoa; e jurou que
nunca vira, nem conhecera, aquele Sr. Reteau de Villette.
    Mas at nesse particular recebeu dois golpes tremendos; dois testemunhos
esmagaram-na.
    O primeiro era o de um cocheiro de fiacre, encontrado pelo Sr. de
Crosne, que declarou ter levado, no dia e na hora citados por Reteau, uma
dama vestida de tal e tal modo,  Rua de Mont-martre.
    Cercando-se de tantos mistrios, quem poderia ser essa dama, recolhida pelo
cocheiro no bairro do Marais, seno a Sra. de La Motte, que morava na Rua
de So Cludio?
    E no tocante  familiaridade que existia entre os dois cmplices, como
neg-la quando uma testemunha afirmava ter visto, na vspera do dia de So
Lus, na almofada de uma sege, da qual apeara a Sra. de La Motte, o Sr. Reteau
de Villette, reconhecvel pelo semblante plido e inquieto?
    O depoente era um dos principais criados do Sr. de Cagliostro.
    Esse nome exasperou Joana e levou-a aos extremos. Fz uma srie de
acusaes contra Cagliostro, que ela declarava ter fasci-
                        O COLAR DA RAINHA                                   645

nado, atravs de sortilgios e bruxarias, o esprito do Cardeal de Rohan,
incutindo-lhe ideias culpadas contra a Majestade real.
    Era o primeiro elo da acusao de adultrio.
    O Sr. de Rohan defendeu-se defendendo Cagliostro. Negou to
obstinadamente, que Joana, exacerbada, insinuou, pela primeira vez, a
existncia de um amor insensato do prelado  rainha.
    O Sr. de Cagliostro pediu imediatamente, e obteve-o, que o encarcerassem a
fim de poder provar a toda a gente a sua inocncia. E inflamando-se
acusadores e juizes, como sempre acontece ao primeiro sopro da verdade, a
opinio pblica decidiu-se, desde logo, em favor do cardeal e de Cagliostro
contra Maria Antonieta.
    Foi nessa altura que a inditosa princesa, para demonstrar a sua
perseverana em acompanhar o processo, mandou publicar os relatrios
apresentados ao rei sobre os passeios noturnos e, apelando para o Sr. de Crosne,
intimou-o a declarar o que sabia.
    Habilmente calculado, o golpe caiu sobre Joana e quase a aniquilou para
sempre.
    Em plena audincia de instruo, o interrogador ordenou ao Sr. de Rohan
que dissesse o que sabia sobre esses passeios nos jardins de Versalhes.
    Respondeu o cardeal que, incapaz de mentir, apelava para o testemunho da
Sra. de La Motte.
    Esta negou que se tivessem realizado passeios com a sua anuncia ou
conhecimento.
    Inquinou de mentirosos os relatrios e depoimentos que a denunciavam
como tendo sido vista nos jardins, quer em companhia da rainha, quer em
companhia do cardeal.
    A declarao inocentava Maria Antonieta, a ser possvel acreditar nas
palavras de uma mulher incriminada de falsidade e roubo. Mas, vindo de sua
parte, a justificao asssumia o aspecto de um ato de complacncia e a rainha
no quis justificar-se dessa maneira.
    Por isso mesmo, quando Joana jurava e tresjurava que nunca estivera  noite
no jardim de Versalhes e nunca vira nem soubera dos negcios particulares da
rainha e do cardeal, surgiu Oliva, testemunho vivo, que fz mudar a opinio
pblica e deu em terra com o edifcio de mentiras erguido pela condessa.
    Como no ficou ela spultada debaixo de suas runas? Como pde
reerguer-se mais odienta e mais terrvel? No explicamos o fenmeno
apenas pela vontade da condessa, seno tambm pela fatal influncia que
perseguia a rainha.
    Oliva confrontada com o cardeal, que golpe terrvel! o Sr. de Rohan
compreendendo finalmente que fora intrujado de maneira infame! Esse homem
cheio de delicadezas e nobres paixes, descobrindo que uma aventureira,
associada a uma velhaca, levara-o a
646                          ALEXANDRE DUMAS

desprezar publicamente a rainha de Frana, uma mulher que le amava e que
no tinha culpa!
    O efeito dessa apario sobre o Sr. de Rohan seria, a nosso ver, a cena
mais dramtica e importante do caso, se no fssemos, aproximando-nos da
histria, cair na lama, no sangue e no horror.
    Quando o Sr. de Rohan viu Oliva, rainha de fancaria, e lembrou-se da rosa,
dos apertos de mo e dos banhos de Apoio, empalideceu, e teria derramado
todo o seu sangue aos ps de Maria Antonieta se a tivesse visto ao lado da
outra naquele momento.
    Quantos-perdes, quantos remorsos se lhe arrancaram da alma para ir, com
lgrimas, purificar o ltimo degrau do trono em que um dia extravasara le o
seu desprezo com o despeito de um amor desdenhado!
    Mas esse mesmo consolo era-lhe defeso; no podia aceitar a identidade de
Oliva sem confessar que amava a verdadeira rainha; e a confisso do seu erro
era uma acusao, um enxovalho. Consentiu que Joana negasse tudo. Calou-
se.
    E quando o Sr. de Breteuil e o Sr. de Crosne quiseram obrig-la a explicar-
se mais circunstanciadamente:
    -- O melhor meio, -- disse Joana, -- de provar que a rainha no foi
passear no parque durante a noite,  mostrar uma mulher parecida com ela, que
confesse ter estado no parque. Mostraram--na; est bem.
    A infame insinuao foi bem sucedida. A condessa, mais uma vez,
infirmava a verdade.
    Mas como Oliva, na sua ingnua inquietude, fornecesse todos os dados e
todas as provas, como no omitisse coisa alguma, como se mostrasse muito
mais veraz do que a Sra. de La Motte, esta apelou para um meio desesperado:
confessou.
    Confessou que levara o cardeal a Versalhes; que Sua Excelncia queria a todo
transe ver a rainha, para apresentar-lhe os protestos de sua respeitosa
dedicao; confessou-o porque sentiu atrs de si um partido inteiro, que a
desertaria se ela se obstinasse na negativa; confessou-o porque, acusando a
rainha, conciliaria a seu favor todos os numerosos inimigos de Maria
Antonieta.
    Ento, pela dcima vez no processo infernal, os papis se inverteram: passou
o cardeal a representar o de um ludibriado, Oliva, o de uma prostituta sem
poesia e sern, sentido, Joana, o de uma intrigante; no poderia escolher outro
melhor para si.
    Mas como, para assegurar o bom xito do plano ignbil, urgia que a rainha
tambm representasse a sua parte, deram-lhe a mais odiosa, a mais abjeta, a
mais comprometedora para a dignidade real, a de uma scia estouvada, a de
uma reles costureirinha que tramasse mistificaes. Maria Antonieta foi
Dorimne conspirando com Frosine contra o Sr. Jourdain, cardeal.
                      O COLAR DA RAINHA                                       647

    Joana declarou que os passeios eram dados com a anuncia de Maria
Antonieta, que, escondida atrs de uma moita, escutava, morrendo de rir, os
apaixonados discursos do apaixonado Sr. de Rohan.
    Eis o que escolheu como ltima trincheira a ladra que j no sabia
onde ocultar o furto: o manto real feito da honra de Maria Teresa e de
Maria Leckzinska.
    Sucumbiu a rainha sob a ltima acusao, pois no podia provar-lhe a
falsidade. E no podia porque, acuada, Joana ameaara publicar todas as
cartas de amor escritas pelo Sr. de Rohan a Sua Majestade, que realmente
possua, e nas quais ardia uma paixo insensata.
    No podia porque a Srta. Oliva, que confessava ter sido levada ao
parque de Versalhes pela Sra. de La Motte, seria incapaz de saber se
algum estava ou no escutando atrs da moita.
    Enfim, no podia a rainha provar a sua inocncia porque muita
gente havia interessada em aceitar por verdadeiras essas infames mentiras.
                                      XCII


                            ltima esperana perdida

    EM RAZO da maneira por que Joana conduzira o caso, tornava-se
impossvel, como se v, descobrir a verdade. Irrecusavelmente convencida,
por vinte depoimentos de pessoas fidedignas, no se conformara a condessa
em passar por ladra vulgar. Queria ver, ao lado da sua, a vergonha de mais
algum. Persuadia-se de que o rumor do escndalo de Versalhes to bem lhe
encobriria o crime que, se ela, Condessa de La Motte, fosse condenada, a
sentena alcanaria a rainha antes de qualquer outra pessoa.
    Falhara-lhe, portanto, o clculo. Aceitando Maria Antonieta
desassombradamente o debate sobre a dupla questo, sofrendo o cardeal o
interrogatrio, os juizes e o escndalo, tiravam ambos  inimiga a aurola de
inocncia que ela se comprouvera em dourar com suas hipcritas reservas.
    Mas, coisa estranha! o pblico ia assistir a um processo de que ningum sairia
inocente, nem sequer os que a justia absolvesse.
    Depois de um sem nmero de acareaes, nas quais se mostrou o cardeal
sempre calmo e polido, at em presena de Joana, e Joana sempre violenta e
infensa a todos, a opinio pblica em geral e a dos juizes em particular
viram-se irrevogvelmente formadas.
    Os incidentes haviam-se tornado quase impossveis, tinham-se esgotado todas
as revelaes. Joana percebeu que no produzira efeito algum sobre os juizes.
    Resumiu, portanto, no silncio do crcere, todas as foras, todas as
esperanas.
    De quantos cercavam ou serviam o Sr. de Breteuil, recebia o conselho de
poupar a rainha e concentrar no cardeal as suas acusaes.
    Dos adeptos do cardeal, famlia poderosa, juizes parciais, clero fecundo em
recursos, recebia o conselho de dizer toda a verdade, desmascarar as intrigas do
pao e levar o escndalo a tal ponto que dele se seguisse um atordoamento
mortal para as cabeas coroadas.
    Esse partido procurava intimid-la; mostrava-lhe o que ela j sabia, isto ,
que a maioria dos juizes se inclinava pelo cardeal,
                        O COLAR DA RAINHA                                  649

que ela se despedaaria inutilmente na luta, acrescentando que talvez, quase
perdida como ela estava, melhor fora deixar-se condenar pelo caso dos
brilhantes do que agitar crimes de lesa-majes-tade, limo sangrento adormecido
no fundo dos cdigos feudais, e que nunca subia  superfcie de um processo
sem arrastar consigo a morte.
    Esse partido parecia certo da vitria. Estava. O entusiasmo do povo
manifestava-se com le em favor do cardeal. Os homens lhe admiravam a
pacincia e as mulheres a discrio. Indignavam-se os homens de que le
houvesse sido to covardemente embado; as mulheres no o queriam acreditar.
Para muita gente, Oliva, com a sua parecena e as suas confisses, nunca
existira, ou, se existia, era uma inveno da rainha apropositada s
circunstncias.
    Joana refletia em tudo isso. Os prprios advogados a desamparavam, os
juizes no dissimulavam a sua repulsa; os Rohans acusavam-na vigorosamente; a
opinio pblica desdenhava-a. Resolveu desferir um derradeiro golpe, que
levasse a inquietao aos juizes e o medo aos amigos do cardeal, insuflando o
dio do povo contra Maria Antonieta.
    O seu mtodo devia ser esse, no tocante  corte.
    Fazer crer que havia continuamente poupado a rainha e que acabaria
revelando tudo se a tanto a obrigassem.
    No tocante ao cardeal, era mister insinuar que s se mantinha em
silncio para imitar-lhe a delicadeza; mas que, a partir do momento em que
le abrisse a boca, libertada pelo exemplo, ela tambm falaria, e ambos
descobririam, ao mesmo tempo, a sua inocncia e a verdade.
    Tratava-se, realmente, de um simples resumo do seu procedimento durante a
instruo do processo. Mas, fora  diz-lo, todo prato conhecido pode ser
renovado, graas a novos temperos. E eis o que imaginou a condessa para
rejuvenecer os seus dois estratagemas.
    Escreveu uma carta  rainha, cujos termos bastam a revelar--Ihe o carter
e o alcance:
           "Senhora,
           "Apesar de tudo o que a minha posio tem de penoso e rigoroso,
        no se me escapou nenhuma queixa. Todos os rodeios de que lanaram
        mo para extorquir-me confisses apenas contriburam para fortificar-me
        na resoluo de jamais comprometer a minha soberana.
           "Entretanto, embora persuadida de que a minha constncia e a minha
        discrio devem facilitar-me os meios de sair do embarao em que me
        encontro, confesso que os esforos da famlia do escravo, (assim
        chamava a rainha ao cardeal nos dias de sua reconciliao) me fazem
        recear que eu me torne sua vtima.
           "Um longo encarceramento, acareaes que no acabam mais, a
        vergonha e o desespero por me ver acusada de um crime de que estou
650                          ALEXANDRE DUMAS

      inocente, enfraqueceram-me a coragem e chego a temer que a minha
      constncia sucumba a tantos golpes desferidos ao mesmo tempo.
         "Com uma palavra s, a senhora pode pr cobro a esse caso la-
      mentvel por intermdio do Sr. de Breteuil, que pode dar-lhe, aos
      olhos do ministro (o rei) o jeito que lhe sugerir a sua inteligncia,
      sem que a senhora seja de qualquer maneira comprometida.  o
      receio de ser obrigada a revelar tudo que me obriga a dar o passo que
      estou dando hoje, convencida de que a senhora saber compreender
      os motivos que me foram a tomar tal atitude e dar ordens para me
      tirar da penosa situao em que me vejo.
         "Sou, com profundo respeito, da senhora, humlima e obedientssima
      criada,
                         "Condessa de Valois de La Motte."
    Como se v, Joana calculara tudo.
    Ou a carta chegaria s mos da rainha, que aterraria pela perseverana que
denotava, depois de tantas aflies; nesse caso, cansada da luta, Maria
Antonieta se decidiria a acabar com ela libertando Joana, em face da
inutilidade da priso e do processo.
    Ou, o que era muito mais provvel, e est implcito na prpria concluso da
carta, a missivista no esperava da missiva coisa alguma. Explica-se: arrastada
pelo processo, a rainha no poderia interromper o que quer que fosse sem se
condenar. Por conseguinte,  manifesto que Joana jamais alimentara a
esperana de que as suas linhas chegassem  destinatria.
    Sabia que todos os seus guardas eram dedicados ao Governador da Bastilha,
isto , ao Sr. de Breteuil. Sabia que toda a gente em Frana fazia do caso do
colar uma especulao inteiramente poltica, o que no acontecia desde os
parlamentos do Sr. de Maupeou. Sabia que o mensageiro a quem entregasse a
carta, se a no desse ao Governador, guard-la-ia para si ou para os juizes da sua
faco. Dispusera tudo, enfim, para que a mensagem, caindo nas mos de
algum, nelas deixasse um germe de dio, desconfiana e irreverncia contra a
rainha.
    Ao mesmo tempo que escrevia essa carta a Maria Antonieta, redigia outra
para o cardeal.
           "No posso conceber, Monsenhor, que vos obstineis, em no falar
        claramente. Parece-me que no podeis fazer outra coisa seno depositar
        ilimitada confiana em nossos juizes; a nossa sorte seria muito mais
        feliz. Em quanto a mim, estou decidida a calar-me se me no quiserdes
        secundar. Por que no falais? Explicai todas as circunstncias desse
        misterioso caso, e juro confirmar quanto disserdes; re-fleti bem, Sr.
        Cardeal: se eu tomar a iniciativa de falar primeiro e desmentirdes
        depois o que eu disser, estarei perdida, no escaparei  vingana
        daquela que quer sacrificar-nos.
           -- "Mas no podeis temer coisa alguma de minha parte nesse sentido,
        pois conheceis o quanto vos sou dedicada. Se ela viesse a mostrar-se
        implacvel, a vossa causa seria sempre a minha; eu tudo sacri-
                       O COLAR DA RAINHA                                 651

      ficaria para subtrair-vos ao dio dela, ou a nossa desgraa seria co-
      mum.
         "P. S. Escrevi a ela uma carta, que, assim o espero, a decidir,
      seno a dizer a verdade, pelo menos a no nos acabrunhar, ns que
      no temos outro crime de que nos verberar seno o nosso erro ou o
      nosso silncio."
    Essa carta artificiosa foi entregue por ela ao cardeal durante a ltima
acareao realizada entre ambos no grande locutrio da Bastilha, onde os
circunstantes viram Sua Eminncia corar, empalidecer e estremecer diante de
tamanha audcia, acabando por sair para tomar flego.
    Quanto  carta para a rainha, foi entregue na mesma ocasio pela condessa
ao Padre Lekel, esmoler da Bastilha, que acompanhara o prelado ao locutrio
e era devotado aos interesses dos Rohans.
    -- Senhor, -- disse-lhe ela, -- encarregando-vos dessa mensagem, podereis
fazer que se modifique a sorte do Sr. de Rohan e a minha. Inteirai-vos do que
ela contm.      Sois um homem obrigado ao segredo pelos vossos deveres.
Convencer-vos-ei de que bati  nica porta onde podamos, o Sr. Cardeal e eu,
pedir socorro.
    O esmoler recusou-se.
    -- O nico eclesistico que vedes sou eu, -- replicou, -- e Sua Majestade
    acreditar que lhe escrevestes induzida pelos meus conselhos e que tudo
    me confessastes; ora, no posso consentir na minha prpria perdio.
    -- Pois bem! -- tornou Joana, desesperando do bom xito de sua astcia,
    mas querendo constranger o cardeal pela intimidao,-- dizei ao Sr. de
    Rohan que ainda posso provar a minha inocncia exibindo as cartas que le
    escrevia  rainha. Repugnava-me faz-lo; mas, no interesse de ambos,
    acabarei decidindo-me a isso.
    Vendo o esmoler apavorado com as suas ameaas, tentou, pela ltima vez,
pr-lhe nas mos a terrvel carta  rainha.
    -- Se le pegar na carta, -- dizia a ss consigo, -- estou salva, porque,
ento, em plena audincia, poderei perguntar-lhe que fim lhe deu; se a tiver
entregue  rainha, ela ter de responder; se a no tiver entregue, a rainha
estar perdida; a hesitao dos Rohans ter provado o seu crime e a minha
inocncia.
    Mas tanto que teve a carta nas mos, o Padre Lekel devolveu-a, como se
o queimasse.
    -- Prestai ateno, -- advertiu Joana, plida de clera, -- no estareis
    arriscando coisa alguma, pois escondi a carta da rainha num sobrescrito
    dirigido  Sra. de Misery.
    -- Mais uma razo! -- bradou o padre. -- Duas pessoas ficariam conhecendo
    o segredo. Duplo motivo para o ressentimento de Sua Majestade. No,
    no, recuso-me.
652                         ALEXANDRE DUMAS

   E repeliu os dedos da condessa.
   -- Observai, -- disse ela, -- que assim me obrigais a fazer uso das cartas
   do Sr. de Rohan.
   -- Seja, -- replicou o padre, -- fazei delas o uso que quiserdes.
   -- Mas, -- tornou Joana, trmula de furor, -- a prova de uma
   correspondncia secreta com Sua Majestade far cair sobre um cadafalso a
   cabea do cardeal. A responsabilidade, portanto, ser vossa se disserdes:
   Seja! J vos avisei.
    Nesse momento se abriu a porta e o cardeal reapareceu, soberbo e irado:
   -- Fazei cair sobre um cadafalso a cabea de um Rohan, senhora, --
exclamou. -- No ser a primeira vez que a Bastilha assistir a semelhante
espetculo.     Mas, j que assim , declaro-vos que nada reprocharei ao
patbulo em que rolar minha cabea, se me fr dado ver o pelourinho sobre
o qual sereis marcada como ladra e falsaria! Vinde, reverendo, vinde!
   Voltou-lhe as costas depois dessas palavras fulminantes e, saindo com o
esmoler, deixou entregue  raiva e ao desespero a desgraada criatura, que no
podia fazer um movimento sem afundar cada vez mais na vasa mortal em que
logo mergulharia de todo.
                                    XCIII
                       O batismo do pequeno Beausire

    A SRA. DE LA MOTTE enganara-se em todos os seus clculos.
Cagliostro no errou em nenhum.
        Assim que se viu na Bastilha, percebeu que lhe era fornecido
finalmente o pretexto para trabalhar abertamente pela runa daquela
monarquia que, havia tantos anos, minava com o iluminismo e os trabalhos
ocultos.
    Certo de que no poderia ser condenado por crime nenhum, vtima chegada
ao desfecho mais favorvel aos seus pontos de vista, cumpriu religiosamente as
promessas que fizera.
    Preparou os materiais da famosa Carta de Londres, que, surgindo um ms
depois, foi o primeiro golpe de arete aplicado aos muros da velha Bastilha, a
primeira hostilidade da revoluo, o primeiro choque material que precedeu o
de 14 de julho de 1789.
    Nessa carta em que Cagliostro, depois de haver arruinado o rei, a rainha,
o cardeal, os agiotas pblicos, arruinava o Sr. de Breteuil, personificao da.
tirania ministerial, assim se expressava o nosso demolidor:
        "Sim, repito-o livre depois de o haver dito cativo, no h crime que
     no faam expiar seis meses de Bastilha. Perguntaram-me se voltarei,
     algum dia,  Frana. Seguramente, respondi, quando a Bastilha se houver
     transformado em passeio pblico. Deus o queira! Vs, os franceses, tendes
     quanto  preciso para a felicidade: solo fecundo, clima suave, bom
     coraSo, encantadora alegria, gnio e graas para tudo; sem iguais na arte
     de agradar, sem mestres nas outras, s vos falta, meus bons amigos, um
     pontozinho: a certeza de que deitareis em vossas camas quando sois
     irreprochveis."
    Cagliostro cumprira tambm a palavra dada a Oliva. Esta, de seu lado,
fora religiosamente fiel. No lhe escapara sequer uma palavra que
comprometesse o protetor. A sua confisso havia sido funesta apenas  Sra. de
La Motte, estabelecendo, de forma clara e irrecusvel, a sua participao
inocente numa mistificao preparada, segundo ela, para ilaquear um gentil-
homem desconhecido que lhe haviam designado sob o nome de Lus.
    Durante o tempo que se escoara para os cativos debaixo de chave e entre
interrogatrios, no revira Oliva o seu querido Beau-
654                         ALEXANDRE DUMAS

sire; todavia, no fora de todo desamparada por le e, como se ver,
conservava do amante a lembrana desejada por Dido, quando dizia sonhando:
Ah! se eu pudesse ver brincando sobre os joelhos um pequeno Ascnio!
    No ms de maio do ano de 1786, um homem estava esperando, entre os
mendigos, nos degraus da escada da igreja de So Paulo,  Rua de Santo
Antnio. Mostrava-se inquieto, ofegante, e no cessava de olhar na direo da
Bastilha.
    Ao p dele foi colocar-se outro homem, de longas barbas, um dos criados
alemes de Cagliostro, o mesmo que Blsamo empregava como camarista nas
misteriosas recepes da antiga casa da Rua de So Cludio.
    Esse homem procurou abrandar a impacincia de Beausire, dizendo-lhe
baixinho:
    -- Esperai, esperai, que eles viro.
    -- Ah! -- exclamou o homem inquieto, -- sois vs!
    E como o eles viro no satisfizesse, pelo visto, o homem inquieto, que
continuava a gesticular mais do que lhe permitiria o bom senso, o alemo
sussurrou-lhe ao ouvido:
    -- Sr. Beausire, acabareis fazendo tamanho barulho, que a polcia nos
    ver... Meu amo vos prometeu notcias; aqui esto.
    -- Dai-mas! dai-mas, meu amigo!
    -- Mais baixo. A me e a criana esto passando bem.
    -- Oh! oh! -- bradou Beausire num transporte de alegria impossvel de
    descrever-se. -- Ela deu  luz! Est salva!
    -- Sim, senhor; mas vamos sair daqui, por favor.
    -- Menina?
    -- Menino.
    -- Tanto melhor! Como sou feliz, meu amigo, como sou feliz! Agradecei
    ao vosso amo; dizei-lhe que a minha vida, tudo o que tenho, lhe
    pertence...
    -- Sim, Sr. Beausire, dir-lho-ei quando o vir.
    -- Meu amigo, por que me dizeis h pouco...         Mas aceitai este dois
    luses.
    -- No aceito nada, senhor, que no venha de meu amo.
    -- Ah! perdo, eu no queria ofender-vos.
    -- Acredito que no. Mas dizeis-me...
    -- Eu vos perguntava por que, h pouco, gritastes: Eles viro. Quem vir?
    -- O cirurgio da Bastilha e a Sra. Chopin, parteira, que assis tiram ao
    parto da Srta. Oliva.
    -- Viro aqui? Para qu?
    -- Para batizar a criana.
    -- Vou ver meu filho! -- bradou Beausire, saltando como um
    convulsionrio. -- Vou ver o filho de Oliva?           Aqui?      Daqui a
    pouco?...
                       O COLAR DA RAINHA                                  655

   -- Aqui, daqui a pouco; mas moderai-vos, pelo amor de Deus; do
   contrrio, os dois ou trs agentes do Sr. de Crosne, que adivinho ocultos
   sob os andrajos destes mendigos, vos descobriro e adivinharo que
   tivestes comunicao com o prisioneiro da Bastilha. Vs vos perdereis e
   comprometereis meu amo.
   -- Oh! -- exclamou Beausire, com a religio do respeito e do
   reconhecimento, -- antes morrer do que pronunciar uma slaba que possa
   prejudicar o meu benfeitor. Sufocarei, se preciso fr, mas no direi mais
   nada. Eles no vm!. ..
   -- Pacincia.
    Beausire aproximou-se do alemo.
   -- E ela no se sente l muito infeliz? -- perguntou, juntando as mos.
   -- Perfeitamente feliz, -- respondeu o outro. -- Oh! vem vindo um fiacre.
   -- Sim, sim.
   -- Est parando...
   -- Vejo roupas brancas, rendas. ..
   -- A toalha do batismo.
   -- Meu Deus!
    E Beausire foi obrigado a apoiar-se numa coluna para no cambalear,
quando viu apear do fiacre a parteira, o cirurgio e um porta-chaves da
Bastilha, que serviam de padrinhos.
     passagem das trs pessoas, comoveram-se os pobres e entraram a
roufenhar as suas lamentveis reclamaes.
    Viu-se ento, coisa estranha! o padrinho e a madrinha passarem
acotovelando os miserveis, ao passo que um estranho lhes distribua o seu
dinheiro, chorando de alegria.
    Em seguida, tendo entrado na igreja o cortejozinho, Beausire entrou e, de
cambulhada com os padres e os fiis curiosos, foi procurar o melhor lugar da
sacristia onde ia celebrar-se o sacramento do batismo.
    Reconhecendo a parteira e o cirurgio, que por vrias vezes j haviam
recorrido ao seu ministrio em circunstncias semelhantes, fz-lhes o padre um
cumprimentozinho amistoso, acompanhado de um sorriso.
    Beausire cumprimentou e sorriu com o padre.
    Fechou-se a porta da sacristia e o sacerdote, tomando da pena, comeou a
escrever no livro as frases sacramentais que constituem o ato do registro.
    Quando chegou o momento de perguntar o nome e os preno-mes da
criana:
   -- S sei que  menino, -- disse o cirurgio.
    E quatro gargalhadas completaram a frase, que no pareceu suficientemente
respeitosa a Beausire.
656                          ALEXANDRE DUMAS

    -- Mas h de ter um nome qualquer, nem que seja de santo, -- ajuntou o
    padre.
    -- Sim, quer a me que lhe chamem Toussaint.
    -- Todos os santos ao mesmo tempo! -- replicou, a rir do prprio
    calembur, o celebrante, sacudindo a sacristia com novo acesso de
    hilariedade.
    Beausire comeava a perder a pacincia, mas a prudente influncia do
alemo ainda conseguia refre-lo. Conteve-se.
    -- Muito bem! -- disse o padre, -- com esse nome, tendo por patronos
todos os santos do cu, o garoto no precisa de pai. Escrevamos: "Hoje nos
foi apresentada uma criana do sexo masculino, nascida ontem, na Bastilha,
filha de Nicole-Oliva Legay e de... pai desconhecido."
    Beausire precipitou-se furioso sobre o sacerdote e, segurando--lhe o punho
com fora:
    -- Toussaint tem pai, sim, senhor, -- bradou, -- como tem me! Tem um
pai amoroso que no renegar o prprio sangue. Escrevei, por favor, que
Toussaint, nascido ontem,  filho da Srta. Nicole-Oliva Legay e de Joo
Batista Toussaint de Beausire, aqui presente!
    Avalie-se a estupefao do padre, a do padrinho e a da madrinha! Caiu a
pena das mos do oficiante e quase caiu o menino dos braos da parteira.
    Beausire recebeu-o nos seus e, cobrindo-o de beijos vidos, deixou escorrer
sobre a fronte do pobrezinho o primeiro batismo, o mais sagrado neste mundo
depois do de Deus, o batismo das lgrimas paternas.
    Apesar de habituados a cenas dramticas e a despeito do ceti-cismo comum
aos voltaireanos da poca, os assistentes enterneceram-se. S o padre conservou
o sangue frio e ps em dvida aquela paternidade; talvez o contrariasse ter de
recomear o registro.
    Beausire, porm, adivinhou a dificuldade; colocou sobre as fontes
batismais trs luses de ouro, que, muito melhor do que as suas lgrimas,
estabeleceram-lhe os direitos de pai e ressaltaram-lhe a boa-f.
    O padre cumprimentou, juntou as setenta e duas libras e riscou as duas
frases que acabara de escrever no registro.
    -- Entretanto, senhor, -- esclareceu, -- como a declarao do Sr. Cirurgio
    da Bastilha e da Sra. Chopin foi formal, far-me-eis o favor de escrever e
    certificar, pelo vosso prprio punho, que sois o pai da criana.
    -- Eu! -- bradou Beausire no auge da alegria; -- escrev-lo-ei com o meu
    prprio sangue!
    E empolgou a pena com entusiasmo.
    -- Cuidado! -- disse-lhe baixinho o porta-chaves Guyon, que no
esquecera o seu papel de homem escrupuloso. -- Creio, meu
                         O COLAR DA RAINHA                                    657

caro senhor, que o vosso nome soa mal em certos lugares; oorreis perigo
escrevendo-o em registros pblicos, com uma data que prova, ao mesmo tempo,
a vossa presena e o vosso comrcio com uma acusada.
    -- Obrigado pelo conselho de amigo, -- replicou Beausire com altivez; -- 
    um conselho de homem de bem e vale os dois luses de ouro que vos
    ofereo; mas renegar o filho de minha mulher...
    -- Ela  vossa mulher? -- perguntou o cirurgio.
    -- Legtima? -- inquiriu o padre.
    -- Deus lhe devolva a liberdade, -- prometeu Beausire, trmulo de prazer,
    -- e, no dia seguinte, Nicole Legay se chamar de Beausire, como o filho e
    como eu!
    -- Entrementes, estais-vos arriscando, -- repetiu Guyon; -- creio que andam
     vossa procura.
    -- No serei eu quem vos trair, -- disse o cirurgio.
    -- Nem eu, -- disse a parteira.
    -- Nem eu, -- disse o padre.
    -- E ainda que me trassem, -- continuou Beausire com a exaltao dos
    mrtires, -- eu seria capaz de sofrer at o suplcio da roda para ter a
    consolao de reconhecer meu filho.
    -- Se le viesse a sofrer o suplcio da roda, -- disse baixinho  parteira o
    Sr. Guyon, que se picava de ter sempre uma resposta na ponta da lngua,
    -- no seria por se haver declarado pai do Toussaintzinho.
    E depois desse dito, que fz sorrir a Sra. Chopin, procedeu-se, com todas as
formalidades de praxe, ao registro e reconhecimento do jovem Beausire.
    Beausire redigiu a declarao em termos magnficos, mas um tanto
 derramados, como soem ser os relatos de todos os feitos de que se ufana o
 autor.
    Releu-a, pontuou-a, assinou-a e fz que a assinassem tambm as quatro
 pessoas presentes.
    A seguir, tendo relido e conferido tudo, beijou o filho, devidamente batizado,
enfiou-lhe uma dezena de luses por baixo do ves-tidinho, suspendeu-lhe um anel
ao pescoo, presente destinado  parturiente, e, orgulhoso como Xenofonte na
sua famosa retirada, abriu a porta da sacristia, decidido a no se valer do mais
mnimo estratagema para fugir aos esbirros, se viesse a encontrar algum to
desnaturado que desejasse prend-lo naquele momento.
    Os grupos de mendigos no tinham deixado a igreja. Se tivesse podido olhar
com olhos mais firmes, teria reconhecido entre eles o famoso Positivo, autor
da sua desgraa; mas ningum se mexeu. A nova distribuio feita por
Beausire foi recebida com uma srie de: Deus lhe pague! sem medida, e o pai
felicssimo saiu de So Paulo com todas as aparncias de um gentil-homem
venerado, festejado, abenoado e acarinhado pelos pobres da parquia.
658                         ALEXANDRE DUMAS

    As testemunhas do batismo, por sua vez, retiraram-se tambm e tomaram
novamente o fiacre, maravilhadas com a aventura.
    Beausire, que as espreitava da esquina da Rua Cultura de Santa Catarina,
viu-as tomar o carro e mandou dois ou trs beijos palpitantes para o filho; e,
depois que satisfez completamente o terno corao, depois que o fiacre
desapareceu, entendeu que no devia tentar a Deus nem  polcia, e largou-se
para um refgio que s le, Cagliostro e o Sr. de Crosne conheciam.
    Isso quer dizer que o Sr. de Crosne tambm cumprira a palavra dada a
Cagliostro e no inquietara Beausire.
    Quando a criana regressou  Bastilha e a Sra. Chopin referiu a Oliva
todas aquelas aventuras surpreendentes, a rapariga," enfiando no dedo mais
gordinho o anel de Beausire, abriu a chorar tambm; e, tendo beijado o
filho, para o qual j se procurava uma ama de leite:
    -- No! -- protestou; -- o Sr. Gilberto, discpulo do Sr. Rous-seau, dizia
que toda boa me deve alimentar o filho: alimentarei o meu; quero ser pelo
menos uma boa me, pois assim terei feito alguma coisa.
                                    XCIV


                               O banco dos rus

     CHEGARA, por fim, depois de longos debates, o dia em que a sentena
do tribunal do parlamento seria provocada pelas concluses do procurador
geral.
    Com exceo do Sr. de Rohan, todos os indiciados haviam sido
transferidos para a Conciergerie, para ficarem mais prximos da sala de
audincia, que se abria, diariamente, s sete da manh.
    Diante dos juizes presididos pelo primeiro presidente d'Aligre,, o semblante
dos rus continuara a ser o que havia sido durante ai instruo.
    Oliva, franca e tmida; Cagliostro, tranquilo, superior, irradiando s vezes
o mstico esplendor que se comprazia de afetar.
    Villette, corrido, baixo, choramingas.
    Joana, insolente, olhar coruscante, sempre ameaadora e venenosa.
    O cardeal, simples, sonhador, atnico.
    Joana assimilara depressa os hbitos da Conciergerie e cativara com suas
melosas denguices e seus segredinhos as boas graas da porteira do Palcio, do
marido e do filho.
    Dessarte, conseguira para si uma vida mais amena e maior liberdade de
comunicao. O macaco precisa sempre de mais espao do que o co, e o
intrigante do que o pachorrento.
    Os debates nada de novo revelaram  Frana. Era sempre a mesma histria
do mesmo colar audazmente roubado por uma ou outra das duas pessoas
acusadas, que reciprocamente se acusavam.
    Cifrava-se o processo todo em decidir qual das duas era o ladro.
    Mas o esprito que sempre levou os franceses aos extremos, sobretudo
naquele tempo, enxertara outro processo no verdadeiro.
    Tratava-se de saber se a rainha acertara ou no mandando prender o
cardeal e acusando-o de temerrias incivilidades.
    Para quantos se ocupavam de poltica em Frana, o anexo ao processo
representava a causa verdadeira. Teria tido o Sr. de Rohan razes para dizer 
rainha o que dissera e agir em seu nome como agira? Fora le, realmente, o
agente secreto de Maria Antonieta, renegado assim que o negcio ameaara
provocar escndalo?
660                         ALEXANDRE DUMAS

    Numa palavra, na causa incidente, houvera-se de boa-f o inculpado cardeal,
como ntimo confidente, em relao  rainha?
    Se le procedera de boa-f, era a rainha culpada de todas as intimidades,
mesmo inocentes, mas cuja ocorrncia insinuara a Sra. de La Motte. E, de mais
a mais, como sntese aos olhos da opinio, que nada poupa, no sero inocentes
as intimidades que se no podem confessar ao marido, aos ministros, aos
sditos.
    Tal  o processo que as concluses do procurador geral vo encaminhar
para o seu desfecho, para a sua moral.
    O procurador geral tomou a palavra.
    Era le o rgo do tribunal, falava em nome da dignidade real
menoscabada, ultrajada, falava em prol do princpio imenso da
inviolabilidade real.
    Entrava no processo verdadeiro quando se referia a certos acusados; fazia
incurses no processo incidente quando se tratava do cardeal. No podia
admitir que, no caso do colar, assumisse a rainha a responsabilidade de um
erro sequer. E se ela no cometera nenhum, recaam forosamente todos os
erros sobre a cabea do cardeal.
    Concluiu, portanto, inflexivelmente:
    Pela condenao de Villette s gals;
    Pela condenao de Joana de La Motte a ser ferreteada, aoitada e
perpetuamente encarcerada no hospital;
    Pela excluso de Cagliostro do processo;
    Pela absolvio pura e simples de Oliva;
    Pela confisso a que seria obrigado o cardeal de uma temeridade ofensiva
contra a Majestade Real, depois da qual seria banido da presena do rei e da
rainha e despojado de seus cargos e dignidades.
    Esse requisitrio deixou indecisos os parlamentares e aterrados os acusados.
Nele se explicava com tanta fora a vontade real que, um quarto de sculo
antes, quando os parlamentos comeavam a sacudir o jugo e a reivindicar as
suas prerrogativas, essas concluses do procurador do rei teriam sido
ultrapassadas pelo zelo e pelo respeito dos juizes ao princpio, ainda
venerado, da infabilidade do trono.
    Mas somente catorze conselheiros adotaram na ntegra a opinio do
procurador geral; a partir de ento, dividiu-se a assembleia.
    Procedeu-se ao derradeiro interrogatrio, formalidade quase intil em se
tratando de tais acusados, pois tinha por fim provocar confisses antes da
sentena, e no havia pedir paz nem trgua aos encarniados adversrios que
lutavam havia tanto tempo. Era menos a prpria absolvio do que a
condenao dos antagonistas que eles pleiteavam.
                          O COLAR DA RAINHA                                661

    Segundo o costume, devia o ru comparecer diante dos juizes sentado num
banquinho de madeira, humilde, baixo, vergonhoso, desonrado pelo contacto de
outros rus que, de l, tinham passado ao cadafalso.
    Foi nele que se assentou o falsrio Villette, pedindo perdo com lgrimas
e rogos.
    Declarou tudo o que se sabe, isto , que era culpado de falsidade e culpado
de cumplicidade com Joana de La Motte. Afirmou que o seu arrependimento e
os seus remorsos j eram, em si, suplcio capaz de desarmar os juizes.
    Este, porm, no interessava a ningum; no era, nem parecia ser, seno um
patife. Dispensado pelo tribunal, voltou choramingando para a sua cela na
Conciergerie.
    Depois dele assomou,  entrada da sala, a Sra. de La Motte, conduzida pelo
escrivo Frmyn.
    Trajava mantelete e camisa de cambraia e trazia, na cabea, touca de gaze
sem fitas; uma espcie de gaze branca cobria-lhe o rosto; tinha os cabelos
desempoados. A sua presena produziu viva impresso na assembleia.
    Ela vinha de sofrer o primeiro dos ultrajes que lhe estavam reservados:
tinham-na obrigado a passar pela escadinha, como os criminosos comuns.
    O calor da sala, o rumor das conversaes, o movimento das cabeas que
ondulavam de todos os lados, comearam por pertur-, b-la; vacilaram-lhe
por um momento os olhos como se tentassem habituar-se  reverberao de
todo aquele conjunto.
    O mesmo escrivo que a conduzia pela mo levou-a, rapidamente, para o
banquinho colocado no centro do hemiciclo, semelhante ao bloco sinistro que
se chama cepo quando se ergue sobre um patbulo em lugar de erguer-se
numa sala de audincias.
     vista do assento infamante que lhe destinavam, a ela, ufana de chamar-se
Valois e de ter nas mos o destino de uma rainha de Frana, Joana de La Motte
empalideceu, relanceou  sua volta um olhar iracundo, como que para
intimidar os juizes que tomavam a liberdade de ultraj-la daquela forma; mas
como encontrou em toda a parte vontades inabalveis e apenas curiosidade
em lugar de misericrdia, recalcou a furiosa indignao e sentou-se para no
dar a impresso de haver cado sobre o mocho.
    Observou-se, durante o interrogatrio, que ela dava s suas respostas o
mesmo tom vago de que os adversrios da rainha teriam podido tirar maior
proveito para a defesa de suas opinies. Precisou to-smente as afirmativas da
prpria inocncia, e obrigou o presidente a dirigr-lhe uma pergunta sobre a
existncia das cartas que ela dizia escritas pelo cardeal  rainha, assim como
das que a rainha teria escrito ao cardeal.

_
L
662                        ALEXANDRE DUMAS

    Todo o veneno da serpente ia difundir-se na resposta quela pergunta.
    Joana comeou reafirmando o seu desejo de no comprometer a soberana;
acrescentou que ningum melhor do que o cardeal podia responder 
pergunta.
    -- Convidai-o, -- sugeriu, -- a exibir as cartas, ou uma cpia delas, para
que possam ser lidas e assim se satisfaa a vossa curiosidade. No que me
concerne, eu no saberia afirmar se elas so do cardeal  rainha ou da
rainha ao cardeal; estas me parecem demasiado livres e demasiado familiares
para terem sido escritas por uma soberana a um sdito; e aquelas demasiado
irreverentes para terem sido dirigidas por um sdito  sua rainha.
    O silncio profundo, terrvel, que acolheu o ataque, deve ter provado a
Joana que ela apenas inspirara horror aos inimigos, pavor aos partidrios e
desconfiana aos juizes imparciais. Ao deixar o banquinho, s levava a doce
esperana de que o cardeal nele se assentaria tambm. Bastava-lhe, para assim
dizer, essa vingana. No se pode descrever o que sentiu quando, voltando-se
para considerar pela ltima vez o mocho oprobrioso em que obrigava a sentar-se
um Rohan depois dela, no tornou a v-lo, pois, por ordem do tribunal, fora
retirado e substitudo por uma poltrona.
    Um rugido de raiva exalou-se-lhe do peito; precipitou-se para fora da sala,
mordendo freneticamente as mos.
    Principiava o seu suplcio.
    O cardeal, por seu turno, adiantou-se lentamente. Acabava de descer de
um carro: para le se abrira a porta principal.
    Dois soldados e dois escrives o acompanhavam; ao seu lado caminhava o
Governador da Bastilha.
     sua entrada, longo murmrio de simpatia e respeito partiu dos bancos
do tribunal, respondido por vigorosa aclamao de fora. O povo saudava o
acusado e recomendava-o aos seus juizes.
    O Prncipe Lus estava plido, comovidssimo. Envergando longo traje de
cerimnia, apresentava-se com o respeito e a condescendncia devidas aos
juizes por um indiciado que lhes aceita e invoca a jurisdio.
    Indicou-se a poltrona ao cardeal, cujos olhos haviam receado percorrer o
recinto e, tendo-lhe o presidente dirigido uma saudao e uma palavra de
alento, toda a corte lhe rogou que se assentasse com uma benevolncia que
redobrou a palidez e a comoo do acusado.
    Quando le tomou a palavra, a sua voz trmula, entrecortada de suspiros,
os seus olhos perturbados e a humildade da sua postura agitaram
profundamente a compaixo do auditrio. Explicou-se devagar, apresentou
antes desculpas que provas, antes splicas que argumentos, e, interrompendo-se
de repente, le, o homem eloquente e diserto, produziu, por essa paralisia do
esprito e da
                        O COLAR DA RAINHA                                      663

coragem, efeito mais poderoso que todos os arrozoados e todos os raciocnios.
    Em seguida, surgiu Oliva; a pobre rapariga encontrou de novo o banco
dos rus. Muita gente estremeceu vendo aquela imagem viva da rainha sentar-
se no banco vergonhoso que ocupara Joana de La Motte; aquele fantasma
de Maria Antonieta, rainha de Frana, no banco das ladras e falsarias,
espavoriu os mais ardentes perseguidores da monarquia. Mas houve tambm
quem se encantasse com o espetculo, como os tigres com o sangue que se lhes
d.
    Dizia-se, porm, em toda a parte, que a pobre Oliva acabava de deixar, 
entrada, o filho, que amamentava; e, quando a porta se abriu, os vagidos do
rebento do Sr. Beausire vieram advogar dolorosamente em favor de sua me.
    Depois de Oliva surgiu Cagliostro, o menos culpado de todos. No lhe foi
ordenado que se assentasse, muito embora a 'poltrona houvesse sido conservada
ao p do banco.
    Temia o tribunal o arrazoado de Cagliostro. Um simulacro de
interrogatrio, atalhado pelo -- est bem! do presidente d'Aligre bastou s
exigncias da forma.
    O tribunal anunciou ento que os debates estavam encerrados e que a
deliberao ia comear. Escoou-se lentamente a multido, pelas ruas e pelos
cais, certa de voltar  noite para ouvir a sentena, que, dizia-se, no tardaria em
ser pronunciada.
                                    XCV




                        De uma grade e de um padre

     CONCLUlDOS os debates, aps a repercusso do interrogatrio e as
comoes do banco dos rus, todos os prisioneiros foram alojados aquela
noite na Conciergerie. A multido, como dissemos, foi postar-se,  noite, em
grupos silenciosos, posto que animados, na Praa do Palcio, para receber, em
primeira mo, a notcia da sentena tanto que fosse decretada. Em Paris, coisa
estranha! os grandes segredos so precisamente os que o povo conhece antes
que de todo se revelem.
     O populacho esperava, portanto, saboreando confeitos de alcauz, cuja
 matria-prima iam encontrar os fornecedores ambulantes debaixo do primeiro
 arco da Pont-au-Change.
     O tempo estava quente. As nuvens de junho rodavam, pesadas, umas
 sobre as outras, como penachos de espessa fumaa. Iluminavam o cu, 'no
 horizonte, reiterados e plidos clares.
    Ao passo que o cardeal, a quem fora concedido o privilgio de passear
nos.terraos, entre uma torre e outra, se entretinha com Cagliostro sobre o
provvel bom xito da defesa de ambos; ao passo que Oliva, na sua cela,
acarinhava o filho e o embalava nos braos; ao passo que, na sua, Reteau, de
olhos enxutos, as unhas entre os dentes, contava mentalmente os escudos
prometidos pelo Sr. de Crosne e lhes confrontava o total com os meses de
cativeiro que lhe prometia o tribunal; Joana, recolhida ao quarto da mulher do
porteiro, a Sra. Hubert, procurava distrair o esprito incendido com um
pouco de bulha, um pouco de movimento.
     Esse quarto, de teto alto, amplo como uma sala, lajeado como uma galeria,
 era iluminado, do lado do cais, por uma grande janela ogival. Os pequenos
 vitrais da janela interceptavam boa parte da luz, e como se, daquele mesmo
 quarto em que moravam pessoas livres, devesse ser espantada a liberdade,
 enorme grade de ferro, aplicada do lado de fora, vinha acentuar a obscuridade
 produzida pelas vidraas com o entrecruzamento das suas barras e as redes de
 chumbo que enquadaravam os losangos de vidro.
     De resto, a luz que passava pela dupla peneira se diria adoada para os
 olhos dos prisioneiros. J nada tinha da insolente irradiao do sol livre,
 no era feita para ofender os que no podiam
                        O COLAR DA RAINHA                                    665

sair. H em todas as coisas, at nas coisas ms feitas pelo homem, depois que o
tempo, intermedirio destinado a manter o equilbrio entre o homem e Deus,
passa por cima delas, harmonias que mitigam e permitem uma transio entre
a dor e o sorriso.
    Era nessa sala que, desde a sua transferncia para a Concier-gerie, a Sra. de
La Motte passava os dias em companhia do porteiro, da mulher e do filho.
Dissemos que ela possua o esprito gil, o temperamento sedutor. Conquistara
a afeio daquela gente. Encontrara meios de provar-lhe que a rainha era uma
grande culpada. Dia viria em que, na mesma sala, outra mulher de porteiro,
apiedada tambm dos infortnios de uma reclusa, a creria inocente . ao v-la
paciente e boa; e essa reclusa seria a rainha!
    Ia, portanto, a Sra. de La Motte -- ela mesma o diz -- esquecer na
sociedade daquela mulher e de seus amigos, as ideias melanclicas, pagando
com bom humor as atenes que recebia. Nesse dia, dia do encerramento da
audincia, quando Joana voltou para junto daquela boa gente, encontrou-a
preocupada e constrangida.
    No havia nuana que passasse despercebida  astuta criatura: um nada
enchia-a de esperana, qualquer coisa a alarmava. Debalde buscou arrancar a
verdade  Sra. Hubert: esta e os seus responderam apenas com evasivas.
    Nesse dia, Joana avistou, num canto do fogo, um padre, comensal
intermitente da casa. Era o antigo secretrio do preceptor do Sr. Conde da
Provena; homem de modos simples, medidamente custico, conhecedor da
corte, e que, afastado havia muito da casa da Sra. Hubert, tornara a frequent-la
com assiduidade aps a chegada da Sra. de La Motte  Conciergerie.
    Havia tambm dois ou trs funcionrios categorizados do Pa
lcio da Justia; todos olhavam muito para a Sra. de La Motte,
mas falavam pouco.
    Ela tomou alegremente a iniciativa.
    -- Tenho certeza, -- disse, -- de que se conversa com mais calor l em cima
do que aqui.
    Fraco murmrio de assentimento, partido do porteiro e da mulher, foi a
nica resposta dada a essa provocao.
    -- L em cima? -- repetiu o padre, simulando ignorncia. --
    Onde, Sra. Condessa?
    -- Na sala em que deliberam os meus juizes, -- replicou Joana.
    -- Oh! sim, sim, -- conveio o padre.
    E recomeou o silncio.
    -- Creio, -- continuou ela, -- que a minha atitude de hoje surtiu bom
    efeito. J deveis sab-lo, no  verdade?
    -- Sim, senhora, -- assentiu timidamente o porteiro.
    E levantou-se como se quisesse dar por terminada a entrevista
666                          ALEXANDRE DUMAS

    --  a vossa opinio qual , reverendo? -- voltou Joana. -- No se est
    esboando bem o meu caso? Observai que no se articulou prova alguma.
    -- De fato, senhora, -- respondeu o padre. -- Por isso mesmo podeis
    acalentar muitas esperanas.
    -- No  verdade? -- exclamou ela.
    -- Entretanto, -- atalhou Sua Reverendssima, -- suponde que o rei...
    -- Pois sim! que far o rei? -- perguntou Joana, veemente.
    -- O rei, senhora, pode no querer que o desmintam.
    -- Nesse caso, faria condenar o Sr. de Rohan.  impossvel!
    --  verdade que  difcil, -- responderam, de todos os lados.
    -- Ora, -- apressou-se em ajuntar a r, -- nesta causa, quem diz o Sr. de
    Rohan diz a Sra. de La Motte.
    -- No, no, -- retrucou o padre, -- estais-vos iludindo, minha senhora.
    Haver um acusado absolvido. ..        Na minha opinio, sereis vs. Mas
    haver um s.      O rei precisa de um culpado, pois, do contrrio, que
    seria da rainha?
    -- Realmente, -- conveio Joana com voz surda, ferida por se ver
    contrariada, mesmo numa esperana que apenas afetava, -- o rei precisa
    de um culpado. Pois bem! nesse caso, o Sr. de Rohan serve to bem
    quanto eu.
    Um silncio apavorante para a condessa seguiu-se a essas palavras.
    Foi o padre o primeiro a romp-lo.
    -- Senhora, -- disse le, -- o rei no guarda rancor, e, satisfeita a sua
    primeira clera, no pensar mais no passado.
    -- Mas a que chamais uma clera satisfeita? -- perguntou Joana com
    ironia. -- Nero tinha as suas cleras, como Tito, as suas.
    -- Uma condenao... qualquer, -- apressou-se a dizer o sacerdote, -- 
    uma satisfao.
    -- Qualquer!. .. senhor, -- bradou Joana, --  uma palavra horrvel...
    Muito vaga... Dizer qualquer  dizer demais!
    -- Refiro-me apenas  recluso num convento, -- replicou friamente o
    padre; --  a ideia que, segundo os rumores correntes, mais agradaria ao
    rei no vosso caso.
    Joana considerou o homem com um terror que deu lugar quase
imediatamente  mais furiosa exaltao.
    -- Recluso num convento! -- repetiu; -- quer dizer, a morte lenta,
ignominiosa pelos pormenores, a morte feroz que parecer um ato de
clemncia!... A recluso no in pace, no ? As torturas da fome, do frio,
das correies!       No, basta de suplcios, basta de vergonha, basta de
desgraas para a inocncia quando a culpa continua poderosa, livre, honrada!
A morte imediata, mas a morte que eu tiver escolhido, o livre alvedrio para me
castigar por haver nascido neste mundo infame!
                        O COLAR DA RAINHA                                  667

    E sem ouvir as representaes, os rogos, sem permitir que a detivessem,
repelindo o porteiro, empurrando o padre, afastando a Sra. Hubert, correu
para uma mesa  procura de uma faca.
    As trs pessoas conseguiram demov-la; ela ps-se a correr como uma
pantera que os caadores tivessem, no assustado, mas inquietado, e, soltando
urros de uma clera to ruidosa que no poderia ser natural, precipitou-se
num gabinete contguo  sala, e l, erguendo enorme vaso de porcelana em
que vegetava uma roseira estiolada, bateu com le na cabea vrias vezes.
    Quebrou-se o vaso, ficando um pedao na mo da fria; viu-se--lhe o sangue
correr da fronte pelas rachaduras da pele, que se fendera. A mulher do
porteiro atirou-se, em prantos, nos braos dela. Fizeram-na sentar numa
poltrona; inundaram-na de gua de cheiro e de vinagre. Ela desfalecera depois
de horrveis convulses.
    Quando tornou em si, o padre cuidou v-la sufocar.
    -- Vede! -- exclamou, -- essa grade intercepta a luz e o ar. No seria
possvel fazer respirar um pouco a pobre mulher?
    Esquecida de tudo, a Sra. Hubert correu para um armrio colocado ao p
do fogo, tirou dele uma chave que servia de abrir a grade e, imediatamente,
o ar e a vida entraram aos jorros no aposento.
    -- Ah! -- observou o padre, -- eu no sabia que essa grade pudesse
    abrir-se com chave. Por que tantas precaues, meu Deus?
    --  a ordem! -- replicou a mulher do porteiro.
    -- Compreendo, -- ajuntou o padre, com manifesta inteno, -- a janela
    fica a uns sete ps do cho e d para o cais.         Se, porventura, um
    prisioneiro fugisse do interior da Conciergerie e passasse pela vossa sala,
    encontraria a liberdade sem haver encontrado carcereiro nenhum e
    nenhuma sentinela.
    -- Precisamente, -- assentiu a Sra. Hubert.
    Observou o padre com o canto dos olhos que a Sra. de La Motte ouvira,
compreendera e at estremecera, e, logo depois de haver recolhido as palavras
do sacerdote, erguera os olhos para o armrio, fechado apenas por um boto de
cobre, onde o porteiro guardava a chave da grade.
    Foi o suficiente para le. A sua presena j no parecia necessria.
Despediu-se.
    Entretanto, voltando atrs, como os personagens de teatro que fingem sair
de cena:
    -- Quanta gente na praa! -- observou. -- O povo todo se dirige com
tamanho interesse para aquele lado do palcio, que no h viva alma no
cais.
    O porteiro debruou-se  janela.
    --  verdade, -- confirmou.
668                          ALEXANDRE DUMAS

    -- Acaso acreditaro, -- prosseguiu o padre, como se a Sra. De La Motte
    no pudesse ouvi-lo, se bem o ouvisse perfeitamente, -- acaso acreditaro
    que a sentena seja lavrada  noite? No, no ?
    -- Creio que no, -- respondeu o porteiro; -- a meu ver, s ser
    proferida amanh cedo.
    -- Pois bem! -- acrescentou o padre, -- procurai deixar que descanse um
    pouco esta pobre Sra. de La Motte. Depois de tantos abalos, ela deve ter
    necessidade de repouso.
    -- Iremos para o nosso quarto, -- disse o bravo porteiro  mulher, -- e
    deix-la-emos aqui, nesta poltrona, a menos que ela queira recolher-se e
    deitar-se.
    Soerguendo-se, Joana encontrou o olhar do padre, que lhe esperava a
resposta. Fingiu adormecer de novo.
    O sacerdote sumiu e o porteiro e a mulher afastaram-se tambm, depois de
haverem fechado cuidadosamente a grade e recolocado a chave no lugar.
    Tanto que ficou s, Joana abriu os olhos.
    -- O padre aconselha-me a fugir, -- pensou; -- no poderia indicar-me
com maior clareza a necessidade e o meio da evaso! Ameaar-me com uma
condenao antes da sentena dos juizes,  de um amigo que me quer livre,
no pode ser de um brbaro que apenas pretendesse insultar-me.
    "Para fugir, basta-me dar um passo; abro o armrio, abro depois a grade e
vejo-me incontinenti no cais deserto.
    "Deserto, sim!... Ningum; a prpria lua esconde-se no cu.
    "Fugir!. . . A liberdade! a felicidade de reencontrar as minhas riquezas. . . a
felicidade de retribuir aos meus inimigos todo o mal que me tm feito!"
    Precipitou-se para o armrio e apanhou a chave. E j se aproximava da
fechadura da grade quando, de sbito, julgou ver, na linha negra do parapeito
da ponte, uma forma humana, que lhe interrompia a uniforme regularidade.
    -- Est l um homem, -- disse ela; -- talvez o padre, que vela pela minha
evaso; espera-me para me socorrer. Sim, mas pode ser uma cilada... pode
ser que, descendo ao cais, eu seja presa, surpreendida em flagrante delito de
evaso. . .     A evaso  a confisso do crime ou, pelo menos, a confisso do
medo!       Quem se evade foge diante da conscincia... De onde vem esse
homem?... Parece ligado ao Sr. da Provena. .. Mas quem me diz que no
se trata de um emissrio da rainha ou dos Rohans?... Como me
fariam pagar caro, se assim fosse, um passo em falso de minha parte. ..
Sim, l est algum  espreita!. ..
     "Fazer-me fugir algumas horas antes da sentena! No poderiam t-lo feito
mais cedo se quisessem realmente servir-me? Meu Deus!           Quem sabe se j
no chegou ao conhecimento dos meus
                          O COLAR DA RAINHA                                       669

inimigos a notcia de que os juizes decidiram absolver-me? Quem sabe se
no pretendem evitar  rainha esse golpe terrvel com uma prova ou uma
confisso da minha culpabilidade? A confisso, a prova, seria a fuga...
Ficarei!"
    A partir desse momento, Joana convenceu-se de que acabava de
escapar  cilada. Sorriu, reergueu a cabea astuta e atrevida e, com
passo firme, recolocou a chave da grade no armrio ao lado do fogo.
    Logo, tornando a sentar-se na poltrona, entre a luz e a janela, observou de
longe, fingindo dormir, a sombra do homem que espiava, e que, sem
dvida cansado de esperar, acabou se levantando e desaparecendo com os
primeiros albores da aurora, s duas e meia da madrugada, quando a vista
j comeava a estremar a gua de suas margens.
                                    XCVI


                                 A sentena

    DE MANH, quando renascem todos os rumores, quando Paris volta 
vida ou liga novo elo ao elo da vspera, a condessa esperou que a notcia de
uma absolvio lhe penetrasse de repente a priso com a alegria e as
felicitaes dos amigos.
    Teria amigos? Infelizmente a fortuna e o crdito nunca se encontram sem
cortejo, e Joana se tornara rica, poderosa; entretanto, recebera e dera sem
conquistar sequer o amigo trivial que h de queimar no dia seguinte, em face
da desgraa, o que na vspera incensou.
    Mas depois do triunfo que esperava, Joana teria partidrios, teria
admiradores, teria invejosos.
    Esperou debalde ver entrar na sala do porteiro Hubert a solcita multido
de rostos alegres.
    Da imobilidade de uma pessoa convicta,  espera de abraos, passou Joana,
que tal era o seu feitio, a uma excessiva inquietude.
    E como no se pode fingir sempre, no se deu ao trabalho, diante dos
guardas, de ocultar as suas impresses.
    No lhe era permitido sair para informar-se, mas passou a cabea pelo
postigo de uma janela e, l, ansiosa, prestou ateno aos rumores da praa
vizinha, que se resolviam num murmrio confuso, depois de haverem
atravessado a espessura dos muros do velho palcio de So Lus.
    Ouviu ento, no um rudo, seno uma verdadeira exploso, aclamaes,
gritos, pateadas, alguma coisa de retumbante que a apavorou, pois no estava
persuadida de que fosse por ela que o povo manifestava tamanha simpatia.
    As salvas estrondosas repetiram-se duas vezes e cederam lugar a estrpitos
de outro gnero.
    Teve a impresso de que eram tambm de aprovao, mas uma aprovao
calma, extinta logo depois de nascida.
    No demorou muito e os transeuntes se tornaram mais numerosos no cais,
como se se dissolvessem os grupos da praa, dispensando, aos magotes, as suas
massas dispersas.
    -- Um belo dia para o cardeal! -- observou uma espcie de escrevente de
procurador, dando um salto  beira do parapeito.
                        O COLAR DA RAINHA                                  671

    E atirou uma pedra ao rio com a habilidade do jovem parisiense que
consagrou muitas horas ao exerccio dessa arte, exumada da antiga palestra.
    -- Para o cardeal! -- repetiu Joana. -- Haver, ento, notcia de que o
cardeal foi absolvido?
Uma gota de fel, uma gota de suor caiu-lhe da fronte. Entrou rapidamente na
sala.
    -- Minha senhora, minha senhora, -- bradou, dirigindo-se  Sra. Hubert;
-- ouvi dizer: Que hoje  um dia feliz para o cardeall Feliz por qu?
    -- No sei, -- respondeu a interpelada.
    Joana encarou com ela.
    -- Perguntai a vosso marido, por favor, -- ajuntou.
    A mulher, complacente, obedeceu. Hubert respondeu de fora:
    -- No sei!
    Impaciente, magoada, Joana se deteve no meio da sala.
    -- Mas, ento, que queriam dizer as pessoas que estavam passando? No
    h engano possvel nessa espcie de orculos.         Elas se referiam, sem
    dvida, ao processo.
    -- Talvez, -- acudiu o caritativo Hubert, -- quisessem dizer que ser um
    belo dia para o Sr. de Rohan, se fr absolvido, mais nada.
    -- Acreditais que o seja? -- indagou Joana, crispando os dedos.
    -- Pode ser.
    -- E eu, ento?...
    -- Vs, senhora... tambm; por que no?
    -- Estranha hiptese! -- murmurou a condessa.
    E voltou para a janela.
    -- Fazeis mal, parece-me, senhora, -- disse-lhe o porteiro, -- procurando
assim comoes que vos chegam mal compreensveis de fora. Ficai quietinha,
esperando que o vosso advogado ou o Sr. Frmyn venham ler-vos...
    -- A sentena?... No! no!
    E ps-se a escuta.
    Uma mulher estava passando com as amigas. Toucas de festa, grossos
ramalhetes nas mos. O perfume das rosas subiu como um blsamo precioso at
Joana, que tudo aspirava.
    -- le ter o meu ramalhete, -- gritou a mulher, -- e mais cem outros, o
    santo homem. Se eu pudesse, haveria de beij-lo!
    -- Eu tambm, -- afirmou uma companheira.
    -- Pois eu quero que le me beije, -- declarou uma terceira.
    -- De quem estaro falando? -- pensou Joana.
    -- No tens mau gosto, -- disse uma ltima s amigas; --  um homem
    muito bonito.
    E passaram as mulheres.
672                         ALEXANDRE DUMAS

    -- Ainda o cardeal! sempre lel -- murmurou Joana; -- foi
absolvido, foi absolvido!
    E pronunciou essas palavras com tamanho desalento e tanta convico ao
mesmo tempo, que o porteiro e a mulher, decididos a evitar que se repetisse a
tempestade da vspera, lhe disseram, unssonos:
    -- Oh! senhora, por que no havereis de querer que o pobre prisioneiro
fosse absolvido e libertado?
    Joana sentiu o golpe, sentiu principalmente a mudana operada no casal
e, no querendo perder-lhes a simpatia:
    -- No me compreendeis, -- respondeu. -- Julgais-me to invejosa ou m
que eu deseje a desgraa dos companheiros de infortnio? No! Por Deus!
Tomara que o Sr. Cardeal seja absolvido! Mas eu, eu quero saber. ..
Acreditai-me, meus amigos,  a impacincia que me deixa assim.
    Hubert e a mulher entreolharam-se como se quisessem medir o alcance do
que pretendiam fazer.
    Um'brilho selvagem que jorrou dos olhos de Joana, a despeito dela, deteve-
os no momento em que iam tomar uma deciso.
    -- No me dizeis nada? -- bradou a condessa dando tento do erro que
    cometera.
    -- No sabemos nada, -- responderam, em voz mais baixa.
    Nesse instante, vieram chamar Hubert, que saiu da sala. Ficando s com
Joana, a mulher buscou distra-la; mas em vo, porque todos os sentidos da
cativa, toda a sua inteligncia, eram solicitados para o exterior pelos rumores,
pelos sopros que percebia com uma susceptibilidade que a febre decuplicava.
    No podendo impedi-la de olhar nem de ouvir, a mulher do porteiro
resignou-se.
    Sbito, um barulho, um grande movimento, fz-se na praa. Refluiu a
multido para a ponte, at ao cais, com gritos to compactos, to reiterados,
que Joana estremeceu no seu observatrio.
    Os gritos no cessavam; dirigiam-se a um carro descoberto cujos cavalos,
sofreados menos pela mo do cocheiro do que pelo populacho, andavam a passo.
    A pouco e pouco, apertando-os, comprimindo-os, a turba carregava nos
ombros, nos braos, cavalos, carro, e as duas pessoas que iam nele.
    Aos raios brilhantes de sol, sob uma chuva de flores, sob uma abbada de
folhagens que mil mos agitavam acima das cabeas, a condessa reconheceu os
dois homens que o povolu entusiasmado carregava em triunfo.
    Um, plido, assustado, permanecia grave, atordoado, trmulo. Mulheres
trepavam no eixo das rodas, arrebatavam-lhe as mos para devor-las de beijos e
disputavam entre si a renda de seus punhos, que pagavam com as flores mais
frescas e mais raras.
                         O COLAR DA RAINHA                                    673

    Outras, mais felizes, tinham conseguido subir na traseira do carro, com os
lacaios; depois, afastando insensivelmente os obstculos que estorvavam o seu
amor, agarravam a cabea do personagem idolatrado, aplicavam-lhe um beijo
respeitoso e sensual, e logo cediam lugar a outras mulheres, igualmente felizes.
O homem adorado era o Cardeal de Rohan.
    O companheiro, vioso, alegre, brilhante, recebia uma acolhida menos viva,
mas no menos lisonjeira, guardadas as devidas propores. De resto, se as
mulheres repartiam entre si o cardeal, os homens gritavam: Viva Cagliostro!
    Essa embriagues levou meia hora para atravessar a Pont-au-Change e, at ao
seu ponto culminante, Joana avistou os triunfadores. No perdeu um nico
pormenor.
    A manifestao do entusiasmo pblico pelas vtimas da rainha, pois assim
lhes chamavam, proporcionou-lhe um momento de alegria.
    Mas, quase em seguida:
    -- J esto livres! -- murmurou; -- para eles j se cumpriram todas as
formalidades, mas eu ainda ignoro tudo; por que no me dizem nada, a mim?
    Um estremeo sacudiu-lhe o corpo.
    A seu lado, sentiu a presena da Sra. Hubert, que, silenciosa, atenta a quanto
se passava, devia ter compreendido e, no obstante, no lhe fornecia explicao
alguma.
    Joana ia provocar o esclarecimento indispensvel, quando nova bulha lhe
chamou a ateno para os lados da Pont-au-Change.
    Um fiacre, cercado de gente, subia, por seu turno, a ladeira da ponte.
    No fiacre, reconheceu, sorridente e mostrando o filho ao povo, Oliva, que
tambm partia livre e louca de alegria, sorrindo aos gracejos um tanto livres, aos
beijos enviados  viosa e apetitosa rapariga. O incenso era grosseiro, sem
dvida, mas suficiente para a Srta. Oliva, e a multido mandava-a como um
ltimo resto do esplndido festim oferecido ao cardeal.
    No meio da ponte, uma sege de posta estava esperando. Nela se
encontrava o Sr. de Beausire, escondido atrs de um amigo, o nico que se
atrevia a mostrar-se  admirao pblica. Fz sinal  Oliva, que desceu do
fiacre no meio de gritos que quase degeneraram em assuadas. Mas para certos
atores, que so assuadas quando correm o risco de ser agredidos e expulsos do
teatro?
    Tendo tomado a sege, Oliva caiu nos braos de Beausire, que, apertando-a
quase a ponto de sufoc-la, a ela se conservou agarrado por mais de uma lgua
e, inundando-a de lgrimas e beijos, s respirou em So Dinis, onde se
trocaram os cavalos sem que a polcia os tivesse inquietado.
674                         ALEXANDRE DUMAS

   Entretanto, vendo livres, felizes, festejadas, todas aquelas pessoas,
perguntava Joana a si mesma por que s ela no recebia notcias.
   -- Mas eu! eu! -- bradava, -- por que requinte de crueldade no me
   informam da sentena que me diz respeito?
   -- Acalmai-vos, senhora, -- rogou Hubert, entrando; -- acalmai-vos.
   --  impossvel que no estejais informado, -- replicou Joana, -- haveis de
   saber! haveis de saber! Dizei-mo.
   -- Senhora...
   -- Se no sois um brbaro, dizei o que sabeis!            Vede como estou
   sofrendo...
   -- Os oficiais subalternos da priso esto proibidos de revelar as
   sentenas, cuja leitura cabe aos escrives do tribunal.
   -- Mas, ento,  uma coisa to horrvel que no tendes coragem de
   contar-me! -- exclamou Joana, num transporte de raiva, que amedrontou
   o porteiro, fazendo-o temer a repetio das cenas da vspera.
   -- No, -- disse le, -- acalmai-vos, acalmai-vos.
   -- Ento, falai.
   -- Prometeis ser paciente e no me comprometer?
   -- Prometo-o! Juro-o! Mas falai!
   -- Pois bem! o Sr. Cardeal foi absolvido.
   -- Eu sei.
   -- O Sr. de Cagliostro foi excludo do processo.
   -- Eu sei.
   -- A Srta. Oliva obteve baixa na culpa.
   -- E depois? E depois?...
   -- O Sr. Reteau de Villette foi condenado.
   Joana estremeceu.
   -- s gals!...
   -- E eu? e eu? -- gritou ela, batendo os ps com fria.
   -- Pacincia, senhora, pacincia! No foi o que prometestes?
   -- Eu tenho pacincia; mas f a l a i . . . E eu?
   -- Ao exlio, -- disse com voz fraca o carcereiro, desviando o olhar.
   Um claro de alegria iluminou os olhos da condessa, extin-guindo-se logo
depois.
   Em seguida, ela fingiu perder os sentidos com um grito e deixou-se cair nos
braos dos hospedeiros.
   -- Que teria acontecido, -- perguntou Hubert, baixinho, ao ouvido da
   mulher, -- se eu lhe tivesse dito a verdade?
   -- O exlio, -- pensava Joana, simulando um ataque de nervos, --  a
   liberdade,  a riqueza,  a vingana!            exatamente o que eu havia
   honhado... Venci!
                                     XCVII


                                   A execuo

    JOANA continuava esperando que o escrivo prometido pelo carcereiro
fosse ler-lhe a sentena.Com efeito, j livre das angstias da dvida,
conservando apenas as do confronto, isto , as do orgulho, dizia entre si:
    -- Que me importa a mim, esprito slido, como  o meu, que o Sr. de
Rohan tenha sido considerado menos culpado do que eu?
    "Acaso me inflingem a pena de um crime? No. Se todos me reconhecessem
devidamente como uma Valois, se eu pudesse ter, como teve o Sr. Cardeal,
uma fieira de prncipes e duques postados  passagem dos juizes, em atitude
splice, com as espadas enfeitadas de crepes e os olhos rasos d'gua, no creio
que se houvesse recusado o que quer que fosse  pobre Condessa de La Motte,
e certo, na previso dessa ilustre splica, ter-se-ia poupado  descendente dos
Valois a afronta do banco dos rus.
    "Mas por que me hei de ocupar de todo esse passado que j morreu? Eis,
portanto, encerrado o grande caso de minha vida. Posta de um modo
equvoco no mundo, de um modo equvoco no pao, exposta a ser
derrubada pelo primeiro sopro vindo de cima, eu "vegetava, e acabaria
voltando talvez  misria primordial que foi o doloroso aprendizado de minha
vida. Agora, nada disso. Exilada! Fui exilada! isto , tenho o direito de levar o
meu milho na mala, de viver sob as laranjeiras de Sevilha ou de Agrigento
no inverno, na Alemanha ou na Inglaterra no vero; isto , jovem, bela, famosa,
podendo explicar a meu modo o processo, nada me impedir de levar a vida que
eu bem entender, seja com meu marido, se fr exilado como eu, e sei-o livre,
seja com os amigos que sempre nos antolham a felicidade e a juventude!
    "E," ajuntava, perdida nos seus ardentes devaneios, "venham depois dizer-
me a mim, a condenada, a mim, a banida, a mim, a pobre humilhada, que no
sou mais rica do que a rainha, mais respeitada do que a rainha, mais absolvida
do que a rainha! Porque no se tratava para ela da minha condenao. O leo
no faz caso do verme da terra. Tratava-se de fazer condenar o Sr. de
Rohan, e o Sr. de Rohan foi excludo do processo!
    "Agora, como faro para intimar-me da sentena, como faro para expulsar-
me do reino? Vingar-se-o numa mulher, sujeitan-
676                          ALEXANDRE DUMAS

do-a s prticas mais rigorosas da penalidade? Entregar-me-o aos arqueiros para
que me conduzam  fronteira? Dir-me-o solenemente: Indigna! o rei vos
desterra do reino. No, meus amos so bonacheires," continuou,' sorrindo; "j
no tm raiva de mim. Tm raiva apenas desse bom povo parisiense que urra
debaixo dos seus balces: Viva o Sr. Cardeal! Viva Cagliostro! Viva o parla-
mento! Eis a o verdadeiro inimigo: o povo! Sim, o inimigo direto, pois eu havia
confiado no apoio moral d.a opinio pblica e o consegui!"
    Joana chegara a esse ponto dos seus pensamentos e fazia planos acertando
contas consigo mesma. J pensava na colocao dos brilhantes, no seu
estabelecimento em Londres (ia em meio o vero), quando a lembrana de
Reteau de Villette lhe atravessou, no o corao, mas o esprito.
    -- Pobre rapaz! -- murmurou, com um sorriso mau, -- foi le quem pagou
por todos. As expiaes, portanto, precisam sempre de uma alma vil no
sentido filosfico, e cada vez que surgem as necessidades desse gnero, surge
da terra o bode expiatrio para o golpe que h de abat-lo.
    "Pobre Reteau! Insignificante, miservel, est pagando hoje os panfletos
contra a rainha, as conspiraes a bico de pena, e Deus, que d a cada qual o
seu quinho neste mundo, ter querido proporcionar-lhe uma existncia de
bengaladas, luses de ouro intermitentes, ciladas, esconderijos, e um desfecho
de gals.. Eis a no que d a astcia em lugar da inteligncia, a malcia em vez
da maldade, o esprito de agresso sem a perseverana e sem a fora. Quantos
seres malfazejos existem na criao, desde o ouo venenoso at o escorpio,
o primeiro dos pequenos que se fz temer do -homem! Todos querem fazer o
mal, mas no se lhes concede a honra da luta: esmagam-se."
    E Joana enterrava com essa pompa cmoda o cmplice Reteau, j decidida a
informar-se exatamente da priso em que seria encerrado o miservel a fim de
no passar pelas suas proximidades, para no impor mais essa humilhao ao
desgraado, mostrando-lhe a ventura de uma antiga conhecida. Joana tinha
bom corao.
    Tomou alegremente a refeio em companhia do porteiro e da mulher, que,
por sua vez, tinham perdido completamente a alegria e j no se davam ao
trabalho de disfarar o constrangimento. A condessa atribuiu a tristeza deles 
condenao que acabava de receber e observou-lhos. Responderam que nada
lhes era mais doloroso do que o aspecto das pessoas depois de pronunciada uma
sentena.
    Joana se sentia intimamente to feliz, custava-lhe tanto dissimular o jbilo,
que ansiava pelo ensejo de ficar s, em liberdade com os seus pensamentos.
E decidiu pedir, logo aps o jantar, licena para recolher ao seu quarto.
                        O COLAR DA RAINHA                                 677

    Qual no foi a sua surpresa quando o porteiro Hubert, tomando a palavra 
sobremesa, com uma solenidade contrafeita, que no era habitual em suas
atitudes:
    -- Minha senhora, -r- comeou, -- temos ordem de no conservar por mais
    tempo em nossas salas as pessoas cujo destino j foi decidido pelo
    parlamento.
    -- Bem, -- disse Joana entre si, -- le vem ao encontro dos meus desejos.
    Levantou-se.
    -- Eu no quisera, -- respondeu, -- que, por minha causa, incorrsseis
numa contraveno; seria retribuir muito mal a bondade com que me tratastes.
.. Voltarei, portanto, para o meu quarto.
    Relanceou os olhos em torno para surpreender o efeito das suas palavras.
Hubert fazia rodar uma chave entre os dedos. A mulher virava a cabea
como que para ocultar nova comoo.
    -- Mas, -- ajuntou a condessa, -- onde e quando viro ler-me a sentena?
    -- Esto esperando, talvez, que volteis aos vossos aposentos, minha
    senhora, -- apressou-se em dizer Hubert.
    -- Decididamente quer ver-me pelas costas, -- pensou Joana.
    E um vago sentimento de inquietude f-la estremecer. Mas no durou
muito.
    Subiu os trs degraus que conduziam ao corredor das celas.
    Vendo-a partir, precipitou-se a ela a Sra. Hubert e tomou-lhe as mos, no
com respeito, no com verdadeira amizade, no com a susceptibilidade que
honra quem a demonstra e o seu objeto, mas com profunda compaixo, com
um mpeto de piedade que no escapou  inteligente condessa, que tudo
observava.
    Desta feita, foi to ntida a impresso que Joana sentiu medo; mas o medo
foi afastado, como a inquietude, daquela alma trans-bordante de alegria e de
esperana.
    Joana, contudo, quis pedir contas  Sra. Hubert da sua piedade; ia abrir a
boca e descer novamente os degraus que subira para formular uma dessas
perguntas precisas e vigorosas como o seu esprito, quando Hubert interveio:
tomou-lhe a mo, menos polida que vivamente, e abriu a porta.
    Viu-se a condessa no corredor. Oito arqueiros do prebostado l estavam 
espera. Que esperavam eles? Eis o que perguntou mentalmente ao avist-los.
Mas a porta do porteiro j se fechara. Na frente dos arqueiros achava-se um
dos carcereiros comuns da priso, o mesmo que, todas as noites, a reconduzia
ao seu quarto.
    O homem ps-se a caminhar na frente de Joana, como para mostrar-lhe o
caminho.
    -- Volto para o meu quarto? -- perguntou a condessa no tom de uma
mulher que quisera parecer segura do que estava dizendo, mas que duvidava.
678                           ALEXANDRE DUMAS

     -- Sim, senhora, -- respondeu o porta-chaves.
     Joana agarrou o corrimo e subiu atrs do homem. Ouviu os arqueiros
cochichando a alguns passos de distncia, mas nenhum se mexeu do lugar.
     Tranquilizada, deixou-se aferrolhar no quarto e chegou at a agradecer
afetuosamente ao carcereiro. Este se retirou.
     Tanto que se viu livre e s, a alegria de Joana explodiu extravagante, depois
de ter sido longamente sufocada pela mscara com que, hipcrita, escondera o
rosto na sala do porteiro. Aquele quarto da Conciergerie era a toca do animal
selvagem momentaneamente aprisionado pelos homens e que um capricho de
Deus ia de novo atirar ao espao livre do mundo.
     E, no seu covil ou na sua toca, quando a noite  escura, quando nenhum
rudo denuncia  cativa a vigilncia dos guardas, quando o seu faro sutil no
pressente vestgio algum nas imediaes, comeam os saltos daquela natureza
selvagem. Estira os membros para reabitu-los aos rasgos da esperada
independncia; e grita, e pula, e cai em xtases que nunca surpreende o olhar
do homem.
     Para Joana, foi assim. A sbitas, ouviu passos no corredor; ouviu
tilintarem chaves no molho do porta-chaves; ouviu ranger a slida fechadura.
     -- Que me querem? -- pensou, endireitando-se, atenta e muda.
     Entrou o carcereiro.
     -- Que h, Joo? -- perguntou Joana, com voz suave e indiferente.
     -- Quer fazer o favor de seguir-me? -- pediu le.
     -- Aonde?
     -- L, em baixo, senhora.
     -- Em baixo, como?. ..
     -- Ao cartrio.
     -- Para qu?
     -- Senhora. . .
     Adiantou-se Joana para o homem que hesitava e lobrigou, no fundo do
corredor, os arqueiros do prebostado, que j encontrara  sada da sala.
     -- Afinal, -- gritou, comovida, -- dizei-me o que querem de mim no
     cartrio!
     --  o Sr. Doillot, seu defensor, que quer falar-lhe.
     -- No cartrio? E por que no aqui? le sempre teve licena para vir ao
     meu quarto!
     --  que o Sr. Doillot recebeu cartas de Versalhes e quer dar-Ihe
     conhecimento delas.
     Joana no notou o quanto era ilgica a resposta. Uma palavra apenas
impressionou-a: cartas de Versalhes, cartas da corte, sem dvida trazidas pelo
prprio advogado.
                        O COLAR DA RAINHA                                  679

    -- Ter a rainha intercedido junto ao rei aps a publicao da sentena?
Ter...
    Mas de que lhe servia conjeturar? Que necessidade haveria disso se, dois
minutos depois, lhe seria apresentada a prpria soluo do problema?
    De resto, o carcereiro insistia, agitando as chaves como um homem que, 
mngua de boas razes, se refugia na ordem recebida.
    -- Esperai-me um pouco, -- pediu Joana, -- estais vendo que eu j me
    havia despido para descansar; estes ltimos dias me fatigaram tanto!
    -- Esperarei, senhora; mas no se esquea, por favor, de que o Sr. Doillot
    est com pressa.
    Joana fechou a porta, enfiou um vestido um pouco melhor, ps um
mantelete e arrumou rapidamente os cabelos. No levou cinco minutos. Dizia-
lhe o corao que o Sr. Doillot trazia a ordem para a sua partida imediata e,
com ela, o meio de atravessar a Frana discreta e comodamente! Sim, a
rainha devia desejar que a sua inimiga fosse levada embora o mais cedo
possvel. Promulgada a sentena, devia esforar-se Sua Majestade por irritar o
menos possvel a inimiga, pois se a pantera  perigosa acorrentada, quanto no
ser de temer depois de solta? Embalada por esses felizes pensamentos, Joana
mais voou do que correu atrs do porta--chaves, que a fz descer a escadinha
pela qual j a haviam conduzido  sala de audincias. Mas em vez de ir 
sala, em vez de virar  esquerda para entrar no cartrio, o carcereiro endere-
ou-se a uma portinha situada  direita.
    -- Aonde ides? -- perguntou Joana. -- O cartrio  aqui.
    -- Venha, venha, senhora, -- tornou com voz melosa o porta-chaves; -- 
    aqui que a est esperando o Sr. Doillot.
    Passou primeiro e fz passar logo depois a prisioneira, que ouviu
fecharem-se com estrpito os ferrolhos exteriores da porta pesada.
    Surpresa, mas no vendo ainda ningum no escuro, Joana no se atreveu a
perguntar mais nada.
    Deu dois ou trs passos e estacou. Uma luz azulada emprestava ao
recinto como que o aspecto de um interior de tmulo.
    A claridade vinha de cima, de uma grade velha, pela qual, atravs das teias
de aranha e de cem camadas seculares de poeira, alguns raios plidos
conseguiam coar-se para dar s paredes um pouco do seu reflexo.
    De repente, Joana sentiu frio; sentiu a umidade do calabouo e adivinhou
algo terrvel nos olhos flamejantes do porta-chaves.
    Entretanto, ainda no via seno aquele homem; s le e a prisioneira
ocupavam o interior das quatro paredes esverdeadas pela gua que escapava
das grades e emboloradas pela passagem de um ar que nunca fora aquecido
do sol.
680                        ALEXANDRE DUMAS

    -- Senhor, -- disse ela ento, dominando a impresso de terror que a
transia, -- que estamos fazendo aqui? Onde est o Sr. Doillot, a quem me
prometestes levar?
    O porta-chaves no respondeu; voltou-se como para verificar se a porta
ficara solidamente fechada.
    Joana seguiu-lhe, espavorida, o movimento. Acudiu-lhe a ideia, como nos
romances escuros do tempo, de que estava tratando com um daqueles
carcereiros, selvagens apaixonados, que, no dia em que vai escapar-lhes a
presa pela porta aberta da jaula, se fazem tiranos da bela cativa e propem o
seu amor em troca da liberdade.
    Joana era forte, no temia surpresas, no tinha o pudor da alma. A sua
imaginao lutava vantajosamente contra os sofsticos caprichos dos Srs.
Crbillon Filho e Louv"t. Chegou-se ao carcereiro com um sorriso nas
pupilas:
    -- Meu amigo, -- perguntou, -- que me quereis? Tendes alguma coisa para
dizer-me?     O tempo de uma prisioneira, quando j toca a liberdade, 
precioso. Pareceis haver escolhido um stio bem sinistro para falar-mel
    O homem no respondeu, porque no a compreendia. Sentou--se num dos
cantos da lareira baixa e ficou esperando.
    -- Mas, -- insistiu Joana, -- repito: que estamos fazendo aqui?
    E receou, por um momento, estar em presena de um louco.
    -- Estamos esperando o advogado Doillot, -- replicou o porta-chaves.
    Joana sacudiu a cabea:
    -- Confessar-me-eis, -- disse, -- que o Sr. Doillot, se tem cartas de
Versalhes para comunicar-me, escolheu muito mal a hora e a sala de
audincia... No  possvel que me faa esperar aqui. A coisa  outra.
    Mal acabara de pronunciar essas palavras, quando  sua frente se abriu
uma porta que ela no notara.
    Era uma dessas portas arredondadas, a modo de alapo, verdadeiros
monumentos de madeira e ferro, que descobrem ao abrir-se, no fundo que
escondem, uma espcie de crculo cabalstico, em cujo centro um personagem
ou uma paisagem parecem surgir, vivos, por artes de magia.
    Com efeito, atrs da porta havia degraus que mergulhavam em algum
corredor mal iluminado, mas cheio de ar e de frescor, e, alm do corredor,
por um s momento, rpido como um raio, Joana avistou, erguendo-se na
ponta dos ps, um espao semelhante ao que constitui uma praa e, nesse
espao, uma multido de homens e mulheres de olhos cintilantes.
    Mas, repetimo-lo, isso foi para ela mais uma viso que propriamente uma
vista; no teve tempo, sequer de advertir-se do que via.
                         O COLAR DA RAINHA                                    681

Diante dela, em plano bem mais prximo que o da praa, surgiram trs
pessoas, subindo o ltimo degrau.
    Atrs delas, sem dvida nos degraus inferiores, luziram quatro baionetas,
brancas e afiadas, semelhando crios sinistros que tivessem querido alumiar a
cena.
    Mas a porta redonda se fechou. S os trs homens entraram no
calabouo em que se achava Joana.
    Esta caminhava de surpresa em surpresa, ou melhor, de apreenses em
terrores.
    Aproximou-se do porta-chaves, que pouco antes lhe inspirara medo, como a
pedir-lhe proteo contra os desconhecidos.
    O carcereiro encostou-se  parede da enxovia, mostrando assim que desejava,
que devia permanecer como passivo espectador da cena que ia desenrolar-se.
    E antes at que lhe ocorresse a ideia de tomar a palavra, Joana foi
interpelada.
    Foi um dos trs homens, o mais moo, que comeou. Estava vestido de
preto. Trazia o chapu na cabea e, na mo, papis fechados como a ctala.
    Imitando a atitude do carcereiro, os outros dois furtavam-se aos olhares
na parte mais escura do recinto.
    -- Sois, minha senhora, -- comeou o desconhecido, -- Joana de Saint-Rmy
    de Valois, esposa de Marie-Antoine-Nicolas, Conde de La Motte?
    -- Sim, senhor, -- replicou Joana.
    -- Nascestes em Fontette, no dia 22 de julho de 1756?
    -- Sim, senhor.
    -- Morais em Paris,  Rua Nova de So Gil?
    -- Sim, senhor... Mas por que me fazeis todas essas perguntas?
    -- Lamento muito, minha senhora, que no me tenhais reconhecido;
    tenho a honra de ser o escrivo do tribunal.
    -- Estou-vos reconhecendo.
    -- Nesse caso, posso desempenhar minhas funes na qualidade de escrivo,
    que acabais de reconhecer?
    -- Um momento, senhor.          Dizei-me, por obsquio, a que vos obrigam
    essas funes?
    -- A ler-vos, senhora, a sentena pronunciada contra vs na sesso do
    dia 31 de maio de 1786.
    Fremiu Joana. Relanceou em torno de si um olhar cheio de angstias e
desconfiana. No  sem propsito que escrevemos em segundo lugar a palavra
desconfiana, que seria a menos forte das duas; Joana estremeceu, presa de
irrefletida angstia; acendia, para prestar mais ateno, dois olhos terrveis nas
trevas.
    -- Sois o escrivo Breton, -- disse, ento; -- mas quem so esses dois
senhores, vossos aclitos?
682                          ALEXANDRE DUMAS

    O escrivo ia responder, quando o porta-chaves, prevenindo-lhe as palavras,
lanou-se a le e, ao ouvido, sussurrou-lhe estas palavras repassadas de medo ou
compaixo eloquente:
    -- No lho digais!
    Joana ouviu-o; considerou os dois hamens com maior ateno ainda.
Admirou-se de ver o trajo cinzento com botes de ferro de um, a vestia e o
gorro de peles do outro; o estranho avental que cobria o peito deste ltimo
intrigou-a; dir-se-ia queimado em certos lugares e, noutros, manchado de
sangue e de leo.
    Recuou. Parecia vergar para tomar um impulso mais vigoroso.
    Aproximando-se, disse-lhe o escrivo:
    -- De joelhos, por favor, minha senhora.
    -- De joelhos! -- bradou Joana; -- de joelhos! eu!... eu! Uma Valois, de
    joelhos!
    --  a ordem, minha senhora, -- voltou o escrivo, inclinan do-se.
    -- Mas, senhor, -- objetou Joana com um sorriso fatal, -- no pensais no
    que estais dizendo, precisarei ensinar-vos a lei.        Ningum se ajoelha
    seno para fazer uma confisso pblica.
    -- E da, minha senhora?
    -- E da, senhor, s se faz confisso pblica em consequncia de sentena
    que condene a uma pena infamante. E o exlio, que eu saiba, no  pena
    infamante na lei francesa.
    -- Eu no vos disse, minha senhora, que tivsseis sido condenada ao
    exlio, -- respondeu o escrivo com grave tristeza.
    -- Ento, -- exclamou Joana, explodindo, -- a que fui condenada?
    --  o que sabereis ouvindo a sentena, minha senhora; e, para ouvi-la,
    ajoelhai-vos, por favor.
    -- Nunca! nunca!
    -- Senhora,  o item primeiro das minhas instrues.
    -- Nunca! nunca! Repito!
    -- Senhora, est escrito que, se a condenada no quiser ajoelhar-se ...
    -- Sim?...
    -- Ajoelhar  fora.
    -- Empregareis a fora contra uma mulher!
    -- Uma mulher no tem mais direito do que um homem de faltar com o
    respeito devido ao rei e  justia.
    -- E  rainha! no ? -- gritou, furiosa, Joana; -- pois reconheo nisso
    perfeitamente a mo de uma inimiga!
    -- No tendes razo de acusar a rainha, minha senhora; Sua Majestade
    no tem nada que ver com a redao das sentenas do tribunal. Vamos,
    conjuro-vos, poupai-nos a necessidade de violncias: de joelhos!
    -- Nunca! nunca! nuncal
                         O COLAR DA RAINHA                                   683

    O escrivo enrolou os papis e sacou da algibeira um papel mais grosso,
que trazia de reserva, na previso do que estava acontecendo.
    E leu a ordem formal dada pelo procurador-geral  fora pblica para
obrigar a acusada rebelde a ajoelhar-se, a fim de satisfazer a justia.
    Joana acantou-se num ngulo da priso, desafiando com o olhar a fora
pblica, que imaginara fossem as baionetas lobrigadas na escada, atrs da
porta.
    Mas o escrivo no mandou abrir a porta; fz sinal aos dois homens, e
ambos se aproximaram, pachorrentos, como mquinas de guerra, robustas e
inabalveis, que se armam contra as muralhas nos assdios.
   Um brao de cada um segurou-a por baixo dos ombros e, arrastou-a para o
meio da sala, sem embargo dos seus gritos e dos seus berros.
    Impassvel, sentou-se o escrivo e ficou esperando.
    Joana no percebeu que, fazendo-se arrastar daquele jeito, se acabara
ajoelhando. Uma palavra do escrivo chamou-lhe a ateno.
    -- Est bem assim, -- disse le.
    Soltou-se a mola imediatamente e Joana deu um pulo de dois ps de altura,
indo cair nos braos dos homens que a seguravam.
    -- No adianta gritardes assim, -- tornou o escrivo, -- pois ningum vos
    ouvir l fora; alm disso, no podereis ouvir a leitura da sentena que devo
    fazer-vos.
    -- Deixai-me ouvi-la em p, que a ouvirei em silncio, -- prometeu Joana,
    ofegante.
    -- Toda vez que um ru  punido com aoites, -- declarou o escrivo, --
    o castigo  infamante e exige a genuflexo.
    -- Aoites! -- urrou Joana. -- Aoites! Ah! miservel! Dissestes aoites?...
    E tais foram as suas vociferaes, que atordoaram o chaveiro, o escrivo,
os ajudantes, e todos, perdendo a cabea, comearam a querer, como bbedos, a
dominar a matria com a matria.
    Precipitaram-se sobre Joana e deram com ela em terra; mas a mulher
resistiu vitoriosamente. Quiseram faz-la dobrar as pernas; ela retesou os
msculos como se fossem lminas de ao.
    Viu-se Joana suspensa no ar, entre as mos daqueles homens, e esperneou
e bracejou de modo que lhes infligiu cruis ferimentos.
    Os homens dividiram entre si o trabalho: um deles segurou-lhe os ps como
num estojo; os outros dois ergueram-na pelos punhos e gritaram para o
escrivo:
    -- Lede, lede sempre a sentena, Sr. Escrivo, pois, do contrrio, nunca
    daremos conta dessa possessa!
    -- Nunca permitirei que se leia uma sentena que me condena  infmia,
    -- gritou Joana, debatendo-se com fora sbre-humana.
684                        ALEXANDRE DUMAS

E, juntando a ao  ameaa, dominou a voz do escrivo com rugidos e gritos
to estridentes, que no ouviu uma palavra sequer da leitura.
    Acabando de ler, o escrivo tornou a dobrar os papis e guardou-os no
bolso.
    Cuidando que le houvesse terminado, Joana calou-se e tentou reunir as
foras para desafiar os trs homens. Aos seus rugidos sucederam gargalhadas
ainda mais ferozes.
    -- E, -- continuou plcidamente o escrivo, como um final de frmula
    comum, -- a sentena ser executada na praa das execues, no ptio
    do Palcio da Justia!
    -- Publicamente! -- urrou a desgraada. . . -- Oh!...
    -- Sr. de Paris, entrego-vos esta mulher, -- acabou de dizer o escrivo,
    dirigindo-se ao homem do avental de couro.
    -- Mas quem  esse homem? -- perguntou Joana, num derra deiro
    paroxismo de pavor e de raiva.
    -- O carrasco! -- respondeu, inclinando-se, o escrivo, que recompunha as
    rendas dos punhos.
    Assim que o escrivo pronunciou essa palavra, os dois executores
apoderaram-se de Joana e ergueram-na para conduzi-la  parte da galeria que
ela avistara antes. Mas teremos de renunciar a pintar a resistncia oposta
por ela. A mulher que, na vida de todos os dias, perdia os sentidos por causa
de um arranho, suportou, por cerca de uma hora, os maus tratos e as pancadas
dos dois homens; foi arrastada at  porta exterior sem ter deixado, um
momento sequer, de soltar os mais terrveis clamores.
    Adiante da porta, onde os soldados reunidos continham a multido, surgiu
de repente o ptiozinho, denominado Ptio de Justia, com os dois ou trs mil
espectadores que a curiosidade ali arrastara desde que se haviam iniciado os
preparativos e se erguera o cadafalso.
    Sobre um estrado de uns oito ps de altura, elevava-se um poste negro,
guarnecido de anis de ferro e encimado de uma tabuleta que o escrivo,
obedecendo sem dvida a ordens superiores, procurara tornar ilegvel.
    O estrado no tinha parapeito e dava-lhe acesso uma escada tambm sem
corrimo. A nica balaustrada que l se via era formada pelas baionetas dos
arqueiros, que lhe vedavam a entrada como uma grade de pontas reluzentes.
    Vendo que se abriam as portas do tribunal, que chegavam os comissrios
com as suas varas, que o escrivo caminhava com os papis na mo, iniciou o
populacho o seu movimento de ondulao que o faz semelhante ao mar.
    Em toda a parte gritos de: Ei-la! ei-la! ressoavam acompanhados de
eptetos pouco honrosos para a condenada, e aqui e ali se ouviam algumas
observaes pouco caritativas sobre os juizes.
                        O COLAR DA RAINHA                                  685

     Pois Joana tinha razo: ganhara um partido aps a sua condenao e
 muitos que a desprezavam dois meses antes t-la-iam reabilitado depois que ela
 se colocara como antagonista da rainha.
    Mas o Sr. de Crosne previra tudo. As primeiras fileiras daquela sala de
espetculos tinham sido ocupadas por uma plateia dedicada aos que arcavam
com as despesas do espetculo. Viam-se l, ao p dos agentes vigorosos de
polcia, as mulheres mais entusiastas do Cardeal de Rohan. Encontrara-se o
meio de utilizar em favor da rainha as cleras despertadas contra ela. Os
mesmos que tanto haviam aplaudido o Sr. de Rohan levados pela antipatia que
lhes inspirava Maria Antonieta, vinham apupar ou patear a Sra. de La Motte,
que tivera a imprudncia de separar a sua causa da causa do cardeal.
    Disso resultou que,  sua chegada  pequena praa, os gritos furiosos de:
Morra a La Motte! Abaixo a falsaria! compusessem a maioria e se exalassem dos
peitos mais robustos.
     Aconteceu tambm que os que tentaram manifestar a sua piedade por Joana
ou a sua indignao contra a sentena que a feria, tomados por inimigos do
cardeal pelas damas do Mercado e por inimigos da rainha pelos agentes, foram,
nessa dupla qualidade, maltratados pelos dois sexos interessados no aviltamento
da condenada. Joana estava no fim de suas foras, mas no de sua raiva;
cessou de gritar, porque os gritos se lhe perdiam no conjunto dos rudos e da
luta. Mas com voz ntida, vibrante, metlica, lanou algumas palavras que
fizeram calar, como que por encanto, todos os murmrios.
     -- Sabeis quem sou? -- disse ela. -- Sabeis que me corre nas veias o
 sangue dos vossos reis? Sabeis que ferem em mim, no a culpada, mas a
 rival; e no apenas a rival, seno a cmplice?
     Nesse ponto interromperam-na os clamores oportunamente lanados pelos
subordinados mais inteligentes do Sr. de Crosne.
    Mas ela despertara, seno o interesse, pelo menos a curiosidade: a
curiosidade do povo  uma sede que quer saciar-se. O silncio que Joana
observou indicou-lhe que queriam escut-la.
    -- Sim, -- repetiu, -- uma cmplice! Castigam em mim a depo
    sitria dos segredos de...
    -- Cuidado! -- disse-lhe o escrivo ao ouvido.
     Ela voltou-se. O carrasco tinha um aoite na mo.
     A essa vista, Joana esqueceu o discurso, o dio, o desejo de cativar a
multido; s viu a infmia, s teve medo da dor.
    -- Perdo! perdo! -- gritou, com voz Iacerante.
     Uma vaia imensa cobriu-lhe a splica. Joana agarrou-se, numa vertigem, aos
joelhos do executor e conseguiu empolgar-lhe a mo.
    Mas le ergueu o outro brao e deixou cair brandamente o chicote nos
ombros da condessa.
686                          ALEXANDRE DUMAS

    Coisa inaudita: aquela mulher, que a dor fsica teria aterrado, sujeitado,
talvez domado, reergueu-se quando percebeu que a poupavam; precipitando-se
sobre o ajudante, tentou derrub-lo para atir-lo fora do cadafalso. Mas,
sbito, recuou.
    O homem tinha na mo um ferro vermelho, retirado de um braseiro
ardente. Erguia o ferro e o calor escaldante que le exalava levou a r a dar um
pulo para trs com um urro selvagem.
    -- Marcada! -- gritou, -- marcada!
    O povo todo respondeu-lhe ao grito com um grito medonho.
    -- Sim! sim! -- rugiram trs mil bocas.
    -- Socorro! socorro! -- berrou Joana, desvairada, tentando romper as cordas
    com que lhe acabavam de prender as mos.
    Ao mesmo tempo o carrasco, no podendo abri-lo, rasgava o vestido da
condessa; e, ao passo que afastava com mo trmula os farrapos de tecido,
tentava agarrar o ferro ardente que lhe estendia o ajudante.
    Joana, porm, investia com o homem, fazendo-o sempre recuar, pois le no
se atrevia a toc-la; de sorte que o carrasco, j desesperado de empolgar o
sinistro instrumento, principiava a temer que, do meio do povo, se erguesse
algum antema contra le. Preocupava-o o amor-prprio.
    Palpitante, a multido comeava a admirar a vigorosa resistncia daquela
mulher e fremia de surda impacincia; o escrivo descera a escada; os soldados
contemplavam o espetculo; era uma desordem, uma confuso que assumia
aspectos ameaadores.
    -- Acaba com isso! -- gritou uma voz que partia da primeira fila do povo.
    Voz imperiosa, que o carrasco sem dvida reconheceu, pois, derrubando
Joana num impulso vigoroso, dobrou-lhe ao meio o corpo e curvou-lhe a
cabea com a mo esquerda.
    Ela reergueu-se, mais ardente do que o ferro com que a ameaavam e, com
voz que dominou o tumulto da praa e as imprecaes dos desastrados
carrascos:
    -- Franceses covardes! -- gritou, -- no me defendeis! Permitis que me
    torturem!
    -- Calai-vos! -- gritou o escrivo.
    -- Calai-vos! -- gritou o comissrio.
    -- Calar-me!... Ah! sim! -- voltou Joana, -- que me faro?... Se sofro esta
    vergonha, a culpa  minha.
    -- Ah! ah! ah! -- gritou o povo, enganando-se com o sentido daquela
    confisso.
    -- Calai-vos! -- repetiu o escrivo.
    -- Sim, a culpa  minha, -- continuou Joana, resistindo sempre, -- pois
    se eu tivesse querido falar...
    -- Calai-vos! -- rugiram escrives, comissrios e carrascos.
                        O COLAR DA RAINHA                                    387

    -- Se eu tivesse querido revelar tudo o qjue si sbre a rainha. .. seria
enforcada; no seria desonrada.
    No pde dizer mais anda; pois  comissrio atirou-se ao cadafalso, seguido
de agentes que a amordaaram e entregaram, palpitante, ferida, com o rosto
inchado, lvido, sangrento aos dois executores, um dos quais conseguira
novamente curvai  vitima; : ao mesmo tempo, apanhou o ferro que o
ajudante lhe estendia.
    Mas Joana aproveitou, como uma cobra, a insuficincia da mo que lhe
apertava a nuca; deu um ltimo salto e, voltando-se com frentica alegria,
ofereceu o seio ao carrasco, encarando nele com olhar provocador; de sorte
que o instrumento fatal, que lhe descia sobre o ombro, foi atingi-la no peito
direito e imprimiu o seu sulco fumegante e devorador na carne viva,
arrancando  vtima, apesar da mordaa, um desses urros que no tm
equivalente em nenhuma das entonaes que possa reproduzir a voz humana.
    Joana deixou-se cair ao peso da dor e da vergonha. Estava vencida. Dos
lbios no se lhe escapou som nenhum, no lhe sacudiu os membros um
frmito sequer; desta feita, desmaiara realmente.
    O carrasco levou-a, dobrada ao meio, sobre o ombro, e desceu com ela,
com passo incerto, a escada da ignomnia.
    Em quanto ao povo, mudo tambm, ou porque aprovasse, ou porque
estivesse consternado, s se escoou pelas quatro sadas da praa depois de ter
visto fechadas sobre Joana as portas da Con-ciergerie; depois de ter visto
desmanchar-se lentamente, pea por pea, todo o patbulo; depois de certificar-
se de que no teria outro eplogo o drama apavorante cuja representao o
parlamento acabava de oferecer.
     Os agentes observaram at as ltimas impresses dos assistentes; as suas
primeiras ordens haviam sido to claramente articuladas, que fora loucura
opor qualquer objeo  sua lgica especada em cacetes e algemas.
    A objeo, se alguma se produziu, foi calma e ntima. Pouco a pouco,
retomou a praa a costumeira tranquilidade; s na extremidade da ponte, depois
que se dissipou o populacho, dois homens, moos e irrefletidos, que se retiravam
como os outros, travaram o dilogo seguinte:
     --       Foi realmente a Sra. de La Motte que o carrasco marcou?
     Acreditai-lo, Maximiliano?
     --       Dizem, mas no acredito... -- replicou o mais alto dos dois
     interlocutores.
     --       Sois mesmo de parecer que no foi ela? -- tornou o outro, um
     homemzinho de rosto sombrio, olhos redondos e luminosos como os dos
     pssaros noturnos, cabeleira curta e oleosa; -- no, no foi a Sra. de La
     Motte que marcaram, no  verdade? Os agentes
688                          ALEXANDRE DUMAS

dos tiranos pouparam a cmplice. Encontraram para desonerar Maria
Antonieta da acusao uma rapariga chamada Oliva, que se confessou prostituta;
podero ter encontrado uma falsa Sra. de La Motte, que se confessasse falsaria.
Dir-me-eis que a marca existe. Ora, adeus! comdia paga ao carrasco e 
vtima! Fica um pouco mais caro, mas  s.
    O companheiro escutava bamboando a cabea. Sorria sem falar.
    -- Que me respondeis? -- insistiu o feio homenzinho; -- no concordais
    comigo?
    -- Parece-me difcil conseguir de algum que se deixe marcar no seio, --
    replicou; -- a comdia a que aludis no se me afigura provada. Sois mais
    mdico do que eu e deveis ter sentido a carne queimada. Lembrana
    desagradvel, confesso-o.
    -- Negcio de dinheiro, j vos disse: paga-se uma condenada, que seria
    marcada de qualquer jeito, por outro motivo, paga-se para dizer trs ou
    quatro frases pomposas, amordaa-se quando j est a termos de desistir...
    -- No, no, no, -- contestou, fleumtico, o que fora chamado
    Maximiliano, -- no vos seguirei nesse terreno, que  pouco slido.
    -- Nesse caso, -- atalhou o outro, -- fareis como todos os becios:
    acabareis dizendo que vistes marcar a Sra. de La Motte; ser mais um de
    vossos caprichos. Ainda h pouco no vos exprimistes assim, pois lembro-
    me perfeitamente de ter-vos ouvido dizer: No creio que seja a Sra. de La
    Motte a mulher que marcaram.
    -- Continuo a achar que no, -- tornou o rapaz sorrindo, -- mas tambm
    no foi uma condenada, como dizeis.
    -- Ento, quem foi? Vamos, dizei quem foi a pessoa marcada l na praa,
    em lugar da Sra. de La Motte?
    -- Foi a rainha! -- declarou o rapaz com voz aguda ao sinistro
    companheiro, acentuando as palavras com o seu indefinvel sorriso.
    O outro recuou, rindo a bandeiras despregadas e aplaudindo a pilhria;
depois, circunvolvendo os olhos:
    -- Adeus, Robespierre, -- disse le.
    -- Adeus, Marat, -- respondeu o outro.
    E separaram-se.
                                    XCVIII


                                  O casamento

    NO MESMO dia da execuo, ao meio-dia, saiu o rei do seu
gabinete, em Versalhes, e ouviram-no dispensar o Sr. da Provena com estas
palavras, asperamente pronunciadas:
    -- Senhor, assisto hoje a uma missa de casamento.         No me faleis em
negcios de famlia, sobretudo em negcios feios, por favor; seria um mau
agouro para os noivos, que quero bem e tenciono proteger.
    O Conde da Provena franziu o sobrolho sorrindo, cumprimentou
profundamente o irmo e recolheu aos seus aposentos.
    Continuando a caminhar por entre os cortesos espalhados pelas galerias,
sorriu el-rei para alguns e para outros olhou sobranceiramente, segundo a atitude
favorvel ou contrria que haviam assumido no caso recm-julgado pelo
parlamento.
    Chegou assim ao salo quadrado, onde encontrou a rainha j pronta,
cercada de damas de honor e de fidalgos.
    Plida sob o carmim, Maria Antonieta ouvia con ^fetada ateno as suaves
perguntas que a Sra. de Lamballe e o Si. ut Calonne lhe dirigiam sobre a sua
sade.
    Mas, no raro, a furto, alongava os olhos na direo da p.nta como algum
que morre por ver e logo os desviava, como algucm que treme de ser visto.
    -- O rei! -- gritou um porteiro. E, numa catadupa de rendas, bordados e
luz, ela viu entrar Lus XVI, cujo primeiro olhar,  entrada do salo, foi
para a esposa.
    Ergueu-se Maria Antonieta e deu trs passos ao encontro do marido, que
lhe beijou graciosamente a mo.
    -- Est bela hoje, maravilhosamente bela, senhora! -- disse le.
    Ela sorriu tristemente e, ainda uma vez, procurou com a vist amortecida,
    no meio da chusma de gente, o ponto desconhecido que j a surpreendemos
    procurando.
    --        Os nossos jovens noivos ainda no chegaram? -- perguntou o rei.
    -- Parece-me que vai dar meio-dia.
    --        Sire, -- respondeu a rainha com um esforo to violento que o
    carmim se lhe gretou nas faces e de vrios pontos se despren-
690                          ALEXANDRE DUMAS

deu, -- s chegou at agora o Sr. de Charny; est esperando, na galeria, que
Vossa Majestade lhe permita entrar.
    -- Charny!. . . -- exclamou o rei, sem notar o silncio expressivo que
sucedera s palavras da rainha; -- Charny est aqui? Pois venha! venha!
Afastaram-se alguns fidalgos para ir buscar o Sr. de Charny. A rainha levou
nervosamente os dedos ao corao e tornou a sentar-se, com as costas
voltadas para a porta.
    -- Realmente j  meio-dia, -- repetiu o rei, -- e a noiva devia estar aqui.
    No momento em que o rei pronunciava estas palavras, assomou o Sr. de
Charny  entrada do salo; ouvindo-as, respondeu incontinenti:
    -- Digne-se Vossa Majestade de relevar o atraso involuntrio da Srta. de
    Taverney; desde a morte do pai, ela tem estado de cama. Levanta-se
    hoje pela primeira vez e j teria vindo receber as ordens de Vossa
    Majestade no fosse um desmaio que lhe sobreveio.
    -- A pobre menina gostava tanto do pai! -- observou o rei, em voz alta;
    -- mas, como encontra um bom marido, esperemos que logo se console.
    A rainha escutou, ou melhor, ouviu sem fazer um movimento. Quem quer
que a tivesse observado enquanto falava Charny, ter--lhe-ia visto o sangue
retirar-se, como um nvel que baixa, do rosto para o corao.
    Observando a afluncia da nobreza e do clero, que atulhavam o salo, o
rei ergueu de repente a cabea.
    -- Sr. de Breteuil, -- perguntou, -- j expedistes a ordem de banimento de
    Cagliostro?
    -- Expedi, Sire, -- replicou humildemente o ministro.
    O sopro de um passarinho adormecido teria perturbado o silncio da
assembleia.
    -- E essa La Motte, que se diz de Valois, -- continuou o rei com voz
    forte, -- no vai ser ferreteada hoje?
    -- Neste momento, Sire, -- replicou o Ministro da Justia. -- J o deve
    ter sido.
    O olhar da rainha cintilou. Um murmrio que queria ser aprobativo,
circulou no salo.
    -- O Sr. Cardeal ficar contrariado ao saber que lhe marcaram a cmplice,
-- prosseguiu Lus XVI com rigor obstinado, que pela primeira vez lhe
observavam naquele caso.
    E dizendo sua cmplice com referncia a um acusado que o parlamento
acabava de absolver, pronunciando uma palavra que aviltava o dolo dos
parisienses, que condenava por ladro e fal-srio um dos primeiros prncipes
da Igreja, um dos primeiros prncipes franceses, el-rei, como se atirasse um
desafio solene ao clero,
                        O COLAR DA RAINHA                                   691

aos nobres, aos parlamentos, ao povo, para sustentar a honra da esposa,
relanceou  sua volta um olhar em que flamejavam a clera e a majestade que
ningum sentira jamais em Frana depois que se haviam cerrado para sempre
os olhos de Lus XIV.
    Nem um murmrio, nem uma palavra de assentimento acolhe-am essa
vingana que tomava o rei dos que haviam conspirado para desonrar a
monarquia. E le abeirou-se da rainha, que lhe estendia as mos com a efuso
de um profundo agradecimento.
    Nesse momento surgiram, no extremo da galeria, a Srta. de Ta-veraey com as
vestes alvas de noiva e o rosto branco de um espectro, e Filipe de Taverney,
que lhe dava a mo.
    Andreia adiantava-se com passos rpidos, olhar perturbado, seio palpitante;
no via nem ouvia coisa alguma; a mo fraterna dava--lhe fora, coragem e
direo.
    A chusma de cortesos sorriu  passagem da noiva. Todas as mulheres se
colocaram atrs da rainha e todos os homens se enfileiraram atrs do rei.
    O Bailio de Suffren, trazendo pela mo Oliveiros de Charny, aproximou-se
de Andreia e do irmo, cortejou-os e confundiu-se no grupo dos amigos
particulares e dos parentes.
    Filipe continuou o seu caminho sem que os seus olhos encontrassem os de
Oliveiros, sem que a presso de seus dedos prevenissem Andreia de que devia
erguer a cabea.
    Chegado diante do rei, apertou a mo da irm e esta, como uma morta
galvanizada, abriu os olhos e viu Lus XVI, que, bondoso, lhe sorria.
    Cumprimentou entre os murmrios dos assistentes, que assim lhe
aplaudiam a beleza.
    -- Senhorita, -- disse o rei tomando-lhe a mo, -- precisastes esperar o fim
do vosso luto para desposar o Sr. de Charny; pode ser que, se eu no tivesse
pedido que apresssseis o casamento, o vosso futuro esposo, a despeito da sua
impacincia, vos houvesse concedido mais um ms de espera; pois me disseram
que estais doente, e isso me aflige; cumpre-me, porm, assegurar a felicidade
dos bons fidalgos que me servem como o Sr. de Charny; se no vos recebsseis
hoje com le, eu no poderia assistir ao vosso casamento, pois parto amanh
para uma viagem pela Frana em companhia da rainha. Dessarte, terei a
satisfao de assinar o vosso contrato matrimonial e ver-vos casada em minha
capela. Cumprimentai a rainha, senhorita, e agradecei-lhe; pois Sua
Majestade foi boa para vs.
    Ao mesmo tempo, conduziu pessoalmente Andreia para junto de Maria
Antonieta.
    Esta se erguera com os joelhos trmulos, as mos geladas. No ousou
levantar os olhos e viu apenas uma forma branca inclinada diante de si.
692                          ALEXANDRE DUMAS

    Era o vestido de noiva de Andreia.
    O rei devolveu imediatamente a mo da noiva a Filipe, deu a sua a
Maria Antonieta e disse, em voz alta:
    --  capela, senhores.
    A multido, silenciosa, seguiu Suas Majestades para tomar os seus lugares.
    A missa comeou logo. Ouviu-a a rainha curvada sobre o genuflexrio, com
a cabea enterrada nas mos. Orou com toda a alma, com todas as foras;
endereou ao cu votos to ardentes que o sopro dos lbios lhe devorou o
vestgio das lgrimas.
    Plido e belo, sentindo sobre si o peso de todos os olhares, o Sr. de Charny
mostrou-se calmo e bravo como se estivesse a bordo do seu navio, entre
turbilhes de chamas e furaces da metralha inglesa; entretanto, sofria muito
mais.
    Com o olhar pregado na irm, que via estremecer e cambalear, Filipe parecia
pronto a acudir-lhe com uma palavra, com um gesto de consolao ou de
amizade.
    Andreia, porm, no se desmentiu; permaneceu de cabea erguida, aspirando
a cada minuto o frasco de sais, moribunda e vacilante como a chama de um
crio, mas em p e teimando em viver pela fora da vontade.
    No dirigiu preces ao cu, no formulou votos para o futuro, pois no
tinha nada que esperar e nada que temer; no era coisa alguma para os homens
nem para Deus.
    Enquanto o padre falava, enquanto tangia o sino sagrado, enquanto  sua
volta se realizava o mistrio divino:
    -- Serei, acaso, crist? -- ydizia consigo s. -- Serei, acaso, um ser como os
outros, uma criatura semelhante s outras? Fizeste-me para a piedade,  tu, a
quem chamam Deus soberano, rbitro de todas as coisas? Tu, que dizem justo
por excelncia e que sempre me castigaste, sem que eu jamais pecasse! Tu, que
dizem o Deus da paz e do amor e a quem devo o viver entre tormentos,
cleras e vinganas sangrentas! Tu, a quem devo o ter, pelo mais mortal dos
inimigos, o nico homem que eu teria amado?
    "No," continuou, "as coisas deste mundo e as leis de Deus no me
dizem respeito! Fui, com certeza, amaldioada antes de nascer e, ao nascer,
excluda das leis da humanidade."
    Logo, voltando ao passado doloroso:
    --  estranho!  estranho! -- murmurava. -- Est aqui, perto de mim, um
homem cujo nome, apenas pronunciado, me fazia morrer de felicidade. Se
esse homem tivesse vindo pedir-me por mim mesma, eu me veria obrigada a
rojar-me a seus ps, a pedir-lhe perdo pelo meu erro de outrora, pelo teu
erro, meu Deus! E esse homem que eu adorava talvez me tivesse repelido.
Hoje, todavia,  le que me esposa,  le quem me vir pedir perdo de
joelhos!  estranho, sim, muito estranho!
                              O COLAR DA RAINHA                                693

    Nesse momento, a voz do celebrante soou-lhe aos ouvidos. Dizia:
    -- Tiago Oliveiros de Charny, recebeis por esposa Maria Andreia de
    Taverney?
    -- Sim, -- respondeu Oliveiros com voz firme.
    -- E vs, Maria Andreia de Taverney, recebeis por esposo Tiago Oliveiros de
    Charny?
    -- Sim!. . .  -- replicou Andreia num tom quase selvagem, que fz
    estremecerem a rainha e mais de uma mulher no auditrio.
    Charny enfiou o anel de ouro no dedo da esposa, e o anel passou sem
que Andreia tivesse sentido a mo que lho oferecia.
    Logo depois o rei se levantou. Acabara-se a missa. Todos os cortesos foram
cumprimentar, na galeria, os recm-casados.
    O Sr. de Suffren pegou na mo da sobrinha e prometeu-lhe, em nome de
Oliveiros, a felicidade que ela merecia.
    Andreia agradeceu ao bailio sem que por um instante se lhe desanuviasse a
fronte e pediu apenas ao tio que a conduzisse pres-tesmente ao rei, a fim de que
pudesse manifestar-lhe a sua gratido, pois se sentia fraca.
    Ao mesmo tempo, terrvel palidez invadiu-lhe o rosto.
    Charny viu-a de longe, mas no ousou aproximar-se.
    O bailio atravessou o salo, levou Andreia  presena do rei, que lhe
beijou a testa, dizendo:
    -- Senhora condessa, passai pelos aposentos da rainha; Sua Majestade quer
dar-vos o seu presente de casamento.
    E, ditas essas palavras, que julgava sumamente graciosas, retirou-se o
monarca seguido de toda a corte, deixando a noiva fora de si, desesperada,
ao brao do irmo.
    -- Oh! -- murmurou, -- isso  demais!  demais, Filipe!            No entanto
parecia-me haver sofrido j o bastante!...
    --         Coragem, -- disse-lhe baixinho o rapaz; -- mais esta provao, mana.
    --         No, no, -- recalcitrou Andreia, -- no aguento! As foras de
    uma mulher so limitadas; eu talvez faa o que me pedem; mas pensa
    bem, Filipe, se ela falar comigo, se ela me cumprimentar, morrerei!
    --         Morrers se fr preciso, mana querida, -- tornou o oficial, -- e
    sers mais feliz do que eu, que desejara estar morto!
    le pronunciou essas palavras num tom por tanta maneira sombrio e
doloroso, que Andreia, como se a tivesse acutilado um agui-lho, afastou-se e
entrou no apartamento da rainha.
     Oliveiros viu-a passar. Coseu-se com os reposteiros para no lhe roar
sequer o vestido  sua passagem.
     Ficou s no salo com Filipe, cabisbaixo como o cunhado, esperando o
 resultado da entrevista que a rainha teria com Andreia.
     A jovem encontrou Maria Antonieta no gabinete principal.
694                        ALEXANDRE DUMAS

    Apesar da estao (corria o ms de junho), a rainha mandara acender lume;
estava sentada na poltrona, cabea atirada para trs, olhos fechados, mos
postas, como morta.
    Tiritava.
    A Sra. de Misery, que introduzira Andreia, correu os reposteiros, fechou
as portas e saiu.
    Em p, trmula de emoo e de clera, Andreia esperava, de olhos baixos,
que uma palavra lhe chegasse ao corao. Esperava escutar a voz da rainha
como o condenado espera o machado que h de cortar-lhe a vida.
    Seguramente, se Maria Antonieta houvesse falado naquele momento,
Andreia, alquebrada como estava, teria sucumbido antes de compreender ou
responder.
    Um minuto, um sculo desse pavoroso suplcio se escoou sem que a rainha
esboasse um movimento.
    Afinal, levantou-se apoiando as mos sobre os braos da poltrona e pegou,
em cima da mesa, um papel que os seus dedos trmulos deixaram escapar
diversas vezes.
    Logo, caminhando como uma sombra, sem que se ouvisse outro rudo seno
o roagar do seu vestido sobre o tapete, aproximou-se de Andreia e, com o
brao estendido, entregou-lhe silenciosamente o papel.
    Entre aqueles dois coraes, a palavra era suprflua: a rainha no tinha
necessidade de provocar a inteligncia de Andreia; Andreia no podia duvidar
por um momento sequer da grandeza de alma da rainha.
    Qualquer outra pessoa teria imaginado que Maria Antonieta lhe oferecia
um rico dote, a assinatura de alguma escritura de doao ou o diploma que lhe
concedesse um cargo na corte.
    Andreia adivinhou que o papel continha outra coisa. Tomou-o e, sem se
mexer do lugar, ps-se a l-lo.
    O brao de Maria Antonieta recaiu-lhe ao longo do corpo. Ergueram-se-lhe
os olhos lentamente para Andreia.
           "Andreia," escrevera a rainha, "salvastes-me. A minha honra vem-
       me de vs, a minha vida vos pertence. Em nome dessa honra que to
       caro vos custa, juro que podeis chamar-me vossa irmS. Tentai faz-lo,
       que no me vereis corar.
           "Ponho este escrito em vossas mos;  o penhor do meu reco-
       nhecimento;  o dote que vos dou.
       "O vosso corao  o mais nobre de todos os coraes; saber
       agradecer-me o presente que vos ofereo. "Assinado
MARIA ANTONIETA DE LORENA D'AUSTRIA".
    Andreia, por sua vez, olhou para a rainha. Viu-a com os olhos cheios de
lgrimas, a cabea pesada, esperando uma resposta.
                        O COLAR DA RAINHA                                  695

    Atravessou devagar a sala, foi queimar no lume quase extinto o bilhete
rgio e, cumprimentando profundamente, sem articular uma slaba, saiu do
gabinete.
    Maria Antonieta deu um passo para ret-la, para segui-la; mas a inflexvel
condessa, deixando a porta aberta, foi ter com o irmo no salo contguo.
    Filipe chamou Charny, travou-lhe a mo e p-la na da Andreia, ao passo
que, no umbral do gabinete, atrs do reposteiro, afastado com o brao, a
rainha assistia  cena dolorosa.
    Charny saiu como o noivo da morte arrastado pela sua lvida noiva; saiu
olhando para trs, para o plido rosto de Maria Antonieta que, passo a passo, o
via desaparecer para sempre.
    Era, pelo menos, o que ela acreditava.
     porta do castelo duas seges de viagem estavam esperando. Andreia entrou
na primeira. E como Charny se preparasse para segui-la...
    -- Senhor, -- disse a nova condessa, -- partis, se no me engano, para a
    Picardia.
    -- Sim, senhora, -- respondeu Charny.
    -- E eu parto para a terra em que morreu minha me, Sr. Conde.
    Adeus.
    Inclinou-se Charny sem responder. Os cavalos arrancaram, levando Andreia
sozinha.
    -- Ficastes comigo para anunciar-me que sois meu inimigo? -- perguntou
    Oliveiros a Filipe.
    -- No,'Sr. Conde, -- respondeu o interpelado; -- no sois meu inimigo
    porque sois meu cunhado.'
    Oliveiros estendeu-lhe a mo, tomou, por seu tu-rno, o segundo carro e
partiu.
    Ficando s, retorceu Filipe por um momento os braos com a angstia do
desespero e, com voz estrangulada:
    -- Meu Deus, -- disse le, -- queles que cumprem na terra o seu dever,
reservais um pouco de alegria no cu? De alegria, -- repetiu, ensombrecido,
olhando pela derradeira vez para o castelo;
-- falo de alegria!... De que me vale isso?... S devem esperar outra vida
os que tornaro a encontrar l em cima os coraes que os amavam.
Ningum me amou aqui em baixo; no tenho sequer como eles a doura de
desejar a morte!
    Em seguida, lanou para o cu um olhar sem fel, um meigo reproche de
cristo cuja f titubeia, e desapareceu, como Andreia, como Charny, no ltimo
turbilho daquela tempestade que acabava de desenraizar um trono,
triturando tantas honras e tantos coraes!

                                 - FIM 
